Esquadrão Ethos - livro dois

 

FLÁVIO RIBEIRO TUBINO












Esquadrão Ethos

Missão: salvar a vida na Terra




Trilogia Esquadrão Ethos – Livro dois

2026

























T885e Tubino, Flávio Ribeiro


Esquadrão Ethos / Flávio Ribeiro Tubino. Garopaba: 2026, 256 p. 15,5x23cm.


Texto de acordo com as normas do Novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa (Decreto Legislativo nº 54 de 1995)


1. Ficção. 2. Ficção Nacional. 3. Romance. 4. Romance Nacional.


CDD: 8869.3

CDU: 82–311


Prefácio


Q

Introdução


ESQUADRÃO ETHOS é o segundo volume da trilogia homônima. O primeiro volume, ETHORIA 27B, apresenta os personagens, a cidade Ethoria 27B, a cultura e o modo de vida dos povos da quarta dimensão e o perigo iminente de invasão alienígena por parte dos Greys e dos Reptilianos.

Conhecemos Nestor, Sofia, Amanda e Júlio. Conhecemos o Pleiadiano Eloaton, que apresenta a cidade aos quatro jovens aventureiros. Percorremos a cidade de Ethoria e visitamos a fábrica, a escola, a horta, a pirâmide, a cidade Inca, a praça central com seus sistemas ultra eficientes de tratamento das águas e a pracinha onde as crianças brincam. Visitamos também a casa laranja de Eloaton, atravessamos o rio e avistamos dinossauros e seres incríveis. Acompanhamos os jovens em um passeio de disco voador, visitamos os templos e viajamos junto com Sofia em seu… digamos, inusitado treinamento expresso.

Por fim, cada um dos nossos jovens precisou tomar uma decisão: voltar à sua vida normal ou integrar a Resistência e formar um esquadrão de combate aos Greys e Reptilianos?

Dessa decisão nasce o Esquadrão Ethos, sendo que dois integrantes ficarão na quarta dimensão e os outros dois voltarão para a terceira. Eles têm pouco tempo para aprimorar todas as habilidades que precisam para cumprir a sua missão, pois a nave dos Greys se aproxima.

Ao mesmo tempo, acompanhamos o início da saga da invasão alienígena da Terra pelos olhos dos Greys. Conhecemos a nave-mãe G–48, que partiu há seiscentos e cinquenta anos de B–Groot, o único planeta do sistema solar de Betelgeuse e que está à beira de ser vaporizado pela explosão iminente da estrela.

Conhecemos Palamedes e Korgg, dois Greys amigos com visões opostas de mundo mas que compartilham de bons valores, e que terão um papel fundamental no terceiro livro da trilogia. Fomos apresentados aos chefes Pondr e Ramazor, descobrimos algumas de suas tecnologias e algumas de suas fragilidades.

Neste volume, nossos jovens desenvolverão as habilidades necessárias para enfrentar os Greys e farão regressões para lembrar quem foram nas vidas passadas. Muitas surpresas os aguardam, surpreendendo também o próprio leitor, afinal, o roteiro do livro não é óbvio e não segue uma linha tradicional ao estilo “jornada do herói”. Elementos presentes no primeiro livro, aparentemente sem qualquer importância, explicam e interagem propositalmente com acontecimentos dos outros dois volumes, seguindo uma linha coesa e fechada. As tecnologias apresentadas no primeiro volume serão largamente expostas e usadas nos outros dois. Sim, essa trilogia tem pé e cabeça, e cada capítulo trará surpresas, fazendo com que o leitor repense seus paradigmas e suas próprias visões de mundo.

Embarque nessa segunda viagem conosco, e boa leitura.


Flávio Ribeiro Tubino

Sumário




Esquadrão Ethos


Lemann

Lemann está sentado à sua velha mesa de escritório, de carvalho, caprichosamente feita por ele mesmo há trezentos e cinquenta anos. Levanta seu olhar e observa atentamente os detalhes de sua sala, iluminada pelo fogo bruxuleante da lareira: souvenirs de viagens ao redor do mundo, estantes com milhares de livros em vários idiomas, protótipos de projetos que se tornaram grandes descobertas para a humanidade.

Ele gosta de levantar muito cedo para ver o sol nascer, todos os dias. Com um comando de voz, o sistema de áudio da sala toca uma leve e animada sonata de Bach. Ele se recorda de quando esteve com o próprio compositor, no ano de 1707, em Mühlhausen, uma cidade da Baviera que mais tarde viria a fazer parte da Alemanha. Na época, o jovem Johann Sebastian Bach mal conseguia sobreviver com seu mísero salário como organista na pequena igreja local. Lemann estava de passagem na cidade e foi justamente a música oriunda da igreja que lhe chamou a atenção. Ele entrou, assistiu a missa e, depois, fez questão de conhecer o jovem músico, que estava trabalhando em uma composição nova, em estilo rapsódico, uma novidade que estava incomodando as alas mais conservadoras do clero: Tocata e Fuga em ré menor BWV 565. Os clérigos argumentavam que a música era complicada demais para que as outras pessoas pudessem tocar e acompanhar. Eles queriam melodias fáceis, menos virtuosas e mais suaves, ao bom e velho estilo gregoriano. Ademais, preferiam títulos igualmente mais fáceis de lembrar, como “Ave Maria”, “Agnus Dei” e “Angelus Domini”.

Bach confessou–lhe que estava cansado, que pretendia mudar de emprego e desistir da música, pois não o compreendiam, ganhava muito pouco e passava sérias dificuldades. Lemann se recorda de ter dito ao jovem virtuoso que aquela cidade era pequena demais para o talento dele e que ele precisaria buscar centros maiores para poder desenvolver todo o seu potencial. Usou então de sua influência junto a alguns fidalgos maçons da região e conseguiu um excelente emprego com um ótimo salário para o jovem em Weimar, cidade–província próxima, muito bonita e muito próspera.

Lemann suspira, com saudade e satisfação. Afinal, ele ajudou a garantir as condições e oportunidades para que aquele jovem órfão franzino e rebelde se tornasse um dos maiores compositores da história. Quem sabe, sem a sua ajuda, ele teria desistido da música e o mundo jamais conheceria o seu talento.

Obviamente, Lemann não é uma pessoa comum. Ele tem dois mil e trezentos anos de idade, não envelhece e nem adoece. Seus pais eram imigrantes na Turquia, onde nasceu. Quando tinha cerca de trinta anos, houve uma revolta local contra os imigrantes de origem eslava. Seus pais e irmãos foram mortos, mas ele conseguiu esconder-se e fugiu para o nordeste da África, onde foi iniciado como um Essênio e passou a viver nas cavernas do Egito. Poucas décadas depois, tornou–se um dos mais notáveis membros da Fraternidade. Lá ele conheceu a fórmula do Elixir da Vida Eterna: a água pura de uma cachoeira existente na mítica cidade de Shamballah, trazida em vasos de barro por discos voadores e bebida diariamente na cerimônia matinal da congregação.

Quase trezentos anos depois, recebeu e iniciou aquele que seria o mais brilhante entre todos os seus alunos: um simpático, bondoso, subversivo e ultra–questionador adolescente chamado Jesus de Nazaré.

Mais tarde, tornou–se membro de uma Ordem Secreta. Tão secreta que não há nenhum registro dela, em nenhum lugar. Em determinado período, a Ordem mantinha complexas doutrinas ritualísticas herdadas dos Essênios, mas, aos poucos, foi abandonando seus símbolos e liturgias, tornando–se uma fraternidade extremamente minimalista, dispensando praticamente todos os tipos de rituais. Seus símbolos e parte de seu conhecimento foram sendo incorporados por outras linhagens filosóficas, como a Maçonaria e o Ocultismo, mas nenhuma delas conseguiu manter viva, em sua total integridade, o Conhecimento Original. Lemann esteve pessoalmente em reuniões com o próprio Jacques Demolay e com Helena Blavatsky, duas notáveis pessoas com quem desenvolveu grande amizade.

No passado, eram chamados de Mahatmas, mas resolveram abdicar desse nome. Afinal, “Mahatma” quer dizer “grande alma” e eles compreendiam perfeitamente que indivíduos diferentes não podem ser “grandes almas”, pois a Grande Alma é única.

A Ordem também foi, aos poucos, reduzindo seu número de integrantes. Durante a Santa Inquisição Católica, no século XII, vários membros foram caçados, presos, torturados e queimados vivos na fogueira, sob acusação de heresia e bruxaria. Eles foram cruelmente perseguidos, precisaram se esconder e a Ordem foi considerada extinta. Desde então, vivem e agem em segredo absoluto, mudando–se constantemente, por vezes vivendo como nômades e até como indigentes, para não levantarem suspeitas.

Assim, Lemann aproveitou sua vida para visitar todos os lugares do mundo. Ele morou em praticamente todos os países e conheceu quase todos os idiomas falados na Terra. Dominou várias ciências e chegou a tornar–se um alquimista, quando conheceu e trabalhou com Nicolas Flamel, no século XIV. Até ajudou–o a editar o livro Sumário Filosófico, publicado em 1409, um ano após a morte de sua amada esposa. A dor da perda de sua amada foi tão grande que, a partir de então, resolveu viver confinado no Tibete, mantendo o mínimo contato com outras pessoas. Talvez pelo tamanho de sua dor, na época, Lemann abriu mão da co–autoria e pediu a Flamel que seu nome jamais fosse citado na obra. Somente a partir de 1850 voltou a fazer algumas pequenas peregrinações e tirou algumas licenças para ampliar seus estudos.

O simpático senhor de barbas grisalhas suspira novamente, ergue–se de sua cadeira e vai até a janela. No horizonte, o sol começa a iluminar e colorir os telhados de Lhasa com seus exuberantes tons dourados e vermelhos. Ao longe, o som de centenas de tambores e das longas trombetas tibetanas saúda o nascer do dia. Ele sorri, emocionado, abre seus braços e recita um antigo mantra de saudação ao Sol, cujo significado literal foi há muito esquecido.

Calmamente, vai até a sua estante e pega o manuscrito original do Sumário Filosófico, ainda em sua posse. Senta–se novamente à sua mesa e começa a folhear o pequeno livro, observando páginas onde a grafia de Flamel divide espaço com a sua própria. O texto em questão, escrito em francês arcaico, é um resumo sobre o trabalho alquímico, comparando metaforicamente elementos naturais com as práticas filosóficas para alcançar uma vida perfeita, saudável e longa. Ele se detém em um trecho que compara o sol com o homem e a lua com a mulher, o chumbo com uma vida mundana e o ouro com uma vida valiosa e digna de ser vivida. O mercúrio significa o trabalho da alquimia sexual e, segundo o livro, é por meio da purificação com o mercúrio que se chega à Pedra Filosofal, elemento essencial para transformar o chumbo em ouro. Lemann se recorda dos trechos que foram de sua autoria, especialmente aqueles que falam de uma árvore dando frutos: se a árvore estiver em local com pouco sol e nutrientes, dará frutos fracos, mas mesmo que a árvore esteja em pleno sol e solo fértil, se o fruto for colhido antes da hora não alcançará o melhor sabor. Na verdade, essa metáfora quer dizer que aquele que busca se tornar uma pessoa melhor deverá estar em local adequado para isso, nutrir–se de conhecimento, ter uma vida correta e fazer diligentemente as práticas alquímicas. Os processos para transformar uma “vida de chumbo” em uma “vida de ouro” incluem o calor (esforço e energia), a pressão (persistência, adversidades) e a contínua adição de um pouco de ouro na mistura (estar próximo a pessoas que já tenham uma “vida de ouro” e estudo incessante) e, principalmente, criar a “Pedra Filosofal” com o correto uso do mercúrio (alcançar o Conhecimento Original usando a Alquimia). Uma linguagem simbólica cheia de profundos e valiosos significados. Como ele tem mais de dois mil anos de idade e vive em plena paz e felicidade, pelo que tudo indica, parece que o processo funcionou. Ele transformou o chumbo em ouro.

Falando em ouro, com tanto tempo de vida, Lemann fez alguns investimentos, distribuídos em vários países. Foi consultor de reis e imperadores e professor particular de seus respectivos filhos. Soube aproveitar a época de ouro da Rota da Seda, fazendo grande fortuna com o comércio de especiarias, acumulando enorme patrimônio em ouro puro, guardado e usado com sabedoria. Comprou imóveis por todos os países, vendendo–os centenas de anos depois com uma imensa valorização. Hoje, os aluguéis de seus imóveis e os rendimentos de seus investimentos lhe permitem uma vida muito confortável e sem preocupações. Vive na serenidade de seu lar, fazendo suas pesquisas, auxiliando professores de várias universidades ao redor do mundo e colaborando ativamente para a manutenção da Paz Intergalática.

Ainda manuseando o velho livro, vira uma página, com uma gravura mostrando o Portal de Salomão de Jerusalém, com dois pilares, protegidos por dois Guardiões: Boaz e Jaquim. Esse portal, na verdade, simboliza os Portais de Agartha (O Grande Continente na quarta dimensão). Então, Lemann se recorda de um dos episódios mais importantes de sua vida: durante milênios, os portais de Agartha estiveram abertos ao livre contato com os humanos, mas como a civilização humana ainda se encontrava em um estágio muito primitivo e passou a dominar tecnologias bélicas muito poderosas, no fatídico ano de 1533 os humanos invadiram e destruíram a cidade de Ethoria 27, causando muitas mortes e perdas inestimáveis. O Conselho decidiu restringir o acesso aos portais e a Ordem recebeu uma incumbência muito importante: a partir de então, eles seriam os Doze Guardiões de Agartha, responsáveis por proteger os doze portais que levam às redes de túneis que conectam a Terceira Dimensão com a capital Shamballah e com as quarenta e nove cidades de Ethoria, as cidades protegidas por leis interplanetárias onde todos os povos do Universo podem conviver em harmonia, segundo princípios éticos aceitos e adotados por todos.

Hoje, os Doze Guardiões são: Lemann, Melquisedeque, Tales de Mileto, Aryabhata, Jesus, o Conde de Saint Germain, o lendário mago Merlin, os extraterrestres Eloaton e Krzovv, Helena Blavatsky, Fulcanelli e o próprio Nicolas Flamel. Sim, todos eles estão vivos até hoje.

Como em 1533 Lemann estava justamente morando em Lhasa, no Tibete, que possui a entrada secreta para a capital de Agartha, Shamballah, ele ficou responsável por guardar esse acesso, que é o mais importante de todos. Construiu sobre a entrada uma casa que não levanta nenhuma suspeita: externamente, é apenas uma simples construção de pedra comum, como quase todas as casas do Tibete, de difícil acesso, afastada das áreas urbanizadas, ancorada em uma parede rochosa, quase se confundindo com a própria rocha e que, por vezes, fica parcialmente soterrada pela neve. Mas, por dentro, é ampla, quente, agradável e bem arejada. Ninguém vai para Shamballah ou volta sem seu conhecimento e permissão, afinal, para entrar ou sair do túnel é necessário passar pela sua casa, pela pequena muralha de pedra com um metro e meio de espessura que protege a entrada e por certos encantamentos mágicos que a tornam ainda mais invisível.

Lemann gosta muito de ficar em seu lar e procura sair o mínimo possível, afinal, ele prefere buscar seus mantimentos na cidade dourada de Shamballah do que enfrentar o frio quase insuportável do Tibete e os oito quilômetros de caminhada por uma trilha íngreme na montanha até a mercearia mais próxima. Uma vez por semana vai ao Palácio de Shamballah para participar do Conselho da Paz Intergalática (quando aproveita para buscar seus mantimentos). A cada seis meses, participa também da Reunião dos Guardiões. Apesar dos Guardiões se reunirem somente uma vez a cada seis meses, estão todos constantemente conectados por meio telepático. Desenvolvem, compartilham, preservam e protegem, juntos, os maiores conhecimentos sobre o Universo e sobre a própria humanidade.

Agora, pare para pensar: imagine que você é uma pessoa que não envelhece e que pode viver eternamente, desde que seu corpo físico não sofra nenhum dano letal. O que você faria? Continuaria trabalhando feito uma engrenagem de um grande sistema? Acumularia patrimônios? Teria muitos relacionamentos? Viveria bêbado, em bares e tavernas? Viajaria por todos os lugares do mundo?

Lemann, assim como os outros Guardiões, passou sua vida inteira estudando tudo o que poderia estudar e desenvolvendo os mais diversos talentos, como música, pintura, literatura, poesia, culinária e até marcenaria. Teve tempo para se formar em filosofia, biologia, medicina, estratégia, direito, física e química. Tem vários doutorados. Hoje, ele se maravilha com a tecnologia alcançada pelo homem, com máquinas incríveis, computadores, internet e um acervo de informações tão grande que nem mesmo um imortal poderia conhecer em sua totalidade. Mas ele sabe que o conhecimento atual da humanidade não chega sequer próximo do Verdadeiro Conhecimento. O homem conseguiu juntar milhões de yottabytes de dados em seus computadores, porém, perdeu o Conhecimento mais essencial, o Saber Fundamental, a Pedra Filosofal. A conexão com a Natureza Primordial. A arte de conversar com as árvores, rios, nuvens, pedras e todos os seres vivos, manifestos ou imanifestos, afinal, tudo o que existe é desdobramento de uma única e mesma Natureza. Se a humanidade tivesse um mínimo fragmento desse conhecimento, não haveriam guerras e o planeta seria maravilhosamente próspero e pacífico. As pessoas estariam completamente livres da dominação reptiliana, pois não teriam mais medo, ganância ou raiva, fragilidades usadas pelos Reptilianos para a manipulação e dominação da humanidade. Como os Reptilianos sabem disso, perseguem todos os que tentam divulgar esses saberes, e é justamente por isso que a Ordem sempre precisou ser tão secreta.

Por outro lado, todos aqueles que despertam a sua Natureza Primordial percebem claramente como os seres vivem deludidos, transitando como zumbis no mundo e acreditando nas histórias criadas pelas suas próprias mentes, sem poder perceber a realidade como ela é. Como a caverna de Platão, as pessoas acreditam nas sombras e não conseguem sequer imaginar o mundo fora da caverna de suas mentes. Os seres despertos, que conseguem ver, fazem naturalmente os votos para libertar todos os seres dessa delusão, afinal, se todos os seres estivessem despertos, seria o verdadeiro paraíso na Terra.

Lemann refaz esses votos todos os dias, após asua saudação ao Sol: "Que todos os seres estejam livres do sofrimento, que superem as verdadeiras causas do sofrimento, que encontrem a felicidade e as verdadeiras causas da felicidade. Que todos os seres tenham vida, que todos os seres tenham saúde e prosperidade, que todos os seres vivam em paz".

Lemann volta ao seu momento presente, sentado em seu confortável escritório e ainda folheando com carinho o manuscrito alquímico. Ele fecha o livro e o recoloca na estante. Seu olhar se fixa em um pequeno medalhão pendurado na parede, feito por ele mesmo: dois corações de ouro entrelaçados sobre uma estrela de cinco pontas de prata, emoldurados dentro de um círculo de bronze alquímico, cravejado de minúsculas pedras de rubi, ainda com as mesmas fitas de couro originais, já há muito ressecadas.

Ele suspira com carinho e volta para a sua velha cadeira. Abre seu notebook e observa a imensa pilha de pergaminhos, papiros e papeis, organizados e encaixotados em cima da segunda mesa. São seus registros, seu diário, iniciado quando ainda morava na Turquia. Ele está digitando todas as suas anotações, sua ocupação principal há quarenta anos, uma tarefa praticamente impossível de ser realizada antes da invenção do computador, e igualmente impensável para um ser humano mortal.

Enquanto observa as toneladas de caixas com suas memórias, percebe que alguém está tentando se comunicar telepaticamente com ele. Logo reconhece a mensagem de Eloaton: ele está vindo, acompanhado de Nestor e Sofia, para fazer um treinamento em Shamballah. Lemann se alegra, com indisfarçável ansiedade. Tem grande saudade de seu amigo Pleiadiano, que não vê há alguns meses. E ele espera por esse encontro há muito, muito tempo.

Recuperando a calma, respira e sorri. Responde dizendo que os aguarda. Mas pergunta, temeroso:

Ela… ela sabe?

Eloaton responde:

Ainda não.

Lemann fecha seu notebook e, com seu coração palpitando alucinadamente e com um sorriso enorme nos lábios, levanta–se rapidamente, meio atrapalhado, e vai para a cozinha preparar um café para receber seus tão especiais e esperados convidados.



A vinte e dois bilhões de quilômetros da Terra, nos limites da heliopausa, uma anomalia gravitacional gera uma gigantesca explosão de microondas: é um portal do tipo "buraco de minhoca", do tamanho de uma lua, que se abre. Horas depois, uma nave–mãe em formato cilíndrico atravessa esse portal a uma velocidade de dobra espacial 6, contendo milhares de destroyers, milhões de naves de ataque e quinhentos milhões de tripulantes Greys. A nave levou apenas dois megaciclos (algo em torno de 500 dias terrestres) para fazer a travessia, enquanto aqui, fora do buraco de minhoca, passaram–se mais de seiscentos e cinquenta anos. O colossal veículo imediatamente reduz para velocidade de cruzeiro, ativa a invisibilidade e começa discretamente a entrar no Sistema Solar, rumo a um pálido ponto azul, cheio de vida, água e metais preciosos, chamado Terra.



Espionagem Telepática

Ainda é madrugada, em Ethoria 27B, quando um disco voador sumério ergue–se a um quilômetro de altura.

As luzes noturnas emolduram o desenho de uma bela cidade com milhares de anos. Ao longe, a luz prateada da lua minguante delineia os contornos das montanhas e florestas. O ar frio e úmido embaça os vidros do disco, coberto de orvalho.

Eloaton, um tanto quanto espremido dentro do pequeno aparelho, instrui Nestor sobre como configurar o trajeto para Shamballah, a capital de Agartha. Em seguida, o disco alcança uma velocidade impensável rumo ao leste. Na verdade, ao nordeste. As poucas luzes visíveis passam como traços de luz abaixo, enquanto o dia parece amanhecer com grande rapidez.

Sofia fica extasiada, observando a paisagem. Ela já viajou muito de avião por todos os lugares do mundo, mas nunca esteve em um veículo com tamanha velocidade. Admite estar apreensiva:

– Essa coisa tem mais de cinco mil anos… tem certeza que…

– Fica fria, galega. Tá tudo funcionando direitinho – Tranquiliza Nestor, sem querer admitir que também estava apavorado.

Eloaton estava certo quando disse que o nascer do sol em Ethoria era tão bonito quanto o poente: um majestoso espetáculo da natureza colorindo o horizonte com todos os tons de vermelho e laranja que os olhos possam ser capazes de apreciar. As nuvens passam rapidamente por debaixo do aparelho: um espetáculo multicolorido em câmera rápida, digno dos mais esfuziantes aplausos.

A moça de longos cabelos loiros se emociona com os belíssimos quadros que se sucedem. Aponta para as imensas nuvens policromáticas que se sucedem em grande rapidez, como uma alegre e inocente criança super empolgada com um brinquedo novo. Por baixo das nuvens, o verde das florestas dá lugar ao azul do mar.

Os quinze mil e quinhentos quilômetros que separam Ethoria 27B de Shamballah são percorridos em uma hora. O disco entra em velocidade de cruzeiro e, em minutos, a majestosa cidade dourada aparece, encravada nas montanhas, deixando os dois humanos completamente perplexos e admirados.

O disco segue, devagar, sobrevoando a magnífica cidade por quilômetros. Parecia que ela não acabava nunca. O Pleiadiano então indica um local, próximo a uma grande cachoeira. Nestor assume o controle manual do disco e o dirige para lá. Logo identifica um túnel gigante e, lentamente, conduz o aparelho para ele.

O túnel é muito maior do que aquele que conecta os quintais do Júlio com a cidade de Ethoria 27B. Logo passam por uma região com uma fraca iluminação verde, e sentem o mesmo enjoo já velho conhecido: estão voltando para a terceira dimensão.

Pouco adiante, o túnel termina em uma espécie de hangar, de proporções monumentais, ainda dentro da montanha, com vários discos de diversos tipos estacionados. Eloaton aponta para uma vaga e Nestor estaciona a nave nela. Os três descem.

Sofia fica abobalhada. Como uma estrutura daquele tamanho pode existir dentro de uma montanha? Como é que o teto não cai? E esses outros discos, de onde são? A que civilização ou espécie pertencem? E aquela porta imensa ali? E que frio é esse que vem daquela outra porta? E por que não me avisaram que aqui fazia tanto frio? Teria colocado uma calça mais grossa, e não esse velho e longo vestido hippie. E o que é aquela luz ali em cima?

Eloaton procura responder as perguntas de Sofia, mas ela é mais rápida em perguntar do que ele em responder. Os três acessam uma porta pequena, justamente a de onde vem aquele frio todo. Entram em um corredor e, logo, são recepcionados por um velho e simpático senhor, que se apresenta com um largo e encantador sorriso:

– Bom dia! Meu nome é Lemann. Sejam bem–vindos a Lhasa, capital do Tibete. Entrem, tem um café bem quente esperando por vocês na cozinha.

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Nestor fica impressionado com a casa. Mais da metade dela está encravada dentro da rocha da montanha. As paredes são lisas e quase vitrificadas, como se a rocha tivesse sido derretida. É ampla, bem iluminada e arejada. Mistura estilos medievais com modernos: mobílias muito antigas e até armaduras de cavaleiros dividem espaço com aparelhos eletrodomésticos da mais alta tecnologia. A cozinha é enorme, muito bem dividida, iluminada, limpa e organizada. Sobre uma mesa de madeira escura que parece ter mais de mil anos, louças de porcelana e talheres de prata que lembram a era Vitoriana: muitos desenhos, muitos detalhes, um capricho que ele nunca tinha visto antes. A toalha é de um branco mais claro que a neve, bordada a mão, com um nível de detalhes e perfeição que impressionaria a mais exigente crocheteira da face da Terra.

Sofia se encanta com uma sopeira. Segura–a na mão e fica admirando cada desenho, cada pintura, cada curva. As alças são folheadas a ouro. E os talheres? Parecem novos, de aço reluzente e prata, ricamente talhados e adornados a mão com detalhes em ouro, como se tivessem sido feitos ontem.

Contracenando com a exuberante guarnição, o cardápio parece ter sido encomendado por alguma rainha muito exigente: pães de diversos tipos, queijos, presuntos e embutidos, cafés, chás, misturas doces e salgadas, frutas e sucos, bolos e tortas. Sofia chega a pensar no tempo necessário para a apresentação de uma mesa como essa, sendo que ela não viu nenhum mordomo, garçom ou cozinheira por perto. Como Lemann conseguiu montar, sozinho, em poucos minutos, uma mesa tão farta e com tamanha maestria?

Enquanto isso, Eloaton e Lemann conversam amigavelmente sobre os mais diversos assuntos. Todos, com exceção de Eloaton¹, se servem e desfrutam de um desjejum digno das mais altas realezas e as conversas se estendem por mais de uma hora. Nestor e Sofia estão impressionados com seu anfitrião e custam a acreditar que ele realmente possua dois mil e trezentos anos de idade. Porém, sua casa é a mais clara personificação de uma testemunha bastante idônea dessa longevidade, o que pode ser constatado em cada detalhe para onde se olha.

Logo após o lauto desjejum, todos se dirigem a um cômodo lateral, minimalista, muito agradável, com luz controlada, uma poltrona confortável, uns bancos e uma mesa com um computador. Sofia pergunta:

– Como uma casa como essa, esculpida na rocha da montanha, possui um clima tão leve, agradável e acolhedor?

– Pergunte para a montanha – responde Lemann. Sofia não entende a resposta, achando que é algum tipo de metáfora.

– Não entendi…

– Você vai entender, quando aprender a falar com a montanha.

Sofia continuou não entendendo. Eloaton então conduz os trabalhos do dia:

– Vou dirigir essa primeira sessão, mas as próximas terão o Lemann como tutor. Hoje vamos iniciar os treinamentos da Sofia. Nosso objetivo é aprofundar suas potencialidades telepáticas e de controle mental. Ela já tem um domínio formidável de suas capacidades, mas precisa aprimorar certos poderes parapsíquicos, como a telepatia.

Eloaton pede para que Sofia se sente comodamente na poltrona, enquanto Lemann diminui a iluminação da sala, apenas movendo as mãos. Nestor assiste, fazendo anotações no computador enquanto assombra–se com a fantástica velocidade de conexão com a Internet disponível ali, no meio de uma montanha do Himalaia, dezenas de quilômetros distante da antena mais próxima e sem nenhum vestígio de algum tipo de fibra ótica.

– Agora, relaxe. Respire profundamente. Preste atenção em sua respiração. Aos poucos, diminua o barulho que existe em sua mente. Mantenha sua atenção aqui, no momento presente. Respire, apenas respire.

Sofia, com sua longa experiência em meditação e Yoga, vai seguindo as instruções de Eloaton. Em dado momento, ela entra no estado meditativo, no qual sua consciência está separada da atividade de sua mente. Ela fica assim, observando a sua atividade mental e prestando atenção em sua respiração, totalmente presente no aqui e agora. Eloaton percebe a estabilidade da meditação e prossegue:

– Agora, imagine estar diante do presidente do Uruguai, o senhor Hugo Rivero Diaz. Veja, essa é uma foto dele.

Sofia observa a foto, fecha os olhos e imagina estar diante do senhor Hugo. Alguns minutos se passam, até ela fazer um sinal com os dedos, demonstrando que conseguiu estabelecer uma conexão.

– Tente ver o que ele está fazendo. Consegues descrever?

Ela começa a prestar a atenção ao cenário onde Hugo parece estar, pelo menos em sua imaginação:

– Ele está em seu escritório, lendo alguns papéis. O escritório é bem amplo e iluminado, com mobília nobre, poltronas antigas, uma estante com livros. Cheiro de cigarro. A mesa dele é de madeira, muito grande. Alguns escaninhos com papéis. Agora ele está atendendo o telefone. A secretária diz que tem alguém que quer vê–lo. Ele manda entrar.

– Consegues descobrir quem é que está entrando na sala?

– Um senhor, de baixa estatura e com sobrepeso, vestindo terno e gravata. Faz um cumprimento estranho com a mão e Hugo corresponde com o mesmo cumprimento. É um ministro do governo. Hugo aponta uma cadeira à sua mesa. Apertam as mãos. Eles se sentam.

– Qual o nome do ministro?

– Wolf… Wolfang… Wolfram, é Wolfram.

– Olhe bem para os olhos do ministro. Qual a cor deles?

– São verdes… mas um verde estranho… quando olho no fundo dos olhos dele, parece que ele inteiro fica verde.

– É um Reptiliano, como o Hugo. Sobre o que conversam?

– Futebol. Estão falando sobre o último jogo.

– Continue atenta. O que mais lhe chama a atenção?

– Ele tem um bottom na lapela do terno, mas não consigo entender o que é. Parece um símbolo. Um triângulo com um olho dentro, ou coisa parecida.

– Ainda estão falando de futebol?

– Não. Agora falam sobre alguém… acho que o nome dele é Mendez. Hugo está olhando um papel, tem a foto do Mendez e o nome dele escrito… Juan… Fernão, Fernando, Ferdinando… Mendez. Juan Ferdinando Mendez!

Nestor, em seu canto, assombra–se com a precisão dos dados captados telepaticamente pela Sofia. Juan Ferdinando Mendez aparecia nos primeiros lugares da pesquisa: um revolucionário uruguaio, perseguido incansavelmente pelo presidente ditador Hugo Rivero Diaz. Também confirma que o sr. Wolfram Castillo é o ministro da defesa do Uruguai, e a foto dele condiz exatamente com a visualização descrita.

– Eles estão falando sobre água… controle… propriedade… poder, domínio.

– Continue, está indo muito bem.

– Alteração da água… flúor… fluoreto… Eles vão aumentar a fluoração da água do Uruguai como forma de conter as rebeliões que estão acontecendo lá!

– Faz todo o sentido. Continue.

– Temos que eliminar Mendez! Temos que eliminar Mendez! Eles estão gritando. Agora estão começando a planejar algo… uma emboscada… eles querem matar o Mendez! Daqui a dois meses, perto de… não consigo entender o nome da cidade.

– Concentre–se, você consegue.

– Surís Mata Nojo… Sorís… não consigo entender.

– Solís de Mataojo – Sugere Nestor, olhando o mapa do Uruguai.

– Isso, Solís de Mataojo. É isso. Daqui a dois meses, vão fazer uma emboscada para matá–lo, na entrada da cidade de Solís de Mataojo.

– Impressionante – Comenta Eloaton – Prossiga.

– Televisão… Notícias… Mentiras… Vão criar notícias falsas… Para que pensem que Mendez é um bandido…

– Muito bom.

– Uma mulher… Vera… Não, Verônica… Vai dizer que foi atacada pelo Mendez… Roubada e estuprada… Vão contratar outras mulheres para forjar denúncias parecidas…

– Excelente. Mais alguma coisa?

– Bomba… Feira de Montevidéu… Vão detonar uma bomba na feira de Montevidéu e colocar a culpa no Mendez! Que horror! Agora estão falando de pagamentos… vão contratar milicianos mercenários para fazer o trabalho. Hugo vai repassar verbas para uma empresa do irmão do ministro para isso. Estão apertando as mãos… O ministro está saindo do gabinete. É isso.

– Fantástico, Sofia. Estou impressionado. Parabéns. – Elogia Lemann.

– Quem é esse tal de Mendez? – Pergunta Sofia.

– O líder da rebelião revolucionária do Uruguai – Responde Nestor.

– Nossa, e o que fazemos agora?

– Agora é com o Júlio e a Amanda. Eles vão checar essas informações e agir. Ótimo momento para treinarmos a sua capacidade de liderança, Nestor.

– Eu? Liderar? E o que devo fazer, Eloaton?

– O que você acha que deve ser feito?

– Bom… sei lá, impedir a morte do Mendez, impedir que botem flúor na água, denunciar as notícias falsas, sabotar os pagamentos e evitar o atentado a bomba.

– Perfeito. E como fazer isso?

– Bom, vamos por partes. Para salvar o Mendez, acho que o ideal é tirá–lo do Uruguai. Tem como entrar em contato com ele?

– Isso é com o Júlio. – Responde Eloaton – Mas considero que os revolucionários não veriam com bons olhos o fato dele sair do país. Talvez seja melhor ele ficar por lá, em um local mais seguro.

– Temos que interceptar as ordens de aumentar a fluoração da água e gerar notícias sobre essa intenção, para que…

– Cuidado com a exposição. Não podemos ser percebidos. Divulgar notícias vai acabar nos denunciando.

– Verdade. Então, apenas interceptar as ordens.

– Perfeito. E o que mais?

– Gerar alerta de bomba no dia da feira. O próprio Mendez pode fazer isso, dessa forma, mesmo que a bomba exploda, as pessoas saberão que ele avisou. Talvez o próprio Mendez possa, também, vir a público avisar que será alvo de difamações por parte do governo uruguaio. Isso pode diminuir o efeito das fake news.

– Pode ser. E sobre os pagamentos?

– Filmar os pagamentos, divulgar os vídeos para a polícia e na internet, como anônimos. Ou impedir os pagamentos de alguma forma. Seria perfeito conseguir fazer com que o dinheiro acabe sendo direcionado para os revolucionários.

– Muito bem. Nestor, sua missão agora é detalhar esses planos de ação e repassá–los para Júlio e Amanda. Sofia, parabéns pelo seu incrível desempenho. Descanse um pouco. Depois faremos um outro treinamento de telepatia, você vai gostar. Agora precisamos começar o treinamento do nosso talentoso Nestor. Lemann, meu velho amigo, nos acompanha até Shamballah?

– Adoraria, Eloaton, mas minha função é permanecer aqui. Sou o Guardião da entrada e não posso abandonar meu posto, ainda mais pelo fato de termos caravanas de visitantes aqui no Tibete hoje. Preciso estar atento.

– Perfeito. Muito obrigado pelo café e por sua gentileza. Nestor, o disco voador está pronto?

– Só subir, capitão! Posso levar uma fatia dessa torta aqui?

– Claro – Responde Lemann, oferecendo–lhe a torta inteira, junto com um objeto estranho, metálico, de cor branca.

– O que é isso? – Pergunta Nestor. Ao segurar o objeto, ele estranhamente assume uma cor verde-musgo.

– Isso é um dodecaedro romano. Se você vai liderar a equipe, acho importante que você descubra a função desse objeto. Isso pode significar a diferença entre a vitória e a derrota em uma guerra do tamanho desta que está prestes a acontecer.

– Mas e o que devo fazer?

– Decifre-o e ele poderá salvar sua vida.

Nestor observa o objeto, sem entender nada. Guarda-o na mochila e agradece, sem muita ênfase. Eloaton encerra:

– Então vamos, Nestor. Temos muito a fazer e não temos tempo a perder! Sofia, descanse. Lemann, muito agradecido por sua acolhida, logo estaremos de volta.

Logo após se despedirem, Nestor pergunta para Eloaton, enquanto sobem no disco:

– Ficamos tão pouco tempo aqui, pensei que passaríamos o dia todo. Por que tanta pressa?

– Meu amigo Nestor, o recurso mais escasso do Universo é o tempo. Precisamos aproveitar o tempo ao máximo, evitando desperdícios. Temos muitas coisas a fazer, dispomos de apenas alguns meses até a chegada dos Greys e precisamos nos preparar para isso. Porém, nossa visão de “aproveitar” o dia é um pouco diferente da sua civilização. Sabe aquele ditado em latim, “carpe diem”?

– Hã… sei?

– Um dia bem aproveitado é aquele no qual não há desperdício de tempo em coisas inúteis. Nós viemos até a casa do Lemann, vocês tomaram um bom café, fizemos o treinamento telepático da Sofia, conforme planejado, e então encerramos essa atividade. Hora de partir para a próxima, que é levar você ao seu alojamento e apresentá–lo ao seu tutor de estratégia. Primeiro fazemos o que é importante, depois podemos relaxar. É importante relaxar, é importante celebrar, é imprescindível... aproveitarmos a viagem, nos mantendo atentos à paisagem, aos detalhes, aos movimentos, aos ciclos. Estarmos presentes o tempo todo, no eterno Agora. É assim que aproveitamos bem o dia: fazemos o que precisa ser feito, depois celebramos e, enquanto isso, permanecemos suavemente atentos o tempo todo.

– Isso me lembra um método de controle do tempo chamado de GTD – Getting the Things Done, mas o foco é a máxima produtividade para as empresas…

Desconheço esse método. Não creio que haja um nome exato para a nossa metodologia, é apenas uma questão cultural aceita e praticada por todos os que moram em Agartha, e o foco não é ser o mais produtivo possível para enriquecer alguma empresa, mas sim em aproveitarmos ao máximo o nosso tempo, tanto nas atividades individuais quanto coletivas, sem jamais perdermos de vista a maravilha que é estarmos vivos nesse planeta lindo, fantástico e mágico. É por isso que não nos demoramos nas nossas visitas: estaríamos fazendo a pessoa visitada perder seu próprio tempo, atrapalhando a execução das suas tarefas. É uma questão de respeito pelo tempo do outro. Por isso, também, evitamos deixar alguém esperando. Não chegamos atrasados, avisamos sempre que houver um contratempo, procuramos estar sempre prontos quando alguém vier nos buscar. O tempo do outro é mais importante que o nosso próprio e não temos o direito de desperdiçá–lo. Compreende?

Nestor raciocina um pouco e entende perfeitamente a questão ética do uso do tempo em sociedade. Ele percebe que essa metodologia, se é possível chamar assim, não é restrita a uma civilização muito avançada. Deveria ser assim o tempo todo, é uma questão ética e moral. De qualquer outra forma, estaria errado. Ele se lembra de quantas vezes passou tardes inteiras esperando por uma consulta médica de quinze minutos. Lembrou–se de quantas vezes precisou ficar esperando horas enquanto seus colegas de trabalho ainda arrumavam suas mochilas para alguma viagem. Oras, por que já não deixaram tudo arrumado na véspera? Lembra–se também das horas perdidas em restaurantes, esperando prepararem seu pedido, e compara com o sistema de “bandeijão” do refeitório de Ethoria: uma fila bem pequena, cada um se serve rapidamente, no final cada um lava sua própria bandeja, não há desperdício de tempo de ninguém.

Nestor sorri, por finalmente entender uma coisa tão óbvia: para ser ético, devemos respeitar até o tempo dos outros.

E esse objeto estranho que o Lemann me deu para decifrar?

Decifre.

Nestor fica desconcertado. Esperava uma explicação melhor. Logo assume seu posto e inicia os preparativos para decolar. O disco se move lentamente pelo túnel em direção a Shamballah, levando seus dois tripulantes, pensativos, atentos, confusos mas felizes.



A vinte e dois bilhões de quilômetros dali, uma nave espacial em formato de charuto, com três mil quilômetros de comprimento e duzentos quilômetros de diâmetro, segue sua trajetória em direção à Terra. Ela tem um movimento artificial de rotação, responsável por produzir o efeito de gravidade. Em seu interior oco, milhares de pequenas naves trafegam normalmente, cumprindo seus afazeres, levando materiais e suprimentos de um lado para o outro. A nave é tão grande que dispõe de estufas imensas para produção de alimentos, vários geradores do tamanho de cidades para produção e purificação da água e cerca de quinhentos milhões de tripulantes, a maioria em hibernação criogênica. A iluminação artificial mantém sempre metade da nave iluminada e metade na escuridão, simulando o efeito de “dia” e “noite”. Uma obra genial de engenharia. A cada vinte quilômetros, existe um hangar cheio de astronaves de combate dos mais variados tipos e tamanhos.

No ponto mais central e proeminente da nave, bem na frente, está a ponte de comando, onde centenas de Greys Chefes operam os controles que mantêm o perfeito funcionamento da descomunal estrutura. Os Chefes são maiores, bem mais altos do que os Greys comuns. A sala é uma grande central de comando, com três níveis bem distintos: bem à frente e no nível mais baixo, os operadores de navegação. No nível do meio, os chefes de departamentos e operações. No nível mais alto, os comandantes gerais. Bem no meio do nível mais alto, em uma plataforma mais alta ainda, o Altíssimo: um Chefe enorme, robusto, com vestes negras paramentadas, sentado em uma cadeira cheia de controles e telas, amparado por assessores e conselheiros. Seu semblante autoritário e severo denota uma personalidade atroz e cruel, perceptível em seus gestos e na sua fala. Impiedoso, não admite falhas. Comanda com mãos de ferro a epopeica nave e levará até suas últimas consequências, a qualquer custo, o cumprimento de sua missão: destruir a humanidade e colonizar a Terra.



1 – Eloaton é um ser da quinta dimensão e seu corpo dispensa alimentos físicos.



Shamballah

– Diminua a velocidade, Nestor. Estamos chegando.

– Tudo bem – obedece Nestor ao comando de Eloaton, mesmo sem ver nada que remotamente pudesse lembrar o fim daquele túnel.

– Este buraco aqui é muito maior do que o de Ethoria 27B, ou é impressão minha?

– Sim, ele tem algo em torno de sessenta quilômetros de extensão e cem metros de diâmetro. Veja ali adiante, já dá para ver o final.

Nestor se esforça para tentar ver a tal luz. O disco voador já estava com velocidade muito reduzida. Repentinamente, parece que atravessam uma neblina densa e, logo em seguida, descortina–se diante de seus olhos todo o esplendor de Shamballah, a gloriosa cidade de ouro, a mítica capital de Agartha.

– Meu… Deus!! Eu não prestei atenção quando passamos por aqui antes. Isso tudo é ouro mesmo? – pergunta Nestor, incrédulo e estupefato.

– Sim. Todas as casas, todos os prédios, tudo é revestido ou pintado com ouro de verdade.

– Não consigo sequer imaginar o quanto vale uma cidade dessas…

– Nestor, lembre–se que, aqui em Agartha, seus conhecimentos avançados de economia simplesmente não se aplicam. Para nós, não há nenhuma diferença entre revestir uma parede de cimento ou de ouro. Lembra do que você aprendeu em Ethoria 27B? Sobre os telhados solares? Aqui é a mesma coisa, mas o material usado para geração de energia fotovoltaica é o ouro. E também é uma forma de simbolizar nossa gratidão ao Sol, de onde vem toda essa energia.

– Nunca vi uma cidade tão grande. Deve ser maior que São Paulo. Para onde vamos?

– É um tamanho razoável para uma cidade que tem mais de um milhão de anos. Está vendo aquela pirâmide maior? Vamos até ela.

Nestor dirige o disco voador até o topo da pirâmide, entra em uma pequena fila e, na sua vez, inicia o processo de reabastecimento das baterias da nave, que leva cerca de um minuto. Os cabelos do Nestor se arrepiam por causa da eletricidade estática e Eloaton caçoa dele. Os dois riem.

– Agora, vamos até aqueles prédios lá. É um alojamento, onde você vai ficar durante seu treinamento, que será realizado naquele outro prédio redondo bem na frente.

Nestor dirige o disco até o local indicado por Eloaton e pousa o aparelho em uma vaga livre de um discoporto que deveria ter, pelo menos, uns duzentos outros discos voadores estacionados.

– Não esqueça de desligar o reator de energia.

Nestor rapidamente desliga o reator e pega sua mochila. Abre a rampa do velho disco voador que foi de um rei sumério há mais de quatro mil anos. Eloaton, como sempre, tem alguma dificuldade para sair do aparelho, afinal, ele foi projetado para humanos de um metro e noventa, mas não para Pleiadianos de quase três metros.

Os dois passam pela porta de entrada do alojamento. Eloaton conversa com uma recepcionista de pele vermelha em um idioma que Nestor nem tenta identificar. Ela dá um cartão transparente para Nestor, pedindo para que a siga. Eloaton diz que vai ficar ali, na portaria, esperando. Nestor segue a estranha moça de pele vermelha, incrivelmente magra, de gestos esguios mas delicados e ágeis. Ela fala com Nestor em português:

– Seja bem vindo ao nosso alojamento. Aqui você vai encontrar tudo o que precisa para sua estadia: camas quentes e confortáveis, cada uma com uma teletela, um armário para guardar seus pertences, uma cozinha para preparar lanches, uma área sanitária para suas necessidades fisiológicas e banho. Temos uma ampla sala de lazer em cada andar onde os alojados podem se confraternizar. Os alojamentos são coletivos, cada um com cinquenta camas. Caso precise, há esta sala lateral para a reposição de seu calçado e de sua roupa. Você sabe como esses equipamentos funcionam?

– Sim, o Eloaton já me mostrou em Ethoria 27B.

– Ótimo. Havendo dúvidas, pode me chamar ou a qualquer um dos supervisores.

– Mas acho que não sei bem o que é essa tal de "teletela" que você falou.

– Ah, sim, venha comigo, vou lhe mostrar.

Os dois entram no alojamento, onde havia cerca de vinte seres, alguns humanos, alguns Greys, Sirianos, Reptilianos e duas pessoas com pele vermelha como a da recepcionista. Metade deles completamente nus. Nestor ainda não estava acostumado com essa naturalidade toda.

– Desculpe a pergunta, mas de que raça você é?

– Sou Arcturiana, como aqueles dali. Veja, aqui tem uma cama livre, você pode ficar nela. Aqui na cabeceira tem o botão que liga a antigravidade, você pode regular neste outro botão aqui, deixando mais dura ou mais macia. Este outro controle é o da temperatura. Você pode pedir para manter uma determinada temperatura, aquecer, esfriar ou deixar no automático. E aqui, encaixado na cabeceira, tem a teletela. Você nunca vi-u uma?

– Não.

– Pegue ela aqui então. Aperte aqui para ligar.

Nestor pega o aparelho nas mãos: um retângulo de vidro com uma moldura de metal com meio centímetro na parte de baixo e um único botão bem pequeno no meio. O vidro transparente se torna totalmente opaco ao ligar, mostrando uma espécie de tela de login com umas palavras escritas numa linguagem que Nestor nem imagina qual seja.

– Tá, liguei, e agora?

– Bom, a teletela não reconheceu você, o que significa que você nunca usou uma, então precisa se cadastrar. Selecione sua raça: humano. Seu planeta: Terra. Agora, seu idioma: português. Pode preencher essas outras informações aqui depois. A teletela já registrou sua aurimetria, então qualquer teletela que você pegar já vai abrir com as suas configurações.

– O que é “aurimetria”?

– Bem… na Terra vocês usam impressões digitais, formato do rosto e da íris dos olhos como formas de identificação individual. Vocês chamam isso de “biometria”. No resto do Universo, usamos a sua frequência energética, a sua aura, que é absolutamente única, e chamamos isso de “aurimetria”. A teletela “sente” que é você que a pegou na mão, entre quatrilhões de seres vivos senscientes, entendeu?

– Ah, sim.

– Agora escolha o que quer ver ou fazer. Aqui tem os livros, os artigos e as centrais de notícias de todos os quatro milhões de planetas da Grande Ordem Universal, tem os canais de entretenimento com filmes, documentários e produções artísticas, pesquisa por qualquer assunto, ferramentas como calculadora, editor de texto, de imagem, tocador de música, comunicadores, tradutores para todos os idiomas conhecidos do Universo, uma seção inteira para inspiração emocional e meditação, uma seção de projetos onde você pode participar de ações sociais e comunitárias… aqui tem alguns jogos, passatempos e aplicativos recreativos, enfim, tudo o que você precisar, seja para inteligência lógica, emocional ou despertar da sabedoria primordial. Tem outras funções ainda que talvez você não entenda.

– Ah, é tipo um tablet que funciona para qualquer raça do universo?

– É, mais ou menos isso. Pode usar à vontade. Depois de usar, é só prender aqui de novo.

– Posso pesquisar coisas na Internet da Terra?

– As tecnologias são muito diferentes, não há como fazer uma conexão. Mas existem aplicativos conversores. Por exemplo, você pode trazer um arquivo, carregar no conversor e ele vai salvar uma versão desse arquivo no formato que o resto do Universo consegue abrir. Da mesma forma, é possível fazer o caminho inverso também, apesar de não ser possível garantir uma precisão absoluta.

– E se eu quiser, por exemplo, escrever um diário de viagem, tem como salvar?

– É claro. Todo documento escrito fica imediatamente salvo e disponível em qualquer lugar do Universo. Você pode continuar editando em qualquer outra teletela.

– Tem servidores espalhados por todo o Universo, é isso?

– Não. As informações são guardadas em uma região vibratória que alguns de vocês chamam de “registro Akáshico”. Uma vez salva nele, está imediatamente disponível em qualquer lugar. É por isso que não precisamos de cabos ou de acesso a alguma rede, como a internet de vocês.

– E tem como colocar uma senha, pra proteger o documento?

– Pra que?

– Pra… pra nada não, é que de onde venho costumamos ter pastas individuais trancadas com senha pra ninguém bisbilhotar…

– Não entendo, você quer escrever alguma coisa que ninguém possa ler? Por quê?

– Nada, esquece, é só um hábito de lá que pelo jeito não faz nenhum sentido aqui.

– Tudo bem. Precisa de mais alguma coisa?

– Eu preciso de papel e caneta para escrever uma carta. Vocês têm?

– Papel e caneta? Puxa vida, acho que não temos não. Não serve argila?

– Deixa pra lá, eu sei onde posso conseguir. Onde posso deixar minha mochila?

– Pode escolher qualquer um desses espaços no armário. Pode colocar ali. Vamos descer? Seu amigo está lhe esperando.

Eloaton estava aguardando Nestor na recepção.

– Gostou dos aposentos?

– Caramba, acho que o alojamento é mais confortável que o meu apartamento. Tem até um cara que é parecido com o meu hamster Stevie.

– Que bom. Estar confortável é pré-requisito para um bom aprendizado.

– E o que devo aprender aqui?

– Estratégia. Venha comigo, vou lhe apresentar um professor de quem acho que você vai gostar muito. Já viu homens azuis antes?

– Só no filme Avatar…

– Então, não se assuste. O nome dele é Krzovv, ele é Siriano, tem cinco mil anos e é um ser muito divertido, além de inteligente.

– Cinco mil anos???

– Não te falei várias vezes que o tempo é relativo?



Ramazor, o Comandante Altíssimo da Nave dos Greys, senta–se à sua poltrona de comando e liga suas telas de controle. Logo aparece uma mensagem em destaque vermelho, que ele abre e lê cuidadosamente. Em seguida, ativa seu comunicador e chama seu capitão imediato:

– Pondr, traga o maldito Rekkar aqui imediatamente.

Em alguns minutos, um Chefe Grey usando uma longa capa azul entra na ponte de comando, trazendo junto um outro Chefe, com vestimentas comuns e sem capa. Pondr, o Chefe de capa azul, faz o Chefe Rekkar se ajoelhar diante de Ramazor.

– Rekkar de Arakenth, não imaginei que iria vê–lo novamente neste megaciclo. Na última vez que nos vimos, você me trouxe a notícia de que estávamos entrando em um novo surto de diloraminose, e que os estoques de elixir estavam estáveis e eram suficientes para conter o surto. Mas, pelos indicadores, o surto está aumentando e os estoques já não são mais suficientes. Podes me explicar por que isso está acontecendo?

– Altíssimo, eu recomendei que fosse feita uma quarentena para diminuir a circulação da doença. Parece que não houve muita adesão a essa recomendação. A doença se espalhou muito e os estoques de elixir não são mais suficientes para atender a todos os enfermos.

– Verdade? E você recomendou essa quarentena a quem?

– Ao chefe de logística, major Krüzz, Altíssimo.

– Pondr, traga o Krüzz aqui.

– Sim, Altíssimo.

– Rekkar, acredito que você gostará de ficar em uma de nossas confortáveis celas por uma oitena, não concorda?

– Mas altíssimo… o que eu fiz de errado?

– Por enquanto, nada, mas pode ser melhor para sua própria integridade física. E tenho certeza que você ficará feliz em me responder algumas perguntas, não é verdade?

– Estou inteiramente à sua disposição, Altíssimo, mas eu sou o atacante principal de um dos times de deathball do campeonato, então acho desnecessário…

Soldados cercam Rekkar e o fazem sentar em uma cadeira.

– Sim, Altíssimo, estarei feliz em contribuir para o que for preciso.

Em minutos, Pondr retorna à ponte trazendo um outro Chefe, usando roupas verdes.

– Krüzz de Kahlli, sétimo filho do Altíssimo Aarock de Kahlli, nobre comandante que dirigiu esta Nave por duzentos e cinquenta megaciclos antes de mim e a quem sempre demonstrei grande respeito. Você lembra de ter recebido a recomendação de quarentena por parte do jovem Rekkar de Arakenth?

– Sim, Altíssimo, eu recebi a recomendação de quarentena.

– E quais providências você tomou?

– Altíssimo, eu conversei com outros dirigentes logísticos e chegamos à conclusão de que havia uma quantidade muito grande de Greys em estado de hibernação nas câmaras criogênicas, portanto, consideramos o alerta um tanto quanto exagerado. Afinal, mesmo que metade da tripulação em atividade fosse contaminada, haveriam cento e cinquenta vezes mais tripulantes em animação suspensa e…

– Então, metade da tripulação ativa poderia morrer sem problemas, é isso?

– Altíssimo, somos uma equipe muito pequena para dar conta de todos os trabalhos que a Nave exige. Não temos como fazer uma quarentena, não podemos parar.

– Rekkar, você recomendou uma quarentena de quantos ciclos?

– Cinco, Altíssimo.

– Krüzz, o que aconteceria com a Nave se ninguém fizesse absolutamente nada por cinco ciclos?

– Bem… Altíssimo… talvez alguns serviços como a limpeza fossem comprometidos, mas…

– A Nave explodiria em cinco ciclos?

– Não, Altíssimo.

– Algum tripulante em animação suspensa morreria em cinco ciclos sem manutenção?

– Provavelmente não, Altíssimo.

– Algum tripulante ativo morreria de fome em cinco ciclos sem reabastecimento?

– Com um estoque mínimo individual, não, Altíssimo.

– O campeonato de deathball não poderia ser suspenso por cinco ciclos?

– Ahn… sim, bem… talvez pudesse ser suspenso sim, Altíssimo, mas isso deixaria muitos tripulantes nervosos por causa das apostas…

– Ah, parece que entendi o problema. Há um campeonato de deathball em andamento e muito dinheiro nas apostas. É melhor correr o risco de ter metade da tripulação contaminada com diloraminose do que parar o campeonato na metade para a implantação de uma MALDITA QUARENTENA recomendada por um MALDITO GREY DE ARAKENTH, estou certo?

Ramazor se ergue do trono e desce até o degrau onde estavam os outros. Agarra Krüzz pela cabeça com uma mão e levanta–o do chão, olhando direto em seus olhos.

– Altíssimo, piedade. Não imaginamos que a doença pudesse sair do controle…

– Mesmo com o maldito aviso do maldito Rekkar? Só porque ele é o único sobrevivente de Arakenth, o mais maldito de todos os malditos lugares deste lado do Universo? É mais fácil ignorar o aviso de um amaldiçoado do que tentar salvar metade da tripulação ativa, não é mesmo?

– Piedade, Altíssimo…

– Você nem sequer me avisou sobre a recomendação de quarentena. Podes me lembrar exatamente o que fala o Código sobre esses alertas?

– Não, Altíssimo, não, não, eu imploro…

– Pondr, leia para mim essa parte do Código, por favor.

– Sim, Altíssimo… “Artigo 2.768: no ato de notificação de grave dano, escassez de recursos, quarentena, motim ou qualquer evento de qualquer natureza que possa colocar em risco a tripulação da Nave, total ou parcialmente, a notificação deverá obrigatoriamente ser repassada ao Comandante Altíssimo para que tome as devidas providências. Parágrafo único: A não notificação caracterizará crime de alta traição”.

– Pondr, e o que o Código diz sobre quem pratica alta traição?

– “Artigo 158: os crimes de alta traição serão punidos com o alijamento ao espaço”.

Krüzz se debate, enquanto é preso pelos soldados.

– Não, piedade, Altíssimo! Piedade! Misericórdia…

Os soldados levam Krüzz pela porta. Alguns minutos depois, uma escotilha é aberta na nave e um corpo é arremessado ao espaço através dela. Krüzz ainda se debate por alguns segundos, até morrer por asfixia e congelamento.

Ramazor, após assistir o alijamento, ordena:

– Procedam imediatamente a quarentena. Racionem o elixir. Cancelem o campeonato de deathball deste megaciclo.

– Mas Altíssimo, há um número muito grande de apostas que…

– Pondr, você não acha que o Krüzz deve estar se sentindo muito sozinho, lá fora?

– Imediatamente, Altíssimo, já estamos providenciando a quarentena e o cancelamento do campeonato.





Krzovv

Nestor tenta acompanhar os passos do gigante Eloaton. Eles deixam o prédio de alojamentos e atravessam uma avenida imensa, muito larga, com um passeio central e ricamente ornamentada por todos os tipos imagináveis de flores em toda a sua extensão. Um colorido formidável que preenche a atmosfera com um inebriante perfume de flores frescas.

– Nossa, nunca vi tantas flores na vida!

– São trazidas de diversos lugares da galáxia. Por isso são tão diferentes – explica Eloaton.

– Essas ruas são calçadas com pedras. Não se usa asfalto ou algo parecido aqui em Shamballah?

– Sim, a maioria das estradas e ruas são cobertas com um revestimento que chamamos de ultrapiso. É um material poroso, extremamente duro e resistente, capaz de aguentar cargas de centenas de toneladas sem se deformar ou quebrar. Permite a passagem da água, é fácil de aplicar e dá pra fazer em casa, com um balde, uma pá e um pouco de água. A mistura vira uma coisa semelhante às conchas dos crustáceos. É muito resistente à ação do tempo, podendo durar dezenas de milhares de anos. Apesar de ser muito duro, é fácil de ser removido, bastando despejar ácido gálico nele. O ácido causa uma reação química que transforma o piso em uma mistura parecida com a cal hidratada com enxofre, que pode ser usada até como corretor de acidez de solos na agricultura.

– Ou seja, se aplicar o ácido gólico no ultrapiso, espera ele derreter, junta com pá e joga na horta?

– Ácido gálico. Mais ou menos isso. Teremos muitas oportunidades para ver o ultrapiso, afinal, ele é usado em praticamente todas as estradas. Esta avenida aqui foi uma das primeiras a serem construídas em Shamballah. Devido à sua incrível beleza natural, decidiu–se manter a sua pavimentação original de pedras basálticas polidas. Bem, chegamos.

O prédio em que Eloaton e Nestor entram é imenso. Seu formato lembra as pirâmides astecas, com vários degraus. As paredes são de pedra, em blocos de mais ou menos um metro cada uma, aparentemente sem usar argamassa. A entrada é um imenso portal de sete metros de altura, com uma porta de vidro cheia de adornos. Ao entrar, Nestor não consegue evitar a exclamação de um palavrão bem conhecido quando nos deparamos com algo absolutamente fantástico.

– Desculpe, Eloaton, saiu sem querer.

– Nenhum problema, Nestor. Entendo perfeitamente.

O andar térreo tem dez metros de altura. Todas as colunas internas são de pedra, tão lisas e polidas que parecem ser uma peça só. Todas as paredes, colunas, tetos, mobília, tudo é fantasticamente adornado por enfeites em ouro maciço. No chão, tapetes de seda com desenhos tão incríveis que fariam os melhores e mais tradicionais fabricantes de tapetes persas do Irã morrerem de inveja. Do portal de entrada até o fundo do prédio, um trilho composto por ladrilhos de três tonalidades de ouro, compondo um mosaico inacreditável, protegido por uma fina camada de algum tipo de resina ou verniz.

– Eu estou caminhando em cima de milhões de dólares em ouro puro! – Exclama o incrédulo Nestor.

– Para nós, são apenas ladrilhos, bem montados e com fino acabamento, feitos para durar eternamente. Venha, estamos chegando.

No final do trilho, três opções para subir aos andares superiores: uma rampa à esquerda, umas portas em mármore e vidro que aparentemente seriam de elevadores ou algo semelhante no centro, e uma escadaria de madeira em estilo art déco, parecida com a do filme Titanic, à direita. Eloaton prefere a rampa, circular, com corrimões de madeira e ouro, e piso com um material que chamou a atenção do Nestor:

– Isso aqui que é o tal de "ultrapiso"?

– Ah, sim, exatamente. Essa rampa é toda feita em ultrapiso.

– Se derramar o tal ácido gólico ela derrete toda?

– Ácido gÁlico – repete novamente Eloaton -. Sim, pelo menos uma boa parte dela. A vantagem é que dá para reconstruir ela toda em questão de duas horas.

Nestor se espanta. No Brasil, para restaurar uma escadaria daquelas em concreto levaria pelo menos uns dois meses, custaria uma fortuna e dois terços do valor seriam desviados para o bolso de algum deputado.

– Chegamos ao piso superior. A sala do Krzovv fica logo aqui ao lado. Venha, ele está nos esperando.

O largo corredor do andar superior é todo forrado com um tapete vermelho, rodapés em ouro. As paredes todas revestidas com mármore. A iluminação provém de dezenas de pequenos candelabros de cristais coloridos, pendentes do teto, que deve ficar a uns cinco metros de altura. As portas, todas de madeira grossa, provavelmente de cedros muito antigos, com maçanetas em bronze. Eloaton segue até a terceira porta do lado esquerdo, a que tem uma placa de metal negro com uma inscrição em ouro branco, em um idioma desconhecido para Nestor, e um símbolo acima da inscrição: uma estrela de cinco pontas, em pé, dentro de um círculo, com doze pétalas ao redor.

– Ei, eu já vi esse símbolo em algum lugar… Acho que foi em algum sonho.

– Pode ser, Nestor. Esse é um símbolo secreto. No momento oportuno eu posso explicar a respeito dele. Venha, entre.


Os dois entram em uma sala azul índigo, com poucas mobílias brancas. De trás da mesa, ergue–se um majestoso ser com pele azul, tão alto quanto Eloaton, com cabeça em formato que lembra um golfinho. Em passos ágeis e movimentos leves e circulares, ele rapidamente se aproxima dos dois. O Siriano observa atentamente Nestor de cima a baixo, como se estivesse lendo sua aura. Eloaton faz as apresentações:

– Nestor, quero lhe apresentar Krzovv Eyzzykrd, o Siriano que vai lhe ensinar sobre estratégia, espionagem e outros temas correlatos. Krzovv, este é meu amigo Nestor.

– Olá, senhor… Korzoff? Desculpe, não consegui decorar seu nome ainda.

– Saudações, caro humano. Seu nome também tem vogais demais para mim… É Nstorrk, isso?

– Nestor.

– Krzovv. Em breve decoraremos o nome um do outro. Você deve imaginar o quão difícil foi, para mim, decorar o nome do Eloaton, não é?

Eloaton ri, explicando:

– Ele demorou anos para conseguir falar meu nome. Os Sirianos quase não usam vogais, a comunicação deles é praticamente só ruídos, assobios e estalos, as cordas vocais deles são muito diferentes das humanas. Bem, como vocês precisarão se encontrar muitas vezes para que Krzovv possa lhe passar um pouco do seu conhecimento e experiência, certamente terão oportunidade para se familiarizarem com os sotaques.

– Será um prazer contribuir com um pouco do meu conhecimento, meu amigo dourado – Krzovv parece fazer uma saudação, inclinando–se para os dois.

– E você já pensou em uma forma didática para transmitir esse conhecimento ao nosso amigo Nestor, meu caro amigo azul?

– Ah, sim. Imagino ser suficiente termos um encontro de uma hora por semana. Eu vou passar um tema para o Nestor pesquisar, se aprofundar, exercitar, praticar e trazer os resultados para minha análise na semana seguinte. Havendo dúvidas, ele pode me chamar na teletela a qualquer momento. Pode ser assim, meu caro amigo rosado?

– Claro, estou bem acostumado com essa metodologia. Já temos algo para estudar neste encontro?

– Certamente. Vamos começar com o estudo de um livro escrito por vocês, humanos, um livro bem introdutório, mas muito bom. Vai servir para nos conhecermos melhor e iniciarmos os estudos com algo que você conhece, criado pela sua própria civilização.

– Que livro?

– "A Arte da Guerra", de Sun Tzu. Tem tradução para quase todos os idiomas da Terra. Você deve lê–lo, destacar as citações que achar mais interessantes, fazer um resumo com suas palavras e usar os conhecimentos do livro em alguma situação prática durante a semana. Faça um relatório e me traga na próxima aula, daqui a sete dias, neste mesmo horário, combinado?

– Combinadíssimo. Na verdade me parece até fácil demais. Acho até que já li esse livro.

– Então, se você o achou fácil demais, é porque ainda não o entendeu. Leia–o novamente até entender. Leia e releia. Tente entender, em cada parágrafo, qual foi a verdadeira intenção do autor. Estude o livro como se disso dependesse sua própria vida.

– Eu estudarei. Depois desse, quais serão os próximos?

– "O Príncipe" de Maquiavel e “Estratégia de Guerra” do arcturiano Mount-Sizaac. Mas recomendo fortemente que você se dedique inteiramente a ler e entender perfeitamente esse primeiro, pois ele é muito mais profundo do que parece ser, à primeira vista. Não se iluda com seu tamanho. Ele é pequeno, mas esconde um vasto conhecimento. Além disso, sei que você precisa de tempo para desenvolver a estratégia da sua primeira missão, correto?

– Sim, e se eu tiver dúvidas, posso...

Eloaton atravessa a conversa:

– Muito bem, sou muito grato, Krzovv. Agora vamos voltar, Nestor? Lemann e Sofia nos aguardam.

– Já? Assim… já conversamos tudo o que era necessário? E onde encontro o livro? – Nestor ainda não estava acostumado com a extrema objetividade das visitas.

– Na sua teletela, basta pesquisar. – Explica Krzovv – Não possuímos bibliotecas com livros físicos aqui. Todas as obras são digitais e estão disponíveis em todos os lugares.

– Ah, tá.

Eloaton se levanta, imitado pelos outros dois.

– Agora precisamos alinhar os detalhes com o Lemann, pois ele ficará responsável por você e pela Sofia nos próximos dias. Além disso, não podemos tomar muito o tempo do Krzovv. Ele é um dos diplomatas que estão trabalhando na difícil tarefa de evitar a guerra interestelar que se aproxima. Recentemente, ele conseguiu evitar, com suas manobras nada convencionais, que os Reptilianos destruíssem um dos planetas habitados do sistema estelar de Sirius.

– Sério? E quando foi isso?

– No mês passado. Os Reptilianos e os Greys estão constantemente nos trazendo dores de cabeça, em quase todos os sistemas estelares habitados da galáxia. Vários mundos já foram destruídos, várias civilizações desapareceram, mas eles não desistem. Neste último caso, Krzovv infiltrou um informante entre os Reptilianos e os convenceu a explorar um outro planeta, desabitado, que tinha muito mais recursos para retirar do que o planeta que ia ser atacado.

– Nossa, mas e quando eles perceberem que foram enganados?

O próprio Krzovv responde:

– Bem, na verdade eles não foram enganados. O planeta em questão realmente tem uma quantidade maior dos recursos buscados pelos Reptilianos: ouro, carbono e energia. Isso os manterá ocupados por um bom tempo e, assim, evitamos a destruição de uma civilização inteira.

– Entendi. Então, caro amigo azulado, muito obrigado por sua atenção e semana que vem prometo lhe trazer bons resultados.

– Tenho certeza que sim, meu caro amigo rosado. Não esqueça: se precisar, basta me chamar pela teletela. Eloaton, depois preciso conversar com você.

Os três se despedem com o tradicional cumprimento de mãos postas. Eloaton e Nestor saem do prédio e atravessam a avenida das flores. Em seguida, os dois entram no disco voador.

– Vamos voltar ao Tibete? Mas já está escurecendo e deixei minha mochila no alojamento…

– Não se preocupe, Nestor. Estaremos de volta em menos de uma hora.

A nave suméria, lentamente, ergue–se sobre a bela cidade dourada de Shamballah, com seus telhados refletindo as tonalidades vermelhas, laranjas e amarelas do pôr do sol. Parecia que a cidade inteira estava pegando fogo.

– Esse é o pôr do sol mais fantástico que já vi na vida!

– Há poucos dias você pensou o mesmo sobre o pôr do sol de Ethoria 27B.

– Foi a Sofia que falou, não eu…

– Mas você pensou. Ela apenas falou antes.

Nestor ainda tentava se acostumar com o fato do Eloaton conseguir ler pensamentos. Os dois seguem lentamente em direção ao túnel incrustado na parede rochosa ao lado da imensa cachoeira da Vida Eterna.

– Se eu jogar a água desta cachoeira em cima de um monte de dinheiro, vou ter dinheiro eterno?

– Não, Nestor.

– E se eu molhar uma videira com essa água, vou ter vinho eterno?

– Não, Nestor.

– E se eu casar com alguém dentro dessa cachoeira, será um casamento eterno?

– Não, Nestor.

– E se…

– Nestor, cale a boca e dirija.

– Sim, senhor! – Nestor bate continência e segue lentamente no mesmo percurso. Pouco depois, os dois caem na gargalhada.



O som do alarme com luzes vermelhas piscando ecoa por toda a Nave G–48. Toda a tripulação ativa deve se dirigir a seus aposentos individuais e lá permanecer por cinco ciclos.

– Depois desta quarentena, vou querer todo o meu dinheiro de volta – reclama Korgg. Palamedes concorda:

– Eu também. Perdi o soldo de três meses, e isso não vai ficar assim. Me admira que até você esteja irritado… Tá vendo? Não adianta ser puxa–saco deles. Os Chefes fazem o que querem com a gente. Mais cedo ou mais tarde eles nos descartam como lixo. Eles não se preocupam conosco, vivem em um mundo paralelo. Quem eles pensam que são para cancelar um campeonato de deathball, só porque um imbecil qualquer disse que era para fazer uma quarentena? Eu ouvi dizer que foi o Rekkar, o maldito, quem espalhou esse boato. Ele deveria ser desintegrado!

– Pois é. E você viu alguém com diloraminose?

– Não vi ninguém, Korgg. Pelo menos não nos setores agrícolas onde trabalho. Seria bem fácil de ver, afinal, dizem que a pele fica azul. É claro que o maldito Ramazor inventou essa tal doença aí, só para cancelar o campeonato e dar um jeito de ficar com todo o nosso dinheiro!

– Pois eu penso da mesma forma. Eu ando por todos os lugares da Nave, dando manutenção aos dutos gasosos, e nunca vi ninguém azul. Isso é uma grande mentira! Vamos manter contato pela teletela durante a quarentena. Vamos descobrir como é que ele conseguiu armar isso pra gente.

– Boa ideia. Vamos fazer um grupo, com o máximo possível de tripulantes, e buscar o máximo de informações. Assim, logo descobriremos tudo. Eu quero alijar pessoalmente esse miserável ao espaço. O Ramazor, o boneco de ventríloquo de capa azul dele e quem mais estiver envolvido.

– Então vamos apertar o botão juntos. Só não podemos deixar que um Chefe entre no grupo, pois o Rekkar é protegido dos Chefes. Não sei por que os Chefes protegem tanto esse cara. Ele deveria ter morrido junto com todos os Greys traidores de Arakenth.

– De jeito nenhum, não deixaremos nenhum Chefe entrar no grupo, senão nós é que seremos condenados por motim. O maldito se safa, fica com o nosso dinheiro, enquanto os Chefes nos alijarão ao espaço e, em seguida, acordarão alguns outros tripulantes em animação suspensa para nos substituir, simples assim.

– É, você tem razão, Palamedes. Nós não valemos nada para os Chefes. Não temos importância alguma, somos facilmente substituíveis.

– Queria saber quem foi que inventou essa regra de que um Grey deve sempre obedecer a um Chefe. Nos ensinam isso desde que nascemos. Funciona assim em todo o Universo, mas nunca concordei. Só porque está escrito em um Livro de um milhão de anos atrás. Pode me chamar de herege, mas eu não concordo. E não fale para ninguém, senão eles me vaporizam na frente de todo mundo, como sempre fazem.

– Eu é que não falo nada, porque também concordo contigo. Chegará um dia em que os Greys estarão livres dos Chefes! E queimaremos esse maldito Livro para que nenhum Grey jamais seja escravo de um Chefe novamente! Liberdade para os Greys!

– Estou surpreso, meu amigo Korgg. Percebeu, finalmente, que todas as regalias e privilégios que você tem o tornam ainda mais escravo do que todos os outros?

– Já faz tempo que percebi. Estou apenas aproveitando os benefícios da minha posição, mas já decidi há um bom tempo que não podemos seguir sendo escravos dos Chefes por toda a eternidade, isso tem que acabar. Enfim, estamos chegando na minha cela. Esqueci da ração, você tem?

– Está com sorte, Korgg, peguei duas. Fique com uma. Fique também com essas batatas. Detesto batatas. Tem um pouco de psilocybe aí?

– Você é louco de perguntar isso aqui nos corredores, Palamedes? Alguém pode escutar. Tome, tenho três pacotes, fique com um, mas você me deve dois Quaarks.

– Pago assim que chegar na minha cela. Ninguém mais tem psilocybe e eu é que não vou ficar cinco ciclos contando as luzes do teto. Bem, minha cela fica lá no fim do corredor. Até mais, logo entro em contato.

– Até mais, são só cinco ciclos, passa rápido. Vou aproveitar para assistir o campeonato de deathball de Epsilon Eridani, os caras são muito bons lá e as transmissões voltaram ao normal quando saímos da dobra espacial. Boa quarentena, e pega leve nos cogus.

Retornando de Shamballah

Eloaton e Nestor ainda estão rindo, dentro do disco voador, bem em frente ao túnel de acesso ao Tibete. Eloaton ainda tinha muitos assuntos a tratar com Lemann, mas resolveu mostrar um pouco melhor a grande capital de Agartha ao jovem Nestor.

– Nestor, você gostaria de conhecer melhor Shamballah?

– Sem dúvidas, Eloaton. O que podemos visitar?

– Bem, vamos sobrevoar a cidade. Tem muita coisa interessante que você precisa conhecer.

O disco sumério muda a sua rota, enquanto Eloaton coordena o passeio.

– Quero ver como vou contar para meus amigos que estou visitando Shamballah, a capital do reino de Agartha da quarta dimensão, em um disco voador todo esquisito que era de um rei sumério e que meu guia turístico é um Pleiadiano dourado de três metros que mal cabe dentro do disco.

– Por isso que é melhor nem tentar contar – Eloaton sorri – Vamos para aquele lado, onde tem as outras cachoeiras.

Nestor obedece. Logo se aproximam das lendárias cachoeiras de Shamballah. Majestosas, com mais de mil metros de altura, descem imponentes sobre as rochas, onde é possível ver várias piscinas naturais com centenas, talvez milhares de seres se banhando em suas águas absolutamente puras e transparentes. A partir dos rochedos, o grande rio que corta Shamballah ao meio serpenteia até sumir no horizonte.

– Essas cachoeiras possuem a água mais limpa de Agartha. A radiação contida na água vibra exatamente na mesma frequência das células, tanto humanas quanto animais, promovendo cura e trazendo longevidade. É a tão famosa Fonte da Juventude. Para ativar e aproveitar todos os benefícios dessa água, é preciso bebê–la na fonte, direto da cachoeira, todos os dias. Melhor ainda é passar meia hora imerso nela. O indivíduo não envelhece nunca, nem fica doente, podendo viver em plena saúde por milhares de anos.

– Uau… esse é o segredo da longevidade do Lemann?

– Exatamente. Ele vem se banhar nessas águas todos os dias, nos últimos dois mil e trezentos anos. É o elixir da juventude, tão falado pelos alquimistas no século dezoito e…

– Século dezoito, anos de 1700… o Lemann tem dois mil e trezentos anos de idade, então ele já se banhava na Fonte da Juventude há dois mil anos antes dos alquimistas, é isso?

– Precisamente. Mas não basta apenas beber e se banhar na Fonte, é necessário ter um modo de vida correto também, e isso é muito mais difícil de se conseguir realizar do que apenas beber ou se banhar nessas águas. Você vai receber todo o ensinamento sobre como alcançar um modo de vida correto: você precisa superar as fraquezas inerentes da raça humana, especialmente o ego, o apego, a aversão e a ilusão, e definitivamente isso não é nada fácil para vocês, humanos, mas veremos isso tudo com mais detalhes em breve. Outra coisa muito importante é a conexão total com a natureza: você precisa conversar com a cachoeira, com as pedras, com as nuvens, com o fogo, mas depois eu explico melhor isso.

– Mas nunca descobriram esse segredo? Tenho certeza que haveria milhões de pessoas que dariam tudo para se banhar ali…

– Justamente por isso é que ninguém pode saber. Imagine se a humanidade descobrisse o túnel que traz a Shamballah? Você é capaz de imaginar um milhão de pessoas invadindo este lugar, destruindo tudo e se jogando na cachoeira, a fim de alcançar a suposta vida eterna? Consegue imaginar o tamanho do caos que seria causado? É por isso que a entrada é secreta, protegida pelo melhor de todos os Guardiões. Também é por isso que ninguém sabe o que é o Elixir da Vida Eterna, muito menos onde fica a Fonte da Juventude.

– E se as pessoas fossem um pouco mais… ahn… civilizadas? Evoluídas? Seria possível compartilhar esse segredo com toda a humanidade?

– Bem, acho que já contei que estamos neste planeta há centenas de milhares de anos, contribuindo com a evolução da humanidade. Nós queremos que os seres humanos evoluam e alcancem níveis mais avançados de civilidade. Queremos que a humanidade se torne mais ética. Trabalhamos pela paz em todo o Universo, entre todas as formas de vida inteligente existentes. Mas nós dois sabemos que o estágio em que a humanidade se encontra atualmente é primitivo demais para permitir que um conhecimento desses seja divulgado para todos. Shamballah seria destruída e haveria guerras intermináveis pelo controle dessas fontes. Estou enganado?

– Hmmm… não, de forma alguma. Acho até que já vi um filme que fala sobre isso, se não me engano era “a caverna” ou coisa assim. Mas você falou sobre os alquimistas… eles não tentaram, de certa forma, avisar sobre este local?

– Sim, em manuais codificados de tal forma que apenas uma minoria muito restrita fosse capaz de entender. Eles criaram textos complicadíssimos de propósito, justamente para que a maioria das pessoas desistisse ou nem tentasse compreender, por imaginar ser um processo extremamente difícil, ou até pura fantasia. Mas é tão simples, basta apenas ter uma vida correta e beber e se banhar em uma água puríssima, ionizada na mesma frequência das células. Os alquimistas até tentaram reproduzir esta água em laboratório, e até chegaram a resultados satisfatórios em alguns momentos. Algumas dezenas deles conseguiram sucesso, e o Lemann é um deles.

– E como o Lemann consegue vir aqui se banhar todos os dias?

– Você ainda não viu o disco voador dele.

– Ah tá…

– Bem, vamos continuar o passeio. Está vendo aquele castelo enorme no meio da cidade? Vamos até lá.

Nestor conduz o disco até as proximidades do castelo.

– Esse é o centro administrativo de Agartha. Neste majestoso castelo se reúnem todos os representantes de todos os povos que habitam Agartha. É onde acontecem todas as negociações. É onde todos os grandes conflitos são tratados e solucionados, onde são tomadas as decisões mais importantes. Somente os delegados podem entrar ali. Não é aberto para todos. Seu interior é imenso, lindo, iluminado, com as paredes e tetos ricamente adornados em ouro e afrescos muito coloridos. Todos os ambientes são levemente perfumados e sonorizados com uma música muito agradável. Há farta disponibilidade de excelentes alimentos, água muito pura e todo o tipo de estrutura para o bem estar de cada indivíduo. É realmente uma maravilha. É o mais próximo que se pode alcançar do que se imaginaria ser um verdadeiro paraíso.

– Que fantástico… mas… deixa ver se eu entendi… é neste local que as pessoas se reúnem para tratar de conflitos? Aí o cara vai estar em um SPA gigante pra tratar de encrenca… isso funciona?

– Por incrível que pareça, é o que mais funciona. Este é justamente um ambiente construído e elaborado para ser o lugar mais agradável que existe. Você vai querer brigar num lugar desses? Em hipótese alguma. Os delegados se reúnem, entendem que possuem interesses diferentes e, em um ambiente sem a pressão e o estresse de seus conterrâneos, chegam com muito mais facilidade a soluções mais inteligentes e efetivas, beneficiando os dois lados.

– Puxa, gostaria de poder ver uma reunião dessas…

– Provavelmente você participará de uma assembleia assim mais cedo do que imagina. Afinal, é neste local também onde são discutidas as várias formas de enfrentamento aos ataques dos Reptilianos e Greys e, como você vai ser o dirigente de um esquadrão de combate, certamente sua presença será requisitada em breve. Por isso, é melhor ir se preparando bem.

– Farei isso. E o que é aquela praça?

– A praça da cidade, nada de mais. Um local público de lazer e descanso.

– É imensa.

– Claro, Shamballah tem um milhão de habitantes, é óbvio que a praça precisa ser grande. Aliás, existem inúmeras outras praças espalhadas pela cidade, mas essa é a maior delas. Você vai ter muito tempo para passear nela, afinal, ela fica bem próxima ao seu alojamento. Vamos para aquele lado, onde tem aqueles prédios mais altos.

Nestor obedece.

– O que são esses prédios? Parecem igrejas.

– Exatamente. São os templos, mosteiros, mesquitas e igrejas. Centros religiosos de todas as fés de todos os povos que habitam Shamballah. Um mais lindo que o outro, todos em geral revestidos de ouro puro.

– E eles não se matam uns aos outros, como na Terra? – Nestor pensa se o termo "na Terra" era adequado, afinal, eles estavam na Terra, apenas em outra dimensão.

– Os povos que habitam Shamballah já superaram há muito tempo o egoísmo e a pretensão de serem donos da Verdade. Todos entendem que só existe um Deus, se você quiser chamar assim, e que cada um é livre para ter sua própria fé como desejar. Essa questão de brigar por causa de crenças religiosas é muito primitiva. Aqui, cada um tem sua fé, respeita os demais e constrói seu edifício de adoração do jeito que melhor entende. Tanto faz você ter um símbolo quadrado e o outro um redondo, o que importa é que os símbolos apontam para o mesmo Deus, e todos entendem muito bem isso.

– Aqueles pintados de vermelho parecem os templos budistas do Tibete.

– Os templos budistas do Tibete é que foram inspirados nestes templos vermelhos. Há milhares de anos, os antigos Tulkus, sacerdotes do Tibete, encontraram os túneis e chegaram a Shamballah. Eles passaram muito tempo aqui, em treinamento. Na verdade, alguns continuam vindo até hoje, pois os Tulkus ainda existem. O Dalai Lama é um Tulku. Todo o conhecimento sagrado ensinado lá fora, incluindo o Tantra, foi aprendido aqui. Depois esse conhecimento foi se adaptando, incorporando outras tradições, mas a raiz principal dos ensinamentos continua a mesma até hoje.

– Que fantástico…

– Vamos voltar, Nestor? Você vai ter muitas oportunidades para conhecer Shamballah, pois vai passar um bom tempo aqui.

– Está bem. Onde fica o túnel, mesmo?

– Naquela montanha, ao lado das cachoeiras, entre aquelas duas pedras gigantes.

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Minutos depois, o disco voador estaciona na garagem de Lemann. Nestor e Eloaton descem. Lemann demora a atender a porta, vestindo apenas uma bermuda. Sofia sai do banheiro, enrolada em uma toalha, visivelmente após um banho quente. Eloaton se espanta:

– Mas o que… Lemann, meu amigo, venha aqui, por favor. Preciso falar com você.

Lemann segue Eloaton até a biblioteca, e fecham a porta.

Nestor fica meio sem entender nada e demora a perceber o que aconteceu.

– Sofia? Você e o Lemann…

– Nestor, eu já sou bem grandinha. E você sabe que eu gosto de homens mais velhos.

– Dois mil e trezentos anos mais velho?

– Qual o problema? Tá com ciúmes?

– Não, desculpe, apenas me pegou de surpresa. Não tenho nada a ver com isso. Está tudo bem?

– Tudo maravilhosamente bem. Talvez um pouco assustada com isso tudo. Como foi o passeio?

– Muito bacana. Conheci um Siriano azul ki fãlã assssssimmmmm iskizituuuuuu…

– Hahahaha… e o que mais?

– A capital Shamballah é linda, você precisa conhecer também.

– Ah, sim, achei ela incrível quando a sobrevoamos. Certamente não faltará oportunidade para conhecê–la melhor. Quer um café?

– Quero, sim. Como será que estão se saindo o Julio e a Amanda?

– Boa pergunta. Talvez o Eloaton saiba, vamos perguntar a ele. Experimente esses biscoitos de gergelim, eles são ótimos! Só me dá um minuto, por favor, eu vou me vestir.

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– Lemann, você ficou louco? Você sabe que os Guardiões não podem ter contato com mulheres. O que deu na sua cabeça?

– Eloaton, eu sei, você tem razão. Mas ela estava ali, tão linda, deitada… Não tinha como resistir…

– Você sabe que eu, como Guardião de Ethoria 27B, deveria denunciá–lo, e que isso implicaria na sua suspensão por sete anos, ou a execução dela, não é? Entende a gravidade da situação?

– Eu sei, meu grande amigo. Foi uma fraqueza. Mas tente se colocar em meu lugar. Faz seiscentos anos que estou aqui, Eloaton. Seiscentos anos. Ainda estou encarnado como ser humano e tenho instintos humanos. Mas fique tranquilo, não vai acontecer novamente, ok?

– Tudo bem, é óbvio que não vou denunciar você. Vamos tentar resolver isso logo. Você contou a ela?

– Claro que não.

– Ótimo. Vamos fingir que nada aconteceu. Mas por favor, não tenha mais contato com ela, pelo menos enquanto você for Guardião de Shamballah, combinado? Além de tudo, ela é muito importante para nós dois e para a nossa missão. Você sabe que, se alguém descobrir, ela pode ser executada e nem eu, nem você queremos isso de jeito nenhum, em hipótese nenhuma, não é?

– Foi apenas uma fraqueza. Não vai se repetir.

– Ótimo. Vamos voltar para a sala. Não vamos mais tocar neste assunto.

Após um café rápido, Nestor, Sofia e Eloaton se despedem de Lemann e retornam para Shamballah. Eloaton não pode ficar muito tempo na terceira dimensão, pois isso consome demais a sua energia vital, portanto suas visitas sempre são muito curtas. Em Shamballah, Nestor passa rapidamente no alojamento para pegar sua mochila. Depois, os três seguem juntos para Ethoria 27B. Eloaton vai para sua casa laranja, enquanto Nestor e Sofia vão para o alojamento. No dia seguinte, após o café, Nestor retorna a Shamballah para iniciar seu treinamento.




A mais de vinte bilhões de quilômetros dali, a nave–mãe Grey continua em sua rota em direção à Terra. Ramazor, o Comandante Altíssimo, está sentado em sua cadeira de comando e controla, com grande rigor, todas as funções da nave. A Sala de Comando está isolada devido à quarentena de cinco ciclos imposta como forma de controlar a epidemia de diloraminose que se espalhou entre os tripulantes. Ninguém entra ou sai da Sala. Os alimentos são entregues por uma escotilha.

– Pondr, qual a situação atual da quarentena?

– Temos quatrocentos e noventa e dois milhões de tripulantes Greys em animação suspensa, nenhum deles com possibilidade de contágio por estarem isolados em suas cápsulas criogênicas. Dos oito milhões de tripulantes ativos, sete milhões e oitocentos mil estão em seus respectivos aposentos, em estágio total de isolamento. Temos cinquenta e dois mil casos de diloraminose diagnosticados até agora, com quatro mil e seiscentos óbitos. Já estamos no limite da capacidade de atendimento. Todas as enfermarias da nave estão lotadas e não temos mais leitos disponíveis. Os cento e quarenta e oito mil tripulantes restantes estão usando roupas e máscaras de proteção, e tomando o elixir que está racionado.

– Algum caso de rebelião contra as medidas sanitárias?

– Sim, senhor. Houve um motim com duzentos e vinte tripulantes que se negaram a usar as roupas e seguir as medidas de proteção. Eles fizeram protestos nos salões sociais e foram presos. Alguns estavam contaminados. Todos eles foram sumariamente alijados ao espaço.

– Perfeito. Ainda existem focos de resistência?

– Estamos monitorando as comunicações entre as teletelas e já encontramos alguns grupos em tentativa de organização. Os que conseguimos identificar já estão presos em isolamento total, sem comunicação alguma com o restante da nave. O problema é que desconfiamos que ainda existam movimentos que usam aplicativos de comunicação que não são detectados pelas nossas camadas de segurança.

– E como podemos saber que aplicativos são esses e como monitorar essa comunicação?

– Talvez tentando infiltrar perfis falsos aos grupos…

– Providencie isso. Ainda não terminamos o primeiro ciclo de quarentena e não podemos correr o risco de sermos surpreendidos com um motim de grandes proporções.

– Sim, senhor. A propósito, o chefe Rekkar de Arakenth gostaria de vê–lo, senhor.

– Avise–o de que só o atenderei por meio de videochamada pela teletela. Providencie isso também. Outra coisa, avise o cozinheiro de que, se ele me mandar novamente um prato de algas sem celerina líquida, eu vou deixá–lo no primeiro asteroide que encontrarmos.

– Imediatamente, senhor.


O QG Ethos

– Como vamos comprar os computadores para montar o QG sem levantar suspeitas, Julio?

Amanda está preocupada. A lista de equipamentos é enorme, tem um custo absurdo e alguém pode desconfiar, pondo em risco toda a segurança do projeto. A lista inclui cabos, computadores, impressoras, roteadores, sistemas de segurança e proteção contra descargas, antenas para conexão internet via satélite e para comunicação via rádio, mesas, cadeiras, estantes, monitores, sistemas de ar–condicionado, controladores de umidade, um gerador elétrico a gasolina, sistemas elétricos e de iluminação, além de um mini–bunker com prateleiras com estoques de comida e água. O projeto foi desenvolvido pelo Julio, pela Amanda e com a inestimável ajuda do croata Ikor. O laboratório será construído dentro de um container, a três metros de profundidade, cerca de cinco metros à frente da casa do Julio. É óbvio que uma compra de tantos itens de uma só vez pode levantar suspeitas.

– Não se preocupe, Amanda. Estou fazendo compras separadas, com identidades e endereços de entrega diferentes. Só precisaremos estar nos locais para receber. Estou programando as datas de entrega para que não ocorram no mesmo dia em lugares muito diferentes.

– E onde vamos guardar tudo isso enquanto montamos o laboratório no container?

– Os itens mais importantes, como os computadores, podem ficar aqui na cabana. O resto eu coloco ali no celeiro. A gente cobre com uma lona pra não ter problemas com goteiras.

– Vamos precisar ter cuidado com o pessoal que vem fazer a instalação do container…

– Pode deixar isso comigo, eu sei como fazer pra que ninguém veja nada.

– Tá bom, "Senhor Invisível" – caçoa Amanda – O dinheiro da venda daquele saco de ouro já entrou na conta?

– Deixa ver… hmm… É, já entrou sim. Cacilda, que é um montão de zero que nunca vi na vida! Já podemos começar a comprar tudo.

– Uhuuu!!! Isso merece uma cerveja!

– Já traz logo uma grade inteira com salgadinho e tudo que isso merece comemoração. Mas agora, vamos às compras. O primeiro item é esse aqui: dois supercomputadores de 50 petaflops cada, mais do que suficiente para o que precisamos no momento, e os respectivos no–breaks pra tocar esses monstros.

– E eu já estou chamando a retroescavadeira pra abir o buraco.

– Então, é isso aí, vamos começar a montar o Quartel General do Esquadrão Ethos!

Os dois comemoram brindando os copos com uma cerveja bem gelada.

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Dias depois, um serviço de entrega chega em uma casa na cidade de Anápolis. O entregador desce do carro, confere o endereço e pega a mercadoria. Julio está no portão, esperando.

– Senhor Reginaldo Pereira?

– O próprio. Chegou a encomenda?

– Chegou. Podes me dizer os primeiros dígitos do seu CPF?

– 93544…

– Confere. Tá na mão. Me ajuda aqui, por favor, que isso é pesado que é o cão. Comprou o que? Uma bigorna?

– São dois no–breaks redundantes ativos de 160KVA ligados em paralelismo por barramento dual, controlados por dispositivo eletrônico remoto automatizado.

– Eita que não precisa me xingar assim desse jeito não, sei lá que diacho que é isso. Caramba, que pesado.

– Vamos botar aqui, depois eu me viro.

– Tá certo. Assina aqui por favor. Obrigado por comprar com a gente, até mais.

– Obrigado, amigo, até a próxima.

Quase ao mesmo tempo, a duzentos e trinta quilômetros dali, um outro entregador chega a seu destino, em Formosa. Uma bonita moça ruiva está cuidando das plantas na frente de uma bela casa bem colorida.

– Bom dia. Dona Sueli?

– Bom dia, sim, sou eu. Chegaram os cabos?

– Chegaram. Fiquei curioso em saber o que a senhora vai fazer com tanto cabo.

– Eu tenho uma loja, é para revender.

– Ah, entendi. Deu trabalho encontrar esse tal cabo coaxial RG6. Faz tempo que a gente não vende isso. É pra vender também?

– É para um cliente que comprou uma antena pra internet via satélite e precisa conectar a antena com o roteador por uma longa distância, sendo parte do trecho subterrâneo, sem perder qualidade nem velocidade no sinal, e nem sofrer interferências de outros cabos que vão passar junto com ele, então, nesse caso, mesmo sendo uma tecnologia antiga, o cabo coaxial ainda é melhor que qualquer outro.

– Ah tá. Assina aqui, por favor.

– Podes por favor colocar aqui dentro desta caminhonete? Quero levar já para a loja.

– Claro, senhora.

– Muito obrigada.

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Dois meses depois, o sítio do Julio está exatamente igual a antes, a não ser por uma pequena torre de madeira com um mirante a poucos metros da casa. Visto de longe, é quase impossível ver as diversas antenas escondidas no mirante. Debaixo da torre, cerca de cinco metros abaixo do solo e debaixo de uma laje com quase dois metros de concreto armado, um complexo laboratório com computadores de última geração e todo tipo de parafernália eletrônica entra em operação, em um container protegido contra qualquer tipo de cataclisma, resistente inclusive a explosões nucleares, conectado à casa do Julio por um túnel bem lacrado com portas de navio. Julio, no alto do mirante, ajusta uma antena parabólica enquanto se comunica com Amanda por um rádio amador:

– E assim? Melhora ou desmelhora?

– Desmelhora. Melhor como estava antes.

– E agora? Piora ou despiora?

– Desp… Julio, para de brincadeira que você está me confundindo. Volta para como estava antes.

– Tá. E agora?

– Melhorou… mais um pouquinho… perfeito, mantém aí!

– Ok, princesa, fixando a antena nas coordenadas informadas. O sinal está chegando bem?

– Alto e claro como se o satélite daquele sul–africano estivesse aqui do lado. Mas o sinal dos satélites chineses ainda é mais forte. Tudo bem. Agora, desce e vem tomar teu café.

Dentro do laboratório, sob uma iluminação bem agradável e uma brisa na temperatura ideal proporcionada por um excelente sistema de ar–condicionado redundante, Amanda e Julio tomam um café e iniciam finalmente os trabalhos:

– Alô, alô, Nestor, câmbio! Excelente notícia! Terminamos! O QG Ethos já está operando normalmente. Aguardando instruções!

– Fala, Julio. Ótimo, vocês conseguiram terminar bem na hora. Temos pouco tempo, precisamos estar no Uruguai antes de quarta feira.

– Tá falando bonito, dotô. Não sei se você entende de geografia tanto quanto de economia, mas o Uruguai é meio longe daqui. Mas acho que dá pra chegar, sim. Qual é o babado?

– Com o carro que você comprou, dá pra chegar lá ainda hoje à tarde. Pega papel e caneta que tem bastante coisa. As armas já foram entregues?

– Chegam ainda hoje. Deu um trabalho danado comprar esse arsenal todo, sem deixar rastros, mas no fim deu tudo certo. A Amanda conhecia uns colombianos que…

– Por isso que você é o cara para as ações invisíveis.

– Tá bom, chefão. Enquanto isso, dá um beijo no Eloaton.

– Seria realmente uma experiência chocante e única, antes de cair eletrocutado. Como está a Amanda?

– Eu estou bem, Nestor. Nunca viajei tanto de carro como nos últimos dias. Bem cansativo. E eu não sabia que o Julio entendia tanto de tanta coisa… às vezes preciso esconder a solda elétrica dele. E a Sofia?

– Oi Amanda, eu estou bem. Saudades de vocês.

– A Sofia tem um namorado novo que é um pouco mais velho que ela.

– Ele não é meu namorado, seu fofoqueiro.

– Ô Nestor, tá com ciúmes, irmão?

– Já pegou o caderno, Julio?

– Tá na mão.

– Então anota aí:

E o Esquadrão Ethos se prepara para sua primeira missão: salvar o revolucionário Juan Ferdinando Mendez das milícias do presidente do Uruguai, um Reptiliano chamado Hugo Rodriguez.





As luzes coloridas do teto começam lentamente a parar de girar. Aquele som distante parecido com uma trombeta vai diminuindo aos poucos. Garganta seca. Dor de cabeça. Fome. Aos poucos, o tripulante Grey Palamedes vai recobrando a consciência.

– Maldito psilocybe mofado.

Ainda zonzo, levanta–se, toma água e busca algum alimento em seu depósito refrigerado. Senta–se à mesa e percebe sua teletela piscando. Ele liga a teletela para ver do que se tratava. Mensagens, dezenas delas. Talvez centenas. Ele deixa a teletela de lado, pois mal consegue ler os títulos. Se alimenta, bebe muita água, vai ao banheiro, toma banho e retorna. Senta–se na cama e liga novamente a teletela. As mensagens são do grupo de rebelião Grey. Lê superficialmente a maioria delas. São mais de duzentas. Então ele se dá conta do tempo que passou desacordado.

– Por isso eu estava com tanta fome e sede. Dormi um ciclo inteiro!

Uma das últimas mensagens chamou a atenção. O grupo estava organizando um gigantesco motim. Os cinco mil Greys participantes do grupo estavam prontos para saírem de seus alojamentos ao mesmo tempo, renderem a segurança e tomarem o controle da nave, alijando ao espaço os mil e duzentos Greys Chefes atualmente no comando, incluindo o tirano Ramazor e seu papagaio–de–pirata Pondr. O movimento está combinado para acontecer precisamente às vinte e duas horas do atual ciclo, momento em que normalmente ocorre a troca da guarda.

– É daqui a meia hora – Espanta–se Palamedes. Ele tenta entrar em contato com o seu amigo Korgg pela teletela. O rosto do amigo aparece sorrindo.

– Voltou do passeio? – Pergunta Korgg.

– Eu te pego, desgraçado. Você me vendeu psilocybe mofado. Dormi um ciclo inteiro.

– Ué, não era isso que você queria?

– Como é essa história? Daqui a meia hora? Onde? O que é pra fazer?

Korgg desliga a chamada sem responder. Em alguns segundos, Palamedes recebe uma mensagem de texto:

“Eles estão monitorando as videochamadas pela teletela, mas não conseguem controlar mensagens de texto enviadas diretamente de uma teletela para outra. Só podemos conversar por aqui.”

Palamedes responde dizendo que entendeu, e Korgg repassa as informações do que deveriam fazer, onde se encontrar e qual o plano todo.

Palamedes se veste. Apenas os Greys das forças de segurança e os Chefes podem usar armas, mas todos os tripulantes Greys podem ter facas em suas cozinhas. Mas a sua missão era diferente. Ele sabia o que fazer, para onde ir e o que levar. Faltavam apenas dois minutos. Pronto, de pé, ele espera na frente da sua porta pelo momento que tanto esperou a vida toda: a sua vingança contra os malditos Chefes Greys!

Primeira missão: salvando Mendez

– Já estamos em segurança, señor Mendez. Pode sair daí.

Mendez ainda aguarda alguns minutos antes de sair de baixo da pesada lona que o sufocava.

– Tivemos sorte. Pensei que eles tentariam revistar o caminhão.

– Eles estavam procurando por algo errado, então mostrei o carregamento clandestino de cigarros, dei um pacote para cada um e eles me deixaram seguir, pensando que era só isso.

– Muito inteligente de sua parte, Pablo. Estou muito agradecido pela sua ajuda. Eles estão me caçando por todos os lados. Onde estamos?

– Saímos de Montevidéu pela Ruta 8, passamos a polícia rodoviária, estamos a meio caminho de Solís de Mataojo. Lá você estará seguro, ninguém o conhece. Está com fome?

– Muita. Há dois dias só bebo água.

– Logo à frente tem um parador, é um lugar grande e bastante movimentado, não vão reconhecê–lo, ainda mais agora que você fez a barba. Tome, use este boné, e tire essa jaqueta de guerrilheiro. Vista este meu casaco.

– Pensei que nada no mundo poderia ser mais fedorento que a minha jaqueta, mas vejo que vou precisar me esforçar um pouco mais.

– Então é melhor ficar com seus coturnos, pois você não sobreviveria com as minhas botas. Estamos chegando.

Os dois amigos descem do caminhão, estacionado no pátio do Parador, onde entram e sentam–se a uma mesa em um canto. Logo chega uma garçonete para anotar os pedidos.

– Um café e um chivito para mim, por favor.

– Pra mim, um medio y medio e uma milanesa.

– Trago em um minuto, fiquem à vontade.

Mendez pega um jornal para ler as notícias, enquanto Pablo dá uma olhada em seu celular.

De repente, sem qualquer aviso ou licença, uma moça senta–se ao lado de Mendez, que em um sobressalto já segura em sua arma.

– Sou amiga, Mendez, não se preocupe. Estou aqui para te ajudar. Preciso te contar algumas coisas.

– Quem é você? E como sabe quem eu sou?

– Meu nome é Amanda, sou brasileira e sabemos, de fonte segura, sobre algumas intenções do Hugo para te prejudicar.

– Você é espiã?

– Hugo quer explodir uma bomba na feira de Montevidéu, e vai colocar a culpa em você. Também vai tentar contratar algumas mulheres para que venham a público falar que você as maltratou e roubou. E, por último, vai tentar matar você.

– Que ele está tentando me matar, até o Papa sabe.

– Mas ele tem um plano. É uma emboscada. Eles os deixaram passar pela barreira policial de propósito. Eles os estão esperando em Solís de Mataojo, onde é mais fácil desaparecer com os corpos e com o caminhão.

– Isso faz todo o sentido! Mas como você sabe?

– Neste momento, a única coisa que você pode fazer é confiar em mim. Eles vão adicionar flúor na água, como uma estratégia para manter as pessoas mais “dopadas”, o que enfraquecerá a rebelião.

– Flúor na água? Como os nazistas?

– Precisamente. Este comando já foi dado, mas conseguimos interceptá–lo, pelo menos por enquanto. Veja aqui:

Amanda mostra um documento assinado pelo presidente Hugo, ordenando o aumento da taxa de fluoreto nas estações de tratamento de água.

– Ele expediu esta ordem ontem de manhã. Provavelmente até o final da semana ele perceberá que a ordem não chegou às estações, então temos pouco tempo para agir.

– Por que você está nos ajudando? O que você quer?

– Neste momento, basta saber que o Hugo é um inimigo comum. O que vocês precisam fazer agora é sair daqui como se nada houvesse acontecido e continuar a viagem rumo a Solís de Mataojo. Daqui a cinco quilômetros, logo depois de um outdoor, tem uma estrada de terra, à direita. Estaremos lá em um carro branco, esperando vocês.

Amanda se levanta da mesa e sai, deixando Mendez e Pablo boquiabertos.

– Devemos acreditar nesta chica?

– O que ela diz faz sentido. Se quisessem nos raptar, não teriam esse trabalho todo. E se seguirmos viagem normalmente, poderemos estar indo rumo à morte. Não creio que ela esteja armando uma emboscada. Vamos comer e ir a seu encontro.

Meia hora depois, Mendez e Pablo saem do estacionamento e seguem pela Ruta 8 normalmente, conforme o combinado. Mas, logo ao entrar na estrada, Mendez percebe que um carro os está seguindo.

– Aquele carro preto lá atrás, ele está nos seguindo. Poderia andar mais rápido, se quisesse. Está devagar para acompanhar, de longe, nosso caminhão.

– E o que vamos fazer? Vamos despistá–lo?

– Não. Estamos em desvantagem. O caminhão é lento e difícil de manobrar. Eles nos alcançariam em qualquer circunstância, e estamos no meio da estrada. Vamos seguir.

– Veja, acho que é aquele outdoor ali. Tem uma rua de terra à direita depois dele.

– Entre nessa rua. Vamos descobrir se é ou não uma emboscada – Mendez tira sua pistola e se prepara para o confronto.

O caminhão dobra na estrada de chão. A poucos metros, estacionado sob umas árvores, está o tal “carro branco”: um Mustang Mach 1. Pablo manobra o caminhão, deixando–o atravessado na estrada, bloqueando a passagem e, imediatamente, descem correndo do caminhão e entram no Mustang, avisando:

– Estamos sendo seguidos!

O carro preto entra na estrada e é obrigado a parar. Descem dois homens vestidos de preto com óculos escuros, atirando. Mendez atira também contra eles, atingindo o caminhão. O Mustang sai em disparada, chegando a 100km/h em cinco segundos.

– Foi ótimo ter trancado a passagem com o caminhão, assim ganhamos algum tempo. Ah, meu nome é Julio.

– Muito prazer, mas dá pra andar mais rápido?

– Ah, dá sim – Julio acelera o Mustang a 140 km/h, quase voando sobre aquela pequena ruela empoeirada.

– Aonde vai dar esta rua? – Pergunta Pablo.

– Em uma outra estrada, asfaltada, que vai se conectar com a Ruta 9. Depois pegaremos a Ruta 70 em direção a Cuchila Alta. Lá tem um barco nos esperando – Explica Amanda.

Minutos depois, o Mustang entra na tal estrada asfaltada.

– Bem, vamos ver se essa coisinha aqui sabe correr mesmo – E pisa fundo, chegando a 180 Km/h. Em dois minutos, entram na Ruta 9, bem mais ampla, onde o Mustang podia desenvolver tranquilamente uns 220Kmh.

– Julio, como é dirigir um Mustang depois de sofrer décadas com aquele velho jipe de placa amarela? – Pergunta Amanda, com um certo receio a respeito das habilidades de Julio.

– É a coisa mais legal do mundoooooooo!!! Mas tem uma desvantagem…

– Qual?

– Com o jipe, eu era invisível. Esse carro aqui chama muito a atenção. Preciso dar um jeito nisso. Ei, parece que os despistamos.

– Sim.

Julio diminui a velocidade e encosta nos fundos de um velho posto de gasolina.

– O que você vai fazer?

– O pior negócio que já fiz em minha vida – Julio desce e vai falar com o dono do posto.

Minutos depois, Julio aparece, dirigindo um carro tão velho que parecia que ia se desmontar.

– Julio, o que você fez?

– Um péssimo negócio. Troquei um Mustang de cento e cinquenta mil dólares por um carro que não vale um ovo. Venham, entrem. Cuidado com o tétano.

O dono do posto dava pulos de alegria. Conforme previamente combinado, ele esconde o Mustang em uma garagem. Enquanto isso, os quatro se acotovelam dentro do novo veículo e seguem, em direção a Cuchila Alta. Cerca de dez minutos depois, uma caravana de carros pretos passa por eles, a toda velocidade, sem nem tomar conhecimento de sua existência.

– Julio e sua incrível capacidade de ficar invisível – suspira Amanda.

– É, despistamos esses hijos de un perro pra valer mesmo. Jamais vão desconfiar da gente nessa geringonça.

– Amigos, estou impressionado com vocês. Se tivéssemos seguido nossos planos, a esta hora estaríamos mortos. Onde vocês aprenderam essa malandragem toda?

– Meu caro Mendez, se você morar dois anos no Brasil e sobreviver, vai ficar mais esperto que a gente. Vejam, estamos chegando no trevo da Ruta 70. Abaixem–se, tem uns carros pretos ali.

Mendez e Pablo se amontoam no banco traseiro, enquanto Amanda joga uma coberta sobre eles, e começa a discutir alto em espanhol com o Julio, que não entende nada, só responde “disculpa, perdón…”

Ao passar pelo bloqueio, os homens de preto pensam que é só um casal debilóide discutindo e os deixam passar, sem suspeitar de nada. Mendez se segurava para não rir. Depois da primeira curva, Mendez e Pablo se levantam.

– Vocês são fantásticos. Me mato de rir. Vocês precisam nos ensinar algumas técnicas.

– E onde você aprendeu tantos palavrões em espanhol? – Pergunta Pablo.

– Eu morei um tempo na Colômbia, junto com narcotraficantes do Clã do Golfo. Aprendi a usar um fuzil, a pilotar aviões, a atravessar fronteiras com dois quilos de drogas sem levantar suspeitas e também alguns palavrões.

¡Ai, caramba!

– Chegamos. Qual é o nosso barco, Amanda?

– Na verdade, são quatro barcos iguais. Cada um de nós irá em um deles. Nos encontraremos no farol da Isla de Lobos, em duas horas.

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Em uma belíssima tarde ensolarada, quatro lanchas partem da paradisíaca e tranquila praia de Cuchilla Alta, no Uruguai, rumo à Isla de Lobos. Em cada lancha, um piloto e um dos nossos heróis: Amanda, Julio, Mendez e Pablo. Nestor dá instruções pelo rádio:

– Vocês estão a pouco mais de cinquenta quilômetros da ilha. Mantenham distância de pelo menos 300 metros entre cada lancha. Ao chegar na ilha, dirijam–se à ponta mais ao norte, onde tem uma praia, pois quase todo o resto da ilha é terreno pedregoso e de difícil acesso.

– Copiado, capitão. A propósito, tu sabe que pra pilotar barcos a gente fala em milhas e não em quilômetros, né?


– Tomem cuidado a dois quilômetros à sua frente, pois tem um iate de passageiros ancorado.

– Tá na mira, compadre. Por enquanto, tudo safo por aqui.

– Fiquem alertas. Esses caras aí não brincam em serviço. Quando aportarem na ilha, dirijam–se ao farol e continuem por mais uns cem metros para o meio da ilha, onde tem uma clareira circular bem grande. Estou aqui nesta clareira aguardando vocês.

E as quatro lanchas continuam tranquilamente o trajeto em direção à Isla de Lobos. Cerca de vinte minutos depois, Nestor chama novamente:

– Pessoal, fiquem em alerta total, tem um helicóptero não identificado saindo do aeroporto Laguna del Sauce e indo em direção a vocês.

– Entendido, capitão! – imediatamente os quatro guerreiros abrem as sacolas que já estavam previamente em cada uma das lanchas, tirando de dentro armas de grosso calibre e se preparam para enfrentar o inimigo aéreo. Amanda comanda:

– Mendez, saia da segunda posição e fique na ponta, a trezentos metros depois da minha lancha.

Mendez segue as instruções. Agora, a lancha mais ao norte levava Pablo, depois Julio, Amanda e Mendez.

– Já consigo ver o helicóptero. Preparem–se! – Avisa Julio.

O helicóptero se aproxima da primeira lancha, onde está Pablo, e abre fogo. Pablo responde com sua metralhadora, mas ele e o piloto são atingidos. O helicóptero dispara um míssil na lancha, que explode e afunda, em chamas. O inimigo aéreo se dirige à segunda lancha, onde está Julio, que já o recebe com as boas vindas de uma Barret M82A1 .50 novinha em folha. Um dos tiros estraçalha o vidro frontal esquerdo enquanto outro atinge um dos atiradores que estavam do lado de fora do helicóptero e ele cai no mar. O helicóptero faz uma manobra para que o outro atirador, do outro lado, tivesse um campo melhor de visão, enquanto Julio pega uma M60 7,62mm e já começa a atirar contra o helicóptero. A chuva de tiros foi tão grande que o helicóptero se afasta, faz uma volta e se dirige à lancha da Amanda, que já o esperava com a sua própria M60. Mas Amanda, com seu treinamento em guerrilha, deita–se no convés e apoia a M60 no bordo da popa da lancha, obtendo assim uma estabilidade e uma precisão muito maior para atirar. E abre fogo, antes que os inimigos atirem.

Amanda acerta uma rajada inteira no helicóptero, que começa a fazer fumaça e a voar em círculos, sem direção. Aparentemente, ela atingiu um dos pilotos. Ela sabe que deve ter outro piloto na aeronave e que logo ele assumirá o controle, então ela se prepara para um novo combate. Mas um dos atiradores do helicóptero dispara contra a lancha de Amanda e acerta o piloto, que cai no mar.

Amanda rapidamente assume o leme da lancha e passa a correr em ziguezague, para dificultar a mira dos atiradores. Julio e Mendez se aproximam para dar cobertura, disparando contra ambos os lados do helicóptero, que se afasta.

– Já estamos perto da ilha. Vamos para o norte!

As lanchas obedecem o comando de Julio, mudando o trajeto. O helicóptero os acompanha de longe, ainda soltando muita fumaça e voando devagar. Alguns minutos depois, as três lanchas aportam na pequena praia ao norte da Isla de Lobos e os três sobem correndo em direção ao farol. Mas havia uma cerca eletrificada com um portão de três metros de altura que impedia o acesso.

– Ih, lascou–se! Tu não viu que tinha essa tela aqui, ô mané?


Nestor responde pelo rádio:

– Não, eu pousei aqui na clareira e não fiz todo o reconhecimento da ilha. Tentem encontrar um caminho alternativo.

Mendez aponta para o lado:

– Por aqui, aquela mureta de concreto tem uma calha atrás para água da chuva e podemos passar por ela.

– Que maravilha termos um guia turístico local.

E rapidamente passam pela apertada brecha de segurança. Nestor coordena:

– Aqui na ilha só tem dois lugares onde o helicóptero pode descer: no heliporto que está bem à direita de vocês, ou aqui nesta clareira onde eu estou com o veículo camuflado. Se eles pousarem aqui, azar deles. Provavelmente vão pousar no heliporto do farol. Vocês estarão em vantagem pois estão em um local mais alto. Preparem uma emboscada, ficando um de cada lado da escadaria de acesso.

– Ô meu filho, por que raios você não vem com o aparelho aqui e acaba logo com eles?

– A última coisa que queremos é que os lagartos descubram que tem alguém com um tic–tac combatendo eles.

Julio entende a gíria que Nestor usa, para evitar que o Mendez entendesse a mensagem, pois o guerrilheiro também estava escutando.

– Entendido, capitão. Deixa conosco. Amanda, você e o Mendez ficam ali, atrás daquela mureta do lado esquerdo. Eu fico do lado de cá, e vou chamar a atenção deles. Quando eles estiverem de costas, abram fogo.

– Mas você estará na linha de tiro…

– Relaxa que eu sei como ser invisível.

O helicóptero aterriza no heliporto, com grande dificuldade e já em chamas. Descem quatro milicianos, que se dirigem à escadaria de acesso ao farol. Eles sobem em posição de defesa: um apontando para a frente, dois para os lados e o último cobrindo a retaguarda. Sobem rapidamente, param um pouco no primeiro descanso e seguem até o segundo descanso, já bem perto do final da escadaria. O helicóptero explode, chamando a atenção dos mercenários. Então, uma metralhadora começa a disparar contra eles, que se abaixam e tentam se proteger atrás da mureta de pedra. Quando acaba a munição da metralhadora, eles se levantam, atirando na direção dos tiros, mas logo percebem que não havia ninguém ali: a metralhadora foi programada para disparar sozinha.

Três disparos certeiros abatem três dos milicianos. O quarto pula para fora da escada e se esconde entre os arbustos.

– Vamos, não podemos perder tempo! – o grupo corre em direção ao farol e segue pelo caminho indicado pelo Nestor. Mas antes de chegar à clareira, o último miliciano os alcança e dispara sua metralhadora. Os três jogam–se no chão e respondem. A troca de tiros continua por alguns minutos, com trocas estratégicas de posições, até que Julio se levanta de trás de uma pedra e dá um tiro à queima–roupa com sua velha Yildiz calibre 12, jogando o soldado de uniforme negro dois metros para trás. O mercenário ainda ergue sua pistola e mira contra Julio, mas Amanda salta gritando sobre o inimigo, quase encosta sua metralhadora na cabeça dele, atira e não para até o último tiro.

Amanda joga a metralhadora para o lado, cai de joelhos e chora compulsivamente. Julio e Mendez não entendem o motivo da ferocidade do ataque da ruiva. Julio se aproxima e a abraça, que explica, ainda aos prantos, soluçando e quase gritando:


– Meu ex–marido era um dos chefes do Clã do Golfo. Eu vi ele ser metralhado na minha frente. A pessoa que eu mais amava no mundo, ali, a poucos passos, morrendo, sem que eu pudesse fazer nada, nem gritar, nem fazer nenhum barulho. E agora a cena quase se repete. Eu não posso deixar, de jeito nenhum, que alguém faça mal para você, Julio. Não vou deixar. Não, enquanto estiver viva. Desculpe, mas agora eu me sinto vingada. Eu me vinguei da morte do meu ex–marido, que também se chamava Julio. Ele também se chamava Julio! Não quero perder você também. Entende agora?

Julio abraça Amanda, que retribui o abraço com todas as forças. Mendez coloca as mãos nos ombros dos dois. E os abraça também.

Nestor se aproxima dos três. Aperta a mão de Mendez e se apresenta.

– Sinto muito pelo seu amigo. Infelizmente, a estratégia de fugir em quatro lanchas, ao invés de uma, deu certo. Vocês quatro poderiam estar mortos, agora.

– Também sinto muito. Pablo era um grande amigo e fará muita falta. Mas a vida é assim mesmo, cedo ou tarde perdemos pessoas queridas. Quero agradecer de coração a ajuda que vocês nos deram. Ainda não entendi o motivo de sua luta contra Hugo, mas estou grato por estarmos do mesmo lado.

– Seus homens estão vindo para resgatá–lo e já aportaram na praia. Aqui neste envelope tem algumas coisas que sabemos das estratégias de Hugo contra vocês e algumas dicas para resistir. Não sei se nos veremos novamente. Desejamos sucesso em sua luta.

– E vocês voltam conosco? Vamos fazer uma festa para comemorar a batalha de hoje. Quando um dos nossos morre, nós celebramos em sua homenagem…

– Somos muito agradecidos, mas temos outro meio de transporte e outros compromissos. Vá em paz, amigo.

Mendez se despede do grupo e é recebido pelos seus companheiros, que já estavam no farol. Mendez conta a todos o que aconteceu nas últimas horas, enquanto um pequeno objeto luminoso risca os céus em direção ao norte, sem chamar a atenção de ninguém.



Pondr monitora com cuidado tudo o que acontece na gigantesca nave–mãe Grey. Ele sabe que um motim está prestes a acontecer. Duzentos rebeldes já foram alijados ao espaço, mas há indícios de que uma rebelião muito maior já está em curso. Ele toma todas as providências possíveis, monitorando as ações suspeitas nas redes de comunicação da nave, interceptando mensagens, infiltrando espiões e posicionando a guarda em locais estratégicos. Mesmo assim, ele sabe que a guarda não poderá deter uma rebelião muito numerosa e organizada.

A porta de Palamedes se abre. Ele sai rapidamente pelo corredor, rumo ao andar superior, onde seu companheiro Korgg o espera. Ele poderia estar armado com uma faca, como os quase cinco mil rebeldes restantes, mas Palamedes tem uma missão diferente. Em vez de uma faca, ele leva consigo apenas um inocente saco de fertilizante químico, apenas um quilo de nitrato de amônio, usado normalmente na estufa de cultivo de alimentos, onde trabalha.

Ao mesmo tempo, milhares de portas também se abrem. Tiros, gritos, caos completo por todos os lados. Mas Palamedes segue firme, se esquivando de todo e qualquer obstáculo. Logo chega ao andar superior. Korgg o cumprimenta com um aceno de cabeça e os dois seguem rapidamente em direção ao sistema de ventilação da nave. Korgg tem a chave do setor, pois é um dos responsáveis pela filtragem do ar do quadrante A–25. Eles entram em silêncio no sistema de dutos, enquanto a nave inteira se debate em uma guerrilha sangrenta.

Os dutos de ventilação são amplos. A dupla segue correndo por eles e, cerca de um quilômetro à frente, alcançam seu destino: a ponte de comando.

Os dois se arrastam, tentando não fazer barulho, enquanto uma balbúrdia sem precedentes acontece logo abaixo deles. Uma guarnição fortemente armada, com cerca de duzentos soldados, protege o acesso à sala de comando da nave. Mas a dupla passa por cima deles, desce por uma escada lateral e alcança uma pequena sala de máquinas, cheia de motores, engrenagens e sistemas hidráulicos. Ela também tem grandes cilindros de gás para suprimento de emergência de oxigênio e amônia.

Palamedes coloca o saco de fertilizante junto aos cilindros de gás. Korgg prende um pequeno dispositivo no pacote – um daqueles isqueiros a gás controlados à distância para o aquecimento das células criogênicas – e os dois se afastam para uma área segura. Aguardam o momento combinado e Korgg aciona o dispositivo, causando a explosão do fertilizante, que explode também os cilindros de gás.

A Nave G–48 chega a tremer com a potência da explosão. Parte da sala de comando é destruída. O ar se torna rapidamente irrespirável. Porém, não havia ninguém na ponte: todos os Chefes já estavam em segurança no bunker do andar de baixo.

Os corredores de acesso à ponte são tomados por fumaça. O fogo ilumina a escuridão. Falta total de energia. Metade da brigada destacada para defender a ponte foi dizimada pela explosão. Algumas portas internas ficam danificadas, mas as de acesso à ponte são lacradas automaticamente. Os soldados voltam a se organizar, tomam posição em três níveis de altura e se preparam para o confronto. É possível escutar centenas, talvez milhares de rebeldes correndo pelos corredores e se posicionando para o ataque. De repente, total silêncio.

Os soldados tentam enxergar alguma coisa atrás da fumaça. Cabos em curto soltam faíscas. Uma única lâmpada pisca. Nenhum movimento. Silêncio completo por um período que parecia uma eternidade. De repente, é possível ver umas luzes vermelhas piscando e se aproximando em grande velocidade. Era um veículo de transporte. A brigada abre fogo, mas o veículo é grande, pesado e atropela a brigada inteira como se ela nem existisse. Logo atrás do veículo desgovernado, uma massa de rebeldes avança e ataca com facas, porretes, canos de aço, ferramentas e qualquer coisa que pudesse ser usada como arma.

Os soldados sobreviventes reagem, mas é uma quantidade muito grande de rebeldes. O chão se enche com uma camada de corpos e a luta dura pouco mais de meia hora. Os rebeldes vencem. Comemoram com alegria e se dirigem à porta de acesso à ponte de comando. A porta está travada por dentro e não há como abrir por fora. Eles sabem que podem entrar na sala pelo rombo causado pela explosão dos cilindros de gás, mas precisariam fazer uma volta muito grande para chegar lá. Eles precisavam entrar rápido, então, pegam uma arma laser de um dos chefes da guarnição para destruir a porta.

Com a defesa vencida, os pouco mais de trezentos rebeldes restantes baixam a guarda e se aproximam, enquanto a porta de acesso é alvejada. O alvoroço é grande, a vitória é certa. Eles se preparam para entrar na sala, liquidar os Chefes restantes e assumir o controle da Nave. Um misto de expectativa e comemoração contamina a todos. Corações acelerados e a pele cinza suando amônia. Finalmente! Os Greys nunca estiveram tão perto de se livrar dos Chefes!

Nisso, uma porta se fecha, lá no fim do corredor, prendendo todos os rebeldes nesse espaço. Não há uma saída alternativa, a não ser o rombo na parede que leva à sala das máquinas. A porta da ponte está lacrada e não abre por dentro. Eles percebem que podem ter caído em uma armadilha, mas é tarde. Uma grande escotilha lateral se abre, sugando todos os amotinados para o espaço, somado aos milhares de corpos amontoados no corredor e todos os escombros gerados pela explosão dos tanques de gás.

Após alguns minutos, a escotilha se fecha. O corredor tem seu suprimento de ar reposto. As duas portas se abrem. Pondr entra pelo fim do corredor, escoltado por uma pequena guarnição, enquanto Ramazor entra pela porta da ponte. Eles vistoriam todo o corredor. Ramazor ordena:

– Alguém explodiu os cilindros de gás do sistema de ventilação. Cinco mil Quaarks para quem encontrar o traidor! Vão agora!

Os guardas se olham e saem imediatamente correndo pelos corredores.


Avaliação da primeira missão

As luzes douradas do sol poente iluminam os salões do Palácio do Governo de Shamballah. Sentados a uma velha mesa de madeira estão Eloaton, Krzovv, Lemann, Nestor, Julio, Amanda e Sofia. Após um primeiro bate–papo informal, Eloaton toma a palavra:

– Prezados, estamos aqui reunidos para avaliar a primeira missão do Esquadrão Ethos. Nossos quatro combatentes tinham a missão de sabotar os esforços do Reptiliano Hugo em assassinar o revolucionário Mendez. O presidente Hugo busca manter seu poder no Uruguai, dizimando as forças revolucionárias contrárias a ele. Meu caro Krzovv, gostaríamos de conhecer suas avaliações a respeito do sucesso da missão.

Krzovv se acomoda na cadeira, pensa um pouco, olha cada um dos presentes nos olhos e começa a sua avaliação:

– Vamos voltar um pouco no tempo. Quando o nobre companheiro Eloaton me comunicou que havia encontrado quatro possíveis candidatos ao esquadrão de defesa de Ethoria 27B, eu confesso que exagerei nas minhas expectativas. Eu pensei que ele traria a mim quatro brilhantes e notáveis combatentes, com a experiência e o conhecimento minimamente necessários para essa missão, mas percebi que me enganei até no último dos pré–requisitos.

Todos se remexem em suas cadeiras.

– Vou avaliar a missão como um todo e depois cada um dos integrantes individualmente. Na verdade, essa missão era apenas um teste para sabermos o nível de habilidades de cada um. O objetivo principal era salvar o revolucionário Mendez da emboscada do Reptiliano Hugo. Muito bem, esse objetivo foi alcançado. Porém, a que preço?

Até Eloaton parece ter ficado desconfortável, esfregando suas mãos.

– Vamos avaliar da forma mais imbecil possível: os números. Qual o número de mortes que aconteceram? Ah, foram três baixas do nosso lado e seis do lado deles, correto?

Nestor faz um leve consentimento com a cabeça.

– Bom, em um primeiro momento, o fato de ter havido o dobro de baixas no lado adversário pode aparentar uma vantagem para o nosso lado. Mas essa é uma avaliação rasa e não representa exatamente a vitória que esperávamos. A melhor vitória ocorre quando não existem baixas. Nós não desejamos a morte de ninguém, nem mesmo dos nossos adversários. Gostaria de lembrar que não somos inimigos dos Reptilianos nem dos Greys, mas sim adversários neste grande conflito. Não desejamos a morte deles. Desejamos que eles tomem consciência do mal que estão causando em todos os planetas que invadem e que parem de causar mortes, sofrimento e destruição. Em uma guerra, todos perdem, mas quando conseguimos sentar a uma mesa e negociar os interesses sem causar mortes, então há ganhos em ambos os lados.

Krzovv respira novamente, toma um gole de água e continua:

– Nestor definiu uma estratégia brilhante para a missão: interceptar o caminhão onde estavam Mendez e Pablo e fugir por uma via alternativa, o mais rápido possível, para chegar à praia mais próxima e seguir em quatro lanchas para uma ilha, onde Mendez encontraria seu grupo em segurança e o restante voltaria para o QG no disco voador. Como havia o perigo de confronto em todas as etapas da missão, o grupo estava munido de armamento pesado para qualquer necessidade. E essas armas precisaram ser usadas, pois em quase todos os confrontos, quem atirou primeiro foi o adversário.

Nova pausa e Krzovv prossegue:

– Os Reptilianos e os Greys são muito numerosos. Podemos estimar que existam cerca de cem mil vezes mais Reptilianos e Greys do que o total de humanos no Universo. Se mantivermos a mesma proporção de perdas em todas as batalhas, toda a civilização humana será dizimada e os adversários perderão uma fração desprezível de seu contingente, entendem esse raciocínio?

Todos concordam. Krzovv conclui:

– Vamos lembrar ainda que os oponentes que vocês enfrentaram não eram Reptilianos nem Greys, mas sim humanos mercenários contratados por eles. Ou seja, em última análise, a humanidade perdeu nove integrantes enquanto eles não tiveram nenhuma baixa. A maior estratégia dos Reptilianos é dividir o inimigo e usá–lo contra ele mesmo, é usar o inimigo para escravizar a si mesmo, é enriquecer e acumular cada vez mais poder usando o próprio inimigo para gerar essa riqueza e esse poder. Não vai ser através de guerras mortais que nós conseguiremos enfrentá–los, mas sim, usando o que temos de melhor: inteligência e estratégia. Falando nisso, Nestor, você leu o livro que lhe indiquei semana passada?

– Sim, a Arte da Guerra. Li cuidadosamente cada capítulo e fiz uma ficha de leit…

– Muito bem. Você entendeu que a melhor vitória é quando não existe o combate?

– Entend…

– E você acha que conseguiu elaborar uma estratégia boa o suficiente para não haver combate?

Nestor enrubesce e se cala, baixando seus olhos para sua mochila, onde aparecia o dodecaedro romano presenteado por Lemann.

– Sendo totalmente franco com vocês, seu desempenho foi um total desastre. Houve perda de vidas, um absurdo desperdício de recursos e riscos potenciais de que os Reptilianos descobrissem a existência de um esquadrão de combate organizado pessoalmente por um dos Guardiões de Agartha, um reino conhecido e respeitado em todo o Universo por sua imparcialidade e neutralidade. Vocês imaginam o tamanho do problema que isso acarretaria?

Silêncio sepulcral de alguns minutos.

– O nobre colega Eloaton me trouxe pessoalmente o jovem Nestor para que fosse treinado em Estratégia por mim, garantindo que ele tinha um brilhante talento que apenas precisaria ser aperfeiçoado. Pois bem, eu fui muito gentil e apenas lhe passei a leitura de um livro para que ele fizesse um resumo. Coisa de jardim de infância. Confesso também que foi uma forma hábil que encontrei para mantê–lo ocupado enquanto eu resolvia problemas bem maiores, como o fato de ter uma Nave–mãe Grey fortemente armada entrando no nosso sistema solar neste exato momento. Minha avaliação é que o jovem Nestor não entendeu uma palavra sequer de um livro que pode ser lido em uma hora e que, comparado ao mínimo de habilidades necessárias para um bom desempenho estratégico, seria algo como um grão de areia em relação à Pirâmide de Quéops no Egito. Por acaso Nestor já esteve em algum campo de batalha? Já lutou numa guerra? Já teve combatentes sob seu comando? Já elaborou um plano estratégico eficiente o suficiente para levantar da cama e ir até o banheiro sem mijar nas calças? Desculpem–me, Eloaton e Nestor, mas tenho coisas bem mais importantes a fazer do que perder tempo ensinando um peixe a nadar.

Nestor se encolhe em sua cadeira. Não havia nada que pudesse dizer em sua defesa. Krzovv tinha total razão.

– Quanto ao “Senhor Invisível”, nobre colega Julio… Parece que vocês não ficaram tão invisíveis assim. O fato de ter trocado o carro mais rápido do mundo por uma lata velha será motivo de piada nos quatro milhões de planetas habitados pertencentes à Ordem Universal pelo resto da eternidade. Quer saber como ficar invisível de verdade? Diga–me onde está o Eloaton neste exato momento.

Julio olha para a cadeira onde Eloaton estava sentado, mas ela estava vazia.

– Ué, ele estava bem ali agora mesmo…

– E não está mais?

– Tá não…

– Eloaton, mova um braço.

Sofia foi a única a perceber o movimento, idêntico àquele episódio da Harpia no jardim defronte a casa laranja de Eloaton, em Ethoria 27B.

– Tá, só a Sofia conseguiu te enxergar. Pode ficar visível de novo.

Eloaton aparece novamente, na cadeira.

– Como ele fez isso? – pergunta Julio.

– Tornando as moléculas do meu corpo mais sutis, em uma frequência levemente mais alta, acima da capacidade de visão de seus olhos. Se você usasse uma câmera de infravermelho poderia me ver normalmente. Um truque bem fácil de fazer, basta controlar sua própria energia e a vibração de suas moléculas.

– Então, pelo jeito, o Julio não é tão invisível quanto acha que é. Vai precisar de uma década de treinamento para conseguir fazer esse truque simples, ensinado para as crianças nas escolas infantis de toda Agartha. Só que não temos uma década, então também não posso perder tempo ensinando isso.

Julio baixa a cabeça e pensa em como ficar do tamanho de uma formiga e sumir dali logo.

– A nobre colega Sofia está desenvolvendo suas capacidades telepáticas. Isso é louvável. Agora tente ver em que cor eu estou pensando neste momento.

Sofia é pega de surpresa. Ela se concentra e tenta fazer uma conexão telepática com Krzovv, mas não consegue, por mais que tente.

– Eu… eu… eu não consigo, não vejo nada…

– Claro que não. Apesar de eu estar, neste momento, olhando para uma bandeira azul, pensando na cor azul e até repetindo a palavra “azul” na mente, eu estou usando o bloqueio telepático mais básico que existe: estou cruzando os dedos das mãos. Até o porco espinho que mora na casa do Eloaton sabe como destravar esse bloqueio. Agora pense você em uma cor que não seja azul.

Sofia tenta pensar em uma cor, mas não consegue visualizar absolutamente nada que não fosse azul. Ela nem consegue lembrar das demais cores. Somente azul.

– Eu também não consigo, só vejo azul… só vem azul à minha mente.

– Também desconhece completamente os bloqueios de sugestão telepática. Eloaton, por favor, entendo suas melhores intenções, mas essa menina não está pronta para isso. Vai precisar de muitas vidas ainda para se tornar uma candidata a espiã telepática.

– Ela está tendo um desempenho formid…

– E quanto à nossa valente guerrilheira Amanda, bem, o que posso dizer? Ela sabe usar armas, sabe contrabandear drogas, dirige qualquer veículo, sabe escalar montanhas e mergulhar em cavernas submersas. Ou seja, ela está o tempo todo buscando o perigo, procurando situações críticas de risco potencial à sua própria vida. Parece que está buscando o suicídio o tempo todo. Vamos lá, fazendo o papel de um psicólogo, me diga, Amanda… por que você faz isso e do que exatamente você está fugindo?

Amanda não sabe o que responder. Ela fica procurando palavras, mas realmente não entende por que conduz a sua vida dessa forma.

– É óbvio que vamos precisar de combatentes que saibam usar armas, que tenham uma boa mira e que tenham habilidades para escalar paredes, descer penhascos e manobrar tanques. Só que precisamos de combatentes que SOBREVIVAM às batalhas. Você se jogou em cima de um adversário armado. Acha que isso foi inteligente?

– Mas eu estava salvando a vida do Jul…

– Sendo tão boa com um rifle, não poderia ter acertado a cabeça dele de seu abrigo? Você estava a apenas cinco metros de distância. Nem eu mesmo teria errado o alvo. Por que você arriscou sua vida dessa forma?

– É que…

– Sua impetuosidade ainda vai custar a sua vida. Não podemos arriscar a segurança de um batalhão inteiro com uma guerrilheira que não sabe ficar quieta em sua trincheira e dar um único tiro certeiro no oponente.

– …

– Resumindo, vocês todos são um total e absoluto fiasco. Eloaton, por favor, encontre logo outros combatentes de verdade para a defesa de Ethoria 27B. Apesar de sermos pacíficos e evitarmos a todo custo um combate armado, quase todas as cidades de Agartha já possuem seus próprios combatentes, alguns de forma permanente há séculos. Temos pouco tempo. Os Greys chegarão à Terra em poucos meses. Agora, se me permitem, tenho que negociar a paz entre duas civilizações orianas que estão em guerra há duzentos anos.

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Na praça defronte ao Palácio do Governo de Shamballah, o grupo se reúne para tentar entender o que foi exatamente aquela avaliação do Krzovv. Eloaton começa:

– Amigos, confesso que até eu fiquei surpreso com a reação do Krzovv. Eu concordo com os argumentos dele, mas não imaginava que ele fosse reagir dessa forma. Eu peço desculpas pelos constrangimentos e admito que a culpa maior é minha.

– Teu amigo azul jogou o maior balde de água fria que já vi na vida. Queria mais é sair nadando dali – comenta Julio.

– Ele tem razão. Não estamos prontos para essa missão. Nem suspeitamos que era apenas um teste… – confessa Nestor.

– Amigos, não se deixem abalar. Já vi situações muito piores antes e acredito que cada um de vocês possui um talento valiosíssimo, uma habilidade muito especial que só precisa ser devidamente treinada. Acho que temos condições de estar totalmente aptos até a chegada dos Greys, se cada um treinar o suficiente. – Lemann mostra ser o mais calmo de todos – Eu concordo plenamente com a posição do nosso amigo Siriano Krzovv. Também acho que podemos evitar combates diretos, melhorando nossas estratégias e agindo com mais inteligência. Mas vou advogar em favor do nosso grupo, afinal, foi a primeira missão e certamente imprevistos aconteceriam. Eu sugiro que o Esquadrão Ethos troque experiências com os outros grupos de resistência que existem, tanto na terceira quanto aqui na quarta dimensão. Isso os ajudará a refinar suas técnicas. O que acha, Eloaton?

– Podemos avaliar essa possibilidade, sim. Existe um grupo na Europa que possui muitas similaridades e creio que os dois grupos têm muito a contribuir entre si. Mas, mais importante que isso, percebemos que Krzovv está ocupado demais para poder arcar com a responsabilidade de treinar cada um de vocês individualmente. Entendo que existem outros mestres tão bem qualificados quanto Krzovv e talvez com maior disponibilidade. Precisamos de alguém com vasto conhecimento e experiência, que conheça muito sobre os mais diversos temas da ciência e da espiritualidade, de preferência com aprendizado prático em guerras e batalhas como consultor de imperadores, de reis e como tutor de seus respectivos príncipes. Alguém que tenha, por exemplo, ajudado Alexandre a definir suas estratégias para dominar toda a Macedônia e praticamente todo o mundo conhecido na época. Alguém teria alguma sugestão?

Lemann foi pego de surpresa. Sim, ele era a pessoa certa para orientar o treinamento do grupo. Com seus dois mil e trezentos anos de idade, com tanto conhecimento adquirido e com todo o seu tempo livre, não teria outro ser no planeta Terra tão bem qualificado.

– Confesso que não havia sequer pensado nessa possibilidade. Mas ficarei honrado em contribuir para o desenvolvimento das habilidades de cada um, dentro do que me for possível.

– Alguém discorda? – a pergunta de Eloaton se dissipa no ar.

– Muito bem. Então, meu caro amigo, como você sugere que sejam feitos esses treinamentos?

Lemann pensa um pouco e responde:

– O Nestor já pode ficar aqui em Shamballah mesmo, no alojamento, a fim de aprimorar suas habilidades em estratégia e negociação. Eu venho para cá uma vez por dia e posso ir deixando tarefas e conferindo resultados.

Nestor concorda.

– Sofia ficará em um mosteiro feminino no Tibete, onde poderá aprofundar suas potencialidades parapsíquicas e espirituais. Inclusive, Sofia, você vai aprender não só a ler a mente dos Reptilianos como também provocar bloqueios telepáticos e mudanças ativas em seus pensamentos. Também estará próxima à minha casa e poderei acompanhar suas atividades e progressos. O que acha?

Sofia fica meio sem entender, mas também concorda.

– Amanda precisa de treinamento em guerrilha moderna. Os métodos que ela aprendeu são bastante úteis, mas hoje temos novas tecnologias e ela pode ser muito mais eficiente. Eloaton, você tem o contato daquela turma da Letônia?

– Excelente ideia, Lemann. Tenho sim. Faremos contato com o grupo europeu de Ethoria 9 para que Amanda possa passar uma semana com eles, em treinamento de guerrilha urbana. Eles estão agindo na Letônia, neste momento, que sofre com a invasão russa buscando o domínio da cidade de Riga, para ter hegemonia sobre as rotas comerciais daquela área do mar Báltico, e estão obtendo grande sucesso nessa missão praticamente impossível, fazendo uso de alta tecnologia aliada a estratégias bem pouco convencionais.

– E o nosso amigo Julio precisa aprofundar seus conhecimentos tecnológicos e dominar ferramentas de espionagem e sabotagem cibernética à distância. Conhece alguém que possa fazer isso, Eloaton?

– Eu não, mas o Ikor conhece.

– Perfeito. Então estamos todos combinados. Nestor fica no alojamento, Sofia vai para o mosteiro, Amanda vai para a Letônia e Julio vai fazer um curso on–line na casa dele. Alguma dúvida?



Ramazor observa um pequeno dispositivo em suas mãos: um inocente isqueiro automático de controle remoto, usado para acender os boilers de aquecimento das células criogênicas para reanimação dos tripulantes em animação suspensa. Como geralmente era necessário reanimar milhares de tripulantes ao mesmo tempo, seria um trabalho impossível de ser realizado manualmente. Por isso, obviamente, todos os boilers são ligados à distância por controle remoto de forma automática. Korgg, amarrado à sua frente, é um dos responsáveis pela manutenção desses isqueiros e pelo suprimento de oxigênio e amônia de alguns setores da nave-mãe.

– Meu amigo Korgg, você é um dos melhores operários na manutenção dos sistemas de gases da nossa nave. Devo parabenizá–lo por seu excelente trabalho.

Korgg mal consegue erguer sua cabeça. Seus hematomas impedem que consiga abrir os olhos. Sua língua sente seu sangue quente na boca, enquanto vasculha se há algum dente que não esteja quebrado.

– Você é um dos bilhões de clones gerados em laboratório. Não possui pai nem mãe. Foi criado da mesma forma que milhões de tripulantes exatamente iguais a você. Foi treinado com os mesmos cuidados. Mostrou–se competente, obediente e brilhante em suas atividades. Demonstrou grande habilidade na manutenção dos canos e cilindros de gás. Recebeu elogios e promoções, a ponto de lhe ser permitido trabalhar nas áreas restritas, especialmente a casa das máquinas que dá suporte à ponte de comando. Um privilégio que pouquíssimos Greys alcançam. Você é jovem e seu exemplo inspira uma grande quantidade de tripulantes que se esforçam para ser como você. Na verdade, a maioria deles aspira ganhar o mesmo soldo que você recebe, incluindo todas as gratificações pela sua conduta ilibada, brilhante e exemplar. Sua reputação é digna de reconhecimento em toda a nossa Nave. Você merece nossos mais sinceros aplausos!

Ramazor abre os braços e bate palmas com fervor. Korgg não se mexe. A dor nas costelas quebradas dificulta a respiração. Cada inspiração provoca dores terríveis, mas esse é o menor dos problemas agora. Korgg sabe perfeitamente o que vai acontecer em breve.

– Devido a seu notável comportamento e dedicação, você ganhou privilégios bastante peculiares e generosos. Ganhou um quarto exclusivo, acesso livre a setores restritos, alimentação da melhor qualidade sem restrições, teletela livre e acompanhantes noturnas à sua escolha e sempre que desejar. Posso afirmar que mais de noventa por cento dos tripulantes dessa nave nem sequer imagina o que é ter uma vida como a sua.

Korgg consegue enxergar a silhueta de Ramazor através das pálpebras inchadas do olho direito. O esquerdo nem abre.

– Gostaria de entender em que momento nós falhamos com você, indivíduo KG03728894. O que fizemos de errado? O que levou você a nos odiar, a ponto de querer nos destruir? Veja, nós fomos realmente muito generosos com você. Nós confiamos em você. Onde foi que erramos?

– Vocês… Chefes… nos oprimem há milhões de anos…

– Ah, essa teoria imbecil de opressão? Não se trata de uma teoria, meu caro Korgg. A vida é assim: ou você nasce um Grey, ou um Chefe. Chefes comandam os Greys. Os Greys obedecem. Sempre foi assim, e sempre vai ser, independente da teoria maluca em que vocês quiserem acreditar.

– Não… é… verdade…

– Bom, não disponho de tempo para ficar discutindo sociologia com você agora. Sejamos práticos. Meu amigo Pondr, diante do comportamento subversivo, ingrato e completamente sem propósito do indivíduo KG03728894, o que o regulamento aponta como penalidade?

– O alijamento ao espaço, Senhor.

– Hmm… seria rápido demais, indolor demais. Acho que podemos eleger uma exceção a esse caso. Diga-me, meu caro Korgg… você lidou com gases durante toda a sua vida. O que acontece a um Grey quando exposto a uma atmosfera sem amônia, somente com oxigênio?

Korgg estremece.

– Deixe–me ver aqui… hmmm… ah, sim! O indivíduo sente que está queimando de dentro para fora. Seus pulmões ardem, a boca seca, a garganta se fecha. Os batimentos cardíacos se aceleram, a pele vai da tonalidade cinza normal para o roxo, as articulações travam, os músculos enrijecem. Uma dor tão grande que é impossível manter a consciência por mais de quinze minutos. Logo em seguida, o sistema nervoso entra em colapso, ocorre choque e o indivíduo morre por falência múltipla dos órgãos. Que horrível esse tipo de morte, não concorda, meu amigo Pondr?

– Seria a morte mais dolorosa que um Grey pode ter, senhor.

– Mesmo assim, quinze minutos é muito pouco tempo. Precisamos dar a você, meu querido Korgg, a oportunidade de refletir sobre seu comportamento antes de morrer. Quero dar–lhe a possibilidade de se arrepender. Pondr, por gentileza, acompanhe esse distinto senhor a uma sala de isolamento. Garanta–lhe o fornecimento adequado de alimento, água, oxigênio e amônia, aumentando em dez por cento o nível de oxigênio por ciclo, o que lhe garantirá a sobrevivência por, pelo menos, uns oito ciclos, entendeu?

Até Pondr acha a sentença cruel demais, mas concorda:

– Imediatamente, Senhor.

– E continuem procurando pelo outro traidor. Ele não pode estar muito longe.






A carta de Nestor

"Prezada Jeruza:

Como tu deves ter percebido, saí em viagem sem dar maiores detalhes. Muitas coisas aconteceram nesta viagem, coisas essas que me levaram a tomar certas decisões radicais em minha vida.

Não voltarei mais. Como não possuo parentes, tu és a pessoa mais próxima que tenho. Então, quero te deixar meus bens, meu apartamento, meu carro e meus investimentos, pois não precisarei mais de nenhum deles.

Os papéis do apartamento estão no envelope pardo, incluindo uma procuração que te dá plenos poderes para vendê-lo, alugá-lo ou transferi-lo para o teu nome. No verso do envelope estão listados os meus investimentos, as senhas dos bancos e corretoras e a melhor forma de resgatar esses investimentos e transferi-los para a tua conta. Dentro do envelope também estão os cartões das minhas contas com as respectivas senhas, as chaves e documentos do meu carro e mais alguns papéis que podem ser do teu interesse.

Quero te agradecer de coração por todos esses anos em que tu cuidaste tão bem do meu apartamento e das minhas coisas. Sou muito grato e a melhor forma que encontrei para demonstrar isso é te passando tudo o que tenho.

Também lembrei do teu maior sonho: fazer uma faculdade. Tu falaste sobre isso tantas vezes e eu nunca prestei a devida atenção. Dentro do envelope branco tem uma surpresa: uma matrícula naquele curso que tu sempre sonhaste, com todas as mensalidades pagas. Basta apresentar-te na faculdade e iniciar os teus estudos.

Peço apenas a gentileza de entregar o envelope azul no setor de RH da empresa em que eu trabalhava. É a minha carta de demissão, te autorizando a receber todos os valores referentes aos acertos e honorários, incluindo FGTS e tudo o mais.

Quanto a mim, não se preocupe, estou realmente muito bem, apenas decidi mudar para outro lugar e viver outra vida. Está tudo bem.

Espero que tu sejas muito feliz e que tenhas muito sucesso em tua vida, pois tu és uma pessoa muito especial, esforçada e íntegra. Tu mereces muito mais do que isso que estou te oferecendo.

Sejas muito feliz.

Com carinho,

Nestor.


P.S: Cuide bem do Stevie, por favor."



Lanna faz suas últimas anotações do turno em suas planilhas. Arruma suas coisas, fecha as portas e se dirige à sala de descontaminação. Deixa suas roupas de trabalho no cabide do vestiário interno, entra na cápsula ultravioleta, fica em pé por cinco minutos, desliga as lâmpadas e sai do outro lado, no vestiário externo, onde veste suas roupas civis. Segue em direção ao refeitório, praticamente vazio àquela hora. Serve-se de um sanduíche, chá de ervas, uma fatia de bolo e uma fruta. Senta a uma mesa e faz sua refeição, sozinha.

Recolhe sua bandeja, pega alguns biscoitos e mais uma fruta e vai para seu alojamento. Toma um banho quente, veste seu pijama e deita-se em sua cama com sua teletela em mãos.

Ela sabe que não pode pesquisar diretamente por palavras como “resistência”, “rebeldes” ou “como fugir daqui”. Mas ela pode acessar dados da superfície e ver imagens e vídeos mostrando como é a vida lá fora, como são as cidades dos humanos, seus costumes e lendas.

Algumas das suas lendas favoritas remetem a teorias conspiracionistas que afirmam que existem cidades na quarta dimensão ou no interior da Terra, que existe um mega continente chamado Agartha, cuja capital é Shamballah e que fica debaixo de Lhasa, capital do Tibete. Mas o Tibete fica muito longe da Antártida, onde ela está agora. É impossível ir até lá. Na verdade, é impossível sair para a superfície. Ou praticamente impossível.

Litópolis é uma das cidades mais antigas da Terra. Ela foi criada quando a Antártida ainda era um continente subtropical, mais quente, com uma densa vegetação, ao lado da ilha de Madagascar, há cerca de 14 milhões de anos. Foi habitada por gigantes e por Reptilianos com avançadíssima tecnologia, os mesmos que construíram rodovias, cidades e certos monumentos que existem até hoje no norte da África, como a Esfinge. Mesmo dispondo de alta tecnologia, esses povos não sobreviveram à glaciação do Quaternário e foram totalmente extintos. Mais tarde, os Greys encontraram as cidades subterrâneas da Antártida e estabeleceram lá seus laboratórios para criação de uma raça híbrida.

Assim, a cidade de Litópolis permanece sob domínio dos Greys há quinze mil anos. Os habitantes híbridos que existem hoje já conseguem ficar por algumas horas respirando oxigênio puro, mas ainda precisam de uma dose de amônia na atmosfera, gerada por algas trazidas de B-Groot há milhares de anos. O nome da cidade não é por mero acaso: Litópolis é uma cidade escavada na rocha. Possui alguns túneis de ventilação e de comunicação com a superfície, estrategicamente posicionados e camuflados em montanhas rochosas de acesso praticamente impossível.

Se é extremamente difícil entrar em Litópolis, é muito mais difícil ainda conseguir sair de lá. Apenas os Greys e Chefes podem sair em discos voadores, e só o fazem quando é absolutamente necessário, especialmente quando detectam explosões atômicas na superfície. A radiação gerada pelas explosões é mortal para as algas criadoras de amônia e consiste em um risco potencial para a missão de ocupação dos Greys.

Portanto, se alguém quiser sair de Litópolis, a única forma é pegando carona em um disco voador. Mas os híbridos não possuem acesso ao discoporto. Mesmo que um híbrido consiga se esconder em um disco e descer em algum lugar da Terra, ainda precisa ter suprimento de amônia suficiente para sobreviver até encontrar abrigo seguro. Mas onde Lanna poderia encontrar algum abrigo seguro? Ela não conhecia ninguém da Resistência que pudesse passar alguma informação. A Resistência é um grupo secreto, ninguém sabe quem faz parte. Ninguém pode saber. E mesmo que alguém abordasse Lanna, se apresentando como sendo da Resistência, ela jamais poderia saber se era verdade ou não. Poderia ser um agente Grey disfarçado e, então, ela estaria em grandes apuros.

A única coisa que Lanna conhecia era o símbolo da Resistência: um círculo cortado por dois traços em cruz, como a mira de uma arma. Esse símbolo aparece pichado e riscado misteriosamente pelas paredes de toda Litópolis. Então, Lanna precisava encontrar as pessoas que pichavam esse símbolo. Mas como?

Lanna tinha uma ideia.

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No dia seguinte, ela levanta mais cedo, se arruma e vai para o trabalho, porém, seguindo por caminhos diferentes. Ela anota cuidadosamente os locais onde encontra o símbolo da Resistência. Passa uma oitena inteira mapeando esses sinais e, então, estuda os padrões com cuidado. Os símbolos estão desenhados em uma área circular de pouco mais de sete quadras de diâmetro. Mas na parte central dessa área não tem nenhuma marca. Bem no centro fica um setor de alojamentos de oficiais. Seja quem for o chefe da Resistência, ele deve estar morando ali.

Então Lanna, discretamente, fixa uma câmera apontando para a porta do alojamento e começa a monitorar as pessoas que entram e saem. Mas, logo nas primeiras filmagens, ela se surpreende: um dos primeiros a entrar no lugar é, justamente, Torkk, seu colega de trabalho.

O que é que Torkk estaria fazendo em um alojamento de oficiais? E chegando assim, de manhã cedo, antes do expediente?

Lanna continua monitorando. Logo em seguida, Torkk sai do alojamento, acompanhado de um oficial. Eles apertam as mãos, mas Lanna percebe que o oficial entregou algo a Torkk. Em seguida, cada um segue para um lado.

Minutos depois, Torkk chega ao laboratório. Lanna já havia desligado a teletela e estava, aparentemente, concentrada com seu microscópio.

Torkk assume também suas funções, normalmente. Na metade do primeiro turno (não existe transição entre dia e noite em Litópolis. É sempre noite. Os ciclos são divididos em três turnos de oito horas), Lanna diz que não está se sentindo bem e que vai à enfermaria. Ela sai, passa pela câmara de descontaminação e, no vestiário externo, procura as roupas de Torkk. Vasculha seus bolsos e encontra um papel, com vários nomes e respectivos códigos de teletela. Tira uma foto do papel, guarda tudo de volta, vai à enfermaria, passa por uma consulta e, sem qualquer diagnóstico patológico, retorna a seu trabalho. No final do turno, vai para seu alojamento e verifica a foto que tirou.

Um arrepio percorre seu corpo quando ela vê seu próprio nome e o número de sua teletela na lista, na quinta linha. Os três primeiros nomes estavam riscados.

O que isso significaria? Se Torkk fosse alguém da Resistência, infiltrado, ela estaria na lista de híbridos a serem contactados pela Resistência? E se Torkk fosse um informante dos oficiais? Então, estaria ela correndo perigo? E o que aconteceu com aqueles três primeiros cujos nomes estavam riscados?

Ela busca no Arquivo pelos códigos daqueles três primeiros da lista. Todos os três haviam desaparecido, recentemente. Sem nenhum rastro. Como se jamais houvessem nascido.

O plano de Lanna parece ter ido por água abaixo. Ela não sabe o que fazer. Se está em perigo, deve fugir, mas para onde? E como? Mas e se não estiver em perigo? E se Torkk for da Resistência? É exatamente isso que ela busca: algum revolucionário que a ajude a sair dali.

Sua teletela vibra, anunciando uma mensagem de texto. Lanna dá um pulo de susto. A mensagem apenas dizia: "Lanchonete, mesa 8. Agora."

Podia ser uma emboscada, um sequestro, mas também podia ser a sua chance de sair de Litópolis. Ela resolve arriscar. Veste uma roupa comum e se dirige à lanchonete. Entra sem chamar a atenção e se dirige à mesa 10, onde geralmente se senta para as refeições. A atendente vai à mesa para tirar seu pedido. Como de costume, pede um café e um sanduíche. Segura o cardápio nas mãos e, disfarçadamente, observa a mesa 8. Havia uma mulher sentada, de costas para ela.

Lanna se levanta e finge ir ao banheiro, que ficava depois da mesa 8. Ao retornar, a moça sentada à mesa lhe convida a sentar. Ela obedece, e acena para a atendente para avisar que mudou de mesa.

– Quem é você? – Pergunta Lanna.

– Não importa. Melhor você não saber. Você deve estar se perguntando se sou amiga ou inimiga. Só me basta dizer que, se eu fosse sua inimiga, a essas horas você não estaria mais respirando.

– O que você quer de mim?

– Eu sei que você quer sair daqui. Mas você não sabe como. Pois bem, eu posso te ajudar. Mas tem uma condição.

– Que condição?

– Temos uma tarefa para você na Resistência. Vamos levá-la para uma base no Brasil. Não vão encontrá-la, pois é território neutro.

– Que tarefa?

– Chegando lá, a gente explica. Cassiapimba, você quer ou não sair daqui, afinal?

– Desculpe. Quero sim. O que devo fazer?

A moça não responde. A atendente chega, trazendo o café e o sanduíche. Lanna agradece.

– Tome seu café normalmente. Vá ao banheiro. Tem um armário falso na parede. Empurre-o, tem uma passagem secreta. No final dessa passagem terá um veículo esperando. Entre nele e apenas obedeça os comandos. Entendeu?

– Sim. Mas não vão perceber que eu sumi?

– Eu digo que você precisou sair e pago a sua conta. Termine de tomar seu café.

Lanna obedece. Elas não falam mais nada. Após a refeição, Lanna se levanta e vai até o banheiro. Olha para o armário e tenta imaginar de que forma ele poderia… bem, foi só empurrar e ele cedeu, mostrando o corredor escuro por trás dele. Ela fecha o armário após passar e se dirige ao final do corredor. Abre a porta, e lá estava o veículo a esperando. Ela olha cuidadosamente para os lados, não vê nenhuma câmera ou teletela filmando, então a porta do veículo se abre e ela entra. O veículo vai andando devagar e desaparece na neblina.

Sofia no Tibete

A porta da secretaria se abre e Lemann sai, acompanhado da diretora do monastério, conversando descontraidamente em tibetano. Lemann faz reverências e agradece a hospitalidade, dirigindo-se à recepção, onde Sofia o aguardava.

– Tudo certo, Lemann? – Pergunta Sofia.

– Tudo certo, Sofia. A diretora do monastério tem um coração enorme e aceitou seu retiro particular sem maiores questionamentos. Seu treinamento será focado no desenvolvimento das capacidades telepáticas e na implantação de pensamentos. Obviamente, como o retiro será feito em um mosteiro budista, você precisará seguir algumas regras e rituais desta religião, o que acredito que não será nenhum impeditivo para você, concorda?

– Claro que não. Já morei um ano em um Ashram Hare Krishna e sei me adaptar a rituais, tudo certo.

– Ótimo. Bem, este aqui é um mosteiro feminino e eu nem poderia estar aqui. Aquelas monjas que estão vindo irão acompanhá-la a seus aposentos. Como você ainda não fez votos, não precisa cortar os cabelos e nem é obrigada a usar a toga. Recomendo obedecer todas as ordens que receber, e lembre-se sempre de manter um sorriso no rosto. O sorriso abre muitas portas. Aqui você terá todo o essencial necessário: uma cama quente, roupas adequadas e alimentação. Qualquer coisa a mais que precisar, você sabe como entrar em contato comigo, não é?

– Sei sim. Só pensar em você e enviar uma mensagem telepática.

– Isso mesmo. Eu estarei atento. Bem, já vou indo. Fique bem, qualquer coisa me chame.

– Muito obrigado, Lemann.

As duas monjas se aproximam. Lemann conversa rapidamente com elas em tibetano. Elas riem e se apresentam, conduzindo Sofia a seus aposentos, enquanto Lemann retorna para sua casa.

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Quatro horas da manhã. Um pesado sino toca e Sofia acorda com um enorme susto, ficando imediatamente em pé ao lado da cama. Sua companheira de quarto ri e fala alguma coisa em tibetano. Sofia entende que ela quis dizer que não precisa se assustar, que o sino toca todos os dias nesse horário, que é para se acostumar, acordar devagar e seguir para a sala de meditação em silêncio.

Foi quando Sofia percebeu que é capaz de ler a mente das pessoas e entendê-las, mesmo sem conhecer a linguagem utilizada.

A sala de meditação ainda está escura, apenas com algumas velas acesas. Uma monja mais idosa, com vestes vermelhas, organiza o altar e indica a Sofia uma almofada para que se sente. Sofia toma o lugar indicado pela monja. A lama superiora também se senta e começa a recitar um mantra, acompanhada pelas presentes. Aos poucos, começam a chegar outras praticantes. Ao final da recitação, a sala está praticamente lotada, com cerca de trinta mulheres. Sofia percebe que ainda haviam algumas almofadas vazias mas, rigorosamente às quatro e quinze, a monja toca um sino e as portas se fecham. Um minuto depois, ela toca mais uma vez e todas se ajeitam nas almofadas. Novo toque e todas colocam as mãos em forma de prece. Um terceiro toque, todas fazem uma reverência e iniciam a meditação.

Sofia não recebeu instrução nenhuma. Não sabia exatamente o que fazer, mas abriu sua mente, procurando manter-se no momento presente e apenas estar ali, olhando para um ponto fixo à sua frente e observando sua respiração. Passam-se alguns minutos e sua mente silencia completamente. Sofia sente como se estivesse olhando para sua mente, de longe. É quase como caminhar sobre as águas dos pensamentos, sem tocar neles. E assim ela permanece, sem ter exatamente uma noção de tempo.

Repentinamente, ela escuta uma mensagem em sua mente:

– Agora que sua mente está calma, lembre-se de seu objetivo aqui. Você deve treinar telepatia. Consegue entender o que estou dizendo?

Sofia ergue seus olhos. A monja superiora estava calmamente olhando para ela, em silêncio.

– Sim, consigo entender perfeitamente – Responde telepaticamente a loira.

– Muito bem. Pense em um número de um a dez.

Sofia pensa no número quatro, mas logo muda e pensa no seis, respondendo:

– Seis.

– Preste atenção: você primeiro pensou no número quatro, mas eu sugeri que você pensasse no seis, e então você respondeu seis. Consegue perceber isso?

Sofia consente e pergunta:

– Sim, foi isso que aconteceu. Mas como você fez isso?

– É exatamente isso que você veio aprender aqui. Depois da meditação, vou lhe dar todas as instruções. Você vai praticar com sua colega de quarto, pois ela tem o mesmo objetivo que você. Agora, apenas volte a meditar.

Sofia obedece e entra em um estado de imensa paz, até soar o badalo do sino, indicando o fim da prática. Todas se levantam e se dirigem ao refeitório, mas Sofia escuta o chamado telepático da monja:

– Espere, Sofia, venha aqui, tenho um livro para você ler.

Sofia se dirige à monja superiora e a olha nos olhos. Um olhar profundo, sereno, como se todo o Universo estivesse ali, em paz. A monja, com movimentos leves e suaves entrega um livro nas mãos da novata, com uma doçura quase maternal.

– Está em inglês. Espero que você saiba ler esse idioma.

– Sei sim. Agradeço profundamente a atenção que você está me dedicando.

– Minha função é servir e ajudar cada uma das praticantes a alcançar seus objetivos. Você tem habilidades muito desenvolvidas. Pessoas como você são raras e muito valiosas. Treine muito, dedique-se de corpo e alma. Aproveite cada segundo e cada oportunidade. O tempo passa muito rápido e as oportunidades se perdem. Você deve esforçar-se para despertar. Cuidado, não desperdice sua vida. Agora pode ir para o refeitório. Lembre-se sempre de manter a suavidade, a calma e a mente limpa. Caminhe como se estivesse acariciando o chão. Coma como se o próprio Buda estivesse comendo através de sua boca. Esteja presente em cada segundo e, assim, seu tempo jamais será perdido. Quando estiver em uma situação que não sabe como resolver, escute seu coração. Tenha uma boa prática e, se precisar, pode me chamar.

Sofia agradece, faz uma reverência, segura o livro junto a seu peito como se fosse uma joia muito rara, sorri e se dirige ao refeitório.

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Três semanas se passam. Sofia medita sobre uma pedra, tendo à sua frente o majestoso e imponente monte Kailash. Ela aprofunda sua meditação e se concentra, até sentir que ela e a montanha são uma coisa só. Nesse estado, amplia sua mente e chama telepaticamente seu amigo Nestor. Ele estava sentado em sua cama, brincando com o dodecaedro romano, por isso, demora alguns minutos para perceber o chamado.

– Nestor, consegue me ouvir?

– Olá, Sofia. Acho que consigo, sim. Câmbio – brinca Nestor.

– Pense em um número entre um e dez.

Nestor pensa no número dois, mas responde:

– Oito.

Sofia sorri. Ela dominou a técnica de gerar pensamentos em outras pessoas através da telepatia, não importando a distância. Está pronta para voltar e comunica Lemann sobre seu sucesso. Às oito horas do dia seguinte, Lemann aguarda Sofia na recepção do monastério com seu suave, gentil e permanente sorriso.

– Como foi seu retiro? – Pergunta Lemann.

– Quase morri de fome. E de frio. Acho que jamais vou conseguir aprender a falar tibetano. Do pescoço para baixo, meu corpo inteiro dói. Como é que eles conseguem comer aquela coisa gosmenta?

– Ah, a tsampa? Sim, confesso que é horrível mesmo. É uma farinha de cevada torrada misturada com manteiga de iaque ou chá. Tradicionalmente eles temperam com vários condimentos e ela até fica gostosa mas, nos mosteiros, a tsampa é servida sem tempero nenhum. É quase intragável. E sobre seus aprendizados?

– Posso dizer que dominei várias habilidades. Claro que vou precisar treinar muito, mas acho que já podemos começar a trabalhar com o que temos.

– É o que penso também. Obviamente, eu vou te ajudar nesse treinamento. É melhor treinar com alguém que sabe falar a sua língua.

– Ah, isso era uma coisa que queria perguntar há muito tempo… como é que você consegue falar português praticamente sem nenhum sotaque?

– Tenho motivos para dominar muito bem o seu idioma. Logo você vai saber o porquê. Agora precisamos ir para Ethoria 27B. Eloaton nos espera.

– Ué, pensei que treinaríamos a telepatia aqui na sua casa…

– Sim, mas antes disso, você precisa retornar a Ethoria 27B. Além do mais, podemos treinar à distância, a qualquer momento, sem nenhum problema.

Sofia fica sem entender muito bem, mas concorda. Ela termina seu lanche e, poucos minutos depois, Lemann a leva para seu discoporto.

Em Shamballah, Lemann pousa para que Eloaton embarque.

– O Nestor não vai junto? – Pergunta Sofia.

– Não, eu deixei umas tarefas para ele fazer aqui – Responde Lemann.

– Todos a bordo? Podemos partir?

– Bora – brinca Eloaton.



Korgg se retrai em sua cama. Seus pulmões queimam. Seu nariz sangra. A dor é tão grande que não consegue nem pensar direito. Alguns de seus ferimentos infeccionaram e seus hematomas estão passando do roxo para o preto. Ele está com, pelo menos, três costelas quebradas e qualquer movimento é motivo para um grito de dor. Encolhido na cama, tenta apenas respirar, sem se mover.

Há dois ciclos não come nada. Bebe pouca água. Apenas espera pelo momento em que seu corpo entre em colapso e toda essa tortura termine. Repentinamente, a porta de seu quarto se abre. Um dos guardas entra, trazendo uma garrafa.

– Meu amigo Korgg, você está bem? Parece um pouco mais azulado que ontem.

– Vai… pro… inferno.

– Teu pai mandou perguntar se você conseguiu lembrar onde está o seu amigo. Tem alguma novidade pra gente?

– …

– Sabe o que tem nesta garrafa? Álcool etílico. Etanol puro. C2H6O. Acho que você já ouviu falar, né? Sabe pra que isso serve?

O guarda senta ao lado do Korgg, como se fossem velhos amigos, e observa a garrafa com seu conteúdo transparente.

– O etanol pode ser usado para limpeza. Mata quase todas as bactérias e germes. Usamos para desinfetar as mãos, antes das refeições. Bem diluído, pode até ser ingerido. Nesse caso, provoca embriaguez e torpor. Pode ser usado para fazer fogo e também como combustível para motores muito primitivos. Na medicina, ele é usado para limpar ferimentos e evitar infecções.

Korgg abre um olho e observa o guarda.

– Estou vendo que você está cheio de feridas infecciosas. Vamos ver se o álcool é capaz de sarar esses ferimentos?

– Não… não…

O guarda derrama um pouco de álcool sobre os ferimentos do prisioneiro. Korgg se contorce, grita de dor e se debate sobre a cama.

– Ah, desculpa. Não pensei que fosse doer tanto. Que descuido, o meu. Ah, já ia esquecendo… teu pai mandou perguntar se você prefere morrer de forma rápida e indolor ou de forma lenta e muito, mas muito dolorosa. É você que escolhe. É só dizer onde está seu amigo. A gente alivia seu sofrimento bem rapidinho. Que tal?

– Eu quero… que você… morra.

– Tem certeza? E quem vai cuidar dos seus ferimentos? Olha só essa ferida aqui, está nojenta e fedendo. Precisa ser desinfetada – e o guarda pinga mais algumas gotas na ferida aberta. Korgg se contorce novamente e tenta segurar um grito de dor.

– (Palavrão Grey intraduzível)

– Tá bom. Vai ser do seu jeito então. Se mudar de ideia, é só chamar, beleza? Estou encerrando meu turno agora, mas o Jull vai me substituir. Pode falar pra ele, mas toma cuidado, ele não é tão educado quanto eu. Boa sorte, amigão.

O guarda se levanta, joga o restante da garrafa de álcool sobre o corpo mutilado de Korgg, sai da cela e a tranca. Após minutos berrando de dor, Korgg desmaia. Do lado de fora da cela, o guarda aumenta o nível de oxigênio, confere seu relógio, pega sua maleta, olha para os dois lados do corredor e segue tranquilamente para o refeitório.

– Estranho, o Jull nunca se atrasa. Ah sim, hoje tem partida de deathball, ele deve estar assistindo.

Pouco depois, um serviçal de limpeza se aproxima. Abre a porta, entra com seu carrinho e fecha a porta. Após alguns minutos, sai, fecha novamente a porta e segue pelo corredor, tranquilamente, empurrando seu carrinho com esfregões, baldes e um saco grande de lixo.

Três horas depois, o alarme da nave é acionado. Todos os tripulantes devem voltar para seus quartos. A bagunça é generalizada, enquanto as teletelas anunciam que um prisioneiro perigoso havia fugido.

As vidas passadas de Sofia

Um majestoso disco voador pousa no discoporto de Ethoria 27B. O disco, todo revestido com ouro e prata, reflete a luz do sol em tonalidades metálicas encantadoras. Alguns minutos após o pouso, descem Sofia, Lemann e Eloaton, enquanto Ikor se encarrega da manutenção do aparelho. Os três seguem para a avenida central, conversando distraidamente sobre as experiências e os hilários desastres de Sofia no mosteiro tibetano. Logo chegam a seu destino: o grande salão onde as amigas Shakti e Leize já os esperavam.

Sofia abraça as duas alegremente. Já havia, pelo menos, uns três meses que não se viam. Mas logo Sofia se dá conta de onde estão e pergunta a Eloaton:

– O que viemos fazer aqui? Tem mais algum treinamento expresso que eu preciso fazer?

– Na verdade, tem sim. Vamos fazer uma regressão. Você precisa se lembrar de quem você realmente é. Isso é muito importante.

– Uma regressão? Tipo, lembrar de quem fui em vidas passadas? Dá pra fazer isso tomando aquele chá? E que chá é esse que a gente toma?

– O chá é uma antiga receita usada pelos gregos, chamado ciceona. É feito a partir da fermentação da cevada, hortelã e alguns cogumelos. A receita muda um pouco de acordo com a pessoa que vai tomar e a intenção com que ela o toma. Neste caso, a função do chá é apenas deixar a sua verdadeira essência momentaneamente livre do seu corpo físico e de sua mente. É fazer uma conexão direta com o Divino. Nesse estado, a pessoa é capaz de buscar as respostas para qualquer pergunta. Em breve, vocês dominarão as técnicas para alcançar os mesmos resultados quando quiserem, sem o chá, mas nesse momento ele é importante para acelerar o processo e trazer as respostas para seus questionamentos e intenções. Por isso chamamos de “treinamento expresso”. Por enquanto, vamos usar o chá com assistência guiada. As meninas vão ajudá-la a manter, firme e claro, o propósito de lembrar de suas vidas passadas. Assim, quando sua essência estiver desligada do corpo, poderá acessar rapidamente essas lembranças.

– Entendi. Mas… por que a gente esquece das vidas passadas quando nasce?

– Quando um ser vivo morre, desaparecem suas memórias, seu corpo, sua energia e sua identidade. Mas suas ondas cármicas continuam e se manifestam em outro ser, com outras memórias, outro corpo, outra energia e outra identidade. É outro ser, completamente diferente, apenas com as mesmas ondas cármicas. Porém, tudo o que acontece no Universo inteiro fica gravado nos registros Akáshicos para sempre. Então, você consegue retroceder nesses registros, acessando memórias das outras manifestações anteriores. Acredite, não lembrar das manifestações anteriores é uma grande dádiva. Seria uma verdadeira tortura você nascer lembrando de todas as vidas passadas, pois você viveria em ciclos eternamente e jamais conseguiria avançar. Repetiria sempre a mesma vida, de novo, de novo e de novo. Mas há situações nas quais é importante resgatar essas memórias. Agora é uma dessas situações, e logo você vai entender. Agora, deite-se confortavelmente e relaxe. Quando estiver bem relaxada, tome o chá.

– Uma última dúvida… isso aqui não vicia, não?

– De forma alguma. É um remédio, uma medicina natural, feita para se usar poucas vezes, com uma intenção clara e sempre de forma assistida. Não é para uso recreativo. Não provoca dependência.

Sofia aquiesce, deita na cadeira, relaxa e entra em um estado meditativo leve. Bebe o chá e aguarda pelos efeitos que já conhece. Em alguns segundos, sente como se estivesse sendo arrancada de dentro de seu corpo. Percebe sua mente lá, distante, longe, mas ela é apenas consciência, apenas luz. Olha para si mesma: um anjo dourado irradiando luz. Olha para Eloaton: ele também tem a mesma forma, um anjo dourado, por quem sente profunda admiração. Olha para Lemann: o velho senhor de dois mil e trezentos anos também tem a mesma forma. Sofia entende que os três são Pleiadianos em sua essência. Ela não havia percebido antes, mas também há um Siriano na sala, um imponente gigante azul com uma bondade infinita no rosto, parecendo um enorme golfinho sorridente. Ela olha para as meninas: Shakti tem sua forma humana normal, mas muito luminosa, jorrando bondade de seus olhos. Leize… Leize é diferente, é vermelha, esguia, muito maior do que seu corpo físico. Ela tem muita energia, muita força. E é justamente Leize que ordena:

– Lembre-se de quem você é.

Sofia toma consciência de si mesma.

– Agora, lembre-se de suas vidas passadas. Quem você foi na sua vida anterior?

As palavras parecem ter cores próprias. Sofia imediatamente se vê em um lugar estranho, colorido, muito alegre, com música e muitos amigos. Era um veículo, talvez uma van ou Kombi. Ela estava deitada no chão, sobre algumas almofadas. Todos riam muito e cantavam. Estavam fumando alguma coisa e bebendo. Sentia a dor de uma picada recente em seu braço. Alguém coloca um pedacinho de papel em sua língua. Ela lembra de ter ficado assim por mais algum tempo, depois começou a ter alucinações. Sentia toques e abraços, beijos e uma volúpia sem qualquer controle. Mas começou a lhe faltar o ar, começou a ter convulsões. Sentiu uma forte dor no peito e percebeu que estava entrando em choque. Estava tendo uma overdose. Sentiu seu coração parar de bater. Apareceu um túnel de luz à sua frente e a luz era muito quente e agradável, e ela seguiu para a luz. Logo escuta a voz de Leize a chamando:

– Você lembrou dos últimos momentos de sua última vida. Agora, recorde-se da vida anterior a essa. Quem era você?

Sofia enxerga sua penúltima vida como se fosse um filme em alta definição. Uma riqueza incrível de detalhes. Parecia que ela estava lá. Sentia o cheiro, as texturas, os sons, os gostos. Era incrivelmente real. Estava em uma era medieval. Usava roupas medievais. Sentia cheiro de fumaça, cocô de cavalo e xixi de vaca. Estava em uma casa com pouca iluminação. As paredes eram de pedra. Ela estava cozinhando em um fogão a lenha e conversando com alguém.

– Vem me ajudar na cozinha. Sai desse laboratório, você não saiu daí o dia inteiro. Parece que nem lembra que eu existo.

– Está bem, meu amor. Acho que já trabalhei bastante. Tive bons avanços. O que você quer que eu faça?

Sofia olha para a porta que se abre, e dela sai… o Lemann, exatamente igual a como está hoje, porém, usando roupas medievais e um avental de couro. Sofia se assusta! Ela e Lemann foram um casal em uma vida passada? Como assim?

Leize percebe o susto de Sofia e a acalma, dirigindo-a para outro momento daquela mesma vida.

Sofia e Lemann estavam à frente de uma lareira, debaixo de algumas cobertas e brindavam suas taças de vinho. Lemann fala:

– Eu quero me lembrar de todos os momentos que estamos passando juntos, meu amor, para sempre. Hoje é um dia muito especial: faz cem anos que nos conhecemos. Estamos juntos há cem anos, nunca brigamos, nunca nos traímos. Sou muito feliz com você, e nunca pensei que seria pai novamente, com mil e quinhentos anos de idade.

Sofia leva outro susto: Estava grávida do Lemann? Ela estava com mais de cem anos, e grávida? E o que aconteceu?

Leize a acalma novamente e logo ela se vê em uma banheira com água morna e duas mulheres a seu lado. Uma delas era... a Shakti!! Ela logo percebe que está em trabalhos de parto. Sente dores horríveis. Lembra de passar um dia inteiro tentando ter o nenê. Foi um sofrimento indescritível. Ela sentia que suas forças se esvaíam, junto com seu sangue. O nenê não nascia. Ela sente faltar o ar, sente sua vida ir embora e, vagamente, sente que sua barriga estava sendo cortada para tentarem salvar, pelo menos, o nenê. E assim ela morreu, no parto, aos cento e trinta anos de idade.

Sofia chora como nunca chorou na vida. Ela grita. Se debate. Ela morreu no momento que deveria ser o mais feliz de todas as vidas que ela teve. Ela quer o bebê em seu colo, onde está o bebê? Ele está vivo? O que aconteceu com ele? Ela entra em desespero, se agita, grita, quer levantar e sair correndo. Então, sente que tem alguém tentando controlar seus movimentos e encostando alguma coisa em sua testa. Aos poucos, tudo vai escurecendo e ela simplesmente apaga.

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Uma suave luz esverdeada parece brilhar no teto. Sofia vai, aos poucos, recuperando a consciência. Onde estava? Cheiro de hospital. Tem uma placa luminosa no teto. Ela já esteve nesse lugar antes. Começa a coordenar os pensamentos e se lembra: Está na mesma enfermaria em que acordou no primeiro dia em Ethoria. Sente preguiça e uma vontade imensa de não sair dali nunca mais. Adormece novamente.

Horas depois, sente uma mão em seu ombro e acorda, com um susto. É Lemann. Ele está ali, sentado a seu lado.

– Hora de acordar, princesa Aurora.

– Lemann… que bom que você está aqui. – Sofia o abraça, carinhosamente – Por favor, me explique o que aconteceu naquela minha vida passada. Nós éramos casados?

– Meu amor, nós fomos casados por cem anos. Nós nos conhecemos em 1308, nos arredores de Paris, na França. Você sempre foi muito inteligente, questionadora, mas suave, delicada, carinhosa e atenciosa. Depois de dez anos juntos, eu contei tudo sobre quem eu era e a levei a Shamballah. Expliquei sobre as águas da Fonte da Juventude e, a partir daquele dia, eu e você íamos diariamente nos banhar nas cachoeiras da Vida Eterna, antes de começarmos nossos trabalhos diários. Fomos muito felizes. A cada dez anos, mudávamos de cidade, para que as pessoas não percebessem que a gente não envelhecia. Em 1380, mais ou menos, eu conheci o alquimista Nicolas Flamel, que estava buscando entender os segredos da Pedra Filosofal. Bem, eu conhecia os segredos, então passei a cooperar com ele. Eu não podia contar tudo, não podia falar sobre as cachoeiras de Shamballah, mas poderíamos tentar descobrir juntos a composição da água e quais componentes eram os responsáveis por garantir a longevidade. Trabalhamos juntos na edição de seu mais famoso livro, o Sumário Filosófico. Mas, dois anos antes de publicar o livro, tivemos a melhor notícia de nossas vidas: você estava grávida, aos cento e trinta anos.

Lemann respira e continua:

– Vivíamos na mais intensa felicidade. Sempre fomos muito apaixonados, morávamos com um certo conforto, sempre em casas um pouco isoladas dos grandes centros. Tínhamos uma boa estabilidade financeira, proveniente das reservas de ouro que fui fazendo durante minha longa vida. Não nos preocupávamos com nada. Nós dois adorávamos cuidar da nossa casa, onde quer que estivéssemos morando. E eu me sentia muito realizado em poder ajudar um dos maiores filósofos da história humana a escrever seu livro. Porém, nem tudo pode ser tão perfeito o tempo todo.

Lemann faz uma nova pausa, suspira profundamente e prossegue:

– O nenê era grande demais. Você passou mais de um dia em trabalho de parto. Até hoje, seus gritos não saem da minha cabeça. Mas muito pior do que seus gritos, foi quando você parou de gritar. Eu invadi o quarto desesperado. As duas parteiras já estavam abrindo sua barriga para tentar salvar o nenê, pois você já não tinha mais vida. Elas tiraram a criança, que estava toda roxa. Fizemos de tudo, mas a criança nunca respirou. Ela morreu com você, no parto. Era uma menina. Não dei nome a ela.

O velho homem seca suas lágrimas, que escorrem pelo seu rosto. Sofia chora junto, pois agora ela se lembra de tudo.

– Meu mundo desabou. Nada mais tinha importância. Não fazia sentido poder viver para sempre, sem ter você a meu lado. Parei de me banhar em Shamballah. Queria apenas morrer, afinal, não tinha mais nenhum motivo para continuar vivendo. Entrei em uma grave crise de depressão. Não queria receber ninguém, me isolei em meu escritório, mal me alimentava. Estava envelhecendo rapidamente e era exatamente o que eu queria: morrer. Só morrer.

Sofia segura as duas mãos de Lemann e, agora, chora mais do que ele.

– O Nicolas Flamel ia à minha casa todos os dias e eu o mandava embora. Mas, certa vez, ele arrebentou a porta e entrou. Lembro de tê-lo agredido, e ele revidou. Literalmente me encheu de porrada, até que eu sentei no chão e falei: “Flamel, eu só quero morrer. Ajude-me a morrer”. Ele respondeu: “Não. Eu vou ajudá-lo a viver, e a viver tanto, e tão bem, que você vai voltar a conhecer novamente a reencarnação de sua amada Eleonore.”

– Meu… meu nome era Eleonore?

– Sim. O mesmo nome do primeiro amor de Beethowen, quatrocentos anos mais tarde. Toda a vez que escuto a música Eleonore eu lembro de você. Bom, o Flamel provou ser um grande amigo e uma pessoa sábia, de imenso coração e bondade. Ele ficou ao meu lado por vários meses. Ele viveu o meu luto comigo. Acabei contando para ele sobre Shamballah e a Fonte da Juventude. Consequentemente, também mostrei a ele o meu disco voador. Ele me convenceu a levá-lo a Shamballah, mas exigi o juramento de jamais em sua vida contar para mais ninguém sobre a cidade. Ele tomou um banho na cachoeira comigo, um banho de um dia inteiro. E era tudo o que eu precisava para voltar à vida. Ele me deu um motivo para viver: a esperança de reencontrar você em uma reencarnação futura. Por fim, eu o ajudei a publicar seu livro em 1409, mas não queria que ninguém soubesse que eu o tinha ajudado. Não queria meu nome na obra. Era mérito dele.

– E o que aconteceu depois?

– Eu fui para Shamballah, fiquei morando lá por alguns anos. Comecei a frequentar uma certa tradição esotérica, na qual conheci o Eloaton, o Guardião de Ethoria 27B. Contei a ele que queria viver uma vida reclusa, longe de todos, indefinidamente. Eloaton disse que seria um grande desperdício se meus conhecimentos não fossem compartilhados com a humanidade e que não me faria bem ficar muito tempo isolado em uma caverna no tibete ou algo assim. Então ele sugeriu que eu me tornasse o Guardião de Shamballah, enquanto esporadicamente trabalhava como professor, conselheiro, chanceler ou diplomata, em determinadas situações onde isso se tornasse necessário. Foi o que fiz a partir de então.

– Você é o Guardião de Shamballah há seiscentos anos?

– Sim. Nunca mais me casei, nem tive outra namorada depois de você. Digamos que eu fiquei a esperando pelos últimos seiscentos anos. Veja, eu trouxe comigo o medalhão que fiz para você. Guardei-o comigo por todos esses séculos, esperando pelo dia em que pudesse devolvê-lo.

Lemann entrega a Sofia o pequeno medalhão, o mesmo que estava pendurado na parede de seu escritório e a ajuda a colocá-lo no pescoço. Lemann simplesmente desaba no choro.

Sofia o abraça longamente. Quando ele consegue se recompor, ela olha profundamente em seus olhos e também o reconhece como o maior amor que ela teve em todas as suas encarnações na Terra. Um amor que nem a morte poderia vencer. Sofia acaricia suavemente o rosto de Lemann e o beija, com todo o carinho do mundo. E então os dois sentem que, finalmente, voltaram a ficar juntos, depois de um – extremamente longo – período separados. Reconhecem ambos a dor da separação e entendem que, até que enfim, essa dor acabou. E choram, juntos, em um misto de alegria, felicidade, tristeza, saudade, enfim, algo impossível de definir. Estão novamente juntos. É tudo o que importa.

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Lemann e Sofia chegam, de mãos dadas, ao grande salão, onde Eloaton os esperava.

– Bem, meu velho amigo, nem todos os sóis de todos os Universos são capazes de ofuscar a alegria de seus olhares e você sabe o quanto fico feliz por vê-los juntos novamente. Mas você também sabe que deve abdicar do cargo de Guardião, não é?

– Com todo o prazer, meu querido amigo dourado. Acho que meus préstimos foram bastante significativos por esses últimos seiscentos anos e está na hora de passar o bastão para a frente.

– Teremos um período de transição para isso, até definirmos o seu substituto e, provavelmente, você precisará se mudar, afinal, sua casa fica justamente na entrada do portal para Shamballah.

– Tudo a seu tempo, sem problemas.

– Vamos voltar aos trabalhos então. Sofia, você está preparada para prosseguir em sua regressão?

– Depois de reencontrar o grande amor de todas as minhas vidas, estou preparada para qualquer coisa que vier.

– Então entrem e…

Sofia passa por Eloaton e abraça Shakti, com uma ternura enorme, e fica abraçada por vários minutos, apenas agradecendo.

– Você fez tudo o que podia, com as condições que você tinha. Você não teve culpa nenhuma, não havia como salvar a minha vida, nem a da minha filha. Sou infinitamente grata pelo cuidado que você teve comigo durante tantas vidas, antes e depois daquela… você sempre esteve a meu lado, sempre foi muito mais do que uma amiga, foi uma protetora. Muito obrigada. Muito obrigada.

Shakti chora abraçada com Sofia. Parecia que um peso gigantesco havia saído de suas costas. Há séculos ela sentia a culpa por não ter podido salvar, nem a sua melhor amiga, nem a sua recém-nascida filha. Ela esperava esse perdão há muito tempo.

Após alguns minutos, elas reiniciam os trabalhos. Sofia assume um olhar sereno, deita, relaxa, bebe o chá e, momentos depois, já sente como se estivesse sendo arrancada de seu corpo. Já está acostumada com esse ritual. Observa os presentes em suas formas originais sem nenhum espanto. Leize orienta:

– Agora quero que você retorne para a encarnação mais antiga que você conseguir se lembrar. Quando foi que você decidiu nascer pela primeira vez como um ser humano?

Sofia vai lembrando rapidamente de suas muitas vidas. Já foi mulher, homem, nos mais diversos locais do mundo, entre os Astecas, na Roma Antiga, no Egito, na Suméria… Aí ela dá uma maior atenção à sua encarnação na Suméria, na cidade de Eridu, há quatro mil e cem anos. Ela era uma sacerdotisa… não, era uma rainha… era a esposa do rei Ur-Nammu! Ela lembra de detalhes de sua vida com o rei, o castelo, os zigurates, a construção da cidade… o rei era um poço de bondade, mas também muito familiar, ela o conhece… só não lembra quem ele é. Ela lembra de voar no disco voador, o mesmo disco voador que o Nestor dirige e…

Sofia leva um susto enorme. Leize imediatamente intercede dizendo:

– Não é isso que você precisa lembrar. Vá para antes disso. Quando você decidiu nascer como ser humana?

Sofia volta a se concentrar. Lembra rapidamente de sua primeira encarnação humana na Bolívia, em Puma Punku, há quinze mil anos. Ela era uma importante sacerdotisa e seu palácio majestoso ficava às margens do magnífico lago Titicaca. Ela lembra de um tremor de terra muito forte e de uma onda gigantesca vindo rapidamente em direção à cidade e…

– Ainda não é nessa encarnação. Lembre-se de sua vida logo anterior a essa – ordena Leize.

Sofia relaxa ainda mais e consegue focar na encarnação anterior, quando era apenas uma pequena menina na cidade de Atlântida, há mais de quinze mil anos, quando era… ela mesma, com sua aparência dourada, brilhante… Era um castelo majestoso com paredes de mármore e janelas enormes, por onde se podia ver o pôr do sol como um formidável espetáculo de cores. Ela adorava olhar, fascinada, o pôr do sol, todos os dias. Havia computadores muito avançados nos quais ela adorava brincar enquanto seu pai trabalhava fora. Sua mãe era linda, muito amorosa e atenciosa, com olhos azuis enormes e brilhantes que transmitiam uma paz e uma serenidade quase infinitas. Ela lembra de que Atlântida estava em guerra com alguém. Então, a nave do papai pousa e ela vai correndo para recebê-lo. A porta de vidro se abre e ela corre para seus braços. Papai era enorme, com seus longos cabelos loiros, suas vestes azuis, o medalhão no peito e…

Sofia volta imediatamente em um solavanco para seu corpo físico, sem que Leize conseguisse fazer qualquer coisa. Em um espasmo, ela se senta na cadeira, aturdida pelo tão rápido retorno. Sente náuseas, o chá ainda está agindo. Ela se sente confusa, mas olha para Eloaton e, como se fosse uma menina de quatro anos de idade, o chama:

– P… Pai???



Julio e Amanda tomam um café na varanda da cabana, enquanto conversam sobre os preparativos para as viagens.

– Na Lituânia faz muito frio? – Pergunta Julio.

– Letônia. Faz. É frio de rachar o bico. – Responde Amanda.

– Lituânia, Letônia, tanto faz. Não são países vizinhos? Tá levando agasalho suficiente?

– São países vizinhos sim. Estou levando roupas térmicas, ocupam pouco espaço, esquentam bastante e permitem boa mobilidade. Conseguiu falar com aquele hacker?

– Sim, estou conversando com ele. Vamos começar a planejar hoje à noite… peraí… o que é aquilo lá no céu?

Amanda olha para onde Julio aponta. Um ponto luminoso se aproxima em grande velocidade. O Cão levanta as orelhas e sai correndo, latindo fervorosamente.

– Parece que o teu boitatá voltou – brinca Amanda.

– Pois não é? Só que esse é só um bagulho brilhante. O que eu vi antes era tipo três bolas coloridas juntas.

O objeto continua se aproximando, em absoluto silêncio. Ao chegar perto da fazenda do Julio, muda a direção e se encaminha para o túnel que leva a Ethoria 27B.

– Vou tratar de ponhar um pedágio aqui.

– Acho uma ótima ideia.

– Ei, Cão, volta pra cá!

O velho pastor alemão volta, abanando o rabo, mas não pára de latir, enquanto o objeto desaparece no desfiladeiro.

Minutos depois, o misterioso disco voador aterriza no discoporto de Ethoria 27B. A porta se abre e descem dois homens, vestidos de preto, acompanhando Lanna. Eles a encaminham para a descontaminação. Também providenciam suprimento de amônia, pois ela já começava a sentir falta de ar e dores nos pulmões. Em seguida, vão ao alojamento.

– Seja bem-vinda, Lanna. Meu nome é Torrunum. Sou um dos responsáveis pela recepção dos visitantes e futuros moradores.

– Muito obrigada… mas onde estou?

– Você está em Ethoria 27B, uma cidade na Quarta Dimensão onde todos são bem-vindos. Especialmente os híbridos da Resistência. Você quer uma água? Está com fome?

– Sim, agradeço uma água e estou com fome sim, mal jantei ontem e ainda não comi nada hoje.

– Venha comigo, vamos ao refeitório. Temos horários rígidos aqui, mas você teve sorte. O refeitório ainda está aberto para o desjejum.

Depois da refeição, retornam ao alojamento. Torrunum explica o funcionamento das camas, do banheiro, da cozinha e tudo o mais. Meia hora depois, Lanna está bem acomodada, limpa e alimentada.

– Me falaram que a Resistência tinha uma tarefa para mim. O que devo fazer?

Torrunum responde:

– Bem, eu sou apenas um dos responsáveis pelo alojamento. Você precisa falar com o Eloaton, mas no momento ele está bastante ocupado. Sugiro que você descanse um pouco agora. Ele deve vir falar com você assim que estiver livre.

Lanna agradece. Como passou praticamente a noite inteira em claro, acha uma boa ideia descansar um pouco. Ela ajusta a temperatura da cama, conforme as instruções recebidas, e deita para botar o sono em dia.



A tarefa de Lanna

Lanna acorda devagar. Deve ter dormido por várias horas. Sente seu corpo dolorido. A máscara de amônia é bastante desconfortável e pressiona seu rosto, deixando marcas. Aos poucos, toma consciência de onde está. Senta-se na cama. Alguns humanos conversam baixinho a algumas camas de distância. Ela vê dois Greys na cozinha, se assusta e pensa em se esconder, mas logo percebe que não são hostis.

Um dos Greys percebe que ela se acordou e vem até ela, se apresentando:

– Boa tarde, Lanna. Meu nome é Baark. Sou um dos cientistas que trabalham com pesquisas com algas, nos laboratórios aqui ao lado. Acho que temos muito a conversar, mas tem alguém que quer falar com você primeiro. Tome, coloque esses óculos escuros, pois você não está acostumada com a claridade. Podes me acompanhar, por favor?

Lanna se levanta, coloca seus calçados e acompanha o pequeno Grey. Ele a leva para a área externa, onde havia um bosque e várias casas. Se aproximam de uma casa em formato de laranja. O pequeno ser verde com pouco mais de um metro de altura aperta a campainha. Logo em seguida, a porta da casa se abre. Lanna se assusta com a altura do homem que sai da casa. Ele tem o dobro da altura dela. O gigante loiro se apresenta e os convida a entrar.

– Entrem. Lanna, seja bem-vinda. Meu nome é Eloaton e sou o Guardião desta cidade. Me falaram sobre você, sobre seu trabalho e suas intenções de impedir a destruição da biodiversidade da Terra por parte dos Greys e dos Reptilianos. Acho que, aqui, você poderá usar todos os seus conhecimentos para alcançar esses objetivos. Mas, antes de mais nada, quero saber se você está bem instalada. Você está bem? Quer uma água? Uma fruta?

– Boa tarde, Eloaton. Sim, fui muito bem acolhida, bem recebida. Estou bem instalada no alojamento, já fiz uma boa refeição e descansei bastante. Agradeço um copo de água, sim.

Eloaton serve um copo de água para Lanna e prossegue:

– Por favor, me conte sobre você. Onde você morava? Como era sua vida lá?

Lanna fica um pouco temerosa com a pergunta. Ela não está acostumada a confiar nas pessoas. Durante a sua vida inteira, ela aprendeu a se esconder e planejar em segredo, jamais contando nada a ninguém. Mas algo a fez confiar incondicionalmente em Eloaton. Então, ela sente um grande alívio em poder falar:

– Eu sou uma híbrida Grey. Nasci em um laboratório, fruto de uma fertilização in vitro combinando DNA Grey com humano. Passei a vida toda em Litópolis, uma cidade subterrânea na Antártida. Foi lá que cresci, estudei e me formei em biologia. Desde os dezesseis anos trabalho em um laboratório que tem por objetivo principal servir de base para pesquisas biológicas que atendam aos interesses dos Greys.

– Muito interessante. Mas você tinha família, amigos? Como era sua vida?

– Nós, híbridos, somos todos uma mesma família. Como somos todos gerados em laboratório, não temos pais nem mães, e também não procriamos. É como se todos fôssemos mais ou menos irmãos. Posso dizer que tenho um milhão de irmãos, espalhados em diversas cidades subterrâneas controladas pelos Greys. Os mais velhos cuidam dos mais novos. Existem cerca de mil Greys que comandam e administram as cidades e todos os híbridos são subordinados a eles. Em cada uma das cidades há, pelo menos, um Chefe Grey que é como o prefeito ou governador da cidade. São os Chefes que mandam em tudo. Como vivemos em cidades subterrâneas, não há divisão entre dia e noite. É sempre noite. Claro que criamos vínculos de amizade e de relacionamentos entre nós, híbridos. Tenho vários amigos, já tive alguns namorados. Mas nossa vida é complicada, é muito restrita. Estamos sob permanente vigilância. Não temos liberdade para nada. O próprio fato de falarmos sobre liberdade já é motivo para aumento severo da vigilância. Inclusive nos acostumamos a ver alguns amigos simplesmente desaparecerem por cultivar pensamentos sobre liberdade, revolução, mudanças, essas coisas.

– E a Resistência?

– Então… como vivemos sob intensa vigilância, não podemos sequer falar sobre movimentos de resistência ou rebeldia. Não permitem nenhum tipo de reunião ou organização nesse sentido. Eles monitoram tudo. Por isso, a ideia de haver um movimento chamado Resistência é tido mais como um boato, algo muito vago. Às vezes aparece uma notícia de que algum conhecido foi preso por suspeita de integrar a Resistência. Em geral, esse conhecido simplesmente desaparece e todos os seus registros, fotos, trabalhos, tudo, é simplesmente apagado. A pessoa deixa de existir. Aliás, é como se nunca tivesse existido. Acabamos por nos acostumar com isso, então cada um toma conta da sua vida e evitamos sequer pensar em algum motim ou coisa assim. Mas chegou um momento que entendi que não era apenas um boato. Percebi que a Resistência existia de verdade, formada por integrantes que pareciam estar completamente livres de qualquer suspeita.

– E o que você fez?

– Eu comecei a procurar por esses integrantes. Acabei encontrando o QG deles e descobri que meu chefe, no laboratório, poderia ser um deles. Mas isso foi há dois dias e jamais sequer desconfiei que ele poderia ser da Resistência. Quando decidi entrar em contato, eles foram mais rápidos e me trouxeram para cá.

– Quem era seu chefe?

– Torkk.

– Ele é um dos nossos contatos na Resistência. Está conosco há décadas. Já enviou vários híbridos para cá. Acredito que podemos confiar nele. Mas por que você queria sair de Litópolis?

– Em Litópolis, eu não poderia fazer nada para impedir o projeto dos Greys. Se eu fizesse qualquer coisa e me descobrissem, eles simplesmente me eliminariam, como eliminaram vários dos meus amigos. Eu precisava sair de lá para poder fazer alguma coisa.

– Qual é exatamente esse projeto dos Greys?

– Os Greys são oriundos de B-Groot, o único planeta que orbita a estrela Betelgeuse. Há mais de seiscentos anos a estrela começou a entrar em colapso e eles abandonaram o planeta em várias naves-mães, cada uma em direção a um outro sistema solar onde eles pudessem começar uma nova civilização. Mas é muito difícil encontrar um planeta com todos os elementos necessários para o suporte da vida dos Greys. Por isso, milhares de anos antes eles já estavam visitando esses planetas para adaptá-los às suas necessidades. Aqui na Terra, eles criaram essas cidades subterrâneas há quinze mil anos e vêm desenvolvendo nossas raças híbridas desde então. O problema é que a Terra tem oxigênio demais para o organismo dos Greys. Eles precisam de mais amônia, de mais gás carbônico, de mais efeito estufa. Eu não sei exatamente como eles estão aumentando o gás carbônico e o efeito estufa, mas sei como estão produzindo mais amônia, pois é justamente nisso que eu trabalho. Ou trabalhava.

– Nós sabemos perfeitamente como eles estão aumentando o gás carbônico: em parceria com os Reptilianos, estão incendiando todas as florestas da Terra e queimando combustível fóssil na mais larga escala possível. Mas o que fez você mudar de ideia e fugir de lá?

– Acontece que, para adaptar a atmosfera para as necessidades dos Greys, obrigatoriamente precisamos dar fim a praticamente toda a vida que existe na Terra, que hoje basicamente depende do oxigênio. Eu não concordo com isso. Não posso continuar trabalhando em algo em que sou radicalmente contra, entende?

– Perfeitamente. Então você não quer contribuir para a morte de nenhuma espécie viva, correto?

– Eu não quero contribuir para uma extinção em massa, mesmo que seja para substituir por outras espécies. Eu conheço muito pouco a natureza aqui fora. Tudo o que vi, durante minha vida inteira, foram apenas fotos e vídeos. Eu nunca tinha visto um bosque como esse que tem na frente da sua casa antes. Nunca tinha visto a luz do dia. Até agradeço o Baark por me dar esses óculos escuros, eles realmente estão sendo bem úteis.

Baark acena com a cabeça.

– Então posso considerar que, ao mesmo tempo em que você não quer provocar a morte de ninguém, também gostaria de trabalhar para melhorar a vida na Terra?

– Isso! Não sei de que forma posso fazer isso, não sei os caminhos, mas vou me dedicar ao máximo para potencializar toda espécie de vida existente. Os Greys que procurem outro planeta ou que se adaptem ao nosso. Estou certa ou errada?

– Você não imagina o quanto está certa. Pessoas como você são muito valiosas. Amanhã o Baark poderá te levar ao laboratório para encontrarem, juntos, formas de realizar esse objetivo. Acho inclusive que vocês poderão desenvolver algum tipo de bactéria ou microorganismo que seja capaz de combater as algas produtoras de amônia, o que acha?

Lanna pensa por alguns instantes e seus olhos brilham. Ela olha para Baark, que novamente apenas acena com a cabeça, concordando.

– Acho que sei exatamente como fazer isso! Perfeito! Nossa, muito obrigada! É isso! Sim, vou trabalhar nisso imediatamente! Posso começar agora mesmo?

– Calma, teremos tempo. Gostaria que você conhecesse outras pessoas enquanto isso.

Eloaton se concentra e envia uma mensagem telepática para Sofia, que chega à casa laranja em poucos minutos, acompanhada pelo Nestor, que tinha recém-chegado na cidade. Sofia enxerga a aura de Lanna e imediatamente simpatiza com ela. Nestor e Lanna se observam nos olhos de uma forma um pouco mais profunda.

– Lanna, essa moça simpática é a Sofia. Ela é minha filha e vai te ajudar em suas pesquisas. Sofia, essa é a Lanna. Ela é bióloga e tem por missão impedir uma parte importante do projeto de invasão dos Greys.

Sofia atenta para o fato de Lanna ser uma híbrida. Repara nas suas orelhas um pouco pontudas, em seus olhos grandes, na sua pele levemente azulada e em seu queixo fino. Segura as suas mãos com quatro dedos longos, olha novamente nos olhos dela e sorri.

– É a primeira vez que vejo uma híbrida. Acho que temos muito a conversar. Gostei de você. Ah, esse é o Nestor. Ele é mais divertido do que parece.

– Obrigado pela gentil apresentação, Sofia. Muito prazer, Lanna, eu… bem, hã… enfim, seja bem-vinda. – Nestor se atrapalha um pouco ao cumprimentar a híbrida.

Lanna agradece e, sem qualquer cerimônia, Sofia a leva para passear alegremente no bosque, para mostrar-lhe as plantas, os animais e, se possível, a fênix que mora lá, como se fossem velhas amigas de infância. Eloaton serve uma banana amassada para o Nestor.

– Ainda vou descobrir que tempero é esse que você coloca na banana. É uma delícia.

– Um chef jamais divulga seus segredos. Fez boa viagem?

– Passear com um disco voador sempre é uma boa viagem. O que exatamente eu vim fazer aqui, hoje?

– Vamos fazer mais um treinamento expresso. Na verdade, uma regressão, pois você já tem todo o treinamento que precisa, só não se lembra. Mas já está tarde, hoje já tivemos um dia bem intenso, então é melhor deixar para amanhã.

– De manhã, posso ir brincar um pouco com as crianças na praça antes disso?

– Fique à vontade, meu amigo. Até acho que isso vai ajudar bastante na regressão.

Meia hora depois, Nestor se reúne com Sofia e Lanna no bosque, conversam, dão algumas risadas e se dirigem ao alojamento, pois já começava a anoitecer.



Korgg acorda devagar. Todo seu corpo dói, mas já não sente mais tanta náusea quanto antes. Seus pulmões não queimam tanto. Ele percebe que não está em sua cela.

– Acordou, dorminhoco? – Pergunta Palamedes.

– Onde… onde é que eu estou? Como vim parar aqui?

– Você pode ter todas as mordomias de um fiel puxa-saco dos Chefes, mas teu amigo aqui tem as malandragens e conhece espaços nesta nave que nem você desconfia que existem.

– Mas onde estamos?

– Em primeiro lugar, de nada.

– Ah, sim, obrigado por me tirar de lá. Como você fez isso?

– Não é difícil descobrir a escala dos guardas vigilantes. Eles são muito burros. Deixaram uma planilha com a escala pendurada na parede pelo lado de fora. Aí foi só encontrar o guarda da vez e oferecer para ele um biscoito bem gostoso e temperado com o laxante mais forte que encontrei. Ele deve estar no banheiro até agora. Qualquer um pode pegar um carrinho de limpeza e fingir que vai limpar a cela. E eu fui tão desastrado que, sem querer, bati na câmera de vigilância e ela ficou filmando o teto. Acho que mereço algumas chicotadas pela minha falta de atenção.

– E onde estamos, afinal?

– No porão do setor de produção de algas. Ninguém vem aqui nunca, a não ser que um desses canos entupa ou quebre. Toma, beba um pouco de água. Tá com fome?

– Qualquer coisa que não precise mastigar, por favor.

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A nave G-48 passa pela órbita de Urano, enquanto Ramazor ordena:

– Andem logo com isso! Precisamos restaurar esses encanamentos logo. Pondr, os novos tripulantes já estão em atividade?

– Sim, altíssimo. Temos dois mil tripulantes recém-despertos da hibernação criogênica, devidamente restaurados, alimentados e prontos para o trabalho.

– Então mande-os consertar logo esse estrago todo. Só tem meia dúzia aqui, precisamos fazer a ponte voltar a operar normalmente o mais rápido possível. Já encontraram os dois rebeldes?

– Ainda não, altíssimo, mas tenho uma ideia para localizá-los.

– Na última vez que você teve uma ideia, metade da ponte de comando foi para o espaço. Qual é a brilhante solução agora?

– Estejam onde estiverem, eles precisam de comida. O fornecimento de refeições está sendo monitorado e vigiado, portanto, eles não podem simplesmente entrar na fila do refeitório. Vão precisar encontrar comida de outra forma. Podemos facilitar isso para eles, divulgando que alguns sacos de ração estão perto da validade e serão incinerados. Certamente eles tentarão conseguir acesso aos sacos, e aí nós os pegamos.

– Parece interessante. Pode dar certo e não custa nada. Pode dar sequência. E me traga um prato de algas. Com celerina líquida, dessa vez. Odeio ter que abandonar cozinheiros pelo caminho.

– Imediatamente, senhor.

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Na Terra, mais precisamente em Paris, na sede da ESA, uma reunião de emergência é marcada. O observatório espacial Integral, em órbita da Terra, detectou uma grande anomalia na faixa de micro-ondas e raios Gama nas proximidades do cinturão de Kuiper. Alguma explosão realmente muito grande aconteceu por lá e todos os observatórios da Terra devem tentar localizar essa anomalia para entender o que está acontecendo.

Renato

Na primeira hora da manhã, Eloaton senta-se no banco da praça, enquanto contempla o jovem Nestor, totalmente entretido em uma aventura imaginária com uma turma de crianças. Ele encarna o papel do valente guerreiro que combate o dragão malvado para salvar a vida da princesa presa na torre. Eloaton ri muito, vendo Nestor rolando no chão e brandindo espadas de gravetos contra as hordas malignas do reino inimigo que, a todo custo, tentam impedi-lo de conseguir alcançar seu intento.

A batalha dura vários minutos, com corridas de cavalos invisíveis e armas mágicas que congelam ou incineram os inimigos. Por fim, o valente guerreiro alcança a torre, atacado pelo feroz dragão que cospe fogo em sua direção. Nestor usa seu último artefato mágico: um amuleto que reflete o fogo do dragão contra ele mesmo. E assim, Nestor vence o dragão e salva a princesa, sob aplausos frenéticos de quinze corajosos anões completamente extasiados pela fantástica aventura.

E a celebração não poderia ser diferente: Nestor se joga no chão e todos pulam em cima dele, fazendo montinho. Só depois de acalmarem os ânimos é que Nestor percebe a presença de Eloaton, aplaudindo entusiasticamente a inusitada peça teatral do mais absoluto improviso.

– Eloaton? Não vi você aí. – Nestor tenta se recompor, batendo o capim preso em sua roupa imunda e ajeitando os cabelos da melhor forma possível. Tinha uns galhos presos em seu cabelo e terra em sua orelha.

– Nestor, você é capaz de me proporcionar momentos da mais genuína alegria. Ver você sendo você mesmo, tão autêntico e verdadeiro, me traz a fé de que a humanidade pode ser salva.

– Adoro brincar com as crianças.

– E pelo jeito elas também gostam de brincar com você. Como foi sua semana de estudos?

– Sem querer comparar, mas já comparando, o Lemann é muito mais acessível do que o Krzovv e, pelo jeito, conhece tão bem sobre o assunto quanto o grandão azul. Gostei muito da didática dele. Ele me fez devorar alguns livros. Entendo que a parte do estudo é necessária e estou bem acostumado com ela, mas ele foi muito mais prático: me fez ficar um dia inteiro observando um formigueiro e anotando as coisas que as formigas faziam. Depois, me pediu pra identificar e explicar pra ele as estratégias das formigas. Eu tive que pensar como uma formiga pra responder isso. Achei fantástica essa abordagem!

– E o que você aprendeu com isso?

– Acho que a coisa mais importante que aprendi, até agora, foi sobre como entender seu adversário, se colocar no lugar dele, pensar como ele. Ele focou muito nessa questão da empatia. Quando discuto com alguém, normalmente acho que tenho razão e que o outro está errado. Mas pela visão do outro, eu é que estou errado. Então, quem está certo? Eu ou o outro? Ou nenhum de nós?

– Muito importante essa compreensão, Nestor.

– Sim! É um jeito completamente diferente de ver as coisas e percebo que vou precisar me exercitar muito para desenvolver melhor isso. Afinal, a vida toda trabalhei em empresas onde o objetivo sempre foi ter o maior lucro possível e aniquilar o inimigo, se necessário. Negociação é para os fracos. Os fortes mandam, não negociam. Essa era a visão que eu tinha e ainda está sendo meio difícil mudar as engrenagens da minha mente para esse novo… paradigma. Nessa forma antiga de ver as coisas, as formigas seriam inimigos que deveriam ser eliminados. Mas, observando as formigas, entendi que elas são seres tão complexos quanto nós e que estão apenas buscando alimentos e construindo seus lares. As formigas não querem nos destruir, querem apenas sobreviver. Isso mudou minha forma de ver o mundo.

– Você não tem ideia do quanto já evoluiu. E o que mais aprendeu?

– Ele me pediu para manter um olhar atencioso e receptivo durante o dia todo. Uma das coisas mais importantes que aprendi foi andando atento pelas ruas de Shamballah. As pessoas lá possuem uma paz interior fantástica. Todos se respeitam, se ajudam, se cumprimentam. Eles fazem atividades juntos, conversam e riem. É um senso de união e de coletividade muito bonito. Depois de passar uma semana lá, chega a parecer surreal que existam guerras e mentiras. Falando em mentiras, ele me ensinou a perceber quando o outro está tentando nos enganar. Isso eu até já sabia, de certa forma, pois já participei de inúmeras reuniões com acionistas que…

– Ele falou sobre os Reptilianos?

– Ah, sim, falou. Então, tem a ver com a questão de entender quando estamos sendo enganados. Ele me passou umas técnicas que ainda preciso desenvolver e vou precisar de um Reptiliano para exercitá-las. Conhece algum?

– A maioria dos políticos, advogados, grandes criminosos e grandes empresários da Terra são Reptilianos encarnados, mas eles não sabem disso. Então, creio que não faltará oportunidade para esse treinamento. Ele falou sobre olhar no fundo dos olhos do adversário?

– Sim, é justamente sobre isso. Mas ele disse para eu não fazer isso com os Greys, pois os Greys são mais evoluídos e são capazes de me imobilizar ou ler toda a minha mente, somente com os olhos.

– Exato. Nunca olhe diretamente para os olhos de um Grey, ou ele terá total controle sobre você. Ele explicou o que fazer quando estiver diante de um Reptiliano em sua forma original, não encarnado como humano?

– Acho que não, não lembro…

– A primeira coisa é não demonstrar medo. Eles sentem o cheiro do medo, se alimentam dele. Eles usam o medo para dominar, para ter poder. Eles causam o medo nas populações e as dominam justamente por causa do medo. Lembra da guerra entre a Rússia e a Ucrânia, anos atrás?

– Lembro…

– Os russos invadiram a Ucrânia causando pavor por todos os lados. Mas os ucranianos enfrentaram os russos com muita coragem. Mesmo em número menor e com infinitamente menos armamentos e munições, os ucranianos conseguiram rechaçar os ataques russos, usando a coragem, a inteligência e a criatividade. Enfrentaram tanques de guerra de milhões de dólares com drones baratos. Se a Rússia ganhou ou não a guerra, não importa. O que interessa é que os ucranianos foram corajosos o tempo todo e os russos decidiram, por esse e vários outros motivos, deixar a Ucrânia em paz. Da mesma forma, em seu país, mais ou menos na mesma época, tinha muitos influenciadores que incitavam o povo contra as suas próprias instituições democráticas, contra a justiça, contra as leis. Mas todos eles, cada um deles, quando eram presos ou duramente enfrentados, acabavam ficando mansos como gatinhos. Assim são os Reptilianos: eles usam o medo para dominar mas, quando são enfrentados, mostram claramente que sempre foram, na verdade, grandes covardes.

– Então toda aquela gente que invadiu e destruiu …

– Não, nem todos eram Reptilianos, apenas alguns. Os Reptilianos são ótimos em persuadir as pessoas e fazê-las acreditar em suas mentiras. Lembre-se: os Reptilianos não sabem que são Reptilianos. Pensam que são humanos, normais, só que mais espertos. Uma das formas de sabermos se estamos falando com um Reptiliano ou não é olhando no fundo dos olhos deles e sentindo a sua verdadeira natureza. É sutil, precisa ser exercitado, mas funciona. Lembre-se, tem uma coisa muito importante que você jamais deve esquecer: nem todos os Reptilianos são maus. Alguns deles têm bom coração. Muitos deles foram reis e imperadores bondosos e que levaram suas nações a grandes avanços. Além de saber identificar um Reptiliano, você precisa saber também se ele é bom ou mau em sua essência.

– Nem toda pessoa má é um Reptiliano e nem todo Reptiliano é uma pessoa má… acho que entendi. E quando começa aquele tal treinamento expresso?

– Em uma hora. Agora vá para o alojamento, tome um banho, coma alguma coisa leve e volte aqui. Temos uma atividade muito importante para você hoje. Algo que pode mudar completamente sua vida.

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Uma hora depois, Nestor volta à praça, de banho tomado e roupa limpa. Eloaton o conduz ao grande Salão, onde Shakti e Leize já o esperavam.

– É aquele negócio de ver a luz de novo? – pergunta Nestor.

– Mais ou menos. Você lembra do sonho que teve no dia em que se matriculou para o curso de economia solidária?

Nestor pensa um pouco e se lembra do sonho.

– Caramba, tinha esquecido completamente. Tinha uma voz me falando umas coisas…

– Você precisa se lembrar de quem você realmente é.

– Isso! Foi essa a mensagem! Peraí… era você no meu sonho?

– Foi um chamado, Nestor. Pois bem, aqui estamos justamente para que você lembre de quem você é. Sente-se, relaxe e beba o chá.

Nestor senta na cadeira, ainda um pouco confuso. Leize conduz um rápido relaxamento. Nestor entra em um estado de profunda paz e, então, Leize lhe oferece o chá para tomar.

Nestor tem a sensação de que alguma coisa está tentando arrancá-lo de dentro de seu próprio corpo. Inicialmente ele resiste, mas logo relaxa mais e se deixa levar. Logo ele se sente ali, separado, vendo seu próprio corpo na cadeira. Observa Eloaton: sua forma astral parece a de um anjo dourado muito luminoso, com vestes azuis, transmitindo uma sensação de paz e imenso poder. Também percebe um gigante azulado na sala, transmitindo muita bondade, parecendo um cetáceo. Shakti é ela mesma, só que com uma aura colorida, com tons rosados e violetas muito leves. Leize parece uma samurai vermelha, grande, parecendo pegar fogo. Então Nestor olha para si mesmo: usa vestes compridas, semelhantes a uma indumentária militar… suas mãos são… verdes! E parecem ter escamas! Ele olha para Eloaton e pergunta:

– O… o que eu sou? Por que é que minha pele é verde?

– Nestor, você já vai saber, mas quero que você faça uma regressão. Lembre-se das suas últimas encarnações, uma por uma. Quem você era na última encarnação?

Nestor lembra claramente: era uma mulher, pintora, muito valente, no México, de nome Magdalena. Sua vida inteira foi dedicada à libertação das mulheres e à luta contra o machismo. Sentia dores nas costas. Era a primeira metade do século passado. Ela era muito famosa e a conheciam pelo nome de…

– E sua penúltima encarnação? – conduz Leize.

O jovem lembra de sua penúltima encarnação, também como mulher e também como artista. Era uma americana, casada com um cientista geólogo. Eles viajavam muito. Ela retratava com grande fidelidade os lugares que visitavam, a flora existente, as pedras, os cogumelos… era uma ilustradora do século XIX com um nome bem difícil de pronunciar. Lembra de fazer gravuras em madeira. Era muito talentosa. Hitchcock… sim, era o sobrenome dela. Devido à importância e qualidade de seu trabalho, era mais famosa que o marido. Tossia muito. Estava doente…

– A encarnação anterior? – Leize não deixa Nestor ficar muito tempo em uma encarnação, pois o objetivo é chegar a uma era muito, muito antiga.

Vinifreda Maxwell – O nome veio muito claro à mente. Era uma condessa. Ela e seu marido Guilherme se rebelaram contra o rei e sua política cruel e opressora. Seu marido era um dos líderes da revolta Jacobita, que tinha o intento de depor o rei e conduzir o bondoso Jaime II ao trono. Guilherme foi preso por traição na Torre de Londres para ser executado. Ela elaborou um plano fantástico e conseguiu libertar seu marido, salvando-o da morte.

As dez últimas encarnações de Nestor foram sempre como mulheres notáveis que realizaram grandes obras, ou foram muito importantes, trazendo grandes mudanças e avanços para sua época. Foi rainha, liderou êxodos e revoltas, foi até uma faraó egípcia. Mas antes disso ele foi um general romano muito cruel, que abusava das mulheres, as escravizava e as mantinha em um harém a seu dispor. Aquela que não aceitasse deitar com ele era torturada, morta e seu corpo ficava à vista das demais para que servisse de exemplo. Quando morreu, em uma batalha, Nestor se arrependeu tanto do que fez que decidiu que em suas próximas dez vidas retornaria sempre como mulher para lutar contra o machismo e pela igualdade de direitos. E assim o fez, e entendeu que essa missão estava cumprida, por isso nasceu como homem nesta atual encarnação.

– Muito bem. Agora tente se lembrar de sua primeira encarnação como ser humano – Orienta Leize.

Deserto. Areia. Tinha um rio… não, dois rios. Dois rios muito grandes e uma enorme faixa muito fértil entre eles. O mar estava próximo. Era muito quente. Estavam construindo uma cidade no delta do Eufrates, toda de pedra. As habitações eram muito frágeis e haviam muitos povos saqueadores. Era necessário fazer um muro para conter os ladrões do deserto. Construíram grandes casas coletivas para abrigar os moradores. Construíram um zigurate, que era um aeroporto anexo a um depósito ou mercado. Tinha um disco voador, era o mesmo disco voador de Nestor, só que estava novinho em folha… ele era o rei Ur-Nammu! Ele tinha contato direto e constante com seres muito evoluídos, chamados de Anunnakis, que o ensinaram todas as técnicas em engenharia e agricultura, como irrigação, plantação em patamares elevados e rodízios de culturas. Também o instruíam sobre princípios éticos e estratégias militares. Tinham muita comida e o povo estava muito feliz. Abundância traz a paz, enquanto escassez traz a guerra. Era seu lema. Ele tratava de levar abundância a seus súditos. Um povo feliz e bem alimentado defenderá seu rei até a morte. E sim, ele era um rei muito amado, criou leis muito mais humanas do que as da época e estava casado com uma rainha, linda…

Ele percebe que a sua bela rainha era uma encarnação anterior da Sofia. Leva um susto, mas Leize o conduz:

– Essa foi sua primeira encarnação como ser humano, mas tente se lembrar de quem você era antes dessa encarnação.

Havia uma guerra, há uns quinze mil anos. Eram lagartos com forma humanoide, répteis, muito violentos e cruéis. Estavam invadindo a Terra e a ordem era não deixar nenhum sobrevivente. Mas Nestor era um dos rebeldes. Lutava contra seu próprio povo e trabalhava para proteger e libertar os seres humanos, pois percebia que eles eram bons e que só queriam viver em paz. Nestor avisava sobre as intenções reptilianas e os humanos fugiam para abrigos no subsolo ou em cavernas. Obviamente, ele estava sendo caçado pelos Reptilianos por traição. Houve uma reação muito forte dos humanos, que estavam associados a outras civilizações, como os Atlantes e os Gigantes. Eles detinham tecnologias mais avançadas do que as atuais e os Reptilianos fugiram. Nestor ainda estava em sua nave quando viu um risco no céu em direção ao norte. Mesmo estando na linha do equador, foi possível ver o brilho de uma explosão sobre o polo norte. Logo depois, outro risco e uma nova explosão, desta vez no polo sul. A nave de Nestor ainda tinha energia para trabalhar por poucas horas sem precisar reabastecer. Nestor sabia o que eles fizeram e o que iria acontecer. Ele foi rapidamente à capital Atlântida e avisou a todos para evacuarem a cidade.

– Fujam para as montanhas, o local mais alto que puderem. A cidade será destruída!

Alguns atlantes conseguiram fugir, mas outros não quiseram ouvi-lo. Os humanos estavam em guerra contra os Reptilianos, e Nestor era um Reptiliano. Não confiavam mais nele e o expulsaram da cidade. Por pouco, não o lincharam.

Nestor subiu o mais alto que pôde com sua nave e observou um grande paredão de água se aproximando. Sem poder fazer nada, ele assistiu à completa destruição de Atlântida. A onda tinha cerca de trezentos metros de altura e varreu tudo o que estivesse à sua frente. Todas as cidades litorâneas e até algumas em lugares mais elevados. Logo chegou a onda do sul também e as duas ondas se encontraram, causando uma hecatombe de proporções planetárias. A nave de Nestor já estava sem energia e precisava ser recarregada. Mas onde? As pirâmides haviam sido destruídas. Não havia onde pousar, não havia energia suficiente para chegar ao Egito ou à Mesopotâmia. Todo o resto do mundo estava coberto de água.

Nestor sentiu uma grande vergonha por ser Reptiliano, por pertencer à mesma raça que aniquilou quase toda a vida na Terra. Ele sabia que morreria em poucos minutos e decidiu que, dali para a frente, nasceria como ser humano, que ajudaria a humanidade a se proteger dos Reptilianos e que não descansaria até que o último Reptiliano fosse extinto.

O sinalizador da falta de energia piscava cada vez mais forte e não havia um local seguro para pousar, nem energia para poder se deslocar a alguma região não atingida. A nave começou a perder altitude e já dava para ver as imensas ondas se debatendo a alguns quilômetros abaixo, com destroços da mais incrível civilização que já havia habitado o planeta. Nestor segurou seu medalhão e manteve firme seu propósito de reencarnar como humano e lutar pela humanidade até o final dos tempos, enquanto sua nave caía verticalmente, sendo completamente destruída ao se chocar com as águas.

Nestor abre os olhos. Agora sim, tudo fazia sentido. Ele respira fundo e senta ereto na cadeira. Seu olhar e seu semblante estão completamente diferentes.

– Bem-vindo à vida, Nestor – saúda Eloaton.

Nestor, calmamente, encara Eloaton. Organiza seus pensamentos. Agora ele lembra de tudo, inclusive das vidas anteriores, como Reptiliano. Ele lembra das lutas travadas e das incríveis artimanhas que elaborou nas encarnações como mulheres guerreiras. Sim, ele sempre foi um guerreiro, sempre liderou batalhas e revoluções contra opressores. Ele conhece as armas, as estratégias, as malícias. Conhece os horrores das guerras, sabe como se esconder, como fugir, como lutar, e sabe também quando deve optar por uma coisa ou outra. Ele é um guerreiro, sempre foi, sempre vai ser. Mesmo em sua atual encarnação, ele batalhou na defesa dos interesses de grandes empresas, destruindo o que precisasse ser destruído para isso. Então, respira e responde:

– Acho que o personagem Nestor não existe mais. Agora lembrei de tudo e sei quem eu sou, sei qual a minha missão e meu propósito. A partir de hoje, tudo será diferente. Eloaton, eu não tenho palavras e não sei como agradecer pelo que você fez por mim. Você me despertou, quinze mil anos depois. Eu poderia levar mais quinze mil anos até descobrir quem sou, se um dia descobrisse.

– Entende por que o tempo é relativo?

– Sim, agora entendo tudo. Agora tenho todo o entendimento. Em todas as minhas vidas como humano, sempre fui um rei, uma rainha ou alguém muito importante que fez algo para libertar a humanidade da opressão reptiliana. Nesta vida, eu estava me dedicando a objetivos absolutamente fúteis e diametralmente opostos aos meus verdadeiros princípios.

– O rei Ur-Nammu também passou por um momento de reavaliação da sua verdadeira missão na Terra. Inclusive, fez isso muito cedo, com apenas dezesseis anos de idade.

– Bom, agora eu demorei um pouco mais, mas volto a agradecer por me ajudar a despertar.

– E o que o novo Nestor vai fazer diferente do antigo?

– O antigo Nestor já não existe mais. Sua existência não tem mais o menor sentido. Eu sei quem sou, eu sei o que estou fazendo aqui e, a partir de hoje, sou outra pessoa. É como se estivesse nascendo de novo. Renascido. Re-nato.

– Gostei do nome. Renato. Combina com você.

– Verdade… e é quase um anagrama para Nestor. Tosco e imperfeito, como eu sempre fui. Muito bem, a partir de hoje, eu sou Renato, o renascido, e tenho uma missão a cumprir e não posso perder tempo. Eu vou precisar me reorganizar, planejar, e preciso fazer isso rápido, afinal, os Greys estão chegando. Veja só, estou me lembrando das estratégias de combate… das estratégias para evitar combates… sim, eu levaria vidas inteiras para entender isso simplesmente lendo livros e olhando formigas. Você fez o certo: ativou minhas memórias. Eu já sabia disso tudo, só precisava lembrar. Agora eu entendo. Realmente, não tenho como agradecer, Eloaton. Vou ser grato a você por todas as minhas vidas futuras até a eternidade.

– Fico imensamente feliz por você, meu amigo.

– Meninas, muito obrigado por todo o apoio e cuidado. Eloaton, precisamos conversar sobre as próximas missões. Está tudo muito claro, é mais do que óbvio. Como não pensamos nisso antes? Temos tudo o que precisamos nas mãos para vencer essa guerra, mas vamos precisar de alguns recursos, combinar algumas estratégias e definir certas negociações. Me acompanha?

– Será uma grande honra, mestre Renato.

Renato pega sua mochila e percebe que seu dodecaedro havia trocado de cor: de verde-musgo, passou a um azul brilhante. Ele segura o brinquedo em suas mãos, olhando para Eloaton, como a perguntar o que havia acontecido. Eloaton apenas lhe sorri.



– Essa é nossa última ração. Precisamos conseguir mais comida – anuncia Palamedes.

– Não dá pra ir no refeitório, incógnito, como quem não quer nada? – pergunta Korgg.

– Não, eles estão monitorando, verificando o chip de cada um. Se a gente tentar passar pela porta do refeitório, ganharemos um ticket para uma voltinha no espaço, só de ida.

– Você era o responsável pela produção das algas. Não sabe de uma forma de entrar no laboratório sem ser percebido?

– Já estamos debaixo do laboratório. É o mais perto que conseguimos chegar. Todas as entradas possuem sensores. A segurança do laboratório é muito rígida. Vou precisar dar umas voltas por aí para ver se consigo alguma coisa.

– Prometo que daqui não saio – brinca Korgg, ainda sem conseguir ficar de pé.

Palamedes veste o uniforme de serviçal de limpeza e sobe para o duto de ventilação que leva a um dos corredores da nave. Ele passeia por algumas seções. Percebe alguns guardas à frente fazendo uma blitz. Estão checando os chips de quem passa. Ele abre uma porta lateral e entra em um pequeno anfiteatro, vazio. Se esconde entre as cadeiras. Na parede dos fundos, um grande mural de avisos com vários cartazes. Um deles chama a atenção: vão incinerar comida vencida! Quando? Em um ciclo! Onde? Ali pertinho, no depósito de perecíveis! Ele conhece bem o depósito, é quase como uma grande lixeira. Qualquer um pode entrar e sair quando quiser. Muito fácil!

O Grey espia pela porta. Os guardas já tinham ido embora. Ele entra novamente nos corredores e se dirige para o depósito de perecíveis. Mas há algo diferente: tem uma câmera nova, apontada para a porta do depósito. Então ele percebe: claro, é uma cilada! Disfarçadamente, finge verificar alguma coisa na parede, dá meia volta e retorna ao esconderijo.

– Era uma cilada! Quase nos pegaram!

– Ainda bem que você percebeu a câmera. E agora? Não tem mesmo como entrar no laboratório e pegar algumas algas?

– Devem ter redobrado a segurança ali também. Você é o cara que conhece todos os sistemas de ventilação e suprimentos químicos da nave. Não tem nenhuma ideia?

– Ar não se come. Você que era o produtor de comida.

– Tá bom. Vamos pensar juntos. O laboratório de algas deve estar sob intensa vigilância. Estão tentando colocar armadilhas para a gente. Mas como podemos conseguir comida de uma forma, digamos, mais clandestina?

Korgg pensa um pouco.

– É óbvio! Os Chefes possuem armazenamento próprio, pois consomem comida de qualidade muito superior à nossa ração. Os armazéns são refrigerados e eu sei como entrar neles pelos dutos de ventilação. Duvido que pensem que a gente é ousado o suficiente para tentar entrar lá. Seria arriscado demais, mas é justamente aí que podemos ter vantagem.

– E você está em condições de andar por um duto de ventilação?

– Eu, não. Mas você está. Posso te mostrar o caminho.

– Se me pegarem, me mandam pro espaço e você morre de fome.

– E se você não for, nós dois morremos de fome. Então, não temos muita opção.

Palamedes concorda. Korgg passa a explicar como funcionam os dutos e como se faz para chegar até o armazém dos Chefes. Passam o resto do ciclo planejando a operação.



– Devemos informar os militares? – pergunta a diretora da ESA.

– Ainda não temos certeza de nada. Melhor não envolver as forças armadas por enquanto – Responde o primeiro-ministro da França. – Mas me explique melhor isso, por favor… foi detectado uma anomalia no cinturão de Kuipers, mas não se sabe o que é. Pode ser algum cometa vindo da nuvem de Oort? O que podemos fazer para descobrir o que está havendo lá?

– Não podemos descartar nenhuma hipótese, mas não acreditamos que possa ser um cometa. Seria impossível haver um cometa com tamanho suficiente. De qualquer forma, estamos monitorando. Seis observatórios estão com seus telescópios apontados para aquela região. Cada um opera de uma forma: luz visível, infravermelho, micro-ondas, radiação. Detectamos a anomalia na forma de micro-ondas e raios gama, mas ainda não há nada que possa ser visto por emissão ou refração da luz. Ainda não temos muitas informações, apenas sabemos que algo realmente grandioso está entrando em nosso sistema solar. Esse objeto já tem um nome: 8i-Integral.

– Muito bem. Continuem monitorando e não comuniquem nada para a imprensa, neste momento.


Renato e Lanna

Renato coordena os trabalhos da equipe e encontra Lanna.

Lanna leva Renato ao laboratório e explica sobre as algas.

Os dois sentem forte atração e se beijam.

No dia seguinte, Renato volta ao laboratório para ver os resultados de alguns experimentos.

Lanna recebe licença para usar um dos tanques de água da cidade Inca, que é isolado de todo o resto para evitar contaminações. O tanque recebe água salgada.

Renato a ajuda a levar as algas para lá. Eles descansam em uma casa e ficam juntos.

Renato mostra a Lanna o dodecaedro. Lanna o pega na mão e ele fica com uma cor cinza claro. Os dois ficam impressionados, ainda sem entender o que era aquele objeto misterioso.

Lanna olha para o Nestor através do dodecaedro e se assusta. Nestor tinha aparencia de um lagarto. Olhando de outras formas, a aparência dele mudava. Nestor observa o mesmo efeito em Lanna. Ela também tem aparência de lagarto.

Renato e Lanna prometem um ao outro que irão sobreviver à guerra e iniciar uma vida juntos.

Retornando aos alojamentos, Lanna se surpreende: Torkk estava lá.

Torkk explica que há décadas faz parte da Resistência e que vai se empenhar de todas as formas para impedir a invasão Grey.

Lanna explica seus planos: pretende desenvolver uma bactéria que contaminará as algas, impedindo-as de produzirem amônia.

Torkk diz que quer ajudar e pediu para fazer parte da equipe. Lanna aceita.



Ramazor conversa informalmente com Pondr.

Pondr pergunta por que Ramazor é tão cruel.

Ramazor explica suas origens: ele era um chefe bom. Ele fazia parte da resistência. Mas foi traído por um dos líderes e resolveu mudar de lado. A Resistência matou sua família e destruiu sua vida. Foi Aaron de Kahli quem o acolheu e o transformou em sucessor. Ramazor fez uma promessa no dia em que Aaron morreu: lutaria até o fim pela preservação dos Greys e pela colonização do Universo.



Três contra cinco mil

– Numa batalha entre dois povos, qual é o que vence? – Pergunta Luke, o guerrilheiro que estava ensinando táticas de guerrilha para Amanda.

– O mais forte? – Arrisca Amanda.

– Talvez. Mas o que quer dizer "o mais forte"?

– O que tem mais… poder, mais força…

– Ou…?

– Mais energia?

– Isso. Geralmente, uma batalha é vencida pelo lado que tem mais energia. Então, como garantir que você vai ganhar uma batalha?

– Tendo mais energia que o oponente – Amanda começa a entender.

– E como garantir que o oponente tenha menos energia do que você?

– Hmmm… privando-o do acesso a energia?

– Isso mesmo. E o que é energia em uma batalha?

– Eletricidade? Gasolina?

– Certo, e o que mais?

– Hmmm… comida, água, recursos…

– Perfeito. Então, como podemos ganhar uma batalha sem tirar uma única vida do lado oponente?

– Privando-o do acesso às fontes de energia…

– Isso mesmo. E também tornando a vida dele mais difícil, que ele tenha que gastar muito mais energia para fazer alguma coisa. Por exemplo, se um batalhão quer invadir uma cidade e tem um rio separando, basta explodir uma ponte e o oponente terá um atraso enorme, buscando outro caminho ou construindo uma ponte alternativa. Nenhuma vida é perdida. Até aqui você entendeu?

– Sim, entendi. Na Colômbia fazíamos coisas assim, mas não de uma forma tão planejada.

– O oponente vai sempre tentar fazer um cerco à cidade que pretende invadir, privando acesso a água, comida, remédios, munições, armamentos, eletricidade e combustível. A principal forma de vencer esse cerco é fazendo o mesmo com eles e encontrando rotas alternativas para prover esses recursos.

– E é isso que vamos fazer hoje?

– Precisamente. Os russos estão invadindo a Letônia. Já conquistaram a pequena cidade de Zilupe, estão tentando chegar a Ludza e depois conquistar Rezekne, que é um ponto muito estratégico por ser um entroncamento de várias rodovias que levam a todas as regiões do país. Como Rezekne possui um anel viário e dezenas de vias secundárias, precisamos conter o avanço das tropas entre Zilupe e Ludza, compreende?

– Sim, entendi.

– A estrada entre Zilupe e Ludza não tem rotas alternativas, mas passa sobre algumas pontes e viadutos. Nossa primeira missão vai ser explodir essas pontes para atrasá-los, entendeu?

– Olhando o mapa, parece que tem várias rotas alternativas…

– Sim, mas entre Nirza e Ludza não tem nada a não ser um trecho enorme de terreno alagadiço. Como é a rota mais rápida, certamente tentarão passar por ali. Vamos prendê-los nesse trecho.

– E o como vamos fazer isso? – Pergunta Amanda.

– Nós vamos deixar que eles passem por Nirza livremente e vamos bloqueá-los antes de chegarem em Lemki. É um trecho de oito quilômetros. Sem poder avançar, eles vão tentar retroceder, mas aí a gente explode o viaduto em Nirza também e eles ficam presos nesse trecho. Entendeu?

– Brilhante. Isso manterá a tropa presa dentro de um trecho de rodovia, sem poder ir para frente nem para trás.

– Isso mesmo. Vamos usar drones para explodir os caminhões de combustível, de mantimentos e de munições. Alguma dúvida?

– E as tropas da OTAN?

– Estão concentradas em Riga e em Talin, aguardando as movimentações russas. Nossa missão é atrasar os russos até que cheguem os reforços.

– Eu não conheço a região, mas seria providencial conseguir sabotar a comunicação entre eles. O que usam? Rádio amador?

– Sim. Podemos entrar na mesma frequencia que eles usam e encher a frequencia de ruídos, isso é bem fácil de fazer, com um rádio amador simples e qualquer coisa que faça barulho, como o motor de um carro.

– Eles usam internet via satélite?

– Provavelmente sim, mas aí fica um pouco mais difícil para intervir.

– Acho que eu consigo bloquear o acesso, temos tecnologia para isso – Amanda lembra do laboratório tecnológico no QG do esquadrão Ethos.

– Ótimo, toda ajuda é bem vinda. Vamos começar a nos movimentar, então.

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No dia seguinte, um comboio de duzentos e cinquenta veículos militares deixa a cidade de Zilupe em direção a Rezekne. Seguem devagar pela rodovia E22. Na frente, um destacamento de artilharia pesada, com tanques e blindados fortemente armados. Na retaguarda também, enquanto os caminhões com suprimentos e soldados seguem no meio. Em determinado momento, todo o comboio para. Eles desconfiam que pode haver algum tipo de emboscada, pois não encontraram nenhuma resistência por quase dez quilômetros. Um batedor de moto é enviado à frente para fazer o reconhecimento do terreno. Ele passa por todo o trecho e chega a Rezekne sem desconfiar da quantidade de explosivos que tinha embaixo dos viadutos. Nirza e Ludza estão desertas. O batedor avisa a tropa que está tudo tranquilo e o comboio segue. Ninguém percebe um drone de monitoramento sobrevoando todo o comboio.

Assim que os dois tanques da vanguarda chegam ao trevo de Lemki, os explosivos são detonados remotamente e o caos começa. Soldados armados descem dos caminhões e ocupam posições de combate. Rapidamente veículos blindados procuram rotas alternativas e, ao passar por cima das minas previamente instaladas, elas também explodem, trancando todas as possíveis vias de contorno. O destacamento da retaguarda, cerca de seis quilômetros atrás, retorna, mas ao chegar no trevo de Nirza, também é surpreendido por explosões que impedem completamente o tráfego da via. O comboio inteiro está preso em um trecho de oito quilômetros de rodovia.

Os combatentes saem como formigas do comboio e tentam se embrenhar nas plantações ao longo da estrada, mas o terreno é encharcado e logo eles recuam. Os veículos não podem sair da estrada, senão ficarão atolados.

Alguns minutos se passam e, repentinamente, o caminhão tanque de combustivel explode, causando um incêndio incontrolável. Os carros próximos também são atingidos. Os soldados, como baratas tontas, atiram para todos os lados, sem saber o que fazer. Logo em seguida, outros dois caminhões com suprimentos também explodem. A tropa recebe um comando e se afasta do caminhão com as munições, pois era óbvio que seria o próximo alvo.

Dessa vez alguns deles conseguem ver um drone vindo em toda a velocidade e se chocando contra o caminhão de munições. A explosão foi maior do que a do caminhão tanque de combustível. O comboio com cinco mil soldados russos estava preso em um trecho de rodovia, sem poder ir para frente nem para trás, sem poder sair da rodovia, sem combustível, sem suprimentos nem munições. O comandante tenta chamar ajuda pelo rádio, mas todas as faixas estão ocupadas com ruídos. Então eles tentam socorro pela internet, mas todos os acessos à rede estão bloqueados.

Mais ou menos na metade do trecho, em Horoshova, há uma ruazinha que atravessa a rodovia no sentido norte-sul. Alguns veículos tentam seguir por essa estrada, mas logo uma das pedreiras é detonada, bloqueando a estrada.

Logo chegam helicópteros russos. Vasculham toda a área. Os helicópteros ficam dando voltas, procurando suspeitos. E assim passa o dia todo. Os combatentes passam a noite na estrada, presos, com pouca comida e água, enquanto máquinas pesadas tentam restaurar a rodovia.

Em Lemki, camuflados e escondidos em um celeiro, um grupo de três guerrilheiros comemora o grande sucesso da contra-ofensiva e se desloca para a cidade de Rezekne, onde o restante da equipe de resistência os aguardava.

Resumo da operação: Cinco baixas russas e nenhuma da Letônia. Quinze veículos russos destruídos com um valor inestimável de prejuízo em munições, combustível e alimentos. Cinco mil soldados inoperantes e dois dias de atraso. Do lado da Letônia, perda de apenas oito drones, nove minas terrestres e seis explosivos com controle à distância.



Palamedes chega ao final do duto de refrigeração, quase congelando de frio. Apenas uma grade o separa do armazém de alimentos dos Chefes. A grade é parafusada por fora, então ele precisaria destrui-la para poder entrar. Porém, se ele destruir a grade, certamente perceberão e eles não poderão entrar novamente. Então, ele utiliza sua caneta laser para cortar os parafusos que prendem a grade no duto. Com alguns solavancos, consegue remover a grade sem danificá-la. Em seguida, observa o ambiente atrás de câmeras ou sensores. Nada, tudo aparentemente sem nenhum tipo de vigilância. Ninguém seria idiota o suficiente para tentar roubar o armazém de alimentos dos Chefes. Ele entra, se esgueirando por entre as prateleiras. Abre sua sacola e começa a enchê-la com todos os pacotes de comida que encontra. Retorna para o duto, reposiciona a grade em seu lugar e volta para o esconderijo.

– Queijo de Gárboras? Nunca na minha vida sequer vi um desses na frente.

– É meio mole, acho que você consegue comer mesmo sem os dentes.

– E esse patê de ganso oriano? Como é que eles conseguiram isso?

– Cala a boca e come.




– Senhor, nossos telescópios perceberam algo referente ao 8i-Integral.

– Prossiga, doutora.

– Veja essas fotos sequenciais. Compare essa com esta.

– Nessa primeira tem umas estrelas aqui mas na segunda não tem.

– Exato. Não é algo que pode ser visto, mas algo que não pode ser visto. É como uma espécie de buraco negro entrando no sistema solar, ou uma estrela escura. Algo que não emite nem reflete luz, mas está lá.

– Onde está o 8i-Integral agora?

– Na órbita de Urano, a três bilhões de quilômetros da Terra neste momento.

– Conseguem medir o tamanho disso?

– Pelas nossas medições iniciais, parece ser um objeto cilíndrico com algo em torno de trezentos quilômetros de diâmetro e uns dois mil quilômetros de comprimento.

– Nossa, é enorme. Mas como ele gerou essa explosão de microondas?

– Ainda não sabemos, senhor. Também não sabemos se esse objeto tem algo a ver com a explosão de microondas ocorrida no cinturão de Kuipers, mas tudo indica que sim, pois ele parece estar vindo exatamente de lá.

– Conseguem ver se ele tem cauda? É um cometa? Poderia ser um cometa de matéria escura ou algo assim?

– É uma das hipóteses.

– Pode ser um objeto artificial?

– Também não podemos descartar essa possibilidade, senhor.

– E sua órbita? Algum risco de se chocar com a Terra ou com algum outro planeta?

– Ainda é cedo para podermos afirmar com precisão. Precisamos calcular melhor a sua velocidade e direção. Nos primeiros cálculos, ele estaria em rota de colisão com a Terra, prevista para acontecer daqui a dois meses.

– É melhor não alarmar ninguém antes de termos certeza disso. Estão conseguindo evitar os olhares da imprensa?

– Por enquanto sim, mas o fato de termos seis telescópios apontados para uma mesma região do nosso sistema solar está levantando suspeitas por parte de curiosos. Não vamos conseguir esconder isso por muito tempo.

– Continuem monitorando. Acha que pode usar o James Webb ou o Hubble para verificar melhor o objeto?

– Aí sim é que despertaríamos a curiosidade do mundo inteiro, senhor. Melhor não fazermos isso neste momento.

– Certo, doutora. Continuem monitorando, mas sem alardes.



Um hacker invisível

Julio estava animado. Nas últimas semanas, aprendeu mais sobre sistemas de informação do que em toda a sua vida. Claro que ainda havia muito a aprender, mas o curso intensivo que acabou de concluir com um hacker russo foi um verdadeiro divisor de águas.

Ele aprendeu diversas técnicas de invasão, acesso remoto, rastreamento e navegação anônima. Conheceu aplicativos que permitiam quebrar praticamente qualquer nível de segurança em qualquer sistema. E o mais importante: como jamais ser identificado, rastreado ou localizado.

– Vamos ver até onde consigo chegar – exclama com certa euforia. Com um certo esforço e um verdadeiro arsenal tecnológico, consegue entrar nos sistemas que controlam os satélites de uma empresa famosa, que produzem imagens da Terra em tempo real. Ele assiste passivamente enquanto o satélite tira centenas de fotos por minuto para mapeamento por GPS. Então ele entra com comandos para que o satélite mude a rota das fotos para uma coordenada específica, e o satélite obedece. A câmera sai da rota original, em sentido oeste-leste, e passa a fotografar em sentido norte, até a coordenada informada. Ele bate palmas e ri, enquanto monitora os sistemas de segurança contra detecção de tráfego.

Bingo! Várias tentativas para localizar o ponto de origem dos comandos foram detectadas e bloqueadas, enquanto o satélite retorna à sua rota normal. Mesmo que conseguissem detectar a origem dos comandos, o local físico seria uma pacata lan-house ao sul da India que não possuía um eficiente sistema de segurança contra acessos remotos.

– Isso merece uma comemoração, Cão!

O velho e lanudo cão pastor late, enquanto Julio joga metade de um salame para ele. A outra metade é fatiada e vai para a frigideira. O novo hacker invisível prepara um X-Salame com alface, tomate, queijo e pão de cachorro quente. Para acompanhar, tira uma cerveja artesanal estupidamente gelada do seu frigobar. O telefone toca. Era a Amanda.

– Oi, meu amor! Por onde você anda? – Pergunta Julio.

– Oi, querido. Estou em Paris, pegando avião para o Brasil. Amanhã estarei aí contigo. O que você está comendo?

– Ah, melhor você nem saber. Talvez eu sobreviva, talvez não. Aprendi algumas coisas interessantes e estou comemorando com o Cão.

– Entrou na Federal Reserve e fez uma transferência para sua conta? – Arrisca Amanda, brincando.

– Não careço de fazer isso, não, minha pequena. Temos todo o ouro do mundo. Aprendi a mexer em satélites. Que horas você chega?

– Não sei. O avião pousa às oito em Congonhas. Acho que umas dez da noite estarei por aí.

– Tá, meu amor. Vem de boas, estarei te esperando.

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No dia seguinte, à meia noite, um Jeep chega ao quartel-general do Esquadrão Ethos, um velho sítio quase abandonado que não levanta a mínima suspeita. Julio e Cão recebem Amanda calorosamente. Eles entram na cabana, aquecida pela lareira e iluminada com lampiões de querosene.

– Já acabou a bateria?– pergunta Amanda, em tom de brincadeira.

– Nada. Eu é que quis criar todo um clima romântico pra te receber. Me conta aí das tuas aventuras.

– Então… passei três semanas na Letônia, um país integrado à OTAN que faz fronteira com a Russia. Os russos querem dominar as rotas de acesso ao mar Báltico, invadindo países como a Letônia, Lituânia e Estônia. Os russos dizem que a OTAN é que está tentando invadir a Russia e que eles estão se defendendo. Na verdade, são dois blocos econômicos que estão em guerra, então, todos estão errados. Na minha opinião, o certo mesmo seria resolver todas as diferenças em paz, mas essa ideia parece não fazer sentido para nenhum dos lados.

– A coisa deve estar feia por lá…

– Nossa. É uma guerra. As cidades estão destruídas por bombardeios incessantes. Tem gente morta por todo lado. É um terror, não tem como explicar.

– E o que você aprendeu?

– Aprendi que, com inteligência e estratégia, um pequeno grupo de pessoas pode fazer frente a um batalhão de milhares de soldados fortemente armados. Eles me contaram uma história muito interessante da Segunda Guerra Mundial… sabia que, em setembro de 1941, dois mergulhadores italianos conseguiram afundar um navio encouraçado e um porta aviões de grande porte, montados em um submarino que era só um velho torpedo capenga adaptado? Dois soldados em uma geringonça conseguiram, sozinhos, acabar com a ofensiva britânica no sul da Itália! É isso que precisamos aprender a fazer: causar grandes estragos com o mínimo possível de recursos.

– Melhor ainda se não tiver baixa nenhuma nos dois lados.

– Sim, claro, pois não desejamos a morte de ninguém, pelo contrário, queremos que eles parem de matar. Tem cerveja na geladeira?

– Claro que tem. Preparei um buffet completo para te receber, meu amor. Tem chocolate suíço, vinho, cerveja e duas pizzas prontas pra ir para o forno. Frango ou calabresa?

– As duas, ué. Acha que tem comida boa numa cidade bombardeada? Tô morrendo de fome. Me passa aquela salada, por favor?



– Altíssimo, estamos recebendo uma mensagem vinda da Terra, emitida há cerca de quatro horas.

– Prossiga, Pondr.

– É uma mensagem com conteúdo matemático: 1, 2, 3, 5, 8, 13, 21. Uma mensagem típica para saber se somos uma civilização inteligente ou não, usada para um primeiro contato. Eles já perceberam que estamos nos aproximando.

– Responda com a mesma sequência, mais os três números seguintes.

– Prontamente, senhor.

– Alguma notícia dos nossos ilustres abscônditos?

– Não, altíssimo. Eles ainda não morderam a isca.

– Bom, temos mais com o que nos preocupar no momento. Mais cedo ou mais tarde eles serão descobertos e aniquilados. Temos um planeta a conquistar agora e nada pode nos deter. Falando nisso, como ficou a questão do surto de diloraminose?

– Altíssimo, está sob controle, mas ainda precisamos ter muito cuidado. Por enquanto somos poucos, mas assim que começarmos a acordar a tripulação inteira do sono criogênico, poderemos ter uma epidemia de grandes proporções, pois não temos elixir suficiente para todos.

– Reúna todos os tripulantes que estejam contaminados e dê um fim neles.

– Mas senhor, são líderes importantes, são nossos melhores homens…

– Não importa. Melhor perdermos meia dúzia de bons guerreiros do que meio bilhão.

Pondr permanece estático por alguns segundos e depois concorda:

– Imediatamente, senhor.




– Doutora, eles responderam com a sequência de Fibonacci correta com mais três posições.

– É a prova definitiva de que é inteligência alienígena. Marque uma reunião de emergência com a presidente da ESA, com o primeiro ministro e com representantes da NASA. Pela primeira vez na história, temos a confirmação de vida inteligente fora da Terra.

– Devemos enviar nova mensagem?

– Somente depois da reunião. Tem um objeto artificial enorme vindo de encontro à Terra, com tripulação inteligente e devem chegar perto de dois meses. Não sabemos se são ou não hostis. Precisamos decidir o que vamos fazer, mas essa é uma decisão que precisa ser tomada de forma conjunta em nível global. De qualquer forma, prepare um relatório técnico detalhado com todas as informações que temos do 8i-Integral.

– É para já, doutora.


Vamos lá!

– Krzovv chegou. Seja bem vindo, meu amigo – saúda Eloaton, conduzindo o gigante Siriano à sua cadeira junto à mesa de reuniões do anfiteatro de Ethoria 27B, onde já se encontravam Renato, Sofia, Amanda, Julio, Lenna e Lemman. Krzovv agradece, senta em sua cadeira e pergunta:

– Vejo que vocês resolveram manter a mesma equipe. Já possuem alguma estratégia definida para combater a invasão dos Greys?

– Quem vai responder é o Renato, líder do Esquadrão Ethos – Eloaton passa a palavra para o Renato, que se levanta e liga um projetor com uma sequência de slides, enquanto brinca com seu dodecaedro.

– Amigos, em primeiro lugar, quero agradecer a presença de todos. Acho que todos sabem que, para combater um adversário, é necessário conhecê-lo muito bem. Então, vamos aos fatos que já são de nosso conhecimento: Tem uma nave-mãe Grey se aproximando da Terra. Ela já está passando pela órbita de Jupiter e deverá chegar à Terra em pouco mais de um mês. As agências espaciais de toda a Terra se reuniram em um conselho mundial de emergência. Esse conselho está tentando conversar com os Greys, mas eles não respondem as perguntas. As forças armadas dos dez maiores países do mundo estão agindo de forma coordenada para interceptar os invasores, se necessário, usando todo o armamento disponível. Mesmo assim, sabemos que a tecnologia bélica da Terra é muito inferior à deles. É como caçar um crocodilo com bodoque. Precisamos evitar que haja um confronto, pois nossa desvantagem é gritante. – Nestor passa para o segundo slide.

– Sabemos que a nave deles, apelidada pela ESA de 8i-Integral, é um cilindro de três mil quilômetros de comprimento por duzentos de diâmetro. Pode ter em torno de quinhentos milhões de tripulantes.

– Nossa – se espanta Amanda.

– Sim, eles são muitos. É óbvio que uma nave desse tamanho deve estar trazendo uma quantidade igualmente enorme de naves menores de ataque. Nenhum exército do mundo teria contingente suficiente para fazer frente a essa esquadra, sem contar o fato deles dominarem tecnologias de guerra infinitamente superiores à nossa. Portanto, não há a menor dúvida de que, em um combate direto, seremos dizimados.

– E o que você sugere que a gente faça? – pergunta Krzovv.

– Evitar o combate. Eles estão fugindo de seu planeta natal para colonizar outros planetas, mas a Terra não é exatamente um planeta ideal para eles, pois temos muito oxigênio e eles precisam de amônia para sobreviver. A ideia deles é mudar a atmosfera da Terra, causando uma extinção em massa e colonizar o planeta com espécies do interesse deles. Acho que a Lanna pode nos explicar melhor como isso pode ser feito.

– Eles pretendem usar algas – explica Lanna -, algas que produzem amônia. Já existem milhares de toneladas dessas algas ativas neste exato momento, em vários lugares do planeta. Mas é muito pouco. Os Greys estão trazendo milhões de toneladas dessas algas e a intenção é que a atmosfera esteja respirável para eles em um período de dois a três anos, o que vai causar a extinção de pelo menos noventa e cinco por cento da vida na Terra. Enquanto isso, eles estarão introduzindo suas próprias culturas em grandes fazendas espalhadas pelos cinco continentes, para terem alimentos e demais recursos.

– Então, o sucesso deles depende das algas? – pergunta Krzovv.

– Sim. Sem as algas, eles não vão conseguir mudar a atmosfera.

– Há como impedirmos que eles possam usar as algas?

– Sim. Diversas condições podem impedir que as algas se proliferem, entre elas, a salinização excessiva da água marinha, alguns detergentes, a diminuição da temperatura…

– Fatores que eles já vêm controlando há centenas de anos, provocando aquecimento global através do aumento do efeito estufa, causado principalmente pela queima de material fóssil e das florestas ao redor do globo. Haveria como inverter esses fatores no curto prazo? – Pergunta Eloaton.

– No curto prazo, que eu saiba, não, a não ser que a humanidade inteira colabore, o que acho muito improvável. Porém, as algas são muito suscetíveis a uma infecção bacteriana chamada "ice ice". Esse era um dos principais problemas no qual eu estava trabalhando: descobrir como tornar as algas resistentes a essa bactéria.

– Então, podemos produzir uma bactéria que combate a alga que produz amônia? – questiona Krzovv.

– Sim, e de forma muito fácil. A bactéria Pseudoalteromonas carrageenovora se multiplica com grande rapidez, devastando áreas enormes de cultivo de algas. De forma natural, ela precisa de certas condições para agir, como alterações bruscas na salinidade, na temperatura e na iluminação do ambiente, mas eu consegui desenvolver uma variedade que se multiplica mesmo sem essas condições ideais.

– Ótimo, então temos uma arma contra as algas. Isso pode atrasar, mas não impede que eles invadam a Terra e matem todos os humanos, para evitar qualquer resistência aos planos deles. O que podemos fazer para impedir isso?

Renato responde:

– Os Greys são todos clones e, por isso, possuem a mesma constituição genética. Então, se um deles é suscetível a uma doença, todos eles são. É o mesmo problema que ataca as nossas bananeiras: Uma doença simples como a antraquinose é praticamente impossível de ser combatida, pois as bananeiras não se reproduzem mais por sementes e sim por brotação, portanto, são geneticamente idênticas. Todos os Greys são vulneráveis à diloraminose, uma doença bacteriana para a qual eles não conseguem desenvolver um remédio eficaz. Nós, aqui em Ethoria 27B, produzimos um elixir que elimina essa bactéria, com alta eficácia e com capacidade de produção suficiente para atender cem milhões de indivíduos de uma só vez. Esse é o nosso grande trunfo: somos os únicos a produzir um remédio para uma doença que pode acabar com eles.

Todos se entreolham.

– Isso é muito interessante. Então, os Greys são tão burros que querem destruir o único planeta que produz o único remédio para uma doença que pode acabar com toda a raça deles? – Pergunta Lemann.

– Bem, talvez o ser humano não seja muito mais inteligente do que eles, afinal, cavamos fossas em cima da água que bebemos, além de estarmos destruindo toda a natureza da qual dependemos para viver – Responde Renato.

– E como você sugere que usemos esse trunfo a nosso favor? – Questiona Krzovv.

– Vamos avisá-los de que a produção de elixir está suspensa por prazo indeterminado, até que tenhamos certeza de que eles não façam qualquer mal a nenhuma espécie em nosso planeta.

– Muito bem. Mas é bem provável que eles tentem invadir o planeta de um jeito ou de outro, afinal, não podem voltar para Betelgeuse, pois a estrela já explodiu há cem anos. Se não invadirem a Terra, vão fazer o que?

Todos pensam um pouco. Eloaton questiona:

– Existe algum outro planeta no nosso sistema solar que tenha condições de abrigar a vida deles?

– Planeta, não, mas talvez uma lua – responde Lemann -. Titã, Encélado, Europa e até a Lua da Terra possuem vestígios de amônia na atmosfera ou em seus oceanos subterrâneos. As três primeiras são geladas, mas podem dispor de condições para abrigar a civilização Grey. Precisaríamos pesquisar melhor sobre isso.

– Quem pode verificar todas essas informações? – Pergunta Eloaton.

– Xá comigo – Responde Julio.

– Nossos discos voadores não são capazes de enfrentar os Greys? – Pergunta Amanda.

– Sim, alguns deles são, mas temos apenas uma dúzia deles. Estaremos lutando contra milhares, talvez milhões de naves.

– E um raio mortal que exploda a nave-mãe, que nem naqueles filmes famosos que…

– Um raio de plasma precisaria ser disparado a uma distância muito pequena, Julio. Mesmo que conseguíssemos fazer isso, com o sacrifício de alguns tripulantes, não há garantia de que ele conseguiria explodir a nave mãe inteira. Ela é muito grande. Em último caso, podemos tentar. Mas é melhor evitarmos o confronto a todo custo primeiro. – Responde Krzovv.

– Será que podemos convencê-los, telepaticamente, a mudar de ideia? – Pergunta Sofia.

– Os Greys dominam a telepatia melhor do que os humanos, Sofia. Provavelmente, você seria convertida por eles, se tentasse. Seu poder funciona melhor com os Reptilianos – Responde Lemann.

Alguns instantes de silêncio, enquanto todos pensam.

– Os Greys vão precisar de dois a três anos para que a atmosfera da Terra esteja ideal para eles. Enquanto isso, quem vai tomar conta das coisas por aqui? Quem vai produzir a comida deles? – Pergunta Renato.

– Nós, os híbridos – Responde Lanna -. Nós conseguimos respirar oxigênio por algumas horas, da mesma forma que podemos respirar amônia também.

– E existe a possibilidade dos híbridos se revoltarem contra os Greys, deixando de produzir os alimentos deles?

Lanna pensa um pouco.

– Existe um movimento de resistência entre os híbridos. Mas acredito que a maioria seja favorável à colonização. Podemos trabalhar infiltrados, de forma a boicotar ou destruir as plantações.

– E o que eles comem, além de algas? – Pergunta Renato.

– Certos tipos de cereais que não existem na Terra. Eles preparam uma ração com esse cereal. É a base alimentar deles.

– Alguma carne?

– Insetos. Os Greys comem muitos insetos. Não comem galinha nem ovos, nem carne vermelha, mas comem peixe, especialmente os de água salgada.

– Puxa, aí complica. Tem inseto pra dedéu na Terra e não falta peixe de água salgada por aí – Observa Julio.

– Sim, mas eles comem muito pouca proteína. Os Chefes comem mais, na forma de queijos e crustáceos. Os Greys comuns comem basicamente só uma ração à base de cereais. Eles estão trazendo estoque de cereais suficiente para suprir três anos. Precisarão plantar seus cereais imediatamente, assim que chegarem à Terra, senão, não sobreviverão.

– E onde eles vão produzir uma quantidade tão grande de cereais? – Pergunta Amanda.

– Eles estão contratando os Reptilianos que possuem grandes fazendas em todo o planeta, especialmente aqui no Brasil, na França e na Ucrânia. Vão pagar o dobro do que eles ganham hoje produzindo soja e trigo, e vão colocar os híbridos como mão de obra de graça. Não existiria proposta melhor para um Reptiliano, pois tudo o que eles querem é dinheiro e poder, não interessa se for justamente para acabar com a própria raça deles – Responde Eloaton.

– E cogumelos? – Pergunta Sofia.

– Eles consomem alguns cogumelos de vez em quando, de forma recreativa. É o álcool deles – responde Lenna.

– Então, temos mais algumas opções interessantes – observa Renato -. Podemos devastar as plantações de cereais deles e introduzir cogumelos venenosos no meio daqueles que eles consomem. Eloaton, uma vez você falou que eles não gostam de pimenta, é isso?

– Eles não suportam sabores picantes. Têm choque anafilático se tomarem caldo de gengibre ou comerem qualquer coisa que tenha pimenta.

– Podemos colocar um pouquinho de pimenta no elixir deles?

Eloaton pensa um pouco.

– Podemos, mas logo eles descobririam, pois o efeito é imediato.

– Podemos produzir a ração deles de forma que os enfraqueça no longo prazo? – provoca Krzovv.

Todos pensam alguns instantes. Renato sugere:

– E que tal se a gente contaminar a ração deles com a tal da diloraminose? É possível?

Lenna pensa um pouco e responde:

– Sim, é possível sim. Aliás, a diloraminose é uma doença causada justamente por uma bactéria proveniente da fermentação de um dos cereais deles. É por isso que eles incineram os cereais quando estão perto do vencimento: para prevenir que essa bactéria se desenvolva e os contamine.

– Amigos, acho que já temos uma estratégia de combate muito bem definida. Eloaton, estou surpreso. Não pensei que sua equipe fosse capaz de apresentar resultados tão bons em tão pouco tempo.

– Nunca duvidei da capacidade deles – responde Eloaton.

– Então, vamos organizar as frentes de combate. Eu e o Renato entraremos em contato com os Greys para tentar convencê-los a ocupar uma das luas citadas pelo Lemann, aquela que o Julio vai pesquisar para ver qual é a melhor.

Julio e Renato acenam com a cabeça.

– A Lanna vai trabalhar na produção das bactérias de combate às algas, e também no cultivo das bactérias que provocam a diloraminose, e vai poder contar com toda a equipe do laboratório de Ethoria 27B, correto, Eloaton?

Eloaton e Lanna concordam.

– Será que a Sofia seria capaz de convencer os Reptilianos a desistirem de ceder suas terras para a produção dos cereais dos Greys?

Sofia responde que pode tentar.

– A Amanda pode estudar os armamentos das naves que temos disponíveis, por precaução, caso seja necessário usar a força.

Amanda consente.

– Lemann, você pode continuar o treinamento individual de cada um dos integrantes do Esquadrão Ethos. Pelo visto, está dando um ótimo resultado.

Lemann apenas abre seu tradicional sorriso.

– Eloaton, você pode coordenar os trabalhos, de forma geral?

– Claro que sim. Mais do que isso, creio que também posso integrar à nossa equipe todo o pessoal da Resistência dos híbridos.

– Excelente ideia. Bem, vamos lá!



– Pondr, falta apenas um superciclo para chegarmos à Terra. Providencie o despertar de toda a tripulação que está em hibernação criogênica.

– Imediatamente, altíssimo.

– Antes disso, já se livrou dos doentes?

– Sim, todos eles foram alijados ao espaço, senhor.

– Checou os cereais? Algum vestígio de mofo?

– Checamos diariamente, senhor. Nenhum vestígio. Acredito que a nave esteja livre da diloraminose.

– Isso merece uma comemoração. Mande o cozinheiro me trazer uma tábua de queijo de Gárboras. E uma porção de psilocybe também.

– Prontamente, senhor.

Pondr sai pela porta. Alguns minutos depois, retorna, comunicando:

– Altíssimo, estamos sem queijo de Gárboras. Pode ser queijo de iaque oriano?

– Como assim? Quem consumiu o queijo de Gárboras? Ele é exclusividade do alto comando da nave. Deveria ter pelo menos uns dois quilos ainda em estoque.

– Sim, senhor, deveria ter. Alguém se apropriou do queijo sem permissão, senhor.

Ramazor pensa um pouco e ordena:

– É claro. Como não desconfiei antes? Faça imediatamente um inventário do armazém. Agora, nesse instante. Coloque quantos homens forem necessários nessa tarefa. Acho que encontramos o esconderijo dos ratos. Faça uma varredura completa, atrás de qualquer indício de invasão: portas com defeito, algum buraco nas paredes, no piso ou no teto, qualquer coisa. Verifique as credenciais de todos os que acessaram os depósitos. Coloque câmeras de segurança com sensor de presença. Vamos descobrir como esses ratos estão conseguindo entrar no nosso armazém.

Pondr chama alguns tripulantes e, juntos, saem da ponte de comando em direção aos depósitos.



Horas depois, Pondr retorna à ponte com as novidades:

– Altíssimo, encontramos um duto de ventilação com a grade solta. Os parafusos foram cortados por dentro. Colocamos uma câmera de segurança apontada para esse duto, com um dispositivo de alarme para avisar a vigilância quando alguém sair por ali. Assim, pegaremos o ladrão em flagrante.

– Ótimo. Sim, quero o… como é mesmo o nome dele?

– Korgg?

– Não, o outro.

– Palamedes, senhor.

– Isso, quero o Palamedes vivo. O Korgg deve estar ferido demais para poder andar por dentro dos dutos de ventilação. O Palamedes vai nos levar ao amigo dele. Então, instrua o vigilante a não prender o Palamedes, mas que coloque um rastreador nele. Entendeu?

– Ah, sim, perfeitamente, senhor.

– Assim pegaremos os dois. E quanto ao degelo da turma?

– Já temos um milhão acordando, senhor.

– Só um milhão? Se acordarmos um milhão por ciclo, em um superciclo teremos apenas trinta milhões. Precisamos acordar os quinhentos milhões de uma vez! Mexa-se!

Pondr senta-se à sua cadeira e começa a dar ordens pela teletela, mas logo ele para e anuncia:

– Altíssimo, estão mandando uma mensagem da Terra, mas dessa vez não é dos humanos. Estão falando na nossa língua.

– E o que diz essa mensagem?

– "Saudações. Somos o Esquadrão Ethos. Falamos em defesa de todas as formas de vida na Terra. Sabemos dos seus planos para a colonização do nosso planeta. Queremos propor uma negociação que seja benéfica tanto para a sua civilização quanto para a nossa. Neste momento, vocês estão passando por Jupiter, que possui uma lua que chamamos de Europa. Essa lua possui uma crosta de rocha e gelo com um vasto oceano por baixo, e sua atmosfera é fina, mas com amônia suficiente para sua espécie respirar normalmente. Vocês podem se estabelecer nessa lua e adaptar seu modo de vida a ela, enquanto nós podemos produzir os cereais que vocês consomem, até que vocês possam produzir seu próprio alimento nessa lua. Temos outras três luas no sistema solar com condições para a sobrevivência da sua espécie, mas acreditamos que Europa seja a melhor opção para um momento inicial. Aguardamos a sua consideração."

Ramazor pensa um pouco. Pondr observa:

– Talvez seja uma ideia interessante, Altíssimo. É mais fácil colonizar um planeta, ou uma lua, que já tenha condições iniciais para nossa vida. Não precisaremos aniquilar as milhares de espécies de…

– Danem-se as milhares de espécies. Só tem uma única espécie que nos interessa no Universo: a nossa. E o melhor planeta que existe neste sistema solar para que nossa civilização possa prosperar é a Terra. Há séculos já decidimos isso. O próprio Aarock de Kahlli já esteve neste sistema e checou pessoalmente a possibilidade de vida em cada um dos planetas e luas. Foi ele quem decidiu que o destino da nave G-48 seria a Terra, ainda no tempo em que esta nave era apenas um cruzador comum. Quer contrariar a decisão do mais eminente Altíssimo que a G-48 já teve a honra de ter?

– De forma alguma, senhor.

– Então, pronto. Responda a mensagem, dizendo que nossos planos iniciais estão mantidos e não está em negociação a possibilidade de optarmos por colonizar uma lua qualquer em lugar da Terra. Eles que se adaptem a uma atmosfera com amônia ou morram.

– Sim, Altíssimo.




LIVRO 3

- Como morreu Sofia

- Um dia entre os atlantes

- As vidas passadas de Julio e Amanda

- A primeira invasão – destruição total

- Lemann consegue desenvolver os nanodrones

- Diloraminose e a falta de cereais

- Palamedes e Korgg matam Pondr

- Os outros Guardiões e seus esquadrões

- A segunda invasão, a derrota é quase certa

- A traição de Torkk

- Renato descobre como usar o dodecaedro e se salva do ataque de Torkk

- Torkk mata Lanna

- Renato inicia uma caça mortal a Torkk

- Ramazor mata Palamedes

- Korgg tenta explodir o reator da nave mas não consegue

- A invasão final

- O contra-ataque dos nanodrones

- A rebelião comandada por Korgg consegue vencer Ramazor, que é alijado ao espaço

- O fim da invasão

- Os Greys vão para a lua Europa


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