#017 - A tarefa de Lanna

Lanna acorda devagar. Deve ter dormido por várias horas. Sente seu corpo dolorido. A máscara de amônia é bastante desconfortável e pressiona seu rosto, deixando marcas. Aos poucos, toma consciência de onde está. Senta-se na cama. Alguns humanos conversam baixinho a algumas camas de distância. Ela vê dois Greys na cozinha, se assusta e pensa em se esconder, mas logo percebe que não são hostis. 

Um dos Greys percebe que ela se acordou e vem até ela, se apresentando:

- Boa tarde, Lanna. Meu nome é Baark. Sou um dos cientistas que trabalham com pesquisas com algas, nos laboratórios aqui ao lado. Acho que temos muito a conversar, mas tem alguém que quer falar com você primeiro. Tome, coloque esses óculos escuros, pois você não está acostumada com a claridade. Podes me acompanhar, por favor?

Lanna se levanta, coloca seus calçados e acompanha o pequeno Grey. Ele a leva para a área externa, onde havia um bosque e várias casas. Se aproximam de uma casa em formato de laranja. O pequeno ser verde com pouco mais de um metro de altura aperta a campainha. Logo em seguida, a porta da casa se abre. Lanna se assusta com a altura do homem que sai da casa. Tinha o dobro da altura dela. O gigante loiro se apresenta e os convida a entrar.

- Entre, Lanna. Seja bem vinda. Meu nome é Eloaton e sou um dos responsáveis por esta cidade. Me falaram sobre você, sobre seu trabalho e suas intenções de impedir a destruição da biodiversidade da Terra por parte dos Greys e dos Reptilianos. Acho que, aqui, você poderá usar todos os seus conhecimentos para alcançar esses objetivos. Mas, antes de mais nada, quero saber se você está bem instalada. Você está bem? Quer uma água? Uma fruta?

- Boa tarde, Eloaton. Sim, fui muito bem acolhida, bem recebida. Estou bem instalada no alojamento, já fiz uma boa refeição e descansei bastante. Agradeço um copo de água, sim.

Eloaton serve um copo de água para Lanna e prossegue:

- Por favor, me conte sobre você. Onde você morava? Como era sua vida lá?

Lanna fica um pouco temerosa com a pergunta. Ela não está acostumada a confiar nas pessoas. Durante a sua vida inteira, ela aprendeu a se esconder e planejar em segredo, jamais contando nada a ninguém. Mas algo a fez confiar incondicionalmente em Eloaton. Então, ela sente um grande alívio em poder falar: 

- Eu sou uma híbrida Grey. Nasci em um laboratório, fruto de uma fertilização in vitro combinando DNA Grey com humano. Passei a vida toda em Litópolis, uma cidade subterrânea na Antártida. Foi lá que cresci, estudei e me formei em biologia. Desde os dezesseis anos trabalho em um laboratório que tem por objetivo principal servir de base para pesquisas biológicas que atendam aos interesses dos Greys. 

- Muito interessante. Mas você tinha família, amigos? Como era sua vida?

- Nós, híbridos, somos todos uma mesma família. Como somos todos gerados em laboratório, não temos pais nem mães, e também não procriamos. É como se todos fôssemos mais ou menos irmãos. Posso dizer que tenho um milhão de irmãos, espalhados em diversas cidades subterrâneas controladas pelos Greys. Os mais velhos cuidam dos mais novos. Existem cerca de mil Greys que comandam e administram as cidades e todos os híbridos são subordinados a eles. Em cada uma das cidades, há pelo menos um Chefe Grey que é como o prefeito ou governador da cidade. São os Chefes que mandam em tudo. Como vivemos em cidades subterrâneas, não há divisão entre dia e noite. É sempre noite. Claro que criamos vínculos de amizade e de relacionamentos entre nós, híbridos. Tenho vários amigos, já tive alguns namorados. Mas nossa vida é complicada, é muito restrita. Estamos sob permanente vigilância. Não temos liberdade pra nada. O próprio fato de falarmos sobre liberdade já é motivo para aumento severo da vigilância. Inclusive nos acostumamos a ver alguns amigos simplesmente desaparecerem por cultivar pensamentos sobre liberdade, revolução, mudanças, essas coisas. 

- E a Resistência?

- Então... como vivemos sob intensa vigilância, não podemos sequer falar sobre movimentos de resistência ou rebeldia. Não permitem nenhum tipo de reunião ou organização nesse sentido. Eles monitoram tudo. Por isso, a ideia de haver um movimento chamado Resistência é tido mais como um boato, algo muito vago. Às vezes aparece uma notícia de que algum conhecido foi preso por suspeita de integrar a Resistência. Em geral, esse conhecido simplesmente desaparece e todos os seus registros, fotos, trabalhos, tudo, é simplesmente apagado. A pessoa deixa de existir. Aliás, é como se nunca tivesse existido. Acabamos por nos acostumar com isso, então cada um toma conta da sua vida e evitamos sequer pensar em algum motim ou coisa assim. Mas chegou um momento que entendi que não era apenas um boato. Percebi que a Resistência existia de verdade, formada por integrantes que pareciam estar completamente livres de qualquer suspeita.

- E o que você fez?

- Eu comecei a procurar por esses integrantes. Acabei encontrando o QG deles e descobri que meu chefe, no laboratório, poderia ser um deles. Mas isso foi há dois dias e jamais sequer desconfiei que ele poderia ser da Resistência. Quando decidi entrar em contato, eles foram mais rápidos e me trouxeram para cá.

- E por que você queria sair de Litópolis?

- Em Litópolis, eu não poderia fazer nada para impedir o projeto dos Greys. Se eu fizesse qualquer coisa e me descobrissem, eles simplesmente me eliminariam, como eliminaram vários dos meus amigos. Eu precisava sair de lá para poder fazer alguma coisa.

- Qual é exatamente esse projeto dos Greys?

- Os Greys são oriundos de B-Groot, o único planeta que orbita a estrela Betelgeuse. Há mais de seiscentos anos a estrela começou a entrar em colapso e eles abandonaram o planeta em várias naves-mães, cada uma em direção a um outro sistema solar onde eles pudessem começar uma nova civilização. Mas é muito difícil encontrar um planeta com todos os elementos necessários para o suporte da vida dos Greys. Por isso, milhares de anos antes eles já estavam visitando esses planetas para adaptá-los às suas necessidades. Aqui na Terra, eles criaram essas cidades subterrâneas há quinze mil anos e vêm desenvolvendo nossas raças híbridas desde então. Mas aqui tem oxigêncio demais para o organismo dos Greys. Eles precisam de mais amônia, de mais gás carbônico, de mais efeito estufa. Eu não sei exatamente como eles estão aumentando o gás carbônico e o efeito estufa, mas sei como estão produzindo mais amônia, pois é justamente nisso que eu trabalho. Ou trabalhava.

- Nós sabemos perfeitamente como eles estão aumentando o gás carbônico: em parceria com os reptilianos, estão incendiando todas as florestas da Terra e queimando combustível fóssil na mais larga escala possível. Mas o que fez você mudar de ideia e fugir de lá?

- Acontece que, para adaptar a atmosfera para as necessidades dos Greys, obrigatoriamente precisamos dar fim a praticamente toda a vida que existe na Terra, que hoje basicamente depende do oxigênio. Eu não concordo com isso. Não podia continuar trabalhando em algo em que sou radicalmente contra, entende?

- Perfeitamente. Então você não quer contribuir para a morte de nenhuma espécie viva, correto?

- Eu não quero contribuir para uma extinção em massa, mesmo que seja para substituir por outras espécies. Eu conheço muito pouco a natureza aqui fora. Tudo o que vi, durante minha vida inteira, foram apenas fotos e vídeos. Eu nunca tinha visto um bosque como esse que tem na frente da sua casa antes. Nunca tinha visto a luz do dia. Até agradeço o Baark por me dar esses óculos escuros, eles realmente estão sendo bem úteis.

Baark acena com a cabeça.

- Então posso considerar que, ao mesmo tempo em que você não quer provocar a morte de ninguém, também gostaria de trabalhar para melhorar a vida na Terra?

- Isso! Não sei de que forma posso fazer isso, não sei os caminhos, mas vou me dedicar ao máximo para potencializar toda espécie de vida existente. Os Greys que procurem outro planeta ou que se adaptem ao nosso. Estou certa ou errada?

- Você não imagina o quanto está certa. Pessoas como você são muito valiosas. Amanhã o Baark poderá te levar ao laboratório para encontrarem, juntos, formas de realizar esse objetivo. Acho inclusive que vocês poderão desenvolver algum tipo de bactéria ou microorganismo que seja capaz de combater as algas produtoras de amônia, o que acha?

Lanna pensa por alguns instantes e seus olhos brilham. Ela olha para Baark, que novamente apenas acena com a cabeça, concordando.

- Acho que sei exatamente como fazer isso! Perfeito! Nossa, muito obrigada! É isso! Sim, vou trabalhar nisso imediatamente! Posso começar agora mesmo?

- Calma, teremos tempo. Gostaria que você conhecesse outras pessoas enquanto isso.

Eloaton se concentra e envia uma mensagem telepática para Sofia, que chega à casa em poucos minutos, acompanhada pelo Nestor, que tinha recém chegado em Ethoria 27B. 

- Lanna, esta é Sofia. Ela é minha filha e vai te ajudar em suas pesquisas. Sofia, esta é Lanna. Ela é bióloga e tem por missão impedir uma parte importante do projeto de invasão dos Greys. 

Sofia atenta para o fato de Lanna ser uma híbrida.

- É a primeira vez que vejo uma híbrida. Acho que temos muito a conversar. Gostei de você. Ah, esse é o Nestor. Ele é mais divertido do que parece.

- Obrigado pela apresentação, Sofia. Muito prazer, Lanna, seja bem vinda.

Lanna agradece e Sofia a leva para passear alegremente no bosque, para mostrar-lhe as plantas, os animais e, se possível, a fênix que mora lá. Eloaton serve uma banana amassada para o Nestor.

- Ainda vou descobrir que tempero é esse que você coloca na banana. É uma delícia.

- Um chef jamais divulga seus segredos. Fez boa viagem?

- Passear com um disco voador sempre é uma boa viagem. O que exatamente eu vim fazer aqui, hoje?

- Vamos fazer mais um treinamento expresso. Na verdade, uma regressão, pois você já tem todo o treinamento que precisa, só não se lembra. Mas já está tarde, melhor deixar para amanhã.

- De manhã, posso ir brincar um pouco com as crianças na praça antes disso?

- Fique à vontade, meu amigo. Até acho que isso vai ajudar bastante na regressão.

Meia hora depois, Nestor se reúne com Sofia e Lanna no bosque, conversam, dão algumas risadas e se dirigem ao alojamento, pois já começava a anoitecer.



Korgg acorda devagar. Todo seu corpo dói, mas já não sente mais tanta náusea quanto antes. Seus pulmões não queimam tanto. Ele percebe que não está em sua cela.

- Acordou, dorminhoco? - Pergunta Palamedes.

- Onde... onde é que eu estou? Como vim parar aqui?

- Você pode ter todas as mordomias de um fiel puxa-saco dos Chefes, mas teu amigo aqui tem as malandragens e conhece espaços nesta nave que você nem desconfia que existem.

- Mas onde estamos?

- Em primeiro lugar, de nada. 

- Ah, sim, obrigado por me tirar de lá. Como você fez isso?

- Não é difícil descobrir a escala dos guardas vigilantes. Eles são muito burros. Deixaram uma planilha com a escala pendurada na parede pelo lado de fora. Aí foi só encontrar o guarda da vez e oferecer para ele um biscoito bem gostoso e temperado com o laxante mais forte que encontrei. Ele tá no banheiro até agora. Qualquer um pode pegar um carrinho de limpeza e fingir que vai limpar a cela. E eu fui tão descuidado que, sem querer, bati na câmera de vigilância e ela ficou filmando o teto. Acho que preciso de treinamento para não ser tão desastrado.

- E onde estamos?

- No porão do setor de produção de algas. Ninguém vem aqui nunca, a não ser que um desses canos entupa ou quebre. Toma, beba um pouco de água. Tá com fome? 

- Qualquer coisa que não precise mastigar, por favor.

A nave G-48 passa pela órbita de Urano, enquanto Ramazor ordena:

- Andem logo com isso! Precisamos restaurar esses encanamentos logo. Pondr, os novos tripulantes já estão em atividade?

- Sim, altíssimo. Temos dois mil tripulantes recém despertos da hibernação criogênica, devidamente restaurados, alimentados e prontos para o trabalho.

- Então mande-os consertar logo esse estrago todo. Só tem meia dúzia aqui, precisamos fazer a ponte voltar a operar normalmente o mais rápido possível. Já encontraram os dois rebeldes?

- Ainda não, altíssimo, mas tenho uma ideia para localizá-los.

- Na última vez que você teve uma ideia, metade da ponte de comando foi para o espaço. Qual é a brilhante solução agora?

- Estejam onde estiverem, eles precisam de comida. O fornecimento de refeições está sendo monitorado e vigiado, portanto, eles não podem simplesmente entrar na fila do refeitório. Vão precisar encontrar comida de outra forma. Podemos facilitar isso para eles, divulgando que alguns sacos de ração estão perto da validade e serão incinerados. Certamente eles tentarão conseguir acesso aos sacos, e aí nós os pegamos.

- Parece interessante. Pode dar certo e não custa nada. Pode dar sequência. E me traga um prato de algas. Com celerina líquida, dessa vez. Odeio ter que abandonar cozinheiros pelo caminho.

- Imediatamente, senhor.

Na Terra, mais precisamente em Paris, na sede da ESA, uma reunião de emergência é marcada. O observatório espacial Integral, em órbita da Terra, detectou uma grande anomalia na faixa de micro-ondas e raios Gama nas proximidades do cinturão de Kuiper. Alguma explosão realmente muito grande aconteceu por lá e todos os observatórios da Terra devem tentar localizar essa anomalia para entender o que está acontecendo.

Comentários