#021 - Vamos lá!
- Krzovv chegou. Seja bem vindo, meu amigo - saúda Eloaton, conduzindo o gigante siriano à sua cadeira junto à mesa de reuniões do anfiteatro de Ethoria 27B, onde já se encontravam Renato, Sofia, Amanda, Julio, Lenna e Lemman. Krzovv agradece, senta em sua cadeira e pergunta:
- Vejo que vocês resolveram manter a mesma equipe. Já possuem alguma estratégia definida para combater a invasão dos Greys?
- Quem vai responder é o Renato, líder do Esquadrão Ethos - Eloaton passa a palavra para o Renato, que se levanta e liga um projetor com uma sequência de slides.
- Amigos, em primeiro lugar, quero agradecer a presença de todos. Acho que todos sabem que, para combater um adversário, é necessário conhecê-lo muito bem. Então, vamos aos fatos que já são de nosso conhecimento: Tem uma nave-mãe Grey se aproximando da Terra. Ela já está passando pela órbita de Jupiter e deverá chegar à Terra em pouco mais de um mês. As agências espaciais de toda a Terra se reuniram em um conselho mundial de emergência. Esse conselho está tentando conversar com os Greys, mas eles não respondem as perguntas. As forças armadas dos dez maiores países do mundo estão agindo de forma coordenada para interceptar os invasores, se necessário, usando todo o armamento disponível. Mesmo assim, sabemos que a tecnologia bélica da Terra é muito inferior à deles. É como caçar um crocodilo com bodoque. Precisamos evitar que haja um confronto, pois nossa desvantagem é gritante. - Nestor passa para o segundo slide.
- Sabemos que a nave deles, apelidada pela ESA de 8i-Integral, é um cilindro de três mil quilômetros de comprimento por duzentos de diâmetro. Pode ter em torno de quinhentos milhões de tripulantes.
- Nossa - se espanta Amanda.
- Sim, eles são muitos. É óbvio que uma nave desse tamanho deve estar trazendo uma quantidade igualmente enorme de naves menores de ataque. Nenhum exército do mundo teria contingente suficiente para fazer frente a essa esquadra, sem contar o fato deles dominarem tecnologias de guerra infinitamente superiores à nossa. Portanto, não há a menor dúvida de que, em um combate direto, seremos dizimados.
- E o que você sugere que a gente faça? - pergunta Krzovv.
- Evitar o combate. Eles estão fugindo de seu planeta natal para colonizar outros planetas, mas a Terra não é exatamente um planeta ideal para eles, pois temos muito oxigênio e eles precisam de amônia para sobreviver. A ideia deles é mudar a atmosfera da Terra, causando uma extinção em massa e colonizar o planeta com espécies do interesse deles. Acho que a Lanna pode nos explicar melhor como isso pode ser feito.
- Eles pretendem usar algas - explica Lanna -, algas que produzem amônia. Já existem milhares de toneladas dessas algas ativas neste exato momento, em vários lugares do planeta. Mas é muito pouco. Os Greys estão trazendo milhões de toneladas dessas algas e a intenção é que a atmosfera esteja respirável para eles em um período de dois a três anos, o que vai causar a extinção de pelo menos noventa e cinco por cento da vida na Terra. Enquanto isso, eles estarão introduzindo suas próprias culturas em grandes fazendas espalhadas pelos cinco continentes, para terem alimentos e demais recursos.
- Então, o sucesso deles depende das algas? - pergunta Krzovv.
- Sim. Sem as algas, eles não vão conseguir mudar a atmosfera.
- Há como impedirmos que eles possam usar as algas?
- Sim. Diversas condições podem impedir que as algas se proliferem, entre elas, a salinização excessiva da água marinha, alguns detergentes, a diminuição da temperatura...
- Fatores que eles já vêm controlando há centenas de anos, provocando aquecimento global através do aumento do efeito estufa, causado principalmente pela queima de material fóssil e das florestas ao redor do globo. Haveria como inverter esses fatores no curto prazo? - Pergunta Eloaton.
- No curto prazo, que eu saiba, não, a não ser que a humanidade inteira colabore, o que acho muito improvável. Porém, as algas são muito suscetíveis a uma infecção bacteriana chamada "ice ice". Esse era um dos principais problemas no qual eu estava trabalhando: descobrir como tornar as algas resistentes a essa bactéria.
- Então, podemos produzir uma bactéria que combate a alga que produz amônia? - questiona Krzovv.
- Sim, e de forma muito fácil. A bactéria Pseudoalteromonas carrageenovora se multiplica com grande rapidez, devastando áreas enormes de cultivo de algas. De forma natural, ela precisa de certas condições para agir, como alterações bruscas na salinidade, na temperatura e na iluminação do ambiente, mas eu consegui desenvolver uma variedade que se multiplica mesmo sem essas condições ideais.
- Ótimo, então temos uma arma contra as algas. Isso pode atrasar, mas não impede que eles invadam a Terra e matem todos os humanos, para evitar qualquer resistência aos planos deles. O que podemos fazer para impedir isso?
Renato responde:
- Os Greys são todos clones e, por isso, possuem a mesma constituição genética. Então, se um deles é suscetível a uma doença, todos eles são. É o mesmo problema que ataca as nossas bananeiras: Uma doença simples como a antraquinose é praticamente impossível de ser combatida, pois as bananeiras não se reproduzem mais por sementes e sim por brotação, portanto, são geneticamente idênticas. Todos os Greys são vulneráveis à diloraminose, uma doença bacteriana para a qual eles não conseguem desenvolver um remédio eficaz. Nós, aqui em Ethoria 27B, produzimos um elixir que elimina essa bactéria, com alta eficácia e com capacidade de produção suficiente para atender cem milhões de indivíduos de uma só vez. Esse é o nosso grande trunfo: somos os únicos a produzir um remédio para uma doença que pode acabar com eles.
Todos se entreolham.
- Isso é muito interessante. Então, os Greys são tão burros que querem destruir o único planeta que produz o único remédio para uma doença que pode acabar com toda a raça deles? - Pergunta Lemann.
- Bem, talvez o ser humano não seja muito mais inteligente do que eles, afinal, cavamos fossas em cima da água que bebemos, além de estarmos destruindo toda a natureza da qual dependemos para viver - Responde Renato.
- E como você sugere que usemos esse trunfo a nosso favor? - Questiona Krzovv.
- Vamos avisá-los de que a produção de elixir está suspensa por prazo indeterminado, até que tenhamos certeza de que eles não façam qualquer mal a nenhuma espécie em nosso planeta.
- Muito bem. Mas é bem provável que eles tentem invadir o planeta de um jeito ou de outro, afinal, não podem voltar para Betelgeuse, pois a estrela já explodiu há cem anos. Se não invadirem a Terra, vão fazer o que?
Todos pensam um pouco. Eloaton questiona:
- Existe algum outro planeta no nosso sistema solar que tenha condições de abrigar a vida deles?
- Planeta, não, mas talvez uma lua - responde Lemann -. Titã, Encélado, Europa e até a Lua da Terra possuem vestígios de amônia na atmosfera ou em seus oceanos subterrâneos. As três primeiras são geladas, mas podem dispor de condições para abrigar a civilização Grey. Precisaríamos pesquisar melhor sobre isso.
- Quem pode verificar todas essas informações? - Pergunta Eloaton.
- Xá comigo - Responde Julio.
- Nossos discos voadores não são capazes de enfrentar os Greys? - Pergunta Amanda.
- Sim, alguns deles são, mas temos apenas uma dúzia deles. Estaremos lutando contra milhares, talvez milhões de naves.
- E um raio mortal que exploda a nave-mãe, que nem naqueles filmes famosos que...
- Um raio de plasma precisaria ser disparado a uma distância muito pequena, Julio. Mesmo que conseguíssemos fazer isso, com o sacrifício de alguns tripulantes, não há garantia de que ele conseguiria explodir a nave mãe inteira. Ela é muito grande. Em último caso, podemos tentar. Mas é melhor evitarmos o confronto a todo custo primeiro. - Responde Krzovv.
- Será que podemos convencê-los, telepaticamente, a mudar de ideia? - Pergunta Sofia.
- Os Greys dominam a telepatia melhor do que os humanos, Sofia. Provavelmente, você seria convertida por eles, se tentasse. Seu poder funciona melhor com os reptilianos - Responde Lemann.
Alguns instantes de silêncio, enquanto todos pensam.
- Os Greys vão precisar de dois a três anos para que a atmosfera da Terra esteja ideal para eles. Enquanto isso, quem vai tomar conta das coisas por aqui? Quem vai produzir a comida deles? - Pergunta Renato.
- Nós, os híbridos - Responde Lanna -. Nós conseguimos respirar oxigênio por algumas horas, da mesma forma que podemos respirar amônia também.
- E existe a possibilidade dos híbridos se revoltarem contra os Greys, deixando de produzir os alimentos deles?
Lanna pensa um pouco.
- Existe um movimento de resistência entre os híbridos. Mas acredito que a maioria seja favorável à colonização. Podemos trabalhar infiltrados, de forma a boicotar ou destruir as plantações.
- E o que eles comem, além de algas? - Pergunta Renato.
- Certos tipos de cereais que não existem na Terra. Eles preparam uma ração com esse cereal. É a base alimentar deles.
- Alguma carne?
- Insetos. Os Greys comem muitos insetos. Não comem galinha nem ovos, nem carne vermelha, mas comem peixe, especialmente os de água salgada.
- Puxa, aí complica. Tem inseto pra dedéu na Terra e não falta peixe de água salgada por aí - Observa Julio.
- Sim, mas eles comem muito pouca proteína. Os Chefes comem mais, na forma de queijos e crustáceos. Os Greys comuns comem basicamente só uma ração à base de cereais. Eles estão trazendo estoque de cereais suficiente para suprir três anos. Precisarão plantar seus cereais imediatamente, assim que chegarem à Terra, senão, não sobreviverão.
- E onde eles vão produzir uma quantidade tão grande de cereais? - Pergunta Amanda.
- Eles estão contratando os reptilianos que possuem grandes fazendas em todo o planeta, especialmente aqui no Brasil, na França e na Ucrânia. Vão pagar o dobro do que eles ganham hoje produzindo soja e trigo, e vão colocar os híbridos como mão de obra de graça. Não existiria proposta melhor para um reptiliano, pois tudo o que eles querem é dinheiro e poder, não interessa se for justamente para acabar com a própria raça deles - Responde Eloaton.
- E cogumelos? - Pergunta Sofia.
- Eles consomem alguns cogumelos de vez em quando, de forma recreativa. É o álcool deles - responde Lenna.
- Então, temos mais algumas opções interessantes - observa Renato -. Podemos devastar as plantações de cereais deles e introduzir cogumelos venenosos no meio daqueles que eles consomem. Eloaton, uma vez você falou que eles não gostam de pimenta, é isso?
- Eles não suportam sabores picantes. Têm choque anafilático se tomarem caldo de gengibre ou comerem qualquer coisa que tenha pimenta.
- Podemos colocar um pouquinho de pimenta no elixir deles?
Eloaton pensa um pouco.
- Podemos, mas logo eles descobririam, pois o efeito é imediato.
- Podemos produzir a ração deles de forma que os enfraqueça no longo prazo? - provoca Krzovv.
Todos pensam alguns instantes. Renato sugere:
- E que tal se a gente contaminar a ração deles com a tal da diloraminose? É possível?
Lenna pensa um pouco e responde:
- Sim, é possível sim. Aliás, a diloraminose é uma doença causada justamente por uma bactéria proveniente da fermentação de um dos cereais deles. É por isso que eles incineram os cereais quando estão perto do vencimento: para prevenir que essa bactéria se desenvolva e os contamine.
- Amigos, acho que já temos uma estratégia de combate muito bem definida. Eloaton, estou surpreso. Não pensei que sua equipe fosse capaz de apresentar resultados tão bons em tão pouco tempo.
- Nunca duvidei da capacidade deles - responde Eloaton.
- Então, vamos organizar as frentes de combate. Eu e o Renato entraremos em contato com os Greys para tentar convencê-los a ocupar uma das luas citadas pelo Lemann, aquela que o Julio vai pesquisar para ver qual é a melhor.
Julio e Renato acenam com a cabeça.
- A Lanna vai trabalhar na produção das bactérias de combate às algas, e também no cultivo das bactérias que provocam a diloraminose, e vai poder contar com toda a equipe do laboratório de Ethoria 27B, correto, Eloaton?
Eloaton e Lanna concordam.
- Será que a Sofia seria capaz de convencer os reptilianos a desistirem de ceder suas terras para a produção dos cereais dos Greys?
Sofia responde que pode tentar.
- A Amanda pode estudar os armamentos das naves que temos disponíveis, por precaução, caso seja necessário usar a força.
Amanda consente.
- Lemann, você pode continuar o treinamento individual de cada um dos integrantes do Esquadrão Ethos. Pelo visto, está dando um ótimo resultado.
Lemann apenas abre seu tradicional sorriso.
- Eloaton, você pode coordenar os trabalhos, de forma geral?
- Claro que sim. Mais do que isso, creio que também posso integrar à nossa equipe todo o pessoal da Resistência dos híbridos.
- Excelente ideia. Bem, vamos lá!
- Pondr, falta apenas um superciclo para chegarmos à Terra. Providencie o despertar de toda a tripulação que está em hibernação criogênica.
- Imediatamente, altíssimo.
- Antes disso, já se livrou dos doentes?
- Sim, todos eles foram alijados ao espaço, senhor.
- Checou os cereais? Algum vestígio de mofo?
- Checamos diariamente, senhor. Nenhum vestígio. Acredito que a nave esteja livre da diloraminose.
- Isso merece uma comemoração. Mande o cozinheiro me trazer uma tábua de queijo de Gárboras. E uma porção de psilocybe também.
- Prontamente, senhor.
Pondr sai pela porta. Alguns minutos depois, retorna, comunicando:
- Altíssimo, estamos sem queijo de Gárboras. Pode ser queijo de iaque oriano?
- Como assim? Quem consumiu o queijo de Gárboras? Ele é exclusividade do alto comando da nave. Deveria ter pelo menos uns dois quilos ainda em estoque.
- Sim, senhor, deveria ter. Alguém se apropriou do queijo sem permissão, senhor.
Ramazor pensa um pouco e ordena:
- É claro. Como não desconfiei antes? Faça imediatamente um inventário do armazém. Agora, nesse instante. Coloque quantos homens forem necessários nessa tarefa. Acho que encontramos o esconderijo dos ratos. Faça uma varredura completa, atrás de qualquer indício de invasão: portas com defeito, algum buraco nas paredes, no piso ou no teto, qualquer coisa. Verifique as credenciais de todos os que acessaram os depósitos. Coloque câmeras de segurança com sensor de presença. Vamos descobrir como esses ratos estão conseguindo entrar no nosso armazém.
Pondr chama alguns tripulantes e, juntos, saem da ponte de comando em direção aos depósitos.
Horas depois, Pondr retorna à ponte com as novidades:
- Altíssimo, encontramos um duto de ventilação com a grade solta. Os parafusos foram cortados por dentro. Colocamos uma câmera de segurança apontada para esse duto, com um dispositivo de alarme para avisar a vigilância quando alguém sair por ali. Assim, pegaremos o ladrão em flagrante.
- Ótimo. Sim, quero o... como é mesmo o nome dele?
- Korgg?
- Não, o outro.
- Palamedes, senhor.
- Isso, quero o Palamedes vivo. O Korgg deve estar ferido demais para poder andar por dentro dos dutos de ventilação. O Palamedes vai nos levar ao amigo dele. Então, instrua o vigilante a não prender o Palamedes, mas que coloque um rastreador nele. Entendeu?
- Ah, sim, perfeitamente, senhor.
- Assim pegaremos os dois. E quanto ao degelo da turma?
- Já temos um milhão acordando, senhor.
- Só um milhão? Se acordarmos um milhão por ciclo, em um superciclo teremos apenas trinta milhões. Precisamos acordar os quinhentos milhões de uma vez! Mexa-se!
Pondr senta-se à sua cadeira e começa a dar ordens pela teletela, mas logo ele para e anuncia:
- Altíssimo, estão mandando uma mensagem da Terra, mas dessa vez não é dos humanos. Estão falando na nossa língua.
- E o que diz essa mensagem?
- "Saudações. Somos o Esquadrão Ethos. Falamos em defesa de todas as formas de vida na Terra. Sabemos dos seus planos para a colonização do nosso planeta. Queremos propor uma negociação que seja benéfica tanto para a sua civilização quanto para a nossa. Neste momento, vocês estão passando por Jupiter, que possui uma lua que chamamos de Europa. Essa lua possui uma crosta de rocha e gelo com um vasto oceano por baixo, e sua atmosfera é fina, mas com amônia suficiente para sua espécie respirar normalmente. Vocês podem se estabelecer nessa lua e adaptar seu modo de vida a ela, enquanto nós podemos produzir os cereais que vocês consomem, até que vocês possam produzir seu próprio alimento nessa lua. Temos outras três luas no sistema solar com condições para a sobrevivência da sua espécie, mas acreditamos que Europa seja a melhor opção para um momento inicial. Aguardamos a sua consideração."
Ramazor pensa um pouco. Pondr observa:
- Talvez seja uma ideia interessante, Altíssimo. É mais fácil colonizar um planeta, ou uma lua, que já tenha condições iniciais para nossa vida. Não precisaremos aniquilar as milhares de espécies de...
- Danem-se as milhares de espécies. Só tem uma única espécie que nos interessa no Universo: a nossa. E o melhor planeta que existe neste sistema solar para que nossa civilização possa prosperar é a Terra. Há séculos já decidimos isso. O próprio Aarock de Kahlli já esteve neste sistema e checou pessoalmente a possibilidade de vida em cada um dos planetas e luas. Foi ele quem decidiu que o destino da nave G-48 seria a Terra, ainda no tempo em que esta nave era apenas um cruzador comum. Quer contrariar a decisão do mais eminente Altíssimo que a G-48 já teve a honra de ter?
- De forma alguma, senhor.
- Então, pronto. Responda a mensagem, dizendo que nossos planos iniciais estão mantidos e não está em negociação a possibilidade de optarmos por colonizar uma lua qualquer em lugar da Terra. Eles que se adaptem a uma atmosfera com amônia ou morram.
- Sim, Altíssimo.
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