#019 - Três contra cinco mil




 - Numa batalha entre dois povos, qual é o que vence? - Pergunta Luke, o guerrilheiro que estava ensinando táticas de guerrilha para Amanda.

- O mais forte? - Arrisca Amanda.

- Talvez. Mas o que quer dizer "o mais forte"?

- O que tem mais... poder, mais força...

- Ou...?

- Mais energia?

- Isso. Geralmente, uma batalha é vencida pelo lado que tem mais energia. Então, como garantir que você vai ganhar uma batalha?

- Tendo mais energia que o oponente - Amanda começa a entender.

- E como garantir que o oponente tenha menos energia do que você?

- Hmmm... privando-o do acesso a energia?

- Isso mesmo. E o que é energia em uma batalha?

- Eletricidade? Gasolina?

- Certo, e o que mais?

- Hmmm... comida, água, recursos...

- Perfeito. Então, como podemos ganhar uma batalha sem tirar uma única vida do lado oponente?

- Privando-o do acesso às fontes de energia...

- Isso mesmo. E também tornando a vida dele mais difícil, que ele tenha que gastar muito mais energia para fazer alguma coisa. Por exemplo, se um batalhão quer invadir uma cidade e tem um rio separando, basta explodir uma ponte e o oponente terá um atraso enorme, buscando outro caminho ou construindo uma ponte alternativa. Nenhuma vida é perdida. Até aqui você entendeu?

- Sim, entendi. Na Colômbia fazíamos coisas assim, mas não de uma forma tão planejada.

- O oponente vai sempre tentar fazer um cerco à cidade que pretende invadir, privando acesso a água, comida, remédios, munições, armamentos, eletricidade e combustível. A principal forma de vencer esse cerco é fazendo o mesmo com eles e encontrando rotas alternativas para prover esses recursos.

- E é isso que vamos fazer hoje?

- Precisamente. Os russos estão invadindo a Letônia. Já conquistaram a pequena cidade de Zilupe, estão tentando chegar a Ludza e depois conquistar Rezekne, que é um ponto muito estratégico por ser um entroncamento de várias rodovias que levam a todas as regiões do país. Como Rezekne possui um anel viário e dezenas de vias secundárias, precisamos conter o avanço das tropas entre Zilupe e Ludza, compreende?

- Sim, entendi.

- A estrada entre Zilupe e Ludza não tem rotas alternativas, mas passa sobre algumas pontes e viadutos. Nossa primeira missão vai ser explodir essas pontes para atrasá-los, entendeu?

- Olhando o mapa, parece que tem várias rotas alternativas...

- Sim, mas entre Nirza e Ludza não tem nada a não ser um trecho enorme de terreno alagadiço. Como é a rota mais rápida, certamente tentarão passar por ali. Vamos prendê-los nesse trecho.

- E o como vamos fazer isso? - Pergunta Amanda.

- Nós vamos deixar que eles passem por Nirza livremente e vamos bloqueá-los antes de chegarem em Lemki. É um trecho de oito quilômetros. Sem poder avançar, eles vão tentar retroceder, mas aí a gente explode o viaduto em Nirza também e eles ficam presos nesse trecho. Entendeu?

- Brilhante. Isso manterá a tropa presa dentro de um trecho de rodovia, sem poder ir para frente nem para trás.

- Isso mesmo. Vamos usar drones para explodir os caminhões de combustível, de mantimentos e de munições. Alguma dúvida?

- E as tropas da OTAN?

- Estão concentradas em Riga e em Talin, aguardando as movimentações russas. Nossa missão é atrasar os russos até que cheguem os reforços.

- Eu não conheço a região, mas seria providencial conseguir sabotar a comunicação entre eles. O que usam? Rádio amador?

- Sim. Podemos entrar na mesma frequencia que eles usam e encher a frequencia de ruídos, isso é bem fácil de fazer, com um rádio amador simples e qualquer coisa que faça barulho, como o motor de um carro.

- Eles usam internet via satélite?

- Provavelmente sim, mas aí fica um pouco mais difícil para intervir.

- Acho que eu consigo bloquear o acesso, temos tecnologia para isso - Amanda lembra do laboratório tecnológico no QG do esquadrão Ethos.

- Ótimo, toda ajuda é bem vinda. Vamos começar a nos movimentar, então.


No dia seguinte, um comboio de duzentos e cinquenta veículos militares deixa a cidade de Zilupe em direção a Rezekne. Seguem devagar pela rodovia E22. Na frente, um destacamento de artilharia pesada, com tanques e blindados fortemente armados. Na retaguarda também, enquanto os caminhões com suprimentos e soldados seguem no meio. Em determinado momento, todo o comboio para. Eles desconfiam que pode haver algum tipo de emboscada, pois não encontraram nenhuma resistência por quase dez quilômetros. Um batedor de moto é enviado à frente para fazer o reconhecimento do terreno. Ele passa por todo o trecho e chega a Rezekne sem desconfiar da quantidade de explosivos que tinha embaixo dos viadutos. Nirza e Ludza estão desertas. O batedor avisa a tropa que está tudo tranquilo e o comboio segue. Ninguém percebe um drone de monitoramento sobrevoando todo o comboio.

Assim que os dois tanques da vanguarda chegam ao trevo de Lemki, os explosivos são detonados remotamente e o caos começa. Soldados armados descem dos caminhões e ocupam posições de combate. Rapidamente veículos blindados procuram rotas alternativas e, ao passar por cima das minas previamente instaladas, elas também explodem, trancando todas as possíveis vias de contorno. O destacamento da retaguarda, cerca de seis quilômetros atrás, retorna, mas ao chegar no trevo de Nirza, também é surpreendido por explosões que impedem completamente o tráfego da via. O comboio inteiro está preso em um trecho de oito quilômetros de rodovia.

Os combatentes saem como formigas do comboio e tentam se embrenhar nas plantações ao longo da estrada, mas o terreno é encharcado e logo eles recuam. Os veículos não podem sair da estrada, senão ficarão atolados.

Alguns minutos se passam e, repentinamente, o caminhão tanque de combustivel explode, causando um incêndio incontrolável. Os carros próximos também são atingidos. Os soldados, como baratas tontas, atiram para todos os lados, sem saber o que fazer. Logo em seguida, outros dois caminhões com suprimentos também explodem. A tropa recebe um comando e se afasta do caminhão com as munições, pois era óbvio que seria o próximo alvo.

Dessa vez alguns deles conseguem ver um drone vindo em toda a velocidade e se chocando contra o caminhão de munições. A explosão foi maior do que a do caminhão tanque de combustível. O comboio com cinco mil soldados russos estava preso em um trecho de rodovia, sem poder ir para frente nem para trás, sem poder sair da rodovia, sem combustível, sem suprimentos nem munições. O comandante tenta chamar ajuda pelo rádio, mas todas as faixas estão ocupadas com ruídos. Então eles tentam socorro pela internet, mas todos os acessos à rede estão bloqueados.

Mais ou menos na metade do trecho, em Horoshova, há uma ruazinha que atravessa a rodovia no sentido norte-sul. Alguns veículos tentam seguir por essa estrada, mas logo uma das pedreiras é detonada, bloqueando a estrada. 

Logo chegam helicópteros russos. Vasculham toda a área. Os helicópteros ficam dando voltas, procurando suspeitos. E assim passa o dia todo. Os combatentes passam a noite na estrada, presos, com pouca comida e água, enquanto máquinas pesadas tentam restaurar a rodovia.

Em Lemki, camuflados e escondidos em um celeiro, um grupo de três guerrilheiros comemora o grande sucesso da contra-ofensiva e se desloca para a cidade de Rezekne, onde o restante da equipe de resistência os aguardava.

Resumo da operação: Cinco baixas russas e nenhuma da Letônia. Quinze veículos russos destruídos com um valor inestimável de prejuízo em munições, combustível e alimentos. Cinco mil soldados inoperantes e dois dias de atraso. Do lado da Letônia, perda de apenas oito drones, nove minas terrestres e seis explosivos com controle à distância.



Palamedes chega ao final do duto de refrigeração, quase congelando de frio. Apenas uma grade o separa do armazém de alimentos dos Chefes. A grade é parafusada por fora, então ele precisaria destrui-la para poder entrar. Porém, se ele destruir a grade, certamente perceberão e eles não poderão entrar novamente. Então, ele utiliza sua caneta laser para cortar os parafusos que prendem a grade no duto. Com alguns solavancos, consegue remover a grade sem danificá-la. Em seguida, observa o ambiente atrás de câmeras ou sensores. Nada, tudo aparentemente sem nenhum tipo de vigilância. Ninguém seria idiota o suficiente para tentar roubar o armazém de alimentos dos Chefes. Ele entra, se esgueirando por entre as prateleiras. Abre sua sacola e começa a enchê-la com todos os pacotes de comida que encontra. Retorna para o duto, reposiciona a grade em seu lugar e volta para o esconderijo. 

- Queijo de Gárboras? Nunca na minha vida sequer vi um desses na frente.

- É meio mole, acho que você consegue comer mesmo sem os dentes.

- E esse patê de ganso oriano? Como é que eles conseguiram isso?

- Cala a boca e come.



- Senhor, nossos telescópios perceberam algo referente ao 8i-Integral.

- Prossiga, doutora.

- Veja essas fotos sequenciais. Compare esta com essa.

- Nessa primeira tem umas estrelas aqui mas na segunda não tem.

- Exato. Não é algo que pode ser visto, mas algo que não pode ser visto. É como uma espécie de buraco negro entrando no sistema solar, ou uma estrela escura. Algo que não emite nem reflete luz, mas está lá.

- Onde está o 8i-Integral agora?

- Na órbita de Urano, a três bilhões de quilômetros da Terra neste momento.

- Conseguem medir o tamanho disso?

- Pelas nossas medições iniciais, parece ser um objeto cilíndrico com algo em torno de trezentos quilômetros de diâmetro e uns dois mil quilômetros de comprimento.

- Nossa, é enorme. Mas como ele gerou essa explosão de microondas?

- Ainda não sabemos, senhor. Também não sabemos se esse objeto tem algo a ver com a explosão de microondas ocorrida no cinturão de Kuipers, mas tudo indica que sim, pois ele parece estar vindo exatamente de lá.

- Conseguem ver se ele tem cauda? É um cometa? Poderia ser um cometa de matéria escura ou algo assim?

- É uma das hipóteses. 

- Pode ser um objeto artificial?

- Também não podemos descartar essa possibilidade, senhor.

- E sua órbita? Algum risco de se chocar com a Terra ou com algum outro planeta?

- Ainda é cedo para podermos afirmar com precisão. Precisamos calcular melhor a sua velocidade e direção. Nos primeiros cálculos, ele estaria em rota de colisão com a Terra, prevista para acontecer daqui a dois meses.

- É melhor não alarmar ninguém antes de termos certeza disso. Estão conseguindo evitar os olhares da imprensa?

- Por enquanto sim, mas o fato de termos seis telescópios apontados para uma mesma região do nosso sistema solar está levantando suspeitas por parte de curiosos. Não vamos conseguir esconder isso por muito tempo.

- Continuem monitorando. Acha que pode usar o James Webb ou o Hubble para verificar melhor o objeto?

- Aí sim é que despertaríamos a curiosidade do mundo inteiro, senhor. Melhor não fazermos isso neste momento.

- Certo, doutora. Continuem monitorando, mas sem alardes.


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