#018 - Renato
A batalha dura vários minutos, com corridas de cavalos invisíveis e armas mágicas que congelam ou incineram os inimigos. Por fim, o valente guerreiro alcança a torre, atacado pelo feroz dragão que cospe fogo em sua direção. Nestor usa seu último artefato mágico: um amuleto que reflete o fogo do dragão contra ele mesmo. E assim, Nestor vence o dragão e salva a princesa, sob aplausos frenéticos de quinze anões completamente extasiados pela fantástica aventura.
E a celebração não poderia ser diferente: Nestor se joga no chão e todos pulam em cima dele, fazendo montinho. Só depois de acalmarem os ânimos é que Nestor percebe a presença de Eloaton, aplaudindo entusiasticamente a inusitada peça teatral do mais absoluto improviso.
- Eloaton? Não vi você aí. - Nestor tenta se recompor, batendo o capim preso em sua roupa imunda e ajeitando os cabelos da melhor forma possível. Tinha uns galhos presos em seu cabelo e terra em sua orelha.
- Nestor, você é capaz de me proporcionar momentos da mais genuína alegria. Ver você sendo você mesmo, tão autêntico e verdadeiro, me traz a fé de que a humanidade pode ser salva.
- Adoro brincar com as crianças.
- E pelo jeito elas também gostam de brincar com você. Como foi sua semana de estudos?
- O Lemann é muito mais acessível do que o Krzovv e, pelo jeito, conhece tão bem sobre o assunto quanto o grandão azul. Gostei muito da didática dele. Ele me fez devorar alguns livros. A parte do estudo é necessária e estou acostumada com ela, mas ele foi muito mais prático: me fez ficar um dia inteiro observando um formigueiro e anotando as coisas que as formigas faziam. Depois, me pediu pra identificar e explicar pra ele as estratégias das formigas. Eu tive que pensar como uma formiga pra responder isso. Achei fantástica essa abordagem!
- E o que você aprendeu com isso?
- Acho que a coisa mais importante que aprendi, até agora, foi sobre como entender seu adversário, se colocar no lugar dele, pensar como ele. Ele focou muito nessa questão da empatia. Quando discuto com alguém, normalmente acho que tenho razão e que o outro está errado. Mas pela visão do outro, eu é que estou errado. Então, quem está certo? Eu ou o outro? Ou nenhum de nós?
- Muito importante essa compreensão, Nestor.
- Sim! É um jeito completamente diferente de ver as coisas e percebo que vou precisar me exercitar muito para desenvolver melhor isso. Afinal, a vida toda trabalhei em empresas onde a ideia sempre foi ter o maior lucro possível e aniquilar o inimigo, se necessário. Negociação é para os fracos. Os fortes mandam, não negociam. Essa era a visão que eu tinha e ainda está sendo meio difícil mudar as engrenagens da minha mente para esse novo... paradigma. Nessa forma antiga de ver as coisas, as formigas seriam inimigos que deveriam ser eliminados. Mas, observando as formigas, entendi que elas são seres tão complexos quanto nós e que estão apenas buscando alimentos e construindo seus lares. As formigas não querem nos destruir, querem apenas sobreviver. Isso mudou minha forma de ver o mundo.
- Você não tem ideia do quanto já evoluiu. E o que mais aprendeu?
- Ele me pediu para manter um olhar atencioso e receptivo durante o dia todo. Uma das coisas mais importantes que aprendi foi andando atento pelas ruas de Shamballah. As pessoas lá possuem uma paz interior fantástica. Todos se respeitam, se ajudam, se cumprimentam. Fazem atividades juntos, conversam e riem. É um senso de união e de coletividade muito bonito. Depois de passar uma semana lá, chega a parecer surreal que existam guerras e mentiras. Falando em mentiras, ele me ensinou a perceber quando o outro está tentando nos enganar. Isso eu até já sabia, de certa forma, pois já participei de inúmeras reuniões com acionistas que...
- Ele falou sobre os reptilianos?
- Ah, sim, falou. Então, tem a ver com a questão de entender quando estamos sendo enganados. Ele me passou umas técnicas que ainda preciso desenvolver e vou precisar de um reptiliano para exercitá-las. Conhece algum?
- A maioria dos políticos, advogados, grandes criminosos e grandes empresários da Terra são reptilianos encarnados, mas eles não sabem disso. Então, creio que não faltará oportunidade para esse treinamento. Ele falou sobre olhar no fundo dos olhos do adversário?
- Sim, é justamente sobre isso. Mas ele disse para eu não fazer isso com os greys, pois os greys são mais evoluídos e são capazes de me imobilizar ou ler toda a minha mente, somente com os olhos.
- Exato. Nunca olhe diretamente para os olhos de um grey, ou ele terá total controle sobre você. Ele explicou o que fazer quando estiver diante de um reptiliano em sua forma original, não encarnado como humano?
- Acho que não, não lembro...
- A primeira coisa é não demonstrar medo. Eles sentem o cheiro do medo, se alimentam dele. Eles usam o medo para dominar, para ter poder. Eles causam o medo nas populações e as dominam justamente por causa do medo. Lembra da guerra entre a Russia e a Ucrânia, anos atrás?
- Lembro...
- Os russos invadiram a Ucrânia causando pavor por todos os lados. Mas os ucranianos enfrentaram os russos com muita coragem. Mesmo em número menor e com infinitamente menos armamentos e munições, os ucranianos conseguiram rechaçar os ataques russos, usando a coragem, a inteligência e a criatividade. Enfrentaram tanques de guerra de milhões de dólares com drones baratos. Houve muitas mortes mas, ao final, os russos deixaram a Ucrânia em paz. Da mesma forma, em seu país, mais ou menos na mesma época, tinha muitos influenciadores que incitavam o povo contra as suas próprias instituições democráticas, contra a justiça, contra as leis. Mas todos eles, cada um deles, quando eram presos ou duramente enfrentados, acabavam ficando mansos como gatinhos. Assim são os reptilianos: eles usam o medo para dominar mas, quando são enfrentados, mostram claramente que sempre foram, na verdade, grandes covardes.
- Então toda aquela gente que invadiu e destruiu ...
- Não, nem todos eram reptilianos, apenas alguns. Os reptilianos são ótimos em persuadir as pessoas e fazê-las acreditar em suas mentiras. Lembre-se: os reptilianos não sabem que são reptilianos. Pensam que são humanos, normais, só que mais espertos. Uma das formas de sabermos se estamos falando com um reptiliano ou não é olhando no fundo dos olhos deles e sentindo a sua verdadeira natureza. É sutil, precisa ser exercitado, mas funciona. Lembre-se, tem uma coisa muito importante que você jamais deve esquecer: nem todos os reptilianos são maus. Alguns deles têm bom coração. Muitos deles foram reis e imperadores bondosos e que levaram suas nações a grandes avanços. Além de saber identificar um reptiliano, você precisa saber também se ele é bom ou mau em sua essência.
- Nem toda pessoa má é um reptiliano e nem todo reptiliano é uma pessoa má... acho que entendi. E quando começa aquele tal treinamento expresso?
- Em uma hora. Agora vá para o alojamento, tome um banho, coma alguma coisa leve e volte aqui. Temos uma atividade muito importante para você hoje. Algo que pode mudar completamente sua vida.
Uma hora depois, Nestor volta à praça, de banho tomado e roupa limpa. Eloaton o conduz ao grande Salão, onde Shakti e Leize o esperavam.
- É aquele negócio de ver a luz de novo? - pergunta Nestor.
- Mais ou menos. Você lembra do sonho que teve no dia em que se matriculou para o curso de economia solidária?
- Caramba, tinha esquecido completamente. Tinha uma voz me falando umas coisas...
- Você precisa se lembrar de quem você realmente é.
- Isso! Foi essa a mensagem! Peraí... era você no meu sonho?
- Foi um chamado, Nestor. Pois bem, aqui estamos justamente para que você lembre de quem você é. Sente-se, relaxe e beba o chá.
Nestor senta na cadeira. Leize conduz um rápido relaxamento e, quando Nestor já estava bem calmo, oferece-lhe o chá para tomar.
Nestor tem a sensação de que alguma coisa estava tentando arrancá-lo de dentro de seu próprio corpo. Inicialmente ele resiste, mas logo relaxa mais e se deixa levar. Logo ele se sente ali, separado, vendo seu próprio corpo na cadeira. Observa Eloaton: sua forma astral parece a de um anjo dourado muito luminoso, com vestes azuis, transmitindo uma sensação de paz e imenso poder. Também percebe um gigante azulado na sala, transmitindo muita bondade, parecendo um cetáceo. Shakti era ela mesma, só que dava para ver sua aura colorida, com tons rosados e violetas muito leves. Leize parecia uma samurai vermelha, grande, parecia pegar fogo. Então Nestor olha para si mesmo: usava vestes compridas, parecendo uma indumentária militar... suas mãos eram... verdes! E pareciam ter escamas! Ele olha para Eloaton e pergunta:
- O... o que eu sou? Por que é que minha pele é verde?
- Nestor, você já vai saber, mas quero que você faça uma regressão. Lembre-se das suas últimas encarnações, uma por uma. Quem você era na última encarnação?
Nestor lembra claramente: era uma mulher, pintora, muito valente, no México, de nome Magdalena. Sua vida inteira foi dedicada à libertação das mulheres e à luta contra o machismo. Sentia dores nas costas. Era a primeira metade do século passado. Ela era muito famosa e a conheciam pelo nome de...
- E sua penúltima encarnação? - conduz Leize.
O jovem lembra de sua penúltima encarnação, também como mulher e também como artista. Era uma americana, casada com um cientista geólogo. Eles viajavam muito. Ela retratava com grande fidelidade os lugares que visitavam, a flora existente, as pedras, os cogumelos... era uma ilustradora do século XIX com um nome bem difícil de pronunciar. Lembra de fazer gravuras em madeira. Era muito talentosa. Hitchcock... sim, era o sobrenome dela. Devido à importância e qualidade de seu trabalho, era mais famosa que o marido. Tossia muito. Estava doente...
- A encarnação anterior? - Leize não deixava Nestor ficar muito tempo em uma encarnação, pois o objetivo era chegar a uma era muito, muito antiga.
Vinifreda Maxwell - O nome veio muito claro à mente. Era uma condessa. Ela e seu marido Guilherme se rebelaram contra o rei e sua política cruel e opressora. Seu marido era um dos líderes da revolta Jacobita, que tinha o intento de depor o rei e conduzir o bondoso Jaime II ao trono. Guilherme foi preso por traição na Torre de Londres para ser executado. Ela elaborou um plano fantástico e conseguiu libertar seu marido, salvando-o da morte.
As dez últimas encarnações de Nestor foram sempre como mulheres notáveis que realizaram grandes obras, ou foram muito importantes, trazendo grandes mudanças e avanços para sua época. Foi rainha, liderou êxodos e revoltas, foi até uma faraó egípcia. Mas antes disso ele foi um general romano muito cruel, que abusava das mulheres, as escravizava e as mantinha em um harém a seu dispor. Aquela que não aceitasse deitar com ele era torturada, morta e seu corpo ficava à vista das demais para que servisse de exemplo. Quando morreu, em uma batalha, Nestor se arrependeu tanto do que fez que decidiu que em suas próximas vidas retornaria sempre como mulher para lutar contra o machismo e pela igualdade de direitos.
- Muito bem. Agora tente se lembrar de sua primeira encarnação como ser humano - Orienta Leize.
Deserto. Areia. Tinha um rio... não, dois rios. Dois rios muito grandes e uma enorme faixa muito fértil entre eles. O mar estava próximo. Era muito quente. Estavam construindo uma cidade no delta do Eufrates, toda de pedra. As habitações eram muito frágeis e havia muitos povos saqueadores. Era necessário fazer um muro para conter os ladrões do deserto. Construíram grandes casas coletivas para abrigar os moradores. Construíram um zigurate, que era um aeroporto anexo a um depósito ou mercado. Tinha um disco voador, era o mesmo disco voador de Nestor, só que estava novinho em folha... ele era o rei Ur-Nammu! Ele tinha contato direto com seres muito evoluídos que o ensinaram todas as técnicas em engenharia e agricultura, como irrigação, plantação em patamares elevados e rodízios de culturas. Tinham muita comida e o povo estava muito feliz. Abundância traz a paz, enquanto escassez traz a guerra. Era seu lema. Ele tratava de levar abundância a seus súditos. Ele era um rei muito amado, criou leis muito mais humanas do que as da época e estava casado com uma rainha, linda...
Ele percebe que a sua bela rainha era uma encarnação anterior da Sofia. Leva um susto, mas Leize o conduz:
- Essa foi sua primeira encarnação como ser humano, mas tente se lembrar de quem você era antes dessa encarnação.
Havia uma guerra, há uns quinze mil anos. Eram lagartos com forma humanóide, répteis, muito violentos e cruéis. Estavam invadindo a Terra e a ordem era não deixar nenhum sobrevivente. Mas Nestor era um dos rebeldes. Lutava contra seu próprio povo e trabalhava para proteger e libertar os seres humanos, pois percebia que eles eram bons e que só queriam viver em paz. Nestor avisava sobre as intenções reptilianas e os humanos fugiam para abrigos no subsolo ou em cavernas. Obviamente, ele estava sendo caçado pelos reptilianos por traição. Houve uma reação muito forte dos humanos, que estavam associados a outras civilizações, como os Atlantes e os Gigantes. Eles detinham tecnologias mais avançadas do que as atuais e os reptilianos fugiram. Nestor ainda estava em sua nave quando viu um risco no céu em direção ao norte. Mesmo estando na linha do equador, foi possível ver o brilho de uma explosão sobre o polo norte. Logo depois, outro risco e uma nova explosão, desta vez no polo sul. A nave de Nestor ainda tinha energia para trabalhar por poucas horas sem precisar reabastecer. Nestor sabia o que eles fizeram e o que iria acontecer. Ele foi rapidamente à capital Atlântida e avisou a todos para evacuarem a cidade.
- Fujam para as montanhas, o local mais alto que puderem. A cidade será destruída!
Alguns atlantes conseguiram fugir, mas outros não quiseram ouvi-lo. Os humanos estavam em guerra contra os reptilianos, e Nestor era um reptiliano. Não confiavam nele e o expulsaram da cidade. Por pouco, não o lincharam.
Nestor subiu o mais alto que pôde com sua nave e observou um grande paredão de água se aproximando. Sem poder fazer nada, ele assistiu à completa destruição de Atlântida. A onda tinha cerca de trezentos metros de altura e varreu tudo o que estivesse à sua frente. Todas as cidades litorâneas e até algumas em lugares mais elevados. Logo chegou a onda do sul também e as duas ondas se encontraram, causando uma hecatombe de proporções planetárias. A nave de Nestor já estava sem energia e precisava ser recarregada. Mas onde? As pirâmides haviam sido destruídas. Não havia onde pousar.
Nestor sentiu uma grande vergonha por ser reptiliano, por pertencer à mesma raça que aniquilou quase toda a vida na Terra. Ele sabia que ia morrer em poucos minutos e decidiu que iria nascer novamente como ser humano, que ajudaria a humanidade a se proteger dos reptilianos e que não descansaria até que fossem extintos.
O sinalizador da falta de energia piscava cada vez mais forte e não havia um local seguro para pousar, nem energia para poder se deslocar a alguma região não atingida. A nave começou a perder altitude e já dava para ver as imensas ondas se debatendo a alguns quilômetros abaixo, com destroços da mais incrível civilização que já havia habitado o planeta. Nestor segurou seu medalhão e manteve firme seu propósito de reencarnar como humano e lutar pela humanidade até o final dos tempos, enquanto sua nave caía verticalmente, sendo completamente destruída ao se chocar com as águas.
Nestor abre os olhos. Agora sim, tudo fazia sentido. Ele respira fundo e senta ereto na cadeira. Seu olhar e seu semblante estão completamente diferentes.
- Bem vindo à vida, Nestor - saúda Eloaton.
- Acho que o personagem Nestor não existe mais. Agora lembrei de tudo e sei quem eu sou, sei qual a minha missão e meu propósito. A partir de hoje, tudo será diferente. Eloaton, eu não tenho palavras e não sei como agradecer pelo que você fez por mim. Você me despertou, quinze mil anos depois. Eu poderia levar mais quinze mil anos até descobrir quem sou, se um dia descobrisse.
- Entende por que o tempo é relativo?
- Sim, agora entendo tudo. Agora tenho todo o entendimento. Em todas as minhas vidas como humano, sempre fui um rei, uma rainha ou alguém muito importante que fez algo para libertar a humanidade da opressão reptiliana. Nesta vida, eu estava me dedicando a objetivos absolutamente fúteis e diametralmente opostos aos meus verdadeiros princípios.
- O rei Ur-Nammu também passou por um momento de reavaliação da sua verdadeira missão na Terra. Inclusive, fez isso muito cedo, com apenas dezesseis anos de idade.
- Bom, eu demorei um pouco mais, mas volto a agradecer por me ajudar a despertar.
- E o que o novo Nestor vai fazer diferente do antigo?
- O antigo Nestor já não existe mais. Eu sei quem sou, eu sei o que estou fazendo aqui e, a partir de hoje, sou outra pessoa. É como se estivesse nascendo de novo. Renascido. Re-nato.
- Gostei do nome. Renato. Combina com você.
- Verdade... e é quase um anagrama para Nestor. Muito bem, a partir de hoje, eu sou Renato, o renascido, e tenho uma missão a cumprir e não posso perder tempo. Eu vou precisar me reorganizar, planejar, e preciso fazer isso rápido, afinal, os Greys estão chegando. Veja só, estou me lembrando das estratégias de combate... das estratégias para evitar combates... sim, eu levaria vidas inteiras para entender isso simplesmente lendo livros e olhando formigas. Você fez o certo: ativou minhas memórias. Eu já sabia disso tudo, só precisava lembrar. Agora eu entendo. Realmente, não tenho como agradecer, Eloaton. Vou ser grato a você por todas as minhas vidas futuras até a eternidade.
- Fico imensamente feliz por você, meu amigo.
- Meninas, muito obrigado por todo o apoio e cuidado. Eloaton, precisamos conversar sobre as próximas missões. Está tudo muito claro, é mais do que óbvio. Como não pensamos nisso antes? Temos tudo o que precisamos nas mãos para vencer essa guerra, mas vamos precisar de alguns recursos, combinar algumas estratégias e definir certas negociações. Me acompanha?
- Será uma grande honra, mestre Renato.
- Essa é nossa última ração. Precisamos conseguir mais comida - anuncia Palamedes.
- Não dá pra ir no refeitório, incógnito, como quem não quer nada? - pergunta Korgg.
- Não, eles estão monitorando, verificando o chip de cada um. Se a gente tentar passar pela porta do refeitório, vamos acabar dando uma voltinha no espaço.
- Você era o responsável pela produção das algas. Não sabe de uma forma de entrar no laboratório sem ser percebido?
- Já estamos debaixo do laboratório. É o mais perto que conseguimos chegar. Todas as entradas possuem sensores. A segurança do laboratório é muito rígida. Vou precisar dar umas voltas por aí para ver se consigo alguma coisa.
- Prometo que daqui não saio - brinca Korgg, ainda sem conseguir ficar de pé.
Palamedes veste um uniforme de serviçal de limpeza e sobe para o duto de ventilação que leva a um dos corredores da nave. Ele passeia por algumas seções. Percebe alguns guardas à frente fazendo uma blitz. Estavam checando os chips de quem passava. Ele abre uma porta lateral e entra em um pequeno anfiteatro, vazio. Se esconde entre as cadeiras. Na parede dos fundos, um grande mural de avisos com vários cartazes. Um deles chama a atenção: vão incinerar comida vencida! Quando? Em um ciclo! Onde? Ali pertinho, no depósito de perecíveis! Ele conhece bem o depósito, é quase como uma grande lixeira. Qualquer um pode entrar e sair quando quiser. Muito fácil!
O Grey espia pela porta. Os guardas já tinham ido embora. Ele entra novamente nos corredores e se dirige para o depósito de perecíveis. Mas havia algo diferente: tinha uma câmera apontada para a porta do depósito. Ele para, pensa um pouco e se dá conta: é uma cilada! Disfarçadamente, finge verificar alguma coisa na parede, dá meia volta e retorna ao esconderijo.
- Era uma cilada! Quase nos pegaram!
- Ainda bem que você percebeu a câmera. E agora? Não tem mesmo como entrar no laboratório e pegar algumas algas?
- Devem ter redobrado a segurança ali também. Você é o cara que conhece todos os sistemas de ventilação e suprimentos químicos da nave. Não tem nenhuma ideia?
- Ar não se come. Você que era o produtor de comida.
- Tá bom. Vamos pensar juntos. O laboratório de algas deve estar sob intensa vigilância. Estão tentando colocar armadilhas para a gente. Mas como podemos conseguir comida de uma forma, digamos, mais clandestina?
Korgg pensa um pouco.
- É claro! Os Chefes possuem armazenamento próprio, pois consomem comida de qualidade muito superior à nossa ração. Os armazéns são refrigerados e eu sei como entrar neles pelos dutos de ventilação. Duvido que pensem que a gente é ousado o suficiente para tentar entrar lá. Seria arriscado demais, mas é justamente aí que podemos ter vantagem.
- E você está em condições de andar por um duto de ventilação?
- Eu, não. Mas você está. Posso te mostrar o caminho.
- Se me pegarem, me mandam pro espaço e você morre de fome.
- E se você não for, nós dois morremos de fome. Então, não temos muita opção.
Palamedes concorda. Korgg passa a explicar como funcionam os dutos e como se faz para chegar até o armazém dos Chefes. Passam o resto do ciclo planejando a operação.
- Devemos informar os militares? - pergunta a diretora da ESA.
- Ainda não temos certeza de nada. Melhor não envolver as forças armadas por enquanto - Responde o primeiro-ministro da França. - Mas me explique melhor isso, por favor... foi detectado uma anomalia no cinturão de Kuipers, mas não se sabe o que é. O que podemos fazer para descobrir o que está havendo lá?
- Seis observatórios estão com seus telescópios apontados para aquela região. Cada um opera de uma forma: luz visível, infravermelho, microondas, radiação. Detectamos a anomalia na forma de microondas e raios gama, mas ainda não há nada que possa ser visto por emissão ou refração da luz. Ainda não temos muitas informações, apenas sabemos que algo realmente grandioso está entrando em nosso sistema solar. Esse objeto já tem um nome: 8i-Integral.
- Muito bem. Continuem monitorando e não comuniquem nada para a imprensa, neste momento.


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