#014 - A carta de Nestor


"Prezada Jeruza:

Como você deve ter percebido, saí em viagem sem dar maiores detalhes. Muitas coisas aconteceram nesta viagem, coisas que me levaram a tomar certas decisões radicais em minha vida.

Não vou mais voltar. Como não tenho parentes próximos, você é a pessoa mais próxima que tenho. Quero te deixar meus bens, meu apartamento e meus investimentos, pois não precisarei mais de nenhum deles.

Os papéis do apartamento estão no envelope pardo, incluindo uma procuração que lhe dá plenos poderes para vendê-lo, alugá-lo ou transferi-lo para seu nome. No verso do envelope estão listados os meus investimentos, as senhas dos bancos e corretoras e a melhor forma de resgatar esses investimentos e transferi-los para a sua conta. Dentro do envelope também estão os cartões das minhas contas com as respectivas senhas, as chaves e documentos do meu carro e mais alguns papéis que podem ser do seu interesse.

Quero lhe agradecer de coração por todos esses anos em que você cuidou tão bem do meu apartamento e das minhas coisas. Sou muito grato e a melhor forma que encontrei para demonstrar isso é lhe passando tudo o que tenho.

Também lembrei de seu sonho em fazer uma faculdade. Você falou sobre isso tantas vezes e eu nunca prestei atenção. Dentro do envelope branco tem uma surpresa para você: uma matrícula no curso que você sempre sonhou, com todas as mensalidades pagas. Basta se apresentar na faculdade e iniciar seus estudos.

Peço apenas a gentileza de entregar o envelope azul no setor de RH da empresa em que trabalhava. É minha carta de demissão, autorizando você a receber todos os valores referentes aos acertos e honorários, incluindo FGTS e tudo o mais.

Quanto a mim, não se preocupe, estou muito bem, apenas decidi mudar para outro lugar e viver outra vida. Está tudo bem.

Espero que você seja muito feliz e que tenha muito sucesso em sua vida.

Com carinho,

Nestor



P.S: Cuida bem do Stevie, por favor."






Lanna faz suas últimas anotações do turno em suas planilhas. Arruma suas coisas, fecha as portas e se dirige à sala de descontaminação. Deixa suas roupas de trabalho no cabide do vestiário interno, entra na cápsula ultravioleta, fica em pé por cinco minutos, desliga as lâmpadas e sai do outro lado, no vestiário externo, onde veste suas roupas civis. Segue em direção ao refeitório, praticamente vazio àquela hora. Serve-se de um sanduíche, chá de ervas, uma fatia de bolo e uma fruta. Senta a uma mesa e faz sua refeição, sozinha.

Recolhe sua bandeja, pega alguns biscoitos e mais uma fruta e vai para seu alojamento. Toma um banho quente, veste seu pijama e deita-se em sua cama com sua teletela em mãos.

Ela sabe que não pode pesquisar diretamente por palavras como “resistência”, “rebeldes” ou “como fugir daqui”. Mas ela pode acessar dados da superfície e ver imagens e vídeos mostrando como é a vida lá fora, como são as cidades dos humanos, seus costumes e lendas.

Algumas das suas lendas favoritas remetem a teorias conspiracionistas que afirmam que existem cidades na quarta dimensão ou no interior da Terra. Que existe um mega continente chamado Agartha, cuja capital é Shamballah e que fica debaixo de Lhasa, capital do Tibete. Mas o Tibete fica muito longe da Antártida, onde ela está agora. É impossível ir até lá. Na verdade, é impossível sair para a superfície. Ou praticamente impossível.

Litópolis é uma das cidades mais antigas da Terra. Ela foi criada quando a Antártida era um continente subtropical, quente, cheio de florestas. Foi habitada por gigantes e povos muitíssimo avançados, muito antes de surgir o primeiro ser humano. Porém, a Antártida passou por eras glaciais que forçaram os habitantes a construir cidades no subterrâneo e também a migrar. Esses povos acabaram por colonizar outras regiões da Terra, como a Lemúria, o continente de Mu e Atlântida. Eles construíram cidades majestosas e com alta tecnologia. Eram amigos dos Sirianos e trabalhavam em cooperação com eles, no desenvolvimento de raças híbridas humanas na África e na Mesopotâmia, que ajudariam a garimpar ouro monoatômico e cultivar alimentos para os Sirianos, que tinham uma base no planeta Nibiru, que ficava entre Marte e Jupiter. Mas houve uma invasão de Greys e de Reptilianos que devastaram a Terra, derreteram as calotas polares e destruíram completamente as magníficas cidades dos povos Atlantes. Os Greys encontraram as cidades subterrâneas da Antártida, mataram praticamente todos os habitantes e estabeleceram lá seus laboratórios para criação de uma raça híbrida. Os Sirianos ainda conseguiram expulsar os Greys, que se vingaram, explodindo Nibiru, que hoje é apenas um cinturão de asteróides.

Assim, a cidade de Litópolis permanece sob domínio dos Greys há quinze mil anos. Os habitantes híbridos que existem hoje já conseguem ficar por algumas horas respirando oxigênio puro, mas ainda precisam de uma dose de amônia na atmosfera, gerada por algas trazidas de B-Groot há milhares de anos. O nome da cidade não é por mero acaso: Litópolis é uma cidade escavada na rocha. Possui alguns túneis de ventilação e de comunicação com a superfície, estrategicamente posicionados e camuflados em montanhas rochosas de acesso praticamente impossível.

Se é extremamente difícil entrar em Litópolis, é muito mais difícil ainda conseguir sair de lá. Apenas os Greys e Chefes podem sair em discos voadores, e só o fazem quando é absolutamente necessário, especialmente quando detectam explosões atômicas na superfície. A radiação gerada pelas explosões é mortal para as algas criadoras de amônia e consiste em um risco potencial para a missão de ocupação dos Greys. 

Portanto, se alguém quiser sair de Litópolis, a única forma é pegando carona em um disco voador. Mas os híbridos não possuem acesso ao discoporto. Mesmo que um híbrido consiga se esconder em um disco e descer em algum lugar da Terra, ainda precisa ter suprimento de amônia suficiente para sobreviver até encontrar abrigo seguro. Mas onde Lanna poderia encontrar algum abrigo seguro? Ela não conhecia ninguém da Resistência que pudesse passar alguma informação. A Resistência é um grupo secreto, ninguém sabe quem faz parte. Ninguém pode saber. E mesmo que alguém abordasse Lanna se apresentando como sendo da Resistência, ela jamais poderia saber se era verdade ou não. Poderia ser um agente Grey disfarçado e, então, ela estaria em grandes apuros.

A única coisa que Lanna conhecia era o símbolo da Resistência: um círculo cortado por dois traços em cruz, como a mira de uma arma. Esse símbolo aparece pichado e riscado misteriosamente pelas paredes de toda Litópolis. Então, Lanna precisava encontrar as pessoas que pichavam esse símbolo. Mas como?

Lanna tinha uma ideia.

No dia seguinte, ela levanta mais cedo, se arruma e vai para o trabalho, porém, seguindo por caminhos diferentes. Ela anota cuidadosamente os locais onde encontra o símbolo da Resistência. Passa uma oitena inteira mapeando esses sinais e, então, estuda os padrões com cuidado. Os símbolos estão desenhados em uma área circular de pouco mais de sete quadras de diâmetro. Mas na parte central dessa área não tem nenhuma marca. Bem no centro fica um setor de alojamentos de oficiais. Seja quem for o chefe da Resistência, ele deve estar morando ali.

Então Lanna, discretamente, fixa uma câmera apontando para a porta do alojamento e começa a monitorar as pessoas que entram e saem. Mas, logo nas primeiras filmagens, ela se surpreende: um dos primeiros a entrar no lugar é, justamente, Torkk, seu colega de trabalho.

O que é que Torkk estaria fazendo em um alojamento de oficiais? E chegando assim, de manhã cedo, antes do expediente?

Lanna continua monitorando. Logo em seguida, Torkk sai do alojamento, acompanhado de um oficial. Eles apertam as mãos, mas Lanna percebe que o oficial entregou algo a Torkk. Em seguida, cada um segue para um lado.

Minutos depois, Torkk chega ao laboratório. Lanna já havia desligado a teletela e estava, aparentemente, concentrada com seu microscópio.

Torkk assume também suas funções, normalmente. Na metade do primeiro turno (não existe transição entre dia e noite em Litópolis. É sempre noite. Os ciclos são divididos em três turnos de oito horas), Lanna diz que não está se sentindo bem e que vai à enfermaria. Ela sai, passa pela câmara de descontaminação e, no vestiário externo, procura as roupas de Torkk. Vasculha seus bolsos e encontra um papel, com vários nomes e respectivos códigos de teletela. Tira uma foto do papel, guarda tudo de volta, vai à enfermaria, passa por uma consulta e, sem qualquer diagnóstico patológico, retorna a seu trabalho. No final do turno, vai para seu alojamento e verifica a foto que tirou.

Um arrepio percorre seu corpo quando ela vê seu próprio nome e o número de sua teletela na lista, na quinta linha. Os três primeiros nomes estavam riscados.

O que isso significaria? Se Torkk fosse alguém da Resistência, infiltrado, ela estaria na lista de híbridos a serem contactados pela Resistência? E se Torkk fosse um informante dos oficiais? Então, estaria ela correndo perigo? E o que aconteceu com aqueles três primeiros cujos nomes estavam riscados?

Ela busca no Arquivo pelos códigos daqueles três primeiros da lista. Todos os três haviam desaparecido, recentemente. Sem nenhum rastro. Como se jamais houvessem nascido.

O plano de Lanna parece ter ido por água abaixo. Ela não sabe o que fazer. Se está em perigo, deve fugir, mas para onde? E como? Mas e se não estiver em perigo? E se Torkk for da Resistência? É exatamente isso que ela busca: algum revolucionário que a ajude a sair dali.

Sua teletela vibra, anunciando uma mensagem de texto. Lanna dá um pulo de susto. A mensagem apenas dizia: "Lanchonete, mesa 8. Agora."

Podia ser uma emboscada, um sequestro, mas também podia ser a sua chance de sair de Litópolis. Ela resolve arriscar. Veste uma roupa comum e se dirige à lanchonete. Entra sem chamar a atenção e se dirige à mesa 10, onde geralmente se senta para as refeições. A atendente vai à mesa para tirar seu pedido. Como de costume, pede um café e um sanduíche. Segura o cardápio nas mãos e, disfarçadamente, observa a mesa 8. Havia uma mulher sentada, de costas para ela. 

Lanna se levanta e finge ir ao banheiro, que ficava depois da mesa 8. Ao retornar, a moça sentada à mesa lhe convida a sentar. Ela obedece, e acena para a atendente para avisar que mudou de mesa.

- Quem é você? - Pergunta Lanna.

- Não importa. Melhor você não saber. Você deve estar se perguntando se sou amiga ou inimiga. Só me basta dizer que, se eu fosse sua inimiga, a essas horas você não estaria mais respirando.

- O que você quer de mim?

- Eu sei que você quer sair daqui. Mas você não sabe como. Pois bem, eu posso te ajudar. Mas tem uma condição.

- Que condição?

- Temos uma tarefa para você na Resistência. Vamos levá-la para uma base no Brasil. Não vão encontrá-la, pois é território neutro. 

- Que tarefa?

- Chegando lá, a gente explica. Cassiapimba, você quer ou não sair daqui, afinal?

- Desculpe. Quero sim. O que devo fazer?

A moça não responde. A atendente chega, trazendo o café e o sanduíche. Lanna agradece.

- Tome seu café normalmente. Vá ao banheiro. Tem um armário falso na parede. Empurre-o, tem uma passagem secreta. No final dessa passagem terá um veículo esperando. Entre nele e apenas obedeça os comandos. Entendeu?

- Sim. Mas não vão perceber que eu sumi?

- Eu digo que você precisou sair e pago a sua conta. Termine de tomar seu café.

Lanna obedece. Elas não falam mais nada. Após a refeição, Lanna se levanta e vai até o banheiro. Olha para o armário e tenta imaginar de que forma ele poderia... bem, foi só empurrar e ele cedeu, mostrando o corredor escuro por trás dele. Ela fecha o armário após passar e se dirige ao final do corredor. Abre a porta, e lá estava o veículo a esperando. Ela olha cuidadosamente para os lados, não vê nenhuma câmera ou teletela filmando, então a porta do veículo se abre e ela entra. O veículo vai andando devagar e desaparece na neblina.

Comentários