#016 - As vidas passadas de Sofia

Um majestoso disco voador pousa no discoporto de Ethoria 27b. O disco, todo revestido com ouro e prata, reflete a luz do sol em tonalidades metálicas encantadoras. Alguns minutos após o pouso, descem Sofia, Lemann e Eloaton, enquanto Ikor se encarrega da manutenção do aparelho. Os três seguem para a avenida central, conversando distraidamente sobre as experiências e desastres de Sofia no mosteiro tibetano. Logo chegam a seu destino: o grande salão onde as amigas Shakti e Leize já os esperavam.

Sofia abraça as duas alegremente. Já havia pelo menos uns três meses que não se viam. Mas logo Sofia se dá conta de onde estão e pergunta a Eloaton:

- O que viemos fazer aqui? Tem mais algum treinamento expresso que eu preciso fazer?

- Na verdade, tem sim. Vamos fazer uma regressão. Você precisa se lembrar de quem você realmente é. Isso é muito importante.

- Uma regressão? Tipo, lembrar de quem fui em vidas passadas? Dá pra fazer isso tomando aquele chá? E que chá é esse que a gente toma?

- O chá é uma antiga receita usada pelos gregos, chamado ciceona. É feito a partir da fermentação da cevada, hortelã e alguns cogumelos. A receita muda um pouco de acordo com a pessoa que vai tomar e a intenção com que o toma. A função do chá é apenas deixar a sua verdadeira essência momentaneamente livre do seu corpo físico e de sua mente. É fazer uma conexão direta com o Divino. Nesse estado, ela é capaz de buscar as respostas para qualquer pergunta. Em breve, vocês dominarão as técnicas para alcançar os mesmos resultados quando quiserem, sem o chá, mas nesse momento ele é importante para acelerar o processo e trazer as respostas para seus questionamentos e intenções. Por enquanto, vamos usar o chá com assistência guiada. As meninas vão ajudá-la a manter, firme e claro, o propósito de lembrar de suas vidas passadas. Assim, quando sua essência estiver desligada do corpo, poderá acessar rapidamente essas lembranças.

- Entendi. Mas... por que a gente esquece das vidas passadas quando nasce?

- Quando um ser vivo morre, desaparecem suas memórias, seu corpo, sua energia e sua identidade. Mas suas ondas cármicas continuam e se manifestam em outro ser, com outras memórias, outro corpo, outra energia e outra identidade. É outro ser, completamente diferente, apenas com as mesmas ondas cármicas. Porém, tudo o que acontece no Universo inteiro fica gravado nos registros Akáshicos para sempre. Então, você consegue retroceder nesses registros, acessando memórias das outras manifestações anteriores. Acredite, essa é uma grande dádiva. Seria uma verdadeira tortura você nascer lembrando de toda sua manifestação anterior. Você viveria em ciclos eternamente e jamais conseguirira avançar. Repetiria sempre a mesma vida, de novo, de novo e de novo. Mas há situações nas quais é importante resgatar essas memórias. Agora é uma dessas situações, e logo você vai entender. Vamos simplificar e apenas dizer que você vai se lembrar das vidas anteriores. Agora deite-se confortavelmente e relaxe. Quando estiver bem relaxada, tome o chá.

- Uma última dúvida... isso aqui não vicia, não?

- De forma alguma. É um remédio, uma medicina natural, feita para se usar poucas vezes, com uma intenção clara e sempre de forma assistida. Não é para uso recreativo.

Sofia aquiesce, deita na cadeira, relaxa e entra em um estado meditativo leve. Bebe o chá e aguarda pelos efeitos que já conhece. Em alguns segundos, sente como se estivesse sendo arrancada de dentro de seu corpo. Percebe sua mente lá, distante, longe, mas ela é apenas consciência, apenas luz. Olha para si mesma: um anjo dourado irradiando luz. Olha para Eloaton: ele também tem a mesma forma, um anjo dourado, por quem sentia profunda admiração. Olha para Lemann: o velho senhor de dois mil e trezentos anos também tinha a mesma forma. Sofia entende que os três são pleiadianos em sua essência. Havia um siriano na sala e ela não o tinha percebido, um imponente gigante azul com uma bondade infinita no rosto. Ele parecia um golfinho sorridente. Ela olha para as meninas. Shakti tinha sua forma humana normal, mas muito luminosa, jorrava bondade de seus olhos. Leize... Leize era diferente, era vermelha, muito maior do que seu corpo físico. Ela tinha muita energia, muita força. E foi Leize que ordenou:

- Lembre-se de quem você é. Lembre-se de suas vidas passadas. Quem você foi na sua vida anterior?

As palavras pareciam ter cores próprias. Sofia imediatamente se vê em um lugar estranho, colorido, muito alegre, com música e muitos amigos. Era um veículo, talvez uma van ou Kombi. Ela estava deitada no chão, sobre algumas almofadas. Todos riam muito e cantavam. Estavam fumando alguma coisa e bebendo. Sentia a dor de uma picada recente em seu braço. Alguém coloca um pedacinho de papel em sua língua. Ela lembra de ter ficado assim por mais algum tempo, depois começou a ter alucinações. Sentia toques e abraços, beijos e uma volúpia sem qualquer controle. Mas começou a lhe faltar o ar, começou a ter convulsões. Sentiu uma forte dor no peito e percebeu que estava entrando em choque. Estava tendo uma overdose. Sentiu seu coração parar de bater. Apareceu um túnel de luz à sua frente e a luz era muito quente e agradável, e ela seguiu para a luz. Logo escuta a voz de Leize a chamando:

- Você lembrou dos últimos momentos de sua última vida. Agora lembre-se da vida anterior a essa. Quem era você?

Sofia enxerga sua penúltima vida como se fosse um filme em alta definição. Uma riqueza incrível de detalhes. Parecia que ela estava lá. Sentia o cheiro, as texturas, os sons, os gostos. Era incrivelmente real. Estava em uma era medieval. Usava roupas medievais. Sentia cheiro de fumaça, cocô de cavalo e xixi de vaca. Estava em uma casa com pouca iluminação. As paredes eram de pedra. Ela estava cozinhando em um fogão a lenha e conversando com alguém.

- Vem me ajudar na cozinha. Sai desse laboratório, você não saiu daí o dia inteiro. Parece que nem lembra que eu existo.

- Está bem, meu amor. Acho que já trabalhei bastante. Tive bons avanços. O que você quer que eu faça?

Sofia olha para a porta que se abre, e dela sai... o Lemann, exatamente igual a como está hoje, porém, usando roupas medievais e um avental de couro. Sofia se assusta! Ela e Lemann foram um casal em uma vida passada? Como assim?

Leize percebe o susto de Sofia e a acalma, dirigindo-a para outro momento daquela mesma vida.

Sofia e Lemann estavam à frente de uma lareira, debaixo de algumas cobertas e brindavam suas taças de vinho. Lemann fala:

- Eu quero me lembrar de todos os momentos que estamos passando juntos, meu amor, para sempre. Hoje é um dia muito especial: faz cem anos que nos conhecemos. Estamos juntos há cem anos, nunca brigamos, nunca nos traímos. Sou muito feliz com você, e nunca pensei que seria pai novamente, com mil e quinhentos anos de idade. 

Sofia leva outro susto: Estava grávida do Lemann? Ela estava com mais de cem anos, e grávida? E o que aconteceu?

Leize a acalma novamente e logo ela se vê em uma banheira com água morna e duas mulheres a seu lado. Uma delas era a Shakti!! Ela logo percebe que está em trabalhos de parto. Sente dores horríveis. Lembra de passar um dia inteiro tentando ter o nenê. Foi um sofrimento indescritível. Ela sentia que suas forças se esvaíam, junto com seu sangue. O nenê não nascia. Ela sente faltar o ar, sente sua vida ir embora e, vagamente, sente que sua barriga estava sendo cortada para tentarem salvar, pelo menos, o nenê. E assim ela morreu, no parto, aos cento e trinta anos de idade.

Sofia chora como nunca chorou na vida. Ela grita. Se debate. Ela morreu no momento que deveria ser o mais feliz de todas as vidas que ela teve. Ela quer o bebê em seu colo, onde está o bebê? Ele está vivo? O que aconteceu com ele? Ela entra em desespero, se agita, grita, sente que tem alguém tentando controlar seus movimentos e encostando alguma coisa em sua testa. Aos poucos, tudo vai escurecendo e ela simplesmente apaga.


Uma suave luz esverdeada parece brilhar no teto. Sofia vai, aos poucos, recuperando a consciência. Onde estava? Cheiro de hospital. Tem uma placa luminosa no teto. Ela já esteve nesse lugar antes. Começa a coordenar os pensamentos e se lembra: Está na mesma enfermaria em que acordou no primeiro dia em Ethoria. Sente preguiça e uma vontade imensa de não sair dali nunca mais. Adormece novamente. 

Horas depois, sente uma mão em seu ombro e acorda, com um susto. Era Lemann. Ele estava ali, sentado a seu lado.

- Hora de acordar, princesa Aurora. 

- Lemann... que bom que você está aqui. - Sofia o abraça, carinhosamente - Por favor, me explique o que aconteceu naquela minha vida passada. Nós éramos casados?

- Meu amor, nós fomos casados por cem anos. Nós nos conhecemos em 1308, nos arredores de Paris, na França. Você sempre foi muito inteligente, questionadora, mas suave, delicada, carinhosa e atenciosa. Depois de dez anos juntos, eu contei tudo sobre quem eu era e a levei a Shamballah. Expliquei sobre as águas da Fonte da Juventude e, a partir daquele dia, eu e você íamos diariamente nos banhar nas cachoeiras da Vida Eterna, antes de começarmos nossos trabalhos diários. Fomos muito felizes. A cada dez anos, mudávamos de cidade, para que as pessoas não percebessem que a gente não envelhecia. Em 1380, mais ou menos, eu conheci o alquimista Nicolas Flamel, que estava buscando entender os segredos da Pedra Filosofal. Bem, eu conhecia os segredos, então passei a cooperar com ele. Eu não podia contar sobre as cachoeiras de Shamballah, mas poderíamos tentar descobrir juntos a composição da água e quais componentes eram os responsáveis por garantir a longevidade. Trabalhamos juntos na edição de seu mais famoso livro, o Sumário Filosófico. Mas, dois anos antes de publicar o livro, tivemos a melhor notícia de nossas vidas: você estava grávida, aos cento e trinta anos.

Lemann respira e continua:

- Vivíamos na mais intensa felicidade. Sempre fomos muito apaixonados, morávamos com um certo conforto, sempre em casas um pouco isoladas dos grandes centros. Tínhamos uma boa estabilidade financeira, proveniente das reservas de ouro que fui fazendo durante minha longa vida. Não nos preocupávamos com nada. Nós dois adorávamos cuidar da nossa casa, onde quer que estivéssemos morando. E eu me sentia muito realizado em poder ajudar um dos maiores filósofos da história humana a escrever seu livro. Porém, nem tudo pode ser tão perfeito o tempo todo.

Lemann faz uma nova pausa e prossegue:

- O nenê era grande demais. Você passou mais de um dia em trabalho de parto. Até hoje, seus gritos não saem da minha cabeça. Mas muito pior do que seus gritos, foi quando você parou de gritar. Eu invadi o quarto desesperado. As duas parteiras já estavam abrindo sua barriga para tentar salvar o nenê, pois você já não tinha mais vida. Elas tiraram a criança, que estava toda roxa. Fizemos de tudo, mas a criança nunca respirou. Ela morreu com você, no parto. Era uma menina. Não dei nome a ela.

O velho homem seca suas lágrimas, que escorrem pelo seu rosto.

- Meu mundo desabou. Nada mais tinha importância. Não fazia sentido poder viver para sempre, sem ter você a meu lado. Parei de me banhar em Shamballah. Queria apenas morrer, pois não tinha nenhum motivo para continuar vivendo. Entrei em uma grave crise de depressão. Não queria receber ninguém, me isolei em meu escritório, mal me alimentava. Estava envelhecendo rapidamente e era exatamente o que eu queria: morrer.

Sofia segurava as duas mãos de Lemann e chorava mais do que ele.

- O Nicolas Flamel ia à minha casa todos os dias e eu o mandava embora. Mas, certa vez, ele arrebentou a porta e entrou. Lembro de tê-lo agredido, e ele revidou. Literalmente me encheu de porrada, até que eu sentei no chão e falei: "Flamel, eu só quero morrer. Me ajude a morrer". Ele respondeu: "Não. Eu vou ajudá-lo a viver, e a viver tanto, e tão bem, que você vai voltar a conhecer novamente a reencarnação de sua amada Eleonore."

- Meu... meu nome era Eleonore?

- Sim. O mesmo nome do primeiro amor de Beethowen, quatrocentos anos mais tarde. Toda a vez que escuto a música Eleonore eu lembro de você. Bom, o Flamel provou ser um grande amigo e uma pessoa sábia, de imenso coração e bondade. Ele ficou ao meu lado por vários meses. Ele viveu o meu luto comigo. Acabei contando para ele sobre Shamballah e a Fonte da Juventude. Consequentemente, acabei mostrando para ele o meu disco voador. Ele me convenceu a levá-lo a Shamballah, mas exigi o juramento de jamais em sua vida contar para mais alguém sobre a cidade. Ele tomou um banho na cachoeira comigo, um banho de um dia inteiro. E era tudo o que eu precisava para voltar à vida. Ele me deu um motivo para viver: a esperança de reencontrar você em uma reencarnação futura. Por fim, eu o ajudei a publicar seu livro em 1409, mas não queria que ninguém soubesse que eu o tinha ajudado. Não queria meu nome na obra. Era mérito dele.

- E o que aconteceu depois?

- Eu fui para Shamballah, fiquei morando lá por alguns anos. Comecei a frequentar uma certa tradição esotérica, na qual conheci o Eloaton, o Vigilante de Ethoria 27b. Contei a ele que queria viver uma vida reclusa, longe de todos, indefinidamente. Eloaton disse que seria um grande desperdício se meus conhecimentos não fossem compartilhados com a humanidade e que não me faria bem ficar muito tempo isolado em uma caverna no tibete ou algo assim. Então ele sugeriu que eu me tornasse o Vigilante de Shamballah, enquanto esporadicamente trabalhava como professor, conselheiro, chanceler ou diplomata, em determinadas situações onde isso se tornasse necessário. Foi o que fiz a partir de então.

- Você é o Vigilante de Shamballah há seiscentos anos?

- Sim. Nunca mais me casei, nem tive outra namorada depois de você. Digamos que eu fiquei a esperando pelos últimos seiscentos anos. Resumindo, é isso.

Sofia olha profundamente nos olhos de Lemann e também o reconhece como o maior amor que ela teve em todas as suas encarnações na Terra. Um amor que nem a morte poderia vencer. Sofia acaricia suavemente o rosto de Lemann e o beija, com todo o carinho do mundo. E então os dois sentem que, finalmente, voltaram a ficar juntos, depois de um - extremamente longo - período separados. E choram, juntos, em um misto de alegria, felicidade, tristeza, saudade, enfim, algo que não era possível definir. Estavam novamente juntos. Era tudo o que importava.


Lemann e Sofia chegam, de mãos dadas, ao grande salão, onde Eloaton os esperava.

- Bem, meu velho amigo, nem todos os sóis de todos os Universos são capazes de ofuscar a alegria de seus olhares e você sabe o quanto fico feliz por vê-los juntos novamente. Mas você também sabe que deve abdicar do cargo de Vigilante, não é?

- Com todo o prazer, meu querido amigo dourado. Acho que meus préstimos foram bastante significativos por esses últimos seiscentos anos e está na hora de passar o bastão para a frente.

- Sofia, você está preparada para prosseguir em sua regressão?

- Depois de voltar a encontrar o grande amor de todas as minhas vidas, estou preparada para qualquer coisa que vier. 

- Então entrem e...

Sofia passa por Eloaton e abraça Shakti, com uma ternura enorme, e fica abraçada por vários minutos, apenas agradecendo.

- Você fez tudo o que podia, com as condições que você tinha. Sou infinitamente grata pelo cuidado que você teve comigo durante tantas vidas... você sempre esteve a meu lado, sempre foi muito mais do que uma amiga, foi uma protetora. Muito obrigada. Muito obrigada. 

Shakti chora abraçada com Sofia. Parecia que um peso gigantesco havia saído de suas costas. Há séculos ela sentia a culpa por não ter podido salvar, nem a sua melhor amiga, nem a sua recém nascida filha. Ela esperava esse perdão há muito tempo.

Após alguns minutos, elas reiniciam os trabalhos. Sofia deita, relaxa, bebe o chá e, momentos depois, já sentia estar sendo arrancada de seu corpo. Já estava se acostumando com esse ritual. Leize orienta:

- Agora quero que você retorne para a encarnação mais antiga que você conseguir se lembrar. Quando foi que você decidiu nascer pela primeira vez como um ser humano?

Sofia vai lembrando rapidamente de suas muitas vidas. Já foi mulher, homem, nos mais diversos locais do mundo, entre os Astecas, na Roma Antiga, no Egito, na Suméria... Aí ela dá uma maior atenção à sua encarnação na Suméria, na cidade de Eridu, há quatro mil e cem anos. Ela era uma sacerdotisa... não, era uma rainha... era a esposa do rei Ur-Nammu! Ela lembra de detalhes de sua vida com o rei, o castelo, os zigurates, a construção da cidade... o rei era um poço de bondade, mas também muito familiar, ela o conhece... só não lembra quem ele é. Ela lembra de voar no disco voador, o mesmo disco voador que o Nestor dirige e...

Sofia leva um susto enorme. Leize imediatamente intercede dizendo: 

- Não é isso que você precisa lembrar. Vá para antes disso. Quando você decidiu nascer como ser humana?

Sofia se concentra. Lembra rapidamente de sua primeira encarnação humana na Bolívia, em Puma Punku, há quinze mil anos. Ela era uma importante sacerdotisa e seu palácio majestoso ficava às margens do magnífico lago Titicaca. Ela lembra de um tremor de terra muito forte e de uma onda gigantesca vindo rapidamente em direção à cidade e...

- Ainda não é nessa encarnação. Lembre-se de sua vida logo anterior a essa - ordena Leize.

Sofia relaxa ainda mais e consegue focar na encarnação anterior, quando era apenas uma pequena menina na cidade de Atlântida, há mais de quinze mil anos, quando era... ela mesma, com sua aparência dourada, brilhante... Era um castelo majestoso com paredes de mármore e janelas enormes, por onde se podia ver o pôr do sol como um formidável espetáculo de cores. Ela adorava olhar, fascinada, o pôr do sol, todos os dias. Havia computadores muito avançados nos quais ela adorava brincar enquanto seu pai trabalhava fora. Sua mãe era linda, muito amorosa e atenciosa, com olhos azuis enormes e brilhantes que transmitiam uma paz e uma serenidade quase infinitas. Ela lembra de que Atlântida estava em guerra com alguém. Então, a nave do papai pousa e ela vai correndo para recebê-lo. A porta de vidro se abre e ela corre para seus braços. Papai era enorme, com seus longos cabelos loiros, suas vestes azuis, o medalhão no peito e...

Sofia volta imediatamente em um solavanco para seu corpo físico, sem que Leize conseguisse fazer alguma coisa. Em um espasmo, ela se senta na cadeira, aturdida pelo tão rápido retorno. Sente náuseas, o chá ainda está agindo. Ela se sente confusa, mas olha para Eloaton e, como se fosse uma menina de quatro anos de idade, o chama:

- Pai???



Julio e Amanda tomam um café na varanda da cabana, enquanto conversam sobre os preparativos para as viagens. 

- Na Lituânia faz muito frio? - Pergunta Julio.

- Letônia. Faz. É frio de rachar o bico. - Responde Amanda. 

- Lituânia, Letônia, tanto faz. Não são países vizinhos? Tá levando agasalho suficiente?

- São países vizinhos sim. Estou levando roupas térmicas, ocupam pouco espaço, esquentam bastante e permitem boa mobilidade. Conseguiu falar com aquele hacker?

- Sim, estou conversando com ele. Vamos começar a planejar hoje à noite... peraí... o que é aquilo lá no céu?

Amanda olha para onde Julio aponta. Um ponto luminoso se aproxima em grande velocidade. O Cão levanta as orelhas e sai correndo, latindo fervorosamente.

- Parece que o teu boitatá voltou - brinca Amanda.

- Pois não é? Só que esse é só um bagulho brilhante. O que eu vi antes era tipo três bolas coloridas juntas.

O objeto continua se aproximando, em absoluto silêncio. Ao chegar perto da fazenda do Julio, muda a direção e se encaminha para o túnel que leva a Ethoria 27B.

- Vou tratar de ponhar um pedágio aqui.

- Acho uma ótima ideia. 

- Ei, Cão, volta pra cá!

O velho pastor alemão volta, abanando o rabo, mas não para de latir, enquanto o objeto desaparece no desfiladeiro.

Minutos depois, o misterioso disco voador aterrisa no discoporto de Ethoria 27B. A porta se abre e descem dois homens, vestidos de preto, acompanhando Lanna. Eles a encaminham para a descontaminação. Também providenciam suprimento de amônia, pois ela já estava começando a sentir falta de ar e dores nos pulmões. Em seguida, vão ao alojamento.

- Seja bem vinda, Lanna. Meu nome é Torrunum. Sou um dos responsáveis pela recepção dos visitantes e futuros moradores.

- Muito obrigada... mas onde estou?

- Você está em Ethoria 27B, uma cidade na Quarta Dimensão onde todos são bem vindos. Especialmente os híbridos da Resistência. Você quer uma água? Está com fome?

- Sim, agradeço uma água e estou com fome sim, não jantei ontem, nem tomei café ainda.

- Venha comigo, vamos ao refeitório. Temos horários rígidos aqui, mas você teve sorte. O refeitório ainda está aberto para o desjejum.

Depois da refeição, retornam ao alojamento. Torrunum explica o funcionamento das camas, do banheiro, da cozinha e tudo o mais. Lanna estava bem acomodada, limpa e alimentada. 

- Me falaram que a Resistência tinha uma tarefa para mim. O que devo fazer?

Torrunum responde:

- Bem, eu sou apenas um dos responsáveis pelo alojamento. Você precisa falar com o Eloaton, mas no momento ele está bastante ocupado. Sugiro que você descanse um pouco agora. Ele deve vir falar com você assim que estiver livre.

Lanna agradece. Como passou praticamente a noite inteira em claro, acha uma boa ideia descansar um pouco. Ela ajusta a temperatura da cama, conforme as instruções recebidas, e deita para botar o sono em dia.
















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