#015 - Sofia no Tibete
- Tudo certo, Lemann? - Pergunta Sofia.
- Tudo certo, Sofia. A diretora do monastério tem um coração enorme e aceitou seu retiro particular sem maiores questionamentos. Seu treinamento será focado no desenvolvimento das capacidades telepáticas e na implantação de pensamentos. Obviamente, como o retiro será feito em um mosteiro budista, você precisará seguir algumas regras e rituais desta religião, o que acredito que não será nenhum impeditivo para você, concorda?
- Claro que não. Já morei um ano em um Ashram Hare Krishna e sei me adaptar a rituais, tudo certo.
- Ótimo. Bem, este aqui é um mosteiro feminino e eu nem poderia estar aqui. Aquelas monjas que estão vindo irão acompanhá-la a seus aposentos. Como você ainda não fez votos, não precisa cortar os cabelos e nem é obrigada a usar a toga. Recomendo obedecer todas as ordens que receber e lembre-se sempre de manter um sorriso no rosto. O sorriso abre muitas portas. Aqui você terá todo o essencial necessário: uma cama quente, roupas adequadas e alimentação. Qualquer coisa a mais que precisar, você sabe como entrar em contato comigo, não é?
- Sei sim. Só pensar em você e enviar uma mensagem telepática.
- Isso mesmo. Eu estarei atento. Bem, já vou indo. Fique bem, qualquer coisa me chame.
- Muito obrigado, Lemann.
As duas monjas se aproximam. Lemann conversa rapidamente com elas em tibetano. Elas riem e se apresentam, conduzindo Sofia a seus aposentos, enquanto Lemann retorna para sua casa.
Quatro horas da manhã. Um pesado sino toca e Sofia acorda com um enorme susto, ficando imediatamente em pé ao lado da cama. Sua companheira de quarto ri e fala alguma coisa em tibetano. Sofia entende que ela quis dizer que não precisa se assustar, que o sino toca todos os dias nesse horário, que é para se acostumar, acordar devagar e seguir para a sala de meditação em silêncio.
Foi quando Sofia percebeu que é capaz de ler a mente das pessoas e entendê-las, mesmo sem conhecer a linguagem utilizada.
A sala de meditação ainda estava escura, apenas com algumas velas acesas. Sofia foi uma das primeiras a chegar e tomou o lugar indicado pela monja que iria conduzir a meditação. Em poucos minutos, cerca de trinta mulheres estavam na sala. Sofia percebeu que ainda havia algumas almofadas vazias mas, rigorosamente às quatro e quinze, a monja tocou um sino e as portas se fecharam. Um minuto depois, ela toca mais uma vez e todas se ajeitam nas almofadas. Novo toque e todas colocam as mãos em forma de prece. Um terceiro toque, todas fazem uma reverência e iniciam a meditação.
Sofia não recebeu instrução nenhuma. Não sabia exatamente o que fazer, mas abriu sua mente, procurando manter-se no momento presente e apenas estar ali, olhando para um ponto fixo à sua frente e observando sua respiração. Passam-se alguns minutos e sua mente silencia completamente. Sofia sente como se estivesse olhando para sua mente, de longe. Era quase como caminhar sobre as águas dos pensamentos, sem tocar neles. E assim ela permanece, sem ter exatamente uma noção de quanto tempo estava nesse estado.
Repentinamente, ela escuta uma mensagem em sua mente:
- Agora que sua mente está calma, lembre-se de seu objetivo aqui. Você deve treinar telepatia. Consegue entender o que estou dizendo?
Sofia ergue seus olhos. A monja estava calmamente olhando para ela, em silêncio.
- Sim, consigo entender perfeitamente - Responde telepaticamente a loira.
- Muito bem. Pense em um número de um a dez.
Sofia pensa no número quatro, mas logo muda e pensa no seis, respondendo:
- Seis.
- Preste atenção: você primeiro pensou no número quatro, mas eu sugeri que você pensasse no seis, e então você respondeu seis. Consegue perceber isso?
Sofia consente e pergunta:
- Sim, foi isso que aconteceu. Mas como você fez isso?
- É exatamente isso que você veio aprender aqui. Depois da meditação, vou lhe dar todas as instruções. Você vai praticar com sua colega de quarto, pois ela tem o mesmo objetivo que você. Agora, apenas volte a meditar.
Sofia obedece e entra em um estado de imensa paz, até soar o badalo do sino, indicando o fim da prática. Todas se levantam e se dirigem ao refeitório, mas Sofia escuta o chamado telepático da monja:
- Espere, Sofia, venha aqui, tenho um livro para você ler.
Sofia se dirige à monja e a olha nos olhos. Sofia conseguia ver o universo dentro dos olhos dela. A monja, com movimentos leves e suaves entrega um livro nas mãos da nova praticante, com uma doçura quase maternal.
- Está em inglês. Espero que você saiba ler esse idioma.
- Sei sim. Agradeço profundamente a atenção que você está me dedicando.
- Minha função é servir e ajudar cada uma das praticantes a alcançar seus objetivos. Você tem habilidades muito desenvolvidas. Pessoas como você são raras e muito valiosas. Treine muito, dedique-se de corpo e alma. Aproveite cada segundo e cada oportunidade. O tempo passa muito rápido e as oportunidades se perdem. Você deve esforçar-se para despertar. Cuidado, não desperdice sua vida. Agora pode ir para o refeitório. Lembre-se sempre de manter a suavidade, a calma e a mente limpa. Caminhe como se estivesse acariciando o chão. Coma como se o próprio Buda estivesse comendo através de sua boca. Esteja presente em cada segundo e, assim, seu tempo jamais será perdido. Quando estiver em uma situação que não sabe como resolver, escute seu coração. Tenha uma boa prática e, se precisar, pode me chamar.
Sofia agradece, faz uma reverência, segura o livro junto a seu peito como se fosse uma jóia muito rara, sorri e se dirige ao refeitório.
Três semanas se passam. Sofia medita sobre uma pedra, tendo à sua frente o majestoso e imponente monte Kailash. Ela aprofunda sua meditação e se concentra, até sentir que ela e a montanha são uma coisa só. Nesse estado, amplia sua mente e chama telepaticamente seu amigo Nestor, que demora alguns minutos para perceber o chamado.
- Nestor, consegue me ouvir?
- Olá, Sofia. Acho que consigo, sim. Câmbio - brinca Nestor.
- Pense em um número entre um e dez.
Nestor pensa no número dois, mas responde:
- Oito.
Sofia sorri. Ela dominou a técnica de gerar pensamentos em outras pessoas através da telepatia, não importando a distância. Está pronta para voltar e comunica Lemann sobre seu sucesso. Às oito horas do dia seguinte, Lemann aguarda Sofia na recepção do monastério com seu suave, gentil e permanente sorriso.
- Como foi seu retiro? - Perguna Lemann.
- Quase morri de fome. E de frio. Acho que jamais vou conseguir aprender a falar tibetano. Do pescoço para baixo, meu corpo inteiro dói. Como é que eles conseguem comer aquela coisa gosmenta?
- Ah, a tsampa? Sim, confesso que é horrível mesmo. É uma farinha de cevada torrada misturada com manteiga de iaque ou chá. Tradicionalmente eles temperam com vários condimentos e ela até fica gostosa, mas nos mosteiros a tsampa é servida sem tempero nenhum. É quase intragável. Mas e sobre seus aprendizados?
- Posso dizer que dominei várias habilidades. Claro que vou precisar treinar muito, mas acho que já podemos começar a trabalhar com o que temos.
- É o que penso também. Obviamente, eu vou te ajudar nesse treinamento. É melhor treinar com alguém que sabe falar a sua língua.
- Ah, isso era uma coisa que queria perguntar há muito tempo... como é que você consegue falar português praticamente sem nenhum sotaque?
- Tenho motivos para dominar muito bem o seu idioma. Logo você vai saber por quê. Agora precisamos ir para Ethoria 27B. Eloaton nos espera.
- Ué, pensei que treinaríamos a telepatia aqui na sua casa...
- Sim, mas antes disso, você precisa retornar a Ethoria 27B. Além do mais, podemos treinar à distância, a qualquer momento, sem nenhum problema.
Sofia fica sem entender muito bem, mas concorda. Ela termina seu lanche e, poucos minutos depois, Lemann a leva para seu discoporto.
Em Shamballah, Lemann pousa para que Eloaton embarque.
- O Nestor não vai junto? - Pergunta Sofia.
- Não, eu deixei umas tarefas para ele fazer aqui - Responde Lemann.
- Todos a bordo? Podemos partir?
- Bora - brinca Eloaton.
Korgg se retrai em sua cama. Seus pulmões queimam. Seu nariz sangra. A dor é tão grande que não consegue nem pensar direito. Alguns de seus ferimentos infeccionaram e seus hematomas estão passando do roxo para o preto. Ele está com pelo menos três costelas quebradas e qualquer movimento é motivo para um grito de dor. Encolhido na cama, tenta apenas respirar, sem se mover.
Há dois ciclos não come nada. Bebe pouca água. Apenas espera pelo momento em que seu corpo entre em colapso e toda essa tortura termine. Repentinamente, a porta de seu quarto se abre. Um dos guardas entra, trazendo uma garrafa.
- Meu amigo Korgg, você está bem? Parece um pouco mais azulado que ontem.
- Vai... pro... inferno.
- Teu pai mandou perguntar se você conseguiu lembrar onde está o seu amigo. Tem alguma novidade pra gente?
- ...
- Sabe o que tem nesta garrafa? Álcool etílico. Etanol puro. C2H6O. Acho que você já ouviu falar, né? Sabe pra que isso serve?
O guarda senta ao lado do Korgg e observa a garrafa com seu conteúdo transparente.
- O etanol pode ser usado para limpeza. Mata quase todas as bactérias e germes. Usamos para desinfetar as mãos, antes das refeições. Bem diluído, pode até ser ingerido. Nesse caso, provoca embriaguez e torpor. Pode ser usado para fazer fogo e também como combustível para motores muito primitivos. Na medicina, ele é usado para limpar ferimentos e evitar infecções.
Korgg abre um olho e observa o guarda.
- Estou vendo que você está cheio de feridas infecciosas. Vamos ver se o álcool é capaz de sarar esses ferimentos?
- Não... não...
O guarda derrama um pouco de álcool sobre os ferimentos do prisioneiro. Korgg se contorce, grita de dor e se debate sobre a cama.
- Ah, desculpa. Não pensei que fosse doer tanto. Que descuido, o meu. Ah, já ia esquecendo... teu pai mandou perguntar se você prefere morrer de forma rápida e indolor ou de forma lenta e muito, mas muito dolorosa. É você que escolhe. É só dizer onde está seu amigo. A gente alivia seu sofrimento bem rapidinho. Que tal?
- Eu quero... que você... morra.
- Tá bom. Vai ser do seu jeito então - e joga o restante da garrafa de álcool sobre o corpo mutilado de Korgg -. Se mudar de ideia, é só chamar, beleza? Estou encerrando meu turno agora, mas o Jull vai me substituir. Pode falar pra ele, mas toma cuidado, ele não é tão educado quanto eu. Boa sorte, amigão.
O guarda sai da cela e a tranca. Após minutos berrando de dor, Korgg desmaia. Do lado de fora da cela, o guarda aumenta o nível de oxigênio, confere seu relógio, pega sua maleta e segue pelo corredor tranquilamente para o refeitório.
- Estranho, o Jull nunca se atrasa.
Pouco depois, um serviçal de limpeza se aproxima. Abre a porta, entra com seu carrinho e fecha a porta. Após alguns minutos, sai, fecha novamente a porta e segue pelo corredor, tranquilamente, empurrando seu carrinho com esfregões, baldes e um saco grande de lixo.
Três horas depois, o alarme da nave é acionado. Todos os tripulantes devem voltar para seus quartos. A bagunça é generalizada, enquanto as teletelas anunciam que um prisioneiro perigoso havia fugido.

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