#013 - Avaliação da primeira missão
- Prezados, estamos aqui reunidos para avaliar a primeira missão do Esquadrão Ethos. Nossos quatro combatentes tinham a missão de sabotar os esforços do reptiliano Hugo em assassinar o revolucionário Mendez. O presidente Hugo busca manter seu poder no Uruguai, dizimando as forças revolucionárias contrárias a ele. Meu caro Krzovv, gostaríamos de conhecer suas avaliações a respeito do sucesso da missão.
Krzovv se acomoda na cadeira, pensa um pouco, olha cada um dos presentes nos olhos e começa a sua avaliação:
- Vamos voltar um pouco no tempo. Quando o nobre companheiro Eloaton me comunicou que havia encontrado quatro possíveis candidatos ao esquadrão de defesa de Ethoria 27B, eu confesso que exagerei nas minhas expectativas. Eu pensei que ele traria a mim quatro brilhantes e notáveis combatentes, com a experiência e o conhecimento minimamente necessários para essa missão, mas percebi que me enganei até no último dos pré-requisitos.
Todos se remexem em suas cadeiras.
- Vou avaliar a missão como um todo e depois cada um dos integrantes individualmente. Na verdade, essa missão era apenas um teste para sabermos o nível de habilidades de cada um. O objetivo principal era salvar o revolucionário Mendez da emboscada do reptiliano Hugo. Muito bem, esse objetivo foi alcançado. Porém, a que preço?
Até Eloaton parece ter ficado desconfortável, esfregando suas mãos.
- Vamos avaliar da forma mais imbecil possível: os números. Qual o número de mortes que aconteceram? Ah, foram três baixas do nosso lado e seis do lado deles, correto?
Nestor faz um leve consentimento com a cabeça.
- Bom, em um primeiro momento, o fato de ter havido o dobro de baixas no lado adversário pode aparentar uma vantagem para o nosso lado. Mas essa é uma avaliação rasa e não representa exatamente a vitória que esperávamos. A melhor vitória ocorre quando não existem baixas. Nós não desejamos a morte de ninguém, nem mesmo dos nossos adversários. Gostaria de lembrar que não somos inimigos dos Reptilianos nem dos Greys, mas sim adversários neste grande conflito. Não desejamos a morte deles. Desejamos que eles tomem consciência do mal que estão causando em todos os planetas que invadem e parem de causar mortes, sofrimento e destruição. Em uma guerra, todos perdem, mas quando conseguimos sentar a uma mesa e negociar os interesses sem causar mortes, então há ganhos em ambos os lados.
Krzovv respira novamente, toma um gole de água e continua:
- Nestor definiu uma estratégia brilhante para a missão: interceptar o caminhão onde estavam Mendez e Pablo e fugir por uma via alternativa, o mais rápido possível, para chegar à praia mais próxima e seguir em quatro lanchas para uma ilha, onde Mendez encontraria seu grupo em segurança e o restante voltaria para o QG no disco voador. Como havia o perigo de confronto em todas as etapas da missão, o grupo estava munido de armamento pesado para qualquer necessidade. E essas armas precisaram ser usadas, pois em quase todos os confrontos, quem atirou primeiro foi o adversário.
Nova pausa e Krzovv prossegue:
- Os Reptilianos e os Greys são muito numerosos. Podemos estimar que existam cerca de cem mil vezes mais Reptilianos e Greys do que o total de humanos no universo. Se mantivermos a mesma proporção de perdas em todas as batalhas, toda a civilização humana será dizimada e os adversários perderão uma fração desprezível de seu contingente, entendem esse raciocínio?
Todos concordam. Krzovv conclui:
- Vamos lembrar ainda que os oponentes que vocês enfrentaram não eram Reptilianos nem Greys, mas sim humanos mercenários contratados por eles. Ou seja, em última análise, a humanidade perdeu nove integrantes enquanto eles não tiveram nenhuma baixa. A maior estratégia dos Reptilianos é dividir o inimigo e usá-lo contra ele mesmo, é usar o inimigo para escravizar a si mesmo, é enriquecer e acumular cada vez mais poder usando o próprio inimigo para gerar essa riqueza e esse poder. Não vai ser através de guerras mortais que nós conseguiremos enfrentá-los, mas sim, usando o que temos de melhor: inteligência e estratégia. Falando nisso, Nestor, você leu o livro que lhe indiquei semana passada?
- Sim, a Arte da Guerra. Li cuidadosamente cada capítulo e fiz uma ficha de leit...
- Muito bem. Você entendeu que a melhor vitória é quando não existe o combate?
- Entend...
- E você acha que conseguiu elaborar uma estratégia boa o suficiente para não haver combate?
Nestor enrubesce e se cala.
- Sendo totalmente franco com vocês, seu desempenho foi um total desastre. Houve perda de vidas, um absurdo desperdício de recursos e riscos potenciais de que os Reptilianos descobrissem a existência de um esquadrão de combate organizado pessoalmente por um dos Guardiões de Agartha, um reino conhecido e respeitado em todo o universo por sua imparcialidade e neutralidade. Vocês imaginam o tamanho do problema que isso acarretaria?
Silêncio sepulcral de alguns minutos.
- O nobre colega Eloaton me trouxe pessoalmente o jovem Nestor para que fosse treinado em Estratégia por mim, garantindo que ele tinha um brilhante talento que apenas precisaria ser aperfeiçoado. Pois bem, eu fui muito gentil e apenas lhe passei a leitura de um livro para que ele fizesse um resumo. Coisa de jardim de infância. Confesso também que foi uma forma hábil que encontrei para mantê-lo ocupado enquanto eu resolvia problemas bem maiores, como o fato de ter uma Nave Mãe Grey fortemente armada entrando no nosso sistema solar neste exato momento. Minha avaliação é que o jovem Nestor não entendeu uma palavra sequer de um livro que pode ser lido em uma hora e que, comparado ao mínimo de habilidades necessárias para um bom desempenho estratégico, seria algo como um grão de areia em relação à Pirâmide de Queops no Egito. Por acaso Nestor já esteve em algum campo de batalha? Já lutou numa guerra? Já teve combatentes sob seu comando? Já elaborou um plano estratégico eficiente o suficiente para levantar da cama e ir até o banheiro sem mijar nas calças? Me desculpem, Eloaton e Nestor, mas tenho coisas bem mais importantes a fazer do que perder tempo ensinando um peixe a nadar.
Nestor se encolhe em sua cadeira. Não havia nada que pudesse dizer em sua defesa. Krzovv tinha total razão.
- Quanto ao Senhor Invisível, nobre colega Julio... Parece que vocês não ficaram tão invisíveis assim. O fato de ter trocado o carro mais rápido do mundo por uma lata velha será motivo de piada nos quatro milhões de planetas habitados pertencentes à Ordem Universal pelo resto da eternidade. Quer saber como ficar invisível de verdade? Me diga onde está o Eloaton neste exato momento.
Julio olha para a cadeira onde Eloaton estava sentado, mas ela estava vazia.
- Ué, ele estava bem ali agora mesmo...
- E não está mais?
- Tá não...
- Eloaton, mova um braço.
Sofia foi a única a perceber o movimento, idêntico àquele episódio da Harpia no jardim defronte a casa laranja de Eloaton, em Ethoria 27B.
- Tá, só a Sofia conseguiu te enxergar. Pode ficar visível de novo.
Eloaton aparece novamente, na cadeira.
- Como ele fez isso? - pergunta Julio.
- Tornando as moléculas do meu corpo mais sutis, em uma frequencia levemente mais alta, acima da capacidade de visão de seus olhos. Se você usasse uma câmera de infravermelho poderia me ver normalmente. Um truque bem fácil de fazer, basta controlar sua própria energia e a vibração de suas moléculas.
- Então, pelo jeito, o Julio não é tão invisível quanto acha que é. Vai precisar de uma década de treinamento para conseguir fazer esse truque simples, ensinado para as crianças nas escolas infantis de toda Agartha. Só que não temos uma década, então também não posso perder tempo ensinando isso.
Julio baixa a cabeça e pensa em como ficar do tamanho de uma formiga e sumir dali logo.
- A nobre colega Sofia está desenvolvendo suas capacidades telepáticas. Isso é louvável. Agora tente ver em que cor eu estou pensando neste momento.
Sofia é pega de surpresa. Ela se concentra e tenta fazer uma conexão telepática com Krzovv, mas não consegue, por mais que tente.
- Eu... eu... eu não consigo, não vejo nada...
- Claro que não. Apesar de estar olhando para uma bandeira azul, pensando na cor azul e até repetindo a palavra "azul" na mente, eu estou usando o bloqueio telepático mais básico que existe: estou cruzando os dedos das mãos. Até o porco espinho que mora na casa do Eloaton sabe como destravar esse bloqueio. Agora pense você em uma cor que não seja azul.
Sofia tenta pensar em uma cor, mas não consegue visualizar absolutamente nada que não fosse azul. Ela nem consegue lembrar das demais cores. Somente azul.
- Eu também não consigo, só vejo azul... só vem azul à minha mente.
- Também desconhece completamente os bloqueios de sugestão telepática. Eloaton, por favor, entendo suas melhores intenções, mas essa menina não está pronta para isso. Vai precisar de muitas vidas ainda para se tornar uma candidata a espiã telepática.
- Ela está tendo um desempenho formid...
- Quanto à nossa guerrilheira Amanda, bem, o que posso dizer? Ela sabe usar armas, sabe contrabandear drogas, dirige qualquer veículo, sabe escalar montanhas e mergulhar em cavernas submersas. Ou seja, ela está o tempo todo buscando o perigo, procurando situações críticas de risco potencial à sua própria vida. Parece que está buscando o suicídio o tempo todo. Vamos lá, fazendo o papel de um psicólogo, me diga, Amanda... por que você faz isso e do que exatamente você está fugindo?
Amanda não sabe o que responder. Ela fica procurando palavras, mas realmente não entende por que conduz a sua vida dessa forma.
- É óbvio que vamos precisar de combatentes que saibam usar armas, que tenham uma boa mira e que tenham habilidades para escalar paredes, descer penhascos e manobrar tanques. Só que precisamos de combatentes que SOBREVIVAM às batalhas. Você se jogou em cima de um adversário armado. Acha que isso foi inteligente?
- Mas eu estava salvando a vida do Jul...
- Sendo tão boa com um rifle, não poderia ter acertado a cabeça dele de seu abrigo? Você estava a apenas cinco metros de distância. Nem eu mesmo teria errado o alvo. Por que você arriscou sua vida dessa forma?
- É que...
- Sua impetuosidade ainda vai custar a sua vida. Não podemos arriscar a segurança de um batalhão inteiro com uma guerrilheira que não sabe ficar quieta em sua trincheira e dar um único tiro certeiro no oponente.
- ...
- Resumindo, vocês todos são um total e absoluto fiasco. Eloaton, por favor, encontre logo outros combatentes de verdade para a defesa de Ethoria 27B. Temos pouco tempo. Os Greys chegarão à Terra em poucos meses. Agora, se me permitem, tenho que negociar a paz entre duas civilizações orianas que estão em guerra há duzentos anos.
Na praça defronte ao Palácio do Governo de Shamballah, o grupo se reúne para tentar entender o que foi exatamente aquela avaliação do Krzovv. Eloaton começa:
- Amigos, confesso que até eu fiquei surpreso com a reação do Krzovv. Eu concordo com os argumentos dele, mas não imaginava que ele fosse reagir dessa forma. Eu peço desculpas pelos constrangimentos e admito que a culpa maior é minha.
- Teu amigo azul jogou o maior balde de água que já vi na vida. Queria mais é sair nadando dali - comenta Julio.
- Ele tem razão. Não estamos prontos para essa missão. Nem suspeitamos que era apenas um teste... - confessa Nestor.
- Amigos, não se deixem abalar. Já vi situações muito piores antes e acredito que cada um de vocês possui um talento valiosíssimo, uma habilidade muito especial que só precisa ser devidamente treinada. Acho que temos condições de estar totalmente aptos até a chegada dos Greys, se cada um treinar o suficiente. - Lemann mostra ser o mais calmo de todos - Eu concordo plenamente com a posição do nosso amigo siriano Krzovv. Também acho que podemos evitar combates diretos, melhorando nossas estratégias e agindo com mais inteligência. Mas vou advogar em favor do nosso grupo, afinal, foi a primeira missão e certamente imprevistos iriam acontecer. Eu sugiro que o Esquadrão Ethos troque experiências com os outros grupos de resistência que existem na Terra. Isso os ajudará a refinar suas técnicas. O que acha, Eloaton?
- Podemos avaliar essa possibilidade, sim. Existe um grupo na Europa que tem muitas similaridades e creio que os dois grupos têm muito a contribuir entre si. Mas, mais importante que isso, percebemos que Krzovv está ocupado demais para poder arcar com a responsabilidade de treinar cada um de vocês individualmente. Entendo que existem outros mestres tão bem qualificados quanto Krzovv e talvez com maior disponibilidade. Precisamos de alguém com vasto conhecimento e experiência, que conheça muito sobre os mais diversos temas da ciência e da espiritualidade, de preferência com aprendizado prático em guerras e batalhas como consultor de imperadores, de reis e como tutor de seus respectivos príncipes. Alguém que tenha, por exemplo, ajudado Alexandre a definir suas estratégias para dominar toda a Macedônia e praticamente todo o mundo conhecido na época. Alguém teria alguma sugestão?
Lemann foi pego de surpresa. Sim, ele era a pessoa certa para orientar o treinamento do grupo. Com seus dois mil e trezentos anos de idade, com tanto conhecimento adquirido e com todo o seu tempo livre, não teria outro ser no planeta Terra tão bem qualificado.
- Confesso que não havia sequer pensado nessa possibilidade. Mas ficarei honrado em contribuir para o desenvolvimento das habilidades de cada um, dentro do que me for possível.
- Alguém discorda? - a pergunta de Eloaton se dissipa no ar.
- Muito bem. Então, meu caro amigo, como você sugere que sejam feitos esses treinamentos?
Lemann pensa um pouco e responde:
- O Nestor já pode ficar aqui em Shamballah mesmo, no alojamento, a fim de aprimorar suas habilidades em estratégia e negociação. Eu venho para cá uma vez por dia e posso ir deixando tarefas e conferindo resultados.
Nestor concorda.
- Sofia ficará em um mosteiro feminino no Tibete, onde poderá aprofundar suas potencialidades parapsíquicas e espirituais. Inclusive, Sofia, você vai aprender não só a ler a mente dos Reptilianos como também provocar bloqueios telepáticos e mudanças ativas em seus pensamentos. Também estará próxima à minha casa e poderei acompanhar suas atividades e progressos. O que acha?
Sofia fica meio sem entender, mas também concorda.
- Amanda precisa de treinamento em guerrilha moderna. Os métodos que ela aprendeu são bastante úteis, mas hoje temos novas tecnologias e ela pode ser muito mais eficiente. Eloaton, você tem o contato daquela turma da Letônia?
- Excelente ideia, Lemann. Tenho sim. Faremos contato com o grupo europeu de Ethoria 9 para que Amanda possa passar uma semana com eles, em treinamento de guerrilha urbana. Eles estão agindo na Letônia, neste momento, que sofre com a invasão russa buscando o domínio da cidade de Riga, para ter hegemonia sobre as rotas comerciais daquela área do mar Báltico, e estão obtendo grande sucesso nessa missão praticamente impossível, fazendo uso de alta tecnologia aliada a estratégias bem pouco convencionais.
- E o nosso amigo Julio precisa aprofundar seus conhecimentos tecnológicos e dominar ferramentas de espionagem e sabotagem cibernética à distância. Conhece alguém que possa fazer isso, Eloaton?
- Eu não, mas o Ikor conhece.
- Perfeito. Então estamos todos combinados. Nestor fica no alojamento, Sofia vai para o mosteiro, Amanda vai para a Letônia e Julio vai fazer um curso on-line na casa dele. Alguma dúvida?
Ramazor observa um pequeno dispositivo em suas mãos: um inocente isqueiro automático de controle remoto, usado para acender os boilers de aquecimento das células criogênicas para reanimação dos tripulantes em animação suspensa. Como geralmente era necessário reanimar milhares de tripulantes ao mesmo tempo, seria um trabalho impossível de ser realizado manualmente. Por isso, obviamente, todos os boilers são ligados à distância por controle remoto de forma automática. Korgg, amarrado à sua frente, é um dos responsáveis pela manutenção desses isqueiros e pelo suprimento de oxigênio e amônia de alguns setores da nave mãe.
- Meu amigo Korgg, você é um dos melhores operários na manutenção dos sistemas de gases da nossa nave. Devo parabenizá-lo por seu excelente trabalho.
Korgg mal consegue erguer sua cabeça. Seus hematomas impedem que consiga abrir os olhos. Sua língua sente seu sangue quente na boca, enquanto vasculha se há algum dente que não esteja quebrado.
- Você é um dos bilhões de clones gerados em laboratório. Não possui pai nem mãe. Foi criado da mesma forma que milhões de tripulantes exatamente iguais a você. Foi treinado com os mesmos cuidados. Mostrou-se competente, obediente e brilhante em suas atividades. Demonstrou grande habilidade na manutenção dos canos e cilindros de gás. Recebeu elogios e promoções, a ponto de lhe ser permitido trabalhar nas áreas restritas, especialmente a casa das máquinas que dá suporte à ponte de comando. Um privilégio que pouquíssimos Greys alcançam. Você é jovem e seu exemplo inspira uma grande quantidade de tripulantes que se esforçam para ser como você. Na verdade, a maioria deles aspira ganhar o mesmo soldo que você recebe, incluindo todas as gratificações pela sua conduta ilibada, brilhante e exemplar. Sua reputação é digna de reconhecimento em toda a nossa Nave. Você merece nossos mais sinceros aplausos!
Ramazor abre os braços e bate palmas com fervor. Korgg não se mexe. A dor nas costelas quebradas dificulta a respiração. Cada inspiração provoca dores terríveis, mas esse é o menor dos problemas agora. Korgg sabe perfeitamente o que vai acontecer em breve.
- Devido a seu notável comportamento e dedicação, você ganhou privilégios bastante peculiares e generosos. Ganhou um quarto exclusivo, acesso livre a setores restritos, alimentação da melhor qualidade sem restrições, teletela livre e acompanhantes noturnas à sua escolha e sempre que desejar. Posso afirmar que mais de noventa por cento dos tripulantes dessa nave nem sequer imagina o que é ter uma vida como a sua.
Korgg consegue enxergar a silhueta de Ramazor através das pálpebras inchadas do olho direito. O esquerdo nem abre.
- Gostaria de entender em que momento nós falhamos com você, indivíduo KG037894. O que fizemos de errado? O que levou você a nos odiar, a ponto de querer nos destruir? Veja, nós fomos realmente muito generosos com você. Nós confiamos em você. Onde foi que erramos?
- Vocês... Chefes... nos oprimem há milhões de anos...
- Ah, essa teoria imbecil de opressão? Não se trata de uma teoria, meu caro Korgg. A vida é assim: ou você nasce um Grey, ou um Chefe. Chefes comandam os Greys. Os Greys obedecem. Sempre foi assim, e sempre vai ser, independente da teoria maluca em que vocês quiserem acreditar.
- Não... é... verdade...
- Bom, não disponho de tempo para ficar discutindo sociologia com você agora. Sejamos práticos. Meu amigo Pondr, diante do comportamento subversivo, ingrato e completamente sem propósito do indivíduo KG037894, o que o regulamento aponta como penalidade?
- O alijamento ao espaço, Senhor.
- Hmm... seria rápido demais, indolor demais. Acho que podemos eleger uma exceção a esse caso. Me diga, meu caro Korgg... você lidou com gases durante toda a sua vida. O que acontece a um Grey quando exposto a uma atmosfera sem amônia, somente com oxigênio?
Korgg estremece.
- Deixe-me ver aqui... hmmm... ah, sim! O indivíduo sente que está queimando de dentro para fora. Seus pulmões ardem, a boca seca, a garganta se fecha. Os batimentos cardíacos se aceleram, a pele vai da tonalidade cinza normal para o roxo, as articulações travam, os músculos enrijecem. Uma dor tão grande que é impossível manter a consciência por mais de quinze minutos. Logo em seguida, o sistema nervoso entra em colapso, ocorre choque e o indivíduo morre por falência múltipla dos órgãos. Que horrível esse tipo de morte, não concorda, meu amigo Pondr?
- Seria a morte mais dolorosa que um Grey pode ter, senhor.
- Mesmo assim, quinze minutos é muito pouco tempo. Precisamos dar a você, meu querido Korgg, a oportunidade de refletir sobre seu comportamento antes de morrer. Quero dar-lhe a possibilidade de se arrepender. Pondr, por gentileza, acompanhe esse distinto senhor a uma sala de isolamento. Garanta-lhe o fornecimento adequado de alimento, água, oxigênio e amônia, aumentando em dez por cento o nível de oxigênio por ciclo, o que lhe garantirá a sobrevivência por pelo menos uns oito ciclos, entendeu?
Até Pondr acha a sentença cruel demais, mas concorda:
- Imediatamente, Senhor.
- E continuem procurando pelo outro traidor. Ele não pode estar muito longe.

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