#002 - Sofia
Em uma ecovila ao sul de Minas Gerais, mais precisamente nas proximidades de São Thomé das Letras, Sofia celebra com suas amigas a chegada da Lua Cheia. Ao redor da fogueira, elas tocam violão, cantam, dançam, preparam pizzas vegetarianas integrais e tomam cerveja artesanal, em um clima de festa e alegria.
Resolvem então fazer uma rodada de Sagrado Feminino. Entre outras coisas, elas contam suas histórias, trocam confissões e se apoiam mutuamente, através de conselhos ou de simples abraços.
Sofia escuta atentamente os problemas compartilhados pelas suas amigas e percebe uma certa coincidência entre quase todas as falas: a dificuldade em conseguir juntar dinheiro e se tornar independentes nesta sociedade machista que discrimina as mulheres. Todas elas ganham menos que seus colegas homens, ou são donas de casa e dependem dos maridos ou companheiros, por vezes precisando se sujeitar a situações desconfortáveis e desagradáveis devido a essa dependência.
Mas Sofia não trabalha em nenhuma empresa e não depende de nenhum homem. Ela é livre e autônoma. Ganha a vida ministrando cursos e palestras de Yoga e meditação. É o que gosta de fazer e é dessa atividade que tira seu sustento.
Sofia quer que todas as mulheres também se tornem independentes, livres e que jamais precisem manter um relacionamento por motivo de necessidade ou dependência.
Em sua vez, ela recebe o bastão da fala e coloca na roda essa sua vontade:
- Eu quero ajudar todas as mulheres a se tornarem economicamente independentes. Alguém sabe como eu posso, de alguma forma, contribuir para isso?
Algumas ideias são colocadas na roda. Uma de suas amigas sugere:
- Vai ter um curso gratuito de duas semanas sobre economia solidária na universidade onde meu filho estuda. Por que você não faz o curso e tira algumas ideias? É de graça.
Sofia se interessa, pede maiores informações e decide fazer o curso.
Em seguida, todas voltam a celebrar a Lua Cheia com uma nova rodada de pizzas e cervejas. As fagulhas luminosas e quentes da fogueira sobem aos céus, contrastando com a grande lua prateada que ilumina a escuridão da mata.
Talvez as fagulhas da fogueira tenham levado aos deuses o desejo expresso pela moça loira com seu vestido tie-dye. Ninguém jamais saberá, mas o certo é que seu destino estava marcado para mudar radicalmente dali em diante.
Dias depois, a jovem loira retorna à sua casa. Como sempre, atrapalha-se tentando descobrir qual é a chave que abre a porta. Afinal, ela é quase uma nômade: fica algum tempo em um lugar e logo se muda para onde o vento a leva, portanto, nem sempre ela lembra qual é a chave que abre qual fechadura.
Encontrando espaço entre as samambaias meio ressecadas, joga-se em seu sofá. Procura seu celular em sua bolsa. Não encontra. Procura na mala. Também não está lá. Fazia dias que ela não usava aquele aparelho com vidro preto e capa colorida. Tenta encontrar em sua memória o local onde ela o usou pela última vez. Foi em um posto de gasolina, indo para São Thomé. Aí, ela foi ao banheiro…
- Ah, sim! - exclama a moça, rindo de si mesma.
Ela abre sua mala e procura por sua necessaire de couro, que ela mesma fez, há algum tempo. Lá estava seu celular, com metros de papel higiênico enrolados ao redor para o caso de alguma eventualidade.
Conecta o carregador na tomada e liga o aparelho. Enquanto aguarda o início do sistema, vai até a geladeira e abre uma cerveja. Volta ao sofá e confere suas mensagens. Entre tantas, uma em especial lhe chama a atenção: era aquela amiga que falou sobre o curso de economia solidária, passando detalhes do curso e até o link para a inscrição. Sofia nem lembrava mais. Com um sorriso carinhoso, acessa o formulário e se inscreve.
Depois de ler e responder as mensagens, levanta-se, coloca uma música bem animada, abre outra cerveja e começa a limpar a casa, pois havia poeira acumulada de duas semanas por todos os lados. Enquanto canta em voz alta, dá água para todas as suas plantas, coloca algumas roupas para lavar, dança com sua vassoura e segue animadamente arrumando sua casinha até o pôr do sol.
No sábado de manhã, uma Kombi toda grafitada de girassóis (e com um letreiro escrito "van Gogh") encosta no estacionamento da universidade. Sofia desce, agradece a carona de seu amigo e vai até o vigia pedir onde fica o auditório do bloco E. O vigia informa, apontando para o bloco. Sofia agradece e segue na direção informada.
- Acho que cheguei cedo – observa. As luzes do auditório ainda estavam apagadas e não havia ninguém. Que bom! Ela confere novamente se por acaso não estava no local errado, coisa que acontecia com certa frequência. Tudo certo desta vez. Ela chegou cedo. Então, a loira escolhe uma cadeira na primeira fila e resolve fazer uma pequena meditação, enquanto espera.
Aos poucos, pessoas vão chegando e se acomodando. À sua direita, senta-se uma senhora que parecia ter duzentos anos.
Logo o professor entra triunfalmente na sala, como se estivesse marchando em um desfile de sete de setembro. Coloca seus papéis sobre o púlpito, liga o som e confere o microfone, ajusta a iluminação. Conversa com um auxiliar, que sai correndo atrás de alguma coisa. Em seguida, o professor também sai por uma outra porta.
Pouco depois, uma moça ruiva com gestos muito ativos e um olhar bastante misterioso dirige-se a um dos lugares vagos à sua esquerda. A moça ruiva observa Sofia como se estivesse passando um scanner nela, mas logo abre um sorriso, acomoda-se na cadeira e apresenta-se:
- Oi, meu nome é Amanda.
- Oi, o meu é Sofia.
As duas começam a conversar as banalidades rituais de praxe, para quem quer se conhecer: como está o tempo, está abafado aqui, onde está o professor, essas coisas.
A pequena sala já estava praticamente lotada, sendo que a única cadeira vaga era a que estava entre Sofia e Amanda.
Nisso, entra pela porta um rapaz meio atrapalhado, de óculos, camisa quadriculada, calça jeans e sapato preto tão lustroso que parecia ter luz própria. Ele pára, observa o auditório e percebe a única cadeira livre. Amanda e Sofia se entreolham com um sorriso. Ele pede licença e toma seu assento entre as duas moças.
Nenhum deles poderia imaginar que, em alguns dias, estariam juntos em um lugar muito distante e completamente diferente de tudo o que eles já tinham visto em suas vidas.
- Conecte essa mangueira preta com aquele registro vermelho! Rápido!
Korgg orienta, sem muita paciência, sua equipe de auxiliares. Eles precisam terminar de abastecer a Nave com amônia suficiente para dois megaciclos. Os Greys respiram amônia, e não oxigênio. Por isso possuem a pele cinza, puxando para o verde.
- Agora, abram o registro!
Um chiado forte se escuta, enquanto as mangueiras se contorcem. A Nave G-48 possui mais de mil tanques de amônia e todos eles devem estar em seu nível máximo, antes de partirem. Esse era o último deles. A teletela de Korgg notifica mais uma chamada de Pondr, o capitão de capa azul.
- Acabou de encher os tanques, Korgg? O que mais falta para partirmos?
- Em duas horas o tanque estará cheio, capitão. Já pode avisar a todos para tomarem seus lugares.
Após desligar a chamada, uma mensagem de texto aparece em sua teletela. Era de Lanula: “Sei que você não voltará mais, mas saiba que jamais esquecerei de ti. Partirei na G-51 para Proxima Centauri no próximo megaciclo. Espero te ver novamente um dia. Amo você. Boa viagem.”
Milhares de pensamentos e sentimentos passam pela mente de Korgg naquele momento. Ele decide não responder, mesmo sabendo que jamais terá outra oportunidade. Fecha a teletela e volta ao trabalho.
Pouco tempo depois, uma gigantesca nave, em formato de charuto e com quinhentos milhões de tripulantes Greys, aciona seus motores e parte, vagarosamente, em sua jornada rumo à Terra. O objetivo é óbvio: o planeta B-Groot é o único planeta sobrevivente do sistema solar de Betelgeuse, da constelação de Orion. A estrela Betelgeuse é uma gigante vermelha que está em colapso, prestes a explodir e se tornar uma anã branca. A vida em B-Groot está condenada. Os habitantes precisam se mudar rápido, enquanto há tempo. Várias Naves Mães já partiram, cada uma para um planeta com possibilidade de abrigar vida. A Nave G-48 é a quadragésima da diáspora (os Greys usam sistema octonal de contagem pois possuem quatro dedos em cada mão, portanto, 48 octonal é igual a 40 decimal) e seu destino é a Terra. A estratégia é bem clara: durante séculos, os Greys vêm desenvolvendo uma raça híbrida na Terra para substituir a raça humana. Essa raça híbrida precisa poder respirar tanto oxigênio quanto amônia, que será criada em grande quantidade pelas algas que estão sendo levadas na Nave. Já existem mais de cinquenta milhões de híbridos vivendo em cidades no subsolo do Egito, da Antártida, do México e de outros lugares ao redor da Terra, apenas esperando a chegada da Nave G-48 para aniquilar a humanidade e transformar a Terra, definitivamente, em seu novo habitat.
A Nave G-48 alcança velocidade de cruzeiro e se prepara para um salto em dobra espacial, afinal, Betelgeuse fica a 642,5 anos-luz de distância da Terra. Seria completamente impossível sobreviver tanto tempo no espaço e jamais alcançariam outros planetas sem um salto no hiperespaço.
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