#008 - Shamballah

 - Diminua a velocidade, Nestor. Estamos chegando.

- Tudo bem - obedece Nestor ao comando de Eloaton, mesmo sem ver nada que remotamente pudesse lembrar o fim daquele túnel.

- Este buraco aqui é muito maior do que o de Ethoria 27b, ou é impressão minha?

- Sim, ele tem algo em torno de sessenta quilômetros de extensão e cem metros de diâmetro. Veja ali adiante, já dá para ver o final.

Nestor se esforça para tentar ver a tal luz. O disco voador já estava com velocidade muito reduzida. Repentinamente, parece que atravessam uma fumaça densa e, logo em seguida, descortina-se diante de seus olhos toda a glória de Shamballah, a cidade de ouro, a capital de Agartha.

- Meu... Deus!! Eu não prestei atenção quando passamos por aqui antes. Isso tudo é ouro mesmo? - pergunta Nestor, incrédulo e estupefato.

- Sim. Todas as casas, todos os prédios, tudo é revestido ou pintado com ouro de verdade.

- Não consigo sequer imaginar o quanto vale uma cidade dessas...

- Nestor, lembre-se que, aqui em Agartha, seus conhecimentos avançados de economia simplesmente não se aplicam. Para nós, não há nenhuma diferença entre revestir uma parede de cimento ou de ouro. Lembra do que você aprendeu em Ethoria 27b? Sobre os telhados solares? Aqui é a mesma coisa, mas o material usado para geração de energia fotovoltaica é o ouro. E também é uma forma de simbolizar nossa gratidão ao Sol, de onde vem toda essa energia.

- Nunca vi uma cidade tão grande. Deve ser maior que Nova York. Para onde vamos?

- É um tamanho razoável para uma cidade que tem mais de um milhão de anos. Está vendo aquela pirâmide maior? Vamos até ela.

Nestor dirige o disco voador até o topo da pirâmide, entra em uma pequena fila e, na sua vez, inicia o processo de reabastecimento das baterias da nave, um processo que leva cerca de um minuto. Os cabelos do Nestor se arrepiam por causa da eletricidade estática.

- Agora, vamos até aqueles prédios lá. É um alojamento, onde você vai ficar durante seu treinamento, que será realizado naquele outro prédio redondo bem na frente.

Nestor dirige o disco até o local indicado por Eloaton e pousa o aparelho, em uma vaga livre de um discoporto que deveria ter, pelo menos, uns duzentos outros discos voadores estacionados.

- Não esqueça de desligar o reator de energia.

Nestor rapidamente desliga o reator e pega sua mochila. Abre a rampa do velho disco voador que foi de um rei sumério há mais de quatro mil anos. Eloaton, como sempre, tem alguma dificuldade para sair do aparelho, afinal, ele foi projetado para humanos de um metro e noventa, mas não para pleiadianos de quase três metros.

- E o que devo aprender aqui?

- Estratégia. Venha comigo, vou lhe apresentar um professor de quem acho que você vai gostar muito. Já viu homens azuis antes?

- Só no filme Avatar...

- Então, não se assuste. O nome dele é Krzovv, ele é siriano, tem cinco mil anos e é um ser muito divertido, além de inteligente.

- Cinco mil anos???

- Não te falei várias vezes que o tempo é relativo?

Os dois passam pela porta de entrada do alojamento. Eloaton conversa com uma recepcionista de pele vermelha em um idioma que Nestor nem tenta identificar. Ela dá um cartão transparente para Nestor, pedindo para que a siga. Eloaton diz que vai ficar ali, na portaria, esperando. Nestor segue a estranha moça de pele vermelha, incrivelmente magra, de gestos esguios mas delicados e ágeis. Ela fala com Nestor em português:

- Seja bem vindo ao nosso alojamento. Aqui você vai encontrar tudo o que precisa para sua estadia: camas quentes e confortáveis, cada uma com uma teletela, um armário para guardar seus pertences, uma cozinha para preparar lanches, uma área sanitária para suas necessidades fisiológicas e banho. Temos uma ampla sala de lazer em cada andar onde os alojados podem se confraternizar. Os alojamentos são coletivos, cada um com cinquenta camas. Caso precise, há esta sala lateral para a reposição de seu calçado e de sua roupa. Você sabe como esses equipamentos funcionam?

- Sim, o Eloaton já me mostrou em Ethoria 27b.

- Ótimo. Havendo dúvidas, pode me chamar ou a qualquer um dos supervisores.

- Mas acho que não sei o que é essa tal de "teletela" que você falou.

- Ah, sim, venha comigo, vou lhe mostrar.

Os dois entram no alojamento, onde havia cerca de vinte seres, alguns humanos, alguns Greys, Sirianos, Reptilianos e duas pessoas com pele vermelha como a da recepcionista. Metade deles completamente nus. Nestor ainda não estava bem acostumado com essa naturalidade toda.

- Desculpe a pergunta, mas de que raça você é?

- Sou Arcturiana, como aqueles dali. Veja, aqui tem uma cama livre, você pode ficar nela. Aqui na cabeceira tem o botão que liga a antigravidade, você pode regular neste outro botão aqui, deixando mais dura ou mais macia. Este outro controle é o da temperatura. Você pode pedir para manter uma determinada temperatura, aquecer, esfriar ou deixar no automático. E aqui, encaixado na cabeceira, tem a teletela. Você nunca viu uma?

- Não.

- Pegue ela aqui então. Aperte aqui para ligar. Selecione sua raça: humano. Agora seu idioma: português. Agora escolha o que quer ver ou fazer. Aqui tem as centrais de notícias de todos os países da Terra, os canais de entretenimento, pesquisa por qualquer assunto, ferramentas como calculadora, editor de texto, de imagem, tocador de música, comunicadores, tradutores para todos os idiomas conhecidos do Universo, uma seção inteira para inspiração emocional e meditação, enfim, tudo o que você precisar, seja para inteligência lógica, emocional ou despertar da sabedoria primordial.

- Ah, é tipo um tablet transparente que funciona para qualquer raça do universo?

- É, mais ou menos isso. Pode usar à vontade. Depois de usar, é só prender aqui de novo. Precisa de mais alguma coisa?

- Eu preciso de papel e caneta para escrever uma carta. Vocês têm?

- Papel e caneta? Puxa vida, acho que não temos não. Não serve argila?

- Deixa pra lá, eu sei onde posso conseguir. Onde posso deixar minha mochila?

- Pode escolher qualquer um desses espaços no armário. Pode colocar ali. Vamos descer? Seu amigo está lhe esperando.



Ramazor, o Comandante Altíssimo da Nave dos greys, senta-se à sua poltrona de comando e liga suas telas de controle. Logo aparece uma mensagem em destaque vermelho, que ele abre e lê cuidadosamente. Em seguida, ativa seu comunicador e chama seu capitão imediato:

- Pondr, traga o maldito Rekkar aqui imediatamente.

Em alguns minutos, um Chefe Grey usando capa azul entra na ponte de comando, trazendo junto um outro Chefe, com vestimentas comuns e sem capa. Pondr, o Chefe de capa azul, faz o Chefe Rekkar se ajoelhar diante de Ramazor.

- Rekkar de Arakenth, não imaginei que iria vê-lo novamente neste megaciclo. Na última vez que nos vimos, você me trouxe a notícia de que estávamos entrando em um novo surto de diloraminose, e que os estoques de elixir estavam estáveis e eram suficientes para conter o surto. Mas, pelos indicadores, o surto está aumentando e os estoques já não são mais suficientes. Podes me explicar por que isso está acontecendo?

- Altíssimo, nós recomendamos que fosse feita uma quarentena para diminuir a circulação da doença. Parece que não houve muita adesão a essa recomendação. A doença se espalhou muito e os estoques de elixir não são mais suficientes para atender a todos os enfermos.

- Verdade? E você recomendou essa quarentena a quem?

- Ao chefe de logística, major Krüzz, Altíssimo.

- Pondr, traga o Krüzz aqui.

- Sim, Altíssimo.

Em minutos, Pondr retorna à ponte trazendo um outro Chefe, usando roupas verdes.

- Krüzz de Kahlli, sétimo filho do altíssimo Aarock de Kahlli, nobre comandante que dirigiu esta Nave por duzentos e cinquenta megaciclos antes de mim e a quem sempre demonstrei grande respeito. Você lembra de ter recebido a recomendação de quarentena por parte do jovem Rekkar de Arakenth?

- Sim, Altíssimo, eu recebi a recomendação de quarentena.

- E quais providências você tomou?

- Altíssimo, eu conversei com outros dirigentes logísticos e chegamos à conclusão de que havia uma quantidade muito grande de Greys em estado de hibernação nas câmaras criogênicas, portanto, consideramos o alerta um tanto quanto exagerado. Afinal, mesmo que metade da tripulação em atividade fosse contaminada, haveriam cento e cinquenta vezes mais tripulantes em animação suspensa e...

- Então, metade da tripulação ativa poderia morrer sem problemas, é isso?

- Altíssimo, somos uma equipe muito pequena para dar conta de todos os trabalhos que a Nave exige. Não temos como fazer uma quarentena, não podemos parar.

- Rekkar, você recomendou uma quarentena de quantos ciclos?

- Cinco, Altíssimo.

- Krüzz, o que aconteceria com a Nave se ninguém fizesse absolutamente nada por cinco ciclos?

- Bem... Altíssimo... talvez alguns serviços como a limpeza fossem comprometidos, mas...

- A Nave explodiria em cinco ciclos?

- Não, Altíssimo.

- Algum tripulante em animação suspensa morreria em cinco ciclos sem manutenção?

- Provavelmente não, Altíssimo.

- Algum tripulante ativo morreria de fome em cinco ciclos sem reabastecimento?

- Com um estoque mínimo individual, não, Altíssimo.

- O campeonato de deathball não poderia ser suspenso por cinco ciclos?

- Ahn... sim, bem... talvez pudesse ser suspenso sim, Altíssimo, mas isso deixaria muitos tripulantes nervosos por causa das apostas...

- Ah, parece que entendi o problema. Havia um campeonato de deathball em andamento e muito dinheiro nas apostas. Era melhor correr o risco de ter metade da tripulação contaminada com diloraminose do que parar o campeonato na metade para a implantação de uma MALDITA QUARENTENA recomendada por um MALDITO GREY DE ARAKENTH, estou certo?

Ramazor se ergue do trono e desce até o degrau onde estavam os outros. Agarra Krüzz pela cabeça com uma mão e levanta-o do chão, olhando direto em seus olhos.

- Altíssimo, piedade. Não imaginamos que a doença pudesse sair do controle...

- Mesmo com o maldito aviso do maldito Rekkar? Só porque ele é o único sobrevivente de Arakenth, o mais maldito de todos os malditos lugares deste lado do Universo? É mais fácil ignorar o aviso de um amaldiçoado do que tentar salvar metade da tripulação ativa, não é mesmo?

- Piedade, Altíssimo...

- Você não me avisou sobre a recomendação de quarentena. Podes me lembrar exatamente o que fala o Código sobre esses alertas?

- Não, Altíssimo, não, não, eu imploro...

- Pondr, leia para mim essa parte do Código, por favor.

- Sim, Altíssimo... “Artigo 2.768: no ato de notificação de grave dano, quarentena, motim ou qualquer evento de qualquer natureza que possa colocar em risco a tripulação da Nave, total ou parcialmente, a notificação deverá obrigatoriamente ser repassada ao Comandante Altíssimo para que tome as devidas providências. Parágrafo único: A não notificação caracterizará crime de alta traição”.

- Pondr, e o que o Código diz sobre quem pratica alta traição?

- “Artigo 158: os crimes de alta traição serão punidos com o alijamento ao espaço”.

Krüzz se debate, enquanto é preso por chefes policiais.

- Não, piedade, Altíssimo! Piedade! Misericórdia...

Os policiais levam Krüzz pela porta. Alguns minutos depois, uma escotilha é aberta na nave e um corpo é arremessado ao espaço através dela. Krüzz ainda se debate por alguns segundos, até morrer por asfixia e congelamento.

Ramazor, após assistir o alijamento, ordena:

- Procedam imediatamente a quarentena. Racionem o elixir. Cancelem o campeonato de deathball deste megaciclo.

- Mas Altíssimo, há um número muito grande de apostas que...

- Pondr, você não acha que o Krüzz deve estar se sentindo muito sozinho, lá fora?

- Imediatamente, Altíssimo, já estamos providenciando a quarentena e o cancelamento do campeonato.




 

 

Comentários