#012 - Primeira missão: Salvando Mendez

 



 - Já estamos em segurança, señor Mendez. Pode sair daí.
Mendez ainda aguarda alguns minutos antes de sair de baixo da pesada lona que o sufocava.
- Tivemos sorte. Pensei que iriam querer revistar o caminhão.
- Eles estavam procurando por algo errado, então mostrei o carregamento clandestino de cigarros, dei um pacote para cada um e eles me deixaram seguir, pensando que era só isso.
- Muito inteligente de sua parte, Pablo. Estou muito agradecido pela sua ajuda. Eles estão me caçando por todos os lados. Onde estamos?
- Saímos de Montevidéu pela Ruta 8, passamos a polícia rodoviária, estamos a meio caminho de Solís de Mataojo. Lá você estará seguro, ninguém o conhece. Está com fome?
- Muita. Há dois dias só bebo água.
- Logo à frente tem um parador, é um lugar grande e bastante movimentado, não vão reconhecê-lo, ainda mais agora que você fez a barba. Tome, use este boné, e tire essa jaqueta de guerrilheiro. Vista este meu casaco.
- Pensei que nada no mundo poderia ser mais fedorento que a minha jaqueta, mas vejo que vou precisar me esforçar um pouco mais.
- Então é melhor ficar com seus coturnos, pois você não sobreviveria com as minhas botas. Estamos chegando.
Os dois amigos descem do caminhão, estacionado no pátio do Parador, onde entram e sentam-se a uma mesa em um canto. Logo chega uma garçonete para anotar os pedidos.
- Um café e um chivito para mim, por favor.
- Pra mim, um medio y medio e uma milanesa.
- Trago em um minuto, fiquem à vontade.
Mendez pega um jornal para ler as notícias, enquanto Pablo dá uma olhada em seu celular.
De repente, sem qualquer aviso ou licença, uma moça senta-se ao lado de Mendez, que em um sobressalto já segura em sua arma.
- Sou amiga, Mendez, não se preocupe. Estou aqui para te ajudar. Preciso te contar algumas coisas.
- Quem é você? E como sabe quem eu sou?
- Meu nome é Amanda, sou brasileira e sabemos, de fonte segura, sobre algumas intenções do Hugo para te prejudicar.
- Você é espiã?
- Hugo quer explodir uma bomba na feira de Montevidéu, e vai colocar a culpa em você. Também vai tentar contratar algumas mulheres para que venham a público falar que você as maltratou e roubou. E, por último, vai tentar matar você.
- Que ele está tentando me matar, até o Papa sabe.
- Mas ele tem um plano. É uma emboscada. Eles os deixaram passar pela barreira policial de propósito. Eles os estão esperando em Solís de Mataojo, onde é mais fácil desaparecer com os corpos e com o caminhão.
- Isso faz todo o sentido! Mas como você sabe?
- Neste momento, a única coisa que você pode fazer é confiar em mim. Eles vão adicionar flúor na água, como uma estratégia para manter as pessoas mais “dopadas”, o que irá enfraquecer a rebelião.
- Flúor na água? Como os nazistas?
- Precisamente. Este comando já foi dado, mas conseguimos interceptá-lo, pelo menos por enquanto. Veja aqui:
Amanda mostra um documento assinado pelo presidente Hugo, ordenando o aumento da taxa de fluoreto nas estações de tratamento de água.
- Ele expediu esta ordem ontem de manhã. Provavelmente até o final da semana ele irá perceber que a ordem não chegou às estações, então temos pouco tempo para agir.
- Por que você está nos ajudando? O que você quer?
- Neste momento, basta saber que o Hugo é um inimigo comum. O que vocês precisam fazer agora é sair daqui como se nada houvesse acontecido e continuar a viagem rumo a Solís de Mataojo. Daqui a cinco quilômetros, logo depois de um outdoor, tem uma estrada de terra, à direita. Estaremos lá em um carro branco, esperando vocês.
Amanda se levanta da mesa e sai, deixando Mendez e Pablo boquiabertos.
- Devemos acreditar nesta chica?
- O que ela diz faz sentido. Se quisessem nos raptar, não teriam esse trabalho todo. E se seguirmos viagem normalmente, poderemos estar indo rumo à morte. Não creio que ela esteja armando uma emboscada. Vamos comer e ir a seu encontro.
Meia hora depois, Mendez e Pablo saem do estacionamento e seguem pela Ruta 8 normalmente, conforme o combinado. Mas, logo ao entrar na estrada, Mendez percebe que um carro os está seguindo.
- Aquele carro preto lá atrás, ele está nos seguindo. Poderia andar mais rápido, se quisesse. Está devagar para acompanhar, de longe, nosso caminhão.
- E o que vamos fazer? Vamos despistá-lo?
- Não. Estamos em desvantagem. O caminhão é lento e difícil de manobrar. Eles nos alcançariam em qualquer circunstância, e estamos no meio da estrada. Vamos seguir.
- Veja, acho que é aquele outdoor ali. Tem uma rua de terra à direita depois dele.
- Entre nessa rua. Vamos descobrir se é ou não uma emboscada - Mendez tira sua pistola e se prepara para o confronto.
O caminhão dobra na estrada de chão. A poucos metros, estava estacionado sob umas árvores o tal “carro branco”: um Mustang Mach 1. Pablo manobra o caminhão, deixando-o atravessado na estrada, bloqueando a passagem e, imediatamente, descem correndo do caminhão e entram no Mustang, avisando:
- Estamos sendo seguidos!
O carro preto entra na estrada e é obrigado a parar. Descem dois homens vestidos de preto com óculos escuros, atirando. Mendez atira também contra eles, atingindo o caminhão. O Mustang sai em disparada, chegando a 100km/h em cinco segundos.
- Foi ótimo ter trancado a passagem com o caminhão, assim ganhamos algum tempo. Ah, meu nome é Julio.
- Muito prazer, mas dá pra andar mais rápido?
- Ah, dá sim - Julio acelera o Mustang a 140 km/h, quase voando sobre aquela pequena ruela empoeirada.
- Aonde vai dar esta rua? - Pergunta Pablo.
- Em uma outra estrada, asfaltada, que vai se conectar com a Ruta 9. Depois pegaremos a Ruta 70 em direção a Cuchila Alta. Lá tem um barco nos esperando - Explica Amanda.
Minutos depois, o Mustang entra na tal estrada asfaltada.
- Bem, vamos ver se essa coisinha aqui sabe correr mesmo - E pisa fundo, chegando a 180 Km/h. Em dois minutos, entram na Ruta 9, bem mais ampla, onde o Mustang podia desenvolver tranquilamente uns 220Kmh.
- Julio, como é dirigir um Mustang depois de sofrer décadas com aquele velho jipe de placa amarela? - Pergunta Amanda, com um certo receio a respeito das habilidades de Julio.
- É a coisa mais legal do mundoooooooo!!! Mas tem uma desvantagem…
- Qual?
- Com o jipe, eu era invisível. Esse carro aqui chama muito a atenção. Preciso dar um jeito nisso. Ei, parece que os despistamos.
- Sim.
Julio diminui a velocidade e encosta nos fundos de um velho posto de gasolina.
- O que você vai fazer?
- O pior negócio que já fiz em minha vida - Julio desce e vai falar com o dono do posto.
Minutos depois, Julio aparece, dirigindo um carro tão velho que parecia que ia se desmontar.
- Julio, o que você fez?
- Um péssimo negócio. Troquei um Mustang de cento e cinquenta mil dólares por um carro que não vale um ovo. Venham, entrem. Cuidado com o tétano.
O dono do posto dava pulos de alegria. Conforme previamente combinado, ele esconde o Mustang em uma garagem. Enquanto isso, os quatro se acotovelam dentro do novo veículo e seguem, em direção a Cuchila Alta. Cerca de dez minutos depois, uma caravana de carros pretos passa por eles, a toda velocidade, sem nem tomar conhecimento de sua existência.
- Julio e sua incrível capacidade de ficar invisível - suspira Amanda.
- É, despistamos esses hijos de un perro pra valer mesmo. Jamais vão desconfiar da gente nessa geringonça.
- Amigos, estou impressionado com vocês. Se tivéssemos seguido nossos planos, a esta hora estaríamos mortos. Onde vocês aprenderam essa malandragem toda?
- Meu caro Mendez, se você morar dois anos no Brasil e sobreviver, vai ficar mais esperto que a gente. Vejam, estamos chegando no trevo da Ruta 70. Abaixem-se, tem uns carros pretos ali.
Mendez e Pablo se amontoam no banco traseiro, enquanto Amanda joga uma coberta sobre eles, e começa a discutir alto em espanhol com o Julio, que não entende nada, só responde “excusa, excusa…”
Ao passar pelo bloqueio, os homens de preto pensam que é só um casal debilóide discutindo e os deixam passar, sem suspeitar de nada. Mendez se segurava para não rir. Depois da primeira curva, Mendez e Pablo se levantam.
- Vocês são fantásticos. Me mato de rir. Vocês precisam nos ensinar algumas técnicas.
- E onde você aprendeu tantos palavrões em espanhol? - Pergunta Pablo.
- Eu morei um tempo na Colômbia, junto com narcotraficantes do Clã do Golfo. Aprendi a usar um fuzil, a pilotar aviões, a atravessar fronteiras com dois quilos de drogas sem levantar suspeitas e também alguns palavrões.
- Ai, caramba!
- Chegamos. Qual é o nosso barco, Amanda?
- Na verdade, são quatro barcos iguais. Cada um de nós irá em um deles. Nos encontraremos no farol da Isla de Lobos, em duas horas.

Em uma belíssima tarde ensolarada, quatro lanchas partem da paradisíaca e tranquila praia de Cuchilla Alta, no Uruguai, rumo à Isla de Lobos. Em cada lancha, um piloto e um dos nossos heróis: Amanda, Julio, Mendez e Pablo. Nestor dava instruções pelo rádio:

- Vocês estão a pouco mais de cinquenta quilômetros da ilha. Mantenham distância de pelo menos 300 metros entre cada lancha. Ao chegar na ilha, dirijam-se à ponta mais ao norte, onde tem uma praia, pois quase todo o resto da ilha é terreno pedregoso e de difícil acesso. 

- Copiado, capitão. A propósito, tu sabe que pra pilotar barcos a gente fala em milhas e não em quilômetros, né?

- Tomem cuidado a dois quilômetros à sua frente, pois tem um iate de passageiros ancorado.

- Tá na mira, compadre. Por enquanto, tudo safo por aqui.

- Fiquem alertas. Esses caras aí não brincam em serviço. Quando aportarem na ilha, dirijam-se ao farol e continuem por mais uns cem metros para o meio da ilha, onde tem uma clareira circular bem grande. Estou aqui nesta clareira aguardando vocês.

E as quatro lanchas continuam tranquilamente o trajeto em direção à Isla de Lobos. Cerca de vinte minutos depois, Nestor chama novamente:

- Pessoal, fiquem em alerta total, tem um helicóptero não identificado saindo do aeroporto Laguna del Sauce e indo em direção a vocês.

- Entendido, capitão! - imediatamente os quatro guerreiros abrem as sacolas que já estavam previamente em cada uma das lanchas, tirando de dentro armas de grosso calibre e se preparam para enfrentar o inimigo aéreo. Amanda comanda:

- Mendez, saia da segunda posição e fique na ponta, a trezentos metros depois da minha lancha.

Mendez segue as instruções. Agora, a lancha mais ao norte levava Pablo, depois Julio, Amanda e Mendez.

- Já consigo ver o helicóptero. Preparem-se! - Avisa Julio.

O helicóptero se aproxima da primeira lancha, onde estava Pablo, e abre fogo. Pablo responde com sua metralhadora, mas ele e o piloto são atingidos. O helicóptero dispara um míssil na lancha, que explode e afunda, em chamas. O inimigo aéreo se dirige à segunda lancha, onde estava Julio, que já o recebe com as boas vindas de uma Barret M82A1 .50 novinha em folha. Um dos tiros estraçalha o vidro frontal esquerdo enquanto outro atinge um dos atiradores que estavam do lado de fora do helicóptero e ele cai no mar. O helicóptero faz uma manobra para que o outro atirador, do outro lado, tivesse um campo melhor de visão, enquanto Julio pega uma M60 7,62mm e já começa a atirar contra o helicóptero. A chuva de tiros foi tão grande que o helicóptero se afasta, faz uma volta e se dirige à lancha da Amanda, que já o esperava com a sua própria M60. Mas Amanda, com seu treinamento em guerrilha, deita-se no convés e apoia a M60 no bordo da popa da lancha, obtendo assim uma estabilidade e uma precisão muito maior para atirar. E abre fogo, antes que os inimigos atirem.

Amanda acerta uma rajada inteira no helicóptero, que começa a fazer fumaça e a voar em círculos, sem direção. Aparentemente, ela atingiu um dos pilotos. Ela sabe que deve ter outro piloto na aeronave e que logo ele assumirá o controle, então ela se prepara para um novo combate. Mas um dos atiradores do helicóptero dispara contra a lancha de Amanda e acerta o piloto, que cai no mar.

Amanda rapidamente assume o leme da lancha e passa a correr em ziguezague, para dificultar a mira dos atiradores. Julio e Mendez se aproximam para dar cobertura, disparando contra ambos os lados do helicóptero, que se afasta.

- Já estamos perto da ilha. Vamos para o norte! 

As lanchas obedecem o comando de Julio, mudando o trajeto. O helicóptero os acompanha de longe, ainda soltando muita fumaça e voando devagar. Alguns minutos depois, as três lanchas aportam na pequena praia ao norte da Isla de Lobos e os três sobem correndo em direção ao farol. Mas havia uma cerca eletrificada com um portão de três metros de altura que impedia o acesso. 

- Ih, lascou-se! Tu não viu que tinha essa tela aqui, ô mané?

Nestor responde pelo rádio: 

- Não, eu pousei aqui na clareira e não fiz todo o reconhecimento da ilha. Tentem encontrar um caminho alternativo.

Mendez aponta para o lado:

- Por aqui, aquela mureta de concreto tem uma calha atrás para água da chuva e podemos passar por ela.

- Que maravilha termos um guia turístico local.

E rapidamente passam pela apertada brecha de segurança. Nestor coordena:

- Aqui na ilha só tem dois lugares onde o helicóptero pode descer: no heliporto que está bem à direita de vocês, ou aqui nesta clareira onde eu estou com o veículo camuflado. Se eles pousarem aqui, azar deles. Provavelmente vão pousar no heliporto do farol. Vocês estarão em vantagem pois estão em um local mais alto. Preparem uma emboscada, ficando um de cada lado da escadaria de acesso. 

- Ô meu filho, por que raios você não vem com o aparelho aqui e acaba logo com eles?

- A última coisa que queremos é que os lagartos descubram que tem alguém com um tic-tac combatendo eles.

Julio entende a gíria que Nestor usa, para evitar que o Mendez entendesse a mensagem, pois o guerrilheiro também estava escutando.

- Entendido, capitão. Deixa conosco. Amanda, você e o Mendez ficam ali, atrás daquela mureta do lado esquerdo. Eu fico do lado de cá, e vou chamar a atenção deles. Quando eles estiverem de costas, abram fogo.

- Mas você estará na linha de tiro...

- Relaxa que eu sei como ser invisível.

O helicóptero aterrisa no heliporto, com grande dificuldade e já em chamas. Descem quatro milicianos, que se dirigem à escadaria de acesso ao farol. Eles sobem em posição de defesa: um apontando para a frente, dois para os lados e o último cobrindo a retaguarda. Sobem rapidamente, param um pouco no primeiro descanso e seguem até o segundo descanso, já bem perto do final da escadaria. O helicóptero explode, chamando a atenção dos mercenários. Então, uma metralhadora começa a disparar contra eles, que se abaixam e tentam se proteger atrás da mureta de pedra. Quando acaba a munição da metralhadora, eles se levantam, atirando na direção dos tiros, mas logo percebem que não havia ninguém ali: a metralhadora foi programada para disparar sozinha.

Três disparos certeiros abatem três dos milicianos. O quarto pula para fora da escada e se esconde entre os arbustos.

- Vamos, não podemos perder tempo! - o grupo corre em direção ao farol e segue pelo caminho indicado pelo Nestor. Mas antes de chegar à clareira, o último miliciano os alcança e dispara sua metralhadora. Os três jogam-se no chão e respondem. A troca de tiros continua por alguns minutos, com trocas estratégicas de posições, até que Julio se levanta de trás de uma pedra e dá um tiro à queima-roupa com sua velha Yildiz calibre 12, jogando o soldado de uniforme negro dois metros para trás. O mercenário ainda ergue sua pistola e mira contra Julio, mas Amanda salta gritando sobre o inimigo, quase encosta sua metralhadora na cabeça dele, atira e não para até o último tiro.

Amanda joga a metralhadora para o lado, cai de joelhos e chora compulsivamente. Julio e Mendez não entendem o motivo da ferocidade do ataque da ruiva. Julio se aproxima e a abraça, que explica, ainda aos prantos, soluçando e quase gritando:

- Meu ex-marido era um dos chefes do Clã do Golfo. Eu vi ele ser metralhado na minha frente. A pessoa que eu mais amava no mundo, ali, a poucos passos, morrendo, sem que eu pudesse fazer nada, nem gritar, nem fazer nenhum barulho. E agora a cena quase se repete. Eu não posso deixar, de jeito nenhum, que alguém faça mal para você, Julio. Não vou deixar. Não, enquanto estiver viva. Desculpe, mas agora eu me sinto vingada. Eu me vinguei da morte do meu ex-marido, que também se chamava Julio. Ele também se chamava Julio! Não quero perder você também. Entende agora?

Julio abraça Amanda, que retribui o abraço com todas as forças. Mendez coloca as mãos nos ombros dos dois. E os abraça também.

Nestor se aproxima dos três. Aperta a mão de Mendez e se apresenta. 

- Sinto muito pelo seu amigo. Infelizmente, a estratégia de fugir em quatro lanchas, ao invés de uma, deu certo. Vocês quatro poderiam estar mortos, agora.

- Também sinto muito. Pablo era um grande amigo e fará muita falta. Mas a vida é assim mesmo, cedo ou tarde perdemos pessoas queridas. Quero agradecer de coração a ajuda que vocês nos deram. Ainda não entendi o motivo de sua luta contra Hugo, mas estou grato por estarmos do mesmo lado.

- Seus homens estão vindo para resgatá-lo e já aportaram na praia. Aqui neste envelope tem algumas coisas que sabemos das estratégias de Hugo contra vocês e algumas dicas para resistir. Não sei se nos veremos novamente. Desejamos sucesso em sua luta.

- E vocês voltam conosco? Vamos fazer uma festa para comemorar a batalha de hoje. Quando um dos nossos morre, nós celebramos em sua homenagem...

- Somos muito agradecidos, mas temos outro meio de transporte e outros compromissos. Vá em paz, amigo.

Mendez se despede do grupo e é recebido pelos seus companheiros, que já estavam no farol. Mendez conta a todos o que aconteceu nas últimas horas, enquanto um pequeno objeto luminoso risca os céus em direção ao norte, sem chamar a atenção de ninguém.



Pondr monitora com cuidado tudo o que acontece na gigantesca nave-mãe Grey. Ele sabe que um motim está prestes a acontecer. Duzentos rebeldes já foram alijados ao espaço, mas há indícios de que uma rebelião muito maior já está em curso. Ele toma todas as providências possíveis, monitorando as ações suspeitas nas redes de comunicação da nave, interceptando mensagens, infiltrando espiões e posicionando a guarda em locais estratégicos. Mesmo assim, ele sabe que a guarda não poderá deter uma rebelião muito numerosa e organizada.

A porta de Palamedes se abre. Ele sai rapidamente pelo corredor, rumo ao andar superior, onde seu companheiro Korgg o espera. Ele poderia estar armado com uma faca, como os quase cinco mil rebeldes restantes, mas Palamedes tem uma missão diferente. Ao invés de uma faca, ele leva consigo apenas um inocente saco de fertilizante químico, apenas um quilo de nitrato de amônio, usado normalmente na estufa de cultivo de alimentos, onde trabalha.

Ao mesmo tempo, milhares de portas também se abrem. Tiros, gritos, caos completo por todos os lados. Mas Palamedes segue firme, se esquivando de todo e qualquer obstáculo. Logo chega ao andar superior. Korgg o cumprimenta com um aceno de cabeça e os dois seguem rapidamente em direção ao sistema de ventilação da nave. Korgg tem a chave do setor, pois é um dos responsáveis pela filtragem do ar do quadrante A-25. Eles entram em silêncio no sistema de dutos, enquanto a nave inteira se debate em uma guerrilha sangrenta. 

Os dutos de ventilação são amplos. A dupla segue correndo por eles e, cerca de um quilômetro à frente, alcançam seu destino: a ponte de comando.

Os dois se arrastam, tentando não fazer barulho, enquanto uma balbúrdia sem precedentes acontece logo abaixo deles. Uma guarnição fortemente armada, com cerca de duzentos soldados, protege o acesso à sala de comando da nave. Mas a dupla passa por cima deles, desce por uma escada lateral e alcança uma pequena sala de máquinas, cheia de motores, engrenagens e sistemas hidráulicos. Ela também tem grandes cilindros de gás para suprimento de emergência de oxigênio e amônia.

Palamedes coloca o saco de fertilizante junto aos cilindros de gás. Korgg prende um pequeno dispositivo no pacote - um daqueles isqueiros a gás controlados à distância para o aquecimento das células criogênicas - e os dois se afastam para uma área segura. Aguardam o momento combinado e Korgg aciona o dispositivo, causando a explosão do fertilizante, que explode também os cilindros de gás.

A Nave G-48 chega a tremer com a potência da explosão. Parte da sala de comando é destruída. O ar se torna rapidamente irrespirável. Porém, não havia ninguém na ponte: todos os Chefes já estavam em segurança no bunker do andar de baixo. 

Os corredores de acesso à ponte são tomados por fumaça. O fogo ilumina a escuridão. Falta total de energia. Metade da brigada destacada para defender a ponte foi dizimada pela explosão. Algumas portas internas ficam danificadas, mas as de acesso à ponte são lacradas automaticamente. Os soldados voltam a se organizar, tomam posição em três níveis de altura e se preparam para o confronto. É possível escutar centenas, talvez milhares de rebeldes correndo pelos corredores e se posicionando para o ataque. De repente, total silêncio.

Os soldados tentam enxergar alguma coisa atrás da fumaça. Cabos em curto soltam faíscas. Uma única lâmpada pisca. Nenhum movimento. Silêncio completo por um período que parecia uma eternidade. De repente, é possivel ver umas luzes vermelhas piscando e se aproximando em grande velocidade. Era um veículo de transporte. A brigada abre fogo, mas o veículo é grande, pesado e atropela a brigada inteira como se ela nem existisse. Logo atrás do veículo desgovernado, uma massa de rebeldes avança e ataca com facas, porretes, canos de aço, ferramentas e qualquer coisa que pudesse ser usada como arma. 

Os soldados sobreviventes reagem, mas é uma quantidade muito grande de rebeldes. O chão se enche com uma camada de corpos e a luta dura pouco mais de meia hora. Os rebeldes vencem. Comemoram com alegria e se dirigem à porta de acesso à ponte de comando. A porta está travada por dentro e não há como abrir por fora. Eles sabem que podem entrar na sala pelo rombo causado pela explosão dos cilindros de gás, mas precisariam fazer uma volta muito grande para chegar lá. Eles precisavam entrar rápido, então, pegam uma arma laser de um dos chefes da guarnição para destruir a porta. 

Com a defesa vencida, os pouco mais de trezentos rebeldes restantes baixam a guarda e se aproximam, enquanto a porta de acesso é alvejada. O alvoroço é grande, a vitória é certa. Eles se preparam para entrar na sala, liquidar os Chefes restantes e assumir o controle da Nave. Um misto de expectativa e comemoração contamina a todos. Corações acelerados e a pele cinza suando amônia. Finalmente! Os Greys nunca estiveram tão perto de se livrar dos Chefes!

Nisso, uma porta se fecha, lá no fim do corredor, prendendo todos os rebeldes nesse espaço.  Não há uma saída alternativa, a não ser o rombo na parede que leva à sala das máquinas. A porta da ponte está lacrada e não abre por dentro. Eles percebem que podem ter caído em uma armadilha, mas é tarde. Uma grande escotilha lateral se abre, sugando todos os amotinados para o espaço, juntamente com os milhares de corpos amontoados no corredor e todos os escombros gerados pela explosão dos tanques de gás.

Após alguns minutos, a escotilha se fecha. O corredor tem seu suprimento de ar reposto. As duas portas se abrem. Pondr entra pelo fim do corredor, escoltado por uma pequena guarnição, enquanto Ramazor entra pela porta da ponte. Eles vistoriam todo o corredor. Ramazor ordena:

- Alguém explodiu os cilindros de gás do sistema de ventilação. Cinco mil Quaarks para quem encontrar o traidor! Vão agora!

Os guardas se olham e saem imediatamente correndo pelos corredores.

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