#010 - Retornando de Shamballah


Eloaton e Nestor se despedem de Krzovv e se dirigem ao disco voador, estacionado no discoporto, para retornarem ao Tibete. Eloaton ainda tinha muitos assuntos a tratar com Lemann, mas resolveu mostrar a grande capital de Agartha ao jovem Nestor.

- Nestor, você gostaria de conhecer melhor Shamballah?

- Sem dúvidas, Eloaton. O que podemos visitar?

- Bem, vamos sobrevoar a cidade. Tem muita coisa interessante que você precisa conhecer.

O disco voador se ergue do chão, enquanto Eloaton coordena o passeio.

- Quero ver como vou contar para meus amigos que estou visitando Shamballah, a capital do reino de Agartha da quarta dimensão, em um disco voador todo esquisito que era de um rei sumério e que meu guia turístico é um pleiadiano dourado de três metros que mal cabe dentro do disco.

- Por isso que é melhor nem tentar contar - Eloaton sorri - Vamos para aquele lado, onde tem as cachoeiras.

Nestor obedece. Logo se aproximam das lendárias cachoeiras de Shamballah. Majestosas, com mais de mil metros de altura, descem imponentes sobre as rochas, onde é possível ver várias piscinas naturais com centenas, talvez milhares de seres se banhando em suas águas absolutamente puras e transparentes. A partir dos rochedos, o grande rio que corta Shamballah ao meio serpenteia até sumir no horizonte.

- Essas cachoeiras possuem a água mais limpa de Agartha. A radiação contida na água vibra exatamente na mesma frequência das células, tanto humanas quanto animais, promovendo cura e trazendo longevidade. É a tão famosa Fonte da Juventude. Para ativar e aproveitar todos os benefícios dessa água, é preciso bebê-la na fonte, direto da cachoeira, todos os dias. Melhor ainda é passar meia hora imerso nela. O indivíduo não envelhece nunca, nem fica doente, podendo viver em plena saúde por milhares de anos.

- Uau... esse é o segredo da longevidade do Lemann?

- Exatamente. Ele vem se banhar nessas águas todos os dias, nos últimos dois mil e trezentos anos. É o elixir da juventude, tão falado pelos alquimistas no século dezoito e...

- Século dezoito, anos de 1700... o Lemann tem dois mil e trezentos anos de idade, então ele já se banhava na Fonte da Juventude há dois mil anos antes dos alquimistas, é isso?

- Precisamente. Mas não basta apenas beber e se banhar na Fonte, é necessário ter um modo de vida correto também, e isso é muito mais difícil de se conseguir realizar do que apenas beber ou se banhar nessas águas. Você vai receber todo o ensinamento sobre como alcançar um modo de vida correto: você precisa superar as fraquezas inerentes da raça humana, especialmente o ego, o apego, a aversão e a ilusão, e definitivamente isso não é nada fácil para vocês, humanos, mas veremos isso tudo com mais detalhes em breve. Outra coisa muito importante é a conexão total com a natureza: você precisa conversar com a cachoeira, com as pedras, com as nuvens, com o fogo, mas depois eu explico melhor isso.

- Mas nunca descobriram esse segredo? Tenho certeza que haveria milhões de pessoas que dariam tudo para se banhar ali...

- Justamente por isso é que ninguém pode saber. Imagine se a humanidade descobre o túnel que traz a Shamballah? Você é capaz de imaginar um milhão de pessoas invadindo este lugar, destruindo tudo e se jogando na cachoeira, a fim de alcançar a suposta vida eterna? Consegue imaginar o tamanho do caos que seria causado? É por isso que a entrada é secreta, protegida pelo melhor de todos os Guardiões. Também é por isso que ninguém sabe o que é o Elixir da Vida Eterna, muito menos onde fica a Fonte da Juventude. 

- E se as pessoas fossem um pouco mais... ahn... civilizadas? Evoluídas? Seria possível compartilhar esse segredo com toda a humanidade?

- Meu caro amigo rosado, acho que  já contei que estamos neste planeta há centenas de milhares de anos, contribuindo com a evolução da humanidade. Nós queremos que os seres humanos evoluam e alcancem níveis mais avançados de civilidade. Queremos que a humanidade se torne mais ética. Trabalhamos pela paz em todo o Universo, entre todas as formas de vida inteligente existentes. Mas nós dois sabemos que o estágio em que a humanidade se encontra atualmente é primitivo demais para permitir que um conhecimento desses seja divulgado para todos. Shamballah seria destruída e haveria guerras intermináveis pelo controle dessas fontes. Estou enganado?

- Hmmm... não, de forma alguma. Mas você falou sobre os alquimistas... eles não tentaram, de certa forma, avisar sobre este local?

- Sim, em manuais codificados de tal forma que apenas uma minoria muito restrita fosse capaz de entender. Eles criaram textos complicadíssimos de propósito, justamente para que a maioria das pessoas desistisse ou nem tentasse compreender, por imaginar ser um processo extremamente difícil, ou até pura fantasia. Mas é tão simples, basta apenas ter uma vida correta e beber e se banhar em uma água puríssima, ionizada na mesma frequência das células. Os alquimistas até tentaram reproduzir esta água em laboratório, e até chegaram a resultados satisfatórios em alguns momentos. Algumas dezenas deles conseguiram sucesso, e o Lemann é um deles.

- E como o Lemann consegue vir aqui se banhar todos os dias?

- Você ainda não viu o disco voador dele.

- Ah tá... 

- Bem, vamos continuar o passeio. Está vendo aquele castelo enorme no meio da cidade? Vamos até lá.

Nestor conduz o disco até as proximidades do castelo.

- Esse é o centro administrativo de Agartha. Neste majestoso castelo se reúnem todos os representantes de todos os povos que habitam Agartha. É onde acontecem todas as negociações. É onde todos os grandes conflitos são tratados e solucionados, onde são tomadas as decisões mais importantes. Somente os delegados podem entrar ali. Não é aberto para todos. Seu interior é imenso, lindo, iluminado, com as paredes e tetos ricamente adornados em ouro e afrescos muito coloridos. Todos os ambientes são levemente perfumados e sonorizados com uma música muito agradável. Há farta disponibilidade de excelentes alimentos, água muito pura e todo o tipo de estrutura para o bem estar de cada indivíduo. É realmente uma maravilha. É o mais próximo que se pode alcançar do que se imaginaria ser um verdadeiro paraíso.

- Que fantástico... mas... deixa ver se eu entendi... é neste local que as pessoas se reúnem para tratar de conflitos? Aí o cara vai estar em um SPA gigante pra tratar de encrenca... isso funciona?

- Por incrível que pareça, é o que mais funciona. Este é justamente um ambiente construído e elaborado para ser o lugar mais agradável que existe. Você vai querer brigar num lugar desses? Em hipótese alguma. Os delegados se reúnem, entendem que possuem interesses diferentes e, em um ambiente sem a pressão e o estresse de seus conterrâneos, chegam com muito mais facilidade a soluções mais inteligentes e efetivas, beneficiando os dois lados.

- Puxa, gostaria de poder ver uma reunião dessas...

- Provavelmente você participará de uma assembléia assim mais cedo do que imagina. Afinal, é neste local também onde são discutidas as várias formas de enfrentamento aos ataques dos Reptilianos e Greys e, como você vai ser o dirigente de um esquadrão de combate, certamente sua presença será requisitada em breve. Por isso, é melhor ir se preparando bem.

- Farei isso. E o que é aquela praça?

- A praça da cidade, nada de mais. Um local público de lazer e descanso.

- É imensa.

- Claro, Shamballah tem um milhão de habitantes, é óbvio que a praça precisa ser grande. Aliás, existem inúmeras outras praças espalhadas pela cidade, mas essa é a maior delas. Você vai ter muito tempo para passear nela, afinal, ela fica bem próxima ao seu alojamento. Vamos para aquele lado, onde tem aqueles prédios mais altos.

Nestor obedece.

- O que são esses prédios? Parecem igrejas.

- Exatamente. São os templos, mosteiros, mesquitas e igrejas. Centros religiosos de todas as fés de todos os povos que habitam Shamballah. Um mais lindo que o outro, todos em geral revestidos de ouro puro.

- E eles não se matam uns aos outros, como na Terra? - Nestor pensa se o termo "na Terra" era adequado, afinal, eles estavam na Terra, apenas em outra dimensão.

- Os povos que habitam Shamballah já superaram há muito tempo o egoísmo e a pretensão de serem donos da Verdade. Todos entendem que só existe um Deus, se você quiser chamar assim, e que cada um é livre para ter sua própria fé como desejar. Essa questão de brigar por causa de crenças religiosas é muito primitiva. Aqui, cada um tem sua fé, respeita os demais e constrói seu edifício de adoração do jeito que melhor entende.

- Aqueles pintados de vermelho parecem os templos budistas do Tibete.

- Os templos budistas do Tibete é que foram inspirados nestes templos. Há milhares de anos, os antigos Tulkus, sacerdotes do Tibete, encontraram os túneis e chegaram a Shamballah. Eles passaram muito tempo aqui, em treinamento. Na verdade, alguns continuam vindo até hoje, pois os Tulkus ainda existem. Todo o conhecimento sagrado ensinado lá fora, incluindo o Tantra, foi aprendido aqui. Depois esse conhecimento foi se adaptando, incorporando outras tradições, mas a raiz principal dos ensinamentos continua a mesma até hoje.

- Que fantástico... 

- Vamos voltar, Nestor? Você vai ter muitas oportunidades para conhecer Shamballah, pois vai passar um bom tempo aqui. 

- Está bem. Onde fica o túnel, mesmo?

- Naquela montanha, ao lado das cachoeiras, entre aquelas duas pedras gigantes.


Minutos depois, o disco voador estaciona na garagem de Lemann. Nestor e Eloaton descem. Lemann demora a atender a porta, vestindo apenas uma bermuda. Sofia sai do banheiro, enrolada em uma toalha, visivelmente após um banho quente. Eloaton se espanta:

- Mas o que... Lemann, meu amigo, venha aqui, por favor. Preciso falar com você.

Lemann segue Eloaton até a biblioteca, e fecham a porta.

Nestor fica meio sem entender nada e demora a perceber o que aconteceu.

- Sofia? Você e o Lemann...

- Nestor, eu já sou bem grandinha. E você sabe que eu gosto de homens mais velhos.

- Dois mil e trezentos anos mais velho?

- Qual o problema? Tá com ciúmes?

- Não, desculpe, apenas me pegou de surpresa. Não tenho nada a ver com isso. Está tudo bem?

- Tudo maravilhosamente bem. Talvez um pouco assustada com isso tudo. Como foi o passeio?

- Muito bacana. Conheci um siriano azul ki fãlã assssssimmmmm iskizituuuuuu...

- Hahahaha... e o que mais?

- A capital Shamballah é linda, você precisa conhecer também.

- Ah, sim, achei ela incrível quando a sobrevoamos. Certamente não faltará oportunidade para conhecê-la melhor. Quer um café?

- Quero, sim. Como será que estão se saindo o Julio e a Amanda?

- Boa pergunta. Talvez o Eloaton saiba, vamos perguntar a ele. Experimente esses biscoitos de gergelim, eles são ótimos!


- Lemann, você ficou louco? Você sabe que os Guardiões não podem ter contato com mulheres. O que deu na sua cabeça?

- Eloaton, eu sei, você tem razão. Mas ela estava ali, tão linda, deitada... Não tinha como resistir...

- Você sabe que eu, como Guardião de Ethoria 27B, deveria denunciá-lo, e que isso implicaria em sua suspensão por sete anos, ou a execução dela, não é? Entende a gravidade da situação?

- Eu sei, meu grande amigo. Foi uma fraqueza. Mas tente se colocar em meu lugar. Faz seiscentos anos que estou aqui, Eloaton. Seiscentos anos. Ainda estou encarnado como ser humano e tenho instintos humanos. Mas fique tranquilo, não vai acontecer novamente, ok?

- Tudo bem, é óbvio que não vou denunciar você. Vamos tentar resolver isso logo. Você contou a ela?

- Claro que não.

- Ótimo. Vamos fingir que nada aconteceu. Mas por favor, não tenha mais contato com ela, pelo menos enquanto você for Guardião de Shamballah, combinado? Além de tudo, ela é muito importante para nós dois e para a nossa missão. Você sabe que, se alguém descobrir, ela pode ser executada e nem eu, nem você queremos isso de jeito nenhum, em hipótese nenhuma, não é?

- Foi apenas uma fraqueza. Não vai se repetir.

- Ótimo. Vamos voltar para a sala. Não vamos mais tocar neste assunto.

Após um café rápido, Nestor, Sofia e Eloaton se despedem de Lemann e retornam para Shamballah. Eloaton não pode ficar muito tempo na terceira dimensão, pois isso consome demais a sua energia vital, portanto suas visitas sempre são muito curtas. Em Shamballah, Nestor passa rapidamente na biblioteca para pegar o livro indicado por Krzovv e no alojamento para pegar sua mochila. Depois, os três seguem juntos para Ethoria 27B. Eloaton vai para sua casa laranja, enquanto Nestor e Sofia vão para o alojamento. No dia seguinte, após o café, Nestor retorna a Shamballah para iniciar seu treinamento.


A mais de vinte bilhões de quilômetros dali, a nave-mãe Grey continua em sua rota em direção à Terra. Ramazor, o Comandante Altíssimo, está sentado em sua cadeira de comando e controla, com grande rigor, todas as funções da nave. A Sala de Comando está isolada devido à quarentena de cinco ciclos imposta como forma de controlar a epidemia de diloraminose que se espalhou entre os tripulantes. Ninguém entra ou sai da Sala. Os alimentos são entregues por uma escotilha.

- Pondr, qual a situação atual da quarentena?

- Temos quatrocentos e noventa e dois milhões de tripulantes Greys em animação suspensa, nenhum deles com possibilidade de contágio por estarem isolados em suas cápsulas criogênicas. Dos oito milhões de tripulantes ativos, sete milhões e oitocentos mil estão em seus respectivos aposentos, em estágio total de isolamento. Temos cinquenta e dois mil casos de diloraminose diagnosticados até agora, com quatro mil e seiscentos óbitos. Já estamos no limite da capacidade de atendimento. Todas as enfermarias da nave estão lotadas e não temos mais leitos disponíveis. Os cento e quarenta e oito mil tripulantes restantes estão usando roupas e máscaras de proteção, e tomando o elixir que está racionado.

- Algum caso de rebelião contra as medidas sanitárias?

- Sim, senhor. Houve um motim com duzentos e vinte tripulantes que se negaram a usar as roupas e seguir as medidas de proteção. Eles fizeram protestos nos salões sociais e foram presos. Alguns estavam contaminados. Todos eles foram sumariamente alijados ao espaço.

- Perfeito. Ainda existem focos de resistência?

- Estamos monitorando as comunicações entre as teletelas e já encontramos alguns grupos em tentativa de organização. Os que conseguimos identificar já estão presos em isolamento total, sem comunicação alguma com o restante da nave. O problema é que desconfiamos que ainda existam movimentos que usam aplicativos de comunicação que não são detectados pelas nossas camadas de segurança.

- E como podemos saber que aplicativos são esses e como monitorar essa comunicação?

- Talvez tentando infiltrar perfis falsos aos grupos...

- Providencie isso. Ainda não terminamos o primeiro ciclo de quarentena e não podemos correr o risco de sermos surpreendidos com um motim de grandes proporções.

- Sim, senhor. A propósito, o chefe Rekkar de Arakenth gostaria de vê-lo, senhor.

- Avise-o de que só o atenderei por meio de videochamada pela teletela. Providencie isso também. Outra coisa, avise o cozinheiro de que, se ele me mandar novamente um prato de algas sem celerina líquida, eu vou deixá-lo no primeiro asteróide que encontrarmos.

- Imediatamente, senhor. 

 








 

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