#001 - Nestor



Fim de expediente. Nestor termina de organizar os relatórios de seu trabalho. Com sua grande experiência em mercados, apostou alto nas ações de uma nova FinTech, há algumas semanas. Suas previsões provaram estar corretas, apesar de aparentemente todos os indicadores mostrarem o contrário: as ações foram vendidas por mais de dez vezes o valor investido. Em menos de um mês, a empresa para a qual Nestor trabalha acabou lucrando, somente com esse movimento, nada menos do que um milhão de reais.

Feliz com seu resultado, Nestor pega seu casaco, desliga as luzes do escritório e desce até a garagem. Entra em seu carro novo e segue para seu apartamento, passando rapidamente em uma padaria no caminho.

Chegando em casa, liga a TV para assistir aos noticiários. Coloca sua pasta em sua mesa, ao lado de seu computador. Dirige-se à cozinha, deixa o saco de pães sobre a mesa e vai à área de serviço, dar ração e brincar com seu hamster Stevie.

- Olá, Stevie. Teve muitas aventuras em sua rodinha hoje? Aposto que andou muito mais do que eu.

O jovem economista joga-se em seu sofá, munido de um grande saco de batatas fritas e um suco. Nenhuma novidade nos noticiários. Sempre a mesma coisa: violência, corrupção, inflação e políticos prometendo que tudo vai melhorar. Fica trocando de canais até ficar sonolento. Acaba dormindo.

Em seu cochilo, ele revê cenas de seu dia. Seu corpo está inerte no sofá, mas sua mente continua trabalhando. Tem sonhos absurdos e sem sentido. Quer acordar, tomar um banho e ir dormir, mas não consegue, está muito cansado.

Então Nestor tem um sonho muito estranho: uma névoa azulada com uma luz dourada brilhando no meio. Essa luz parecia querer falar com ele:

- Nestor, você precisa vir para cá. Sua verdadeira vida não é aí. Pare de enganar a si mesmo, você tem uma missão. Acorde!

O jovem desperta em um salto, assustado com seu sonho.

Acha aquilo muito surreal. Deve ter sido algo que estava passando na TV enquanto cochilava. Levanta-se, vai ao banheiro para tomar banho. No chuveiro, sente uma certa angústia. Sua vida vai muito bem, mas não está feliz. A monotonia e a rotina parecem esmagar uma parte dele mesmo, um outro Nestor que grita por uma vida bem diferente.

- Bem, não é hora para filosofias. Amanhã preciso entregar um trabalho para meu mestrado e não posso perder tempo com bobagens.

Ele sai do banho, escova os dentes, veste seu pijama e senta-se à frente de seu computador. Ainda faltavam algumas páginas para terminar o trabalho e, mesmo cansado e com sono, não teria outra oportunidade para fazer isso.

Duas horas depois, ele envia o trabalho para o seu orientador. Estralando os dedos, entende por cumprida a sua última missão do dia. Nega-se a abrir suas redes sociais, pois não quer perder tempo, mas aproveita para dar uma olhada em seus e-mails. Entre dezenas de mensagens, uma em especial lhe chama a atenção: um curso gratuito de economia solidária na própria universidade na qual ele faz seu mestrado, com duração de apenas duas semanas. Curioso, preenche um formulário e se inscreve no curso. Não tem nada a perder, e o assunto lhe interessa.

Exausto, desliga todas as luzes, deita-se em sua cama e dorme profundamente, a fim de recuperar suas energias para enfrentar a mesma rotina de sempre, no dia seguinte.

De manhã, acorda com um certo incômodo. O despertador avisa insistentemente que é hora de levantar. Normalmente, ele salta da cama e rapidamente vai para o chuveiro, mas hoje ele apenas desliga o despertador e fica mais alguns minutos na cama, refletindo sobre sua vida.

Nestor mora sozinho em um apartamento confortável, relativamente próximo ao seu trabalho. Tem dinheiro guardado em várias aplicações. Nada lhe falta. Mesmo assim, parece que falta algo. Não tem família, poucos amigos, nenhum relacionamento sólido. Dedica-se exclusivamente a seu trabalho e estudos. Vez ou outra, vai a algum evento social da empresa, mas prefere seus gráficos do que ser obrigado a rir das piadas do tio do pavê da ocasião.

Relutante, vai ao banheiro, toma banho. Veste-se e vai para a cozinha, onde prepara uma torrada com café, enquanto escuta as notícias do dia. Na verdade, quase um repeteco das notícias que já havia assistido na noite anterior.

Antes de sair para o trabalho, dá mais uma olhada em seu e-mail. Havia uma resposta: sua inscrição no curso de economia solidária foi confirmada. A mensagem trazia mais informações, como o dia, hora e local da primeira aula. Bastava apenas levar um documento de identidade.

Nestor, já fechando a porta, se lembra que é quarta feira, dia da faxineira Jeruza. Rapidamente ele retorna e deixa o pote de ração para o Stevie em cima da mesa, para que ela não precise subir na escada. Desliga seu computador e sai para o restante de sua rotina diária.

Alguns dias depois, Nestor estaciona seu carro em uma vaga no pátio da universidade. Está atrasado. Dirige-se ao auditório do bloco E, onde algumas pessoas já esperavam pelo início do curso. O professor já estava se apresentando.

Nestor, um pouco atrapalhado, encontra uma cadeira vaga entre duas moças, logo na primeira fila. Pede desculpas e se apresenta:

- Olá, meu nome é Nestor.

- Boa noite, Nestor. Meu nome é Sofia – responde a loira.

- Boa noite. Eu sou a Amanda – responde a ruiva.

Eles prestam atenção à aula e, no horário do intervalo, descem ao refeitório para fazerem um lanche. Fazem amizade rapidamente, sem suspeitar, nem de longe, o quanto suas vidas iriam mudar a partir daquele momento.


Muito distante dali, há seiscentos e cinquenta anos terrestres, um simpático Grey chamado Palamedes está preparando sua mochila para a maior viagem de sua vida: uma jornada para conquistar um planeta de outro sistema solar, chamado Terra. Ele comenta com seu amigo Korgg:

-  Quero que arranquem meus oito dedos das mãos se esses Chefes forem capazes de preparar sua própria comida alguma vez na vida. Eles não são nada sem a gente. Nós temos que plantar, colher, preparar, cozinhar e servir a comida deles. Sempre. Não sabem nem descascar uma batata. Acho que não sabem nem o que é uma batata. Devem pensar que dá em árvores.

- Meu amigo Palamedes, sempre foi assim e sempre vai ser. Os Chefes mandam e os Greys obedecem. É a ordem natural das coisas desde que clonaram o primeiro Grey da história.

- Não me venha com esse papo entreguista, só porque você tem alguns privilégios. Você sabe perfeitamente que eles não ligam a mínima pra gente. Somos apenas massa de manobra. Somos cultivados por eles em laboratório como qualquer tipo de planta. Somos apenas clones de algum Grey puxa saco que eles elegeram como ideal para ser uma matriz. Olha só, eu e você temos exatamente a mesma pinta no mesmo lugar do cotovelo. Somos idênticos em tudo, menos, aparentemente, na inteligência.

- Bom, não se menospreze, meu amigo. Eu apenas aproveitei melhor as oportunidades que...

- Não foi bem isso que eu quis dizer. Está vendo? Falta inteligência até pra entender que eu te chamei de burro.

- Vamos parar com isso? Nem parece que você tem setenta e seis megaciclos¹. Já juntou tudo o que precisa? A Nave vai partir amanhã cedo.

- Preciso só pegar uma carga de fertilizantes no depósito. Já carreguei as sementes, os probióticos, os adubos naturais... ah, também preciso levar luvas extras, afinal, não sei quanto tempo vai levar essa viagem ao todo.

- Ramazor falou que serão dois megaciclos².

- Ramazor é uma anta. 

- Ele paga o seu salário.

- Tá vendo? Você defende os Chefes como se precisasse lamber as botas deles o tempo todo.

- Palamedes, você sabe que pode ter problemas com esse comportamento, especialmente em um confinamento de dois megaciclos sendo monitorado o tempo todo pelas teletelas. Tente não falar sobre isso com ninguém, ok?

- Eu sei muito bem em quem posso confiar, Korgg. Ou seja, ninguém, a não ser você e talvez mais um ou dois da Resistência.

- Se você chegar a falar a palavra "Resistência" dentro da Nave, eles vão alijar você ao espaço.

- Tá bom. Me ajuda aqui com esse fertilizante, são duas caixas cheias. Não deixe isso pegar fogo de jeito nenhum, senão não sobra nada da gente. Nitrato de Amônio é explosivo.

- Vai deixar sua mochila na cama?

- Ah, verdade. E a sua? 

- Já está no meu aposento, na G-48, já levei na oitena passada.

- SEU aposento! O que é que eu posso fazer para também ter um aposento individual, sem precisar sentir o fedor de mais vinte Greys que não tomam banho?

- Seja puxa-saco dos Chefes.

Palamedes solta alguns palavrões. Os dois entram em um ônibus espacial para levar suas coisas para a Nave G-48. Da janela do ônibus espacial, observam, pela última vez, seu planeta natal ficando cada vez menor. O vermelho vivo do planeta se confunde com o vermelho intenso da estrela Betelgeuse. Os dois sabem que jamais voltarão a ver seu querido lar novamente.


 1 - Os Greys usam sistema octonal de contagem, pois possuem quatro dedos em cada mão. B-Groot é o único planeta sobrevivente do sistema solar de Betelgeuse e atualmente está atrás da estrela, portanto nunca foi visto a partir da Terra. A estrela possui 1,2 bilhão de quilômetros de diâmetro, ou seja, se estivesse no lugar do Sol, sua superfície alcancaria Júpiter. B-Groot tem uma órbita semelhante à de Urano, com velocidade de 6,8Km/s, período orbital de 80 anos terrestres. Possui praticamente o mesmo tamanho da Terra. Sua rotação é idêntica à nossa, durando 24 horas, portanto, um ciclo é a mesma coisa que um dia. Uma oitena corresponde a uma semana de oito dias para eles. Um superciclo são quatro oitenas, o que corresponde a um mês de 32 dias. Um megaciclo são oito superciclos, ou seja, 256 dias terrestres ou 320 ciclos em contagem octonal. Um gigaciclo corresponde a uma órbita inteira ao redor de Betelgeuse, o que corresponde a 80 anos terrestres (100 em octonal), ou 29200 dias ou ciclos (36500 octonal), ou 912,5 superciclos (1140,62 octonal), ou 114 megaciclos (143 octonal). Portanto, Palamedes possui 76 megaciclos octonais, o que corresponderia a mais ou menos 67 anos terrestres. Os Greys possuem estimativa de vida muito mais longa que os humanos, chegando em média a 200 anos terrestres. Os Chefes possuem vida ainda mais longa, podendo passar de 500 anos.

2 - Betelgeuse fica a 650 anos-luz da Terra. Para uma viagem em dobra estelar demorar apenas dois anos para ser feita, a nave precisaria viajar perto de 325 vezes a velocidade da luz, o que corresponderia a uma dobra estelar nível 6, o que é considerado improvável dentro dos nossos conhecimentos atuais sobre a física, porém, totalmente possível se imaginarmos um buraco de minhoca em ambiente de singularidade, tecnologia dominada pelos Greys. Dessa forma, na nave teriam se passado apenas 2 anos, mas fora da dobra espacial teriam se passado os mesmos 650 anos.

Comentários

  1. Muito bom.... Oque eu posso falar........ Hummmmm......... Legal 😃👌

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