#006 - Lemann
Lemann está sentado à sua velha mesa de escritório, de carvalho, caprichosamente feita por ele mesmo há trezentos e cinquenta anos. Levanta seu olhar e observa atentamente os detalhes de sua sala, iluminada pelo fogo bruxuleante da lareira: souvenirs de viagens ao redor do mundo, estantes com milhares de livros em vários idiomas, protótipos de projetos que se tornaram grandes descobertas para a humanidade.
Ele
gosta de levantar muito cedo para ver o sol nascer, todos os dias.
Seu aparelho de som toca uma leve e animada sonata de Bach. Ele se
recorda de quando esteve com o próprio compositor, no ano de 1707,
em Mühlhausen, uma cidade da Baviera que mais tarde viria a fazer
parte da Alemanha. Na época, o jovem Johann Sebastian Bach mal
conseguia sobreviver com seu mísero salário como organista na
pequena igreja local. Lemann estava de passagem na cidade e foi
justamente a música oriunda da igreja que lhe chamou a atenção.
Ele entrou, assistiu a missa e, depois, fez questão de conhecer o
jovem músico, que estava trabalhando em uma composição nova, em
estilo rapsódico, uma novidade que estava incomodando as alas mais
conservadoras do clero: Tocata e Fuga em ré menor BWV 565. Os
clérigos argumentavam que a música era complicada demais para que
as outras pessoas pudessem tocar e acompanhar. Eles queriam melodias
fáceis, menos virtuosas e mais suaves, ao bom e velho estilo
gregoriano. Ademais, preferiam títulos igualmente mais fáceis de
lembrar, como “Ave Maria”, “Agnus Dei” e
“Angelus Domini”.
Bach confessou-lhe que estava
cansado, que pretendia mudar de emprego e desistir da música, pois
não o compreendiam, ganhava muito pouco e passava sérias
dificuldades. Lemann se recorda de ter dito ao jovem virtuoso que
aquela cidade era pequena demais para o talento dele e que ele
precisaria buscar centros maiores para poder desenvolver todo o seu
potencial. Usou então de sua influência junto a alguns fidalgos
maçons da região e conseguiu um excelente emprego com um ótimo
salário para o jovem em Weimar, cidade-província próxima, muito
bonita e muito próspera.
Lemann suspira, com saudade e
satisfação. Afinal, ele ajudou a garantir as condições e
oportunidades para que aquele jovem órfão franzino e rebelde se
tornasse um dos maiores compositores da história. Quem sabe, sem a
sua ajuda, ele teria desistido da música e o mundo jamais conheceria
o seu talento.
Obviamente, Lemann não é uma pessoa
comum. Ele tem dois mil e trezentos anos de idade, não envelhece e
nem adoece. Quando tinha cerca de quarenta anos, foi iniciado como um
Essênio e passou a viver nas cavernas do Egito, onde tornou-se um
dos mais notáveis membros da fraternidade. Lá ele conheceu a
fórmula do Elixir da Vida Eterna: a água pura de uma cachoeira
existente na mítica cidade de Shamballah, trazida em vasos de barro
por discos voadores e bebida diariamente na cerimônia matinal da
congregação.
Quase trezentos anos depois, recebeu e
iniciou aquele que seria o mais brilhante entre todos os seus alunos:
um simpático, bondoso, subversivo e ultra-questionador adolescente
chamado Jesus de Nazaré.
Mais tarde, tornou-se membro de
uma Ordem Secreta. Tão secreta que não há nenhum registro dela, em
nenhum lugar. Em determinado período, a Ordem mantinha complexas
doutrinas ritualísticas herdadas dos Essênios, mas, aos poucos, foi
abandonando seus símbolos e liturgias, tornando-se uma fraternidade
extremamente minimalista, dispensando praticamente todos os tipos de
rituais. Seus símbolos e parte de seu conhecimento foram sendo
incorporados por outras linhagens filosóficas, como a Maçonaria e o
Ocultismo, mas nenhuma delas conseguiu manter viva, em sua total
integridade, o Conhecimento Original. Lemann esteve pessoalmente em
reuniões com o próprio Jacques Demolay e com Helena Blavatsky, duas
notáveis pessoas com quem desenvolveu grande amizade.
No
passado, eram chamados de Mahatmas, mas resolveram abdicar desse
nome. Afinal, “mahatma” quer dizer “grande alma” e
eles compreendiam perfeitamente que indivíduos diferentes não podem
ser “grandes almas”, pois a Grande Alma é única.
A
Ordem também foi, aos poucos, reduzindo seu número de integrantes.
Durante a Santa Inquisição Católica, no século XII, vários
membros foram caçados, presos, torturados e queimados vivos na
fogueira, sob acusação de heresia e bruxaria. Eles foram cruelmente
perseguidos, precisaram se esconder e a Ordem foi considerada
extinta. Desde então, vivem e agem em segredo absoluto, mudando-se
constantemente, por vezes vivendo como nômades e até como
indigentes, para não levantarem suspeitas.
Assim, Lemann
aproveitou sua vida para visitar todos os lugares do mundo. Ele morou
em praticamente todos os países e conheceu quase todos os idiomas
falados na Terra. Dominou várias ciências e chegou a tornar-se um
alquimista, quando conheceu e trabalhou com Nicolas Flamel, no século
XIV. Até ajudou-o a editar o livro Sumário Filosófico, publicado
em 1409, um ano após a morte de sua amada esposa. A dor da perda de
sua amada foi tão grande que, a partir de então, resolveu viver
confinado no Tibete, mantendo o mínimo contato com outras pessoas.
Talvez pelo tamanho de sua dor, na época, Lemann abriu mão da
co-autoria e pediu a Flamel que seu nome jamais fosse citado na obra.
Somente a partir de 1850 voltou a fazer algumas pequenas
peregrinações e tirou algumas licenças para ampliar seus
estudos.
O simpático senhor de barbas grisalhas suspira
novamente, ergue-se de sua cadeira e vai até a janela. No horizonte,
o sol começa a iluminar e colorir os telhados de Lhasa com seus
exuberantes tons dourados e vermelhos. Ao longe, o som de centenas de
tambores e das longas trombetas tibetanas saúda o nascer do dia. Ele
sorri, emocionado, abre seus braços e recita um antigo mantra de
saudação ao Sol, cujo significado literal foi há muito
esquecido.
Calmamente, vai até a sua estante e pega o
manuscrito original do Sumário Filosófico, ainda em sua posse.
Senta-se novamente à sua mesa e começa a folhear o pequeno livro,
observando páginas onde a grafia de Flamel divide espaço com a sua
própria. O texto em questão, escrito em francês arcaico, é um
resumo sobre o trabalho alquímico, comparando metaforicamente
elementos naturais com as práticas filosóficas para alcançar uma
vida perfeita, saudável e longa. Ele se detém em um trecho que
compara o sol com o homem e a lua com a mulher, o chumbo com uma vida
mundana e o ouro com uma vida valiosa e digna de ser vivida. O
mercúrio significa o trabalho da alquimia sexual e, segundo o livro,
é por meio da purificação com o mercúrio que se chega à Pedra
Filosofal, elemento essencial para transformar o chumbo em ouro.
Lemann se recorda dos trechos que foram de sua autoria, especialmente
aqueles que falam de uma árvore dando frutos: se a árvore estiver
em local com pouco sol e nutrientes, dará frutos fracos, mas mesmo
que a árvore esteja em pleno sol e solo fértil, se o fruto for
colhido antes da hora não alcançará o melhor sabor. Na verdade,
essa metáfora quer dizer que aquele que busca tornar-se uma pessoa
melhor deverá estar em local adequado para isso, nutrir-se de
conhecimento, ter uma vida correta e fazer diligentemente as práticas
alquímicas. Os processos para transformar uma “vida de chumbo”
em uma “vida de ouro” incluem o calor (esforço e energia), a
pressão (persistência, adversidades) e a contínua adição de um
pouco de ouro na mistura (estar próximo a pessoas que já tenham uma
“vida de ouro” e estudo incessante) e, principalmente, criar a
“Pedra Filosofal” com o correto uso do mercúrio (alcançar o
Conhecimento Original usando a Alquimia). Uma linguagem simbólica
cheia de profundos e valiosos significados. Como ele tem mais de dois
mil anos de idade e vive em plena paz e felicidade, pelo que tudo
indica, parece que o processo funcionou. Ele transformou o chumbo em
ouro.
Falando em ouro, com tanto tempo de vida, Lemann fez
alguns investimentos, distribuídos em vários países. Foi consultor
de reis e imperadores e professor particular de seus respectivos
filhos. Soube aproveitar a época de ouro da Rota da Seda, fazendo
grande fortuna com o comércio de especiarias, acumulando enorme
patrimônio em ouro puro, guardado e usado com sabedoria. Comprou
imóveis por todos os países, vendendo-os centenas de anos depois
com uma imensa valorização. Hoje, os aluguéis de seus imóveis e
os rendimentos de seus investimentos lhe permitem uma vida muito
confortável e sem preocupações. Vive na serenidade de seu lar,
fazendo suas pesquisas, auxiliando professores de várias
universidades ao redor do mundo e colaborando ativamente para a
manutenção da Paz Intergalática.
Ainda manuseando o
livro, vira uma página, com uma gravura mostrando o Portal de
Salomão de Jerusalém, com dois pilares, protegidos por dois
Guardiões: Boaz e Jaquim. Esse portal, na verdade, simboliza os
Portais de Agartha (O Grande Continente na quarta dimensão). Então,
Lemann se recorda de um dos episódios mais importantes de sua vida:
durante milênios, os portais de Agartha estiveram abertos ao livre
contato com os humanos, mas como a civilização humana ainda se
encontrava em um estágio muito primitivo e passou a dominar
tecnologias bélicas muito poderosas, no fatídico ano de 1533 os
humanos invadiram e destruíram a cidade de Ethoria 27, causando
muitas mortes e perdas inestimáveis. O Conselho decidiu restringir o
acesso aos portais e a Ordem recebeu uma incumbência muito
importante: a partir de então, eles seriam os Doze Guardiões de
Agartha, responsáveis por proteger os doze portais que levam às
redes de túneis que conectam a Terceira Dimensão com a capital
Shamballah e com as quarenta e nove cidades de Ethoria, as cidades
protegidas por leis interplanetárias onde todos os povos do Universo
podem conviver em harmonia, segundo princípios éticos aceitos e
adotados por todos.
Hoje, os Doze Guardiões são: Lemann,
Melquisedeque, Tales de Mileto, Aryabhata, Jesus, o Conde de Saint
Germain, o lendário mago Merlin, os extraterrestres Eloaton e
Krzovv, Helena Blavatsky, Fulcanelli e o próprio Nicolas Flamel.
Sim, todos eles estão vivos até hoje.
Como em 1533
Lemann estava justamente morando em Lhasa, no Tibete, que possui a
entrada secreta para a capital de Agartha, Shamballah, ele ficou
responsável por guardar esse acesso, que é o mais importante de
todos. Construiu sobre a entrada uma casa que não levanta nenhuma
suspeita: externamente, é apenas uma simples casa de pedra comum,
como quase todas as casas do Tibete, de difícil acesso, afastada das
áreas urbanizadas, ancorada em uma parede rochosa, quase se
confundindo com a própria rocha e que, por vezes, fica parcialmente
soterrada pela neve. Mas, por dentro, é ampla, quente, agradável e
bem arejada. Ninguém vai para Shamballah ou volta sem seu
conhecimento e permissão, afinal, para entrar ou sair do túnel é
necessário passar pela sua casa, pela pequena muralha de pedra com
um metro e meio de espessura que protege a entrada e por certos
encantamentos mágicos que a tornam ainda mais invisível.
Lemann
gosta muito de ficar em seu lar e procura sair o mínimo possível,
afinal, ele prefere buscar seus mantimentos na cidade dourada de
Shamballah do que enfrentar o frio quase insuportável do Tibete e os
oito quilômetros de caminhada por uma trilha íngreme na montanha
até a mercearia mais próxima. Uma vez por semana vai ao Palácio de
Shamballah para participar do Conselho da Paz Intergalática (quando
aproveita para buscar seus mantimentos). A cada seis meses, participa
também da Reunião dos Guardiões. Apesar dos Guardiões se reunirem
somente uma vez a cada seis meses, estão todos constantemente
conectados por meio telepático. Desenvolvem, compartilham, preservam
e protegem, juntos, os maiores conhecimentos sobre o Universo e sobre
a própria humanidade.
Agora, pare para pensar: imagine
que você é uma pessoa que não envelhece e que pode viver
eternamente, desde que seu corpo físico não sofra nenhum dano
letal. O que você faria? Continuaria trabalhando feito uma
engrenagem de um grande sistema? Acumularia patrimônios? Teria
muitos relacionamentos? Viveria bêbado, em bares e tavernas?
Viajaria por todos os lugares do mundo?
Lemann, assim como
os outros Guardiões, passou sua vida inteira estudando tudo o que
poderia estudar e desenvolvendo os mais diversos talentos, como
música, pintura, literatura, poesia, culinária e até marcenaria.
Teve tempo para se formar em filosofia, biologia, medicina,
estratégia, direito, física e química. Tem vários doutorados.
Hoje, ele se maravilha com a tecnologia alcançada pelo homem, com
máquinas incríveis, computadores, internet e um acervo de
informações tão grande que nem mesmo um imortal poderia conhecer
em sua totalidade. Mas ele sabe que o conhecimento atual da
humanidade não chega sequer próximo do Verdadeiro Conhecimento. O
homem conseguiu juntar milhões de yottabytes de dados em seus
computadores, porém, perdeu o Conhecimento mais essencial, o Saber
Fundamental, a Pedra Filosofal. A conexão com a Natureza Primordial.
A arte de conversar com as árvores, rios, nuvens, pedras e todos os
seres vivos, manifestos ou imanifestos, afinal, tudo o que existe é
desdobramento de uma única e mesma Natureza. Se a humanidade tivesse
um mínimo fragmento desse conhecimento, não haveriam guerras e o
planeta seria maravilhosamente próspero e pacífico. As pessoas
estariam completamente livres da dominação reptiliana, pois não
teriam mais medo, ganância ou raiva, fragilidades usadas pelos
reptilianos para a manipulação e dominação da humanidade. Como os
reptilianos sabem disso, perseguem todos os que tentam divulgar esses
saberes, e é justamente por isso que a Ordem sempre precisou ser tão
secreta.
Por outro lado, todos aqueles que despertam a sua
Natureza Primordial percebem claramente como os seres vivem
deludidos, transitando como zumbis no mundo e acreditando nas
histórias criadas pelas suas próprias mentes, sem poder perceber a
realidade como ela é. Como a caverna de Platão, as pessoas
acreditam nas sombras e não conseguem sequer imaginar o mundo fora
da caverna de suas mentes. Os seres despertos, que conseguem ver,
fazem naturalmente os votos para libertar todos os seres dessa
delusão, afinal, se todos os seres estivessem despertos, seria o
verdadeiro paraíso na Terra.
Lemann refaz esses votos
todos os dias em sua saudação ao Sol: "Que todos os seres
estejam livres do sofrimento, que superem as verdadeiras causas do
sofrimento, que encontrem a felicidade e as verdadeiras causas da
felicidade. Que todos os seres tenham vida, que todos os seres tenham
saúde e prosperidade, que todos os seres vivam em paz".
Enquanto
observa seu confortável escritório e folheia seu livro, percebe que
alguém está tentando se comunicar telepaticamente com ele. Logo
reconhece a mensagem de Eloaton: ele está vindo, acompanhado de
Nestor e Sofia, para fazer um treinamento em Shamballah. Lemann se
alegra, com indisfarçável ansiedade. Tem grande saudade de seu
amigo pleiadiano, que não vê há alguns meses. E ele espera por
esse encontro há muito, muito tempo.
Recuperando a calma,
respira e sorri. Responde dizendo que os aguarda. Mas pergunta:
-
Ela sabe?
Eloaton responde:
- Ainda
não.
Lemann fecha seu livro e, com um sorriso enorme nos
lábios, levanta-se e vai para a cozinha, preparar um chá com
torradas para seus convidados.
A vinte e dois bilhões de quilômetros da Terra, nos limites da heliopausa, uma anomalia gravitacional gera uma gigantesca explosão de microondas: é um portal do tipo "buraco de minhoca", do tamanho de uma lua, que se abre. Horas depois, uma nave-mãe em formato cilíndrico atravessa esse portal a uma velocidade de dobra espacial 6, contendo milhares de destroyers, milhões de naves de ataque e quinhentos milhões de tripulantes Greys. A nave levou apenas dois megaciclos para fazer a travessia, enquanto aqui, fora do buraco de minhoca, passaram-se mais de seiscentos e cinquenta anos. O colossal veículo imediatamente reduz para velocidade de cruzeiro, ativa a invisibilidade e começa discretamente a entrar no Sistema Solar, rumo a um pálido ponto azul, cheio de vida, água e metais preciosos, chamado Terra.
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