#009 - Krzovv

Nestor tenta acompanhar os passos do gigante Eloaton. Eles deixam o prédio de alojamentos e atravessam uma avenida imensa, muito larga, com um passeio central e ricamente ornamentada por todos os tipos imagináveis de flores em toda a sua extensão. Um colorido formidável que preenche a atmosfera com um inebriante perfume de flores frescas.

- Nossa, nunca vi tantas flores na vida!

- São flores trazidas de diversos lugares da galáxia. Por isso são tão diferentes - explica Eloaton.

- Essas ruas são calçadas com pedras. Não se usa asfalto ou algo parecido aqui em Shamballah?

- Sim, a maioria das estradas e ruas são cobertas com um revestimento que chamamos de ultrapiso. É um material poroso, extremamente duro e resistente, capaz de aguentar cargas de centenas de toneladas sem se deformar ou quebrar. Permite a passagem da água, é fácil de aplicar e dá pra fazer em casa, com um balde, uma pá e um pouco de água. Apesar de ser muito duro, é fácil de ser removido, bastando despejar ácido gálico nele. O ácido causa uma reação química que transforma o piso em uma mistura parecida com a cal hidratada com enxofre, que pode ser usada até como corretor de acidez de solos na agricultura.

- Ou seja, se aplicar o produto no ultrapiso, espera ele derreter, junta com pá e joga na horta?

- Mais ou menos isso. Teremos muitas oportunidades para ver o ultrapiso, afinal, ele é usado em praticamente todas as estradas. Esta avenida aqui foi uma das primeiras a serem construídas em Shamballah. Devido à sua incrível beleza natural, decidiu-se manter a sua pavimentação original de pedras basálticas polidas. Bem, chegamos.

O prédio em que Eloaton e Nestor entram é imenso. Seu formato lembra as pirâmides astecas, com vários degraus. As paredes são de pedra, em blocos de mais ou menos um metro cada uma, aparentemente sem usar argamassa. A entrada é um imenso portal de sete metros de altura, com uma porta de vidro cheia de adornos. Ao entrar, Nestor não consegue evitar a exclamação de um palavrão bem conhecido quando nos deparamos com algo absolutamente fantástico.

- Desculpe, Eloaton, saiu sem querer.

- Nenhum problema, Nestor. Entendo perfeitamente.

O andar térreo tem dez metros de altura. Todas as colunas internas são de pedra, tão lisas e polidas que parecem ser uma peça só. Todas as paredes, colunas, tetos, mobília, tudo é fantasticamente adornado por enfeites em ouro maciço. No chão, tapetes de seda com desenhos tão incríveis que fariam os melhores e mais tradicionais fabricantes de tapetes persas da Turquia morrerem de inveja. Do portal de entrada até o fundo do prédio, um trilho composto por ladrilhos de três tonalidades de ouro, compondo um mosaico inacreditável, protegido por uma fina camada de algum tipo de resina ou verniz.

- Eu estou caminhando em cima de milhões de dólares em ouro puro! - Exclama o incrédulo Nestor.

- Para nós, são apenas ladrilhos, bem montados e com fino acabamento. Venha, estamos chegando.

No final do trilho, três opções para subir aos andares superiores: uma rampa à esquerda, umas portas em mármore e vidro que aparentemente seriam de elevadores ou algo semelhante no centro, e uma escadaria de madeira em estilo art déco, parecida com a do filme Titanic, à direita. Eloaton prefere a rampa, circular, com corrimões de madeira e ouro, e piso com um material que chamou a atenção do Nestor:

- Isso aqui que é o tal de "ultrapiso"?

- Ah, sim, exatamente. Essa rampa é toda feita em ultrapiso.

- Se derramar o tal ácido gólico ela derrete toda?

- Ácido gálico. Sim, pelo menos uma boa parte dela. A vantagem é que dá para reconstruir ela toda em questão de duas horas.

Nestor se espanta. No Brasil, para restaurar uma escadaria daquelas em concreto levaria pelo menos uns dois meses, custaria uma fortuna e dois terços do valor seriam desviados para o bolso de algum deputado.

- Chegamos ao piso superior. A sala do Krzovv fica logo aqui ao lado. Venha, ele está nos esperando.

O largo corredor do andar superior é todo forrado com um tapete vermelho, rodapés em ouro. As paredes todas revestidas com mármore. A iluminação provém de dezenas de pequenos candelabros de cristais coloridos, pendentes do teto, que deve ficar a uns cinco metros de altura. As portas, todas de madeira grossa, provavelmente de carvalhos muito antigos, com maçanetas em bronze. Eloaton segue até a terceira porta do lado esquerdo, a que tem uma placa de metal negro com uma inscrição em ouro branco, em um idioma desconhecido para Nestor, e um símbolo acima da inscrição: uma estrela de cinco pontas, em pé, dentro de um círculo, com doze pétalas ao redor.

- Ei, eu já vi esse símbolo em algum lugar... Acho que foi em algum sonho.

- Pode ser, Nestor. Esse é um símbolo secreto. No momento oportuno eu posso explicar a respeito dele. Venha, entre.

Os dois entram em uma sala azul índigo, com poucas mobílias brancas. De trás da mesa, ergue-se um majestoso ser com pele azul, tão alto quanto Eloaton, com cabeça em formato que lembra um golfinho. Em passos ágeis e movimentos leves e circulares, ele rapidamente se aproxima dos dois. Eloaton faz as apresentações:

- Nestor, quero lhe apresentar Krzovv Eyzzykrd, o siriano que vai lhe ensinar sobre estratégia, espionagem e outros temas correlatos. Krzovv, este é meu amigo Nestor.

- Olá, senhor... Korzoff? Desculpe, não consegui decorar seu nome ainda.

- Saudações, caro humano. Seu nome também tem vogais demais para mim... É Nstorrk, isso?

- Nestor.

- Krzovv. Em breve decoraremos o nome um do outro. Você deve imaginar o quão difícil foi, para mim, decorar o nome do Eloaton, não é?

Eloaton ri, explicando:

- Ele demorou anos para conseguir falar meu nome. Os sirianos quase não usam vogais, a comunicação deles é praticamente só ruídos, assobios e estalos, as cordas vocais deles são muito diferentes das humanas. Bem, como vocês precisarão se encontrar muitas vezes para que Krzovv possa lhe passar um pouco do seu conhecimento e experiência, certamente terão oportunidade para se familiarizarem com os sotaques.

- Será um prazer contribuir com um pouco do meu conhecimento, meu amigo dourado - Krzovv parece fazer uma saudação, inclinando-se para os dois.

- E você já pensou em uma forma didática para transmitir esse conhecimento ao nosso amigo Nestor, meu caro amigo azul?

- Ah, sim. Imagino ser suficiente termos um encontro de uma hora por semana. Eu vou passar um tema para o Nestor pesquisar, se aprofundar, exercitar, praticar e trazer os resultados para minha análise na semana seguinte. Havendo dúvidas, ele pode me chamar na teletela a qualquer momento. Pode ser assim, meu caro amigo rosado?

- Claro, estou bem acostumado com essa metodologia. Já temos algo para estudar neste encontro?

- Certamente. Vamos começar com o estudo de um livro escrito por vocês, humanos, um livro bem introdutório, mas muito bom. Vai servir para nos conhecermos melhor e iniciarmos os estudos com algo que você conhece, criado pela sua própria civilização.

- Que livro?

- "A Arte da Guerra", de Sun Tzu. Tem tradução para quase todos os idiomas da Terra. Você deve lê-lo, destacar as citações que achar mais interessantes, fazer um resumo com suas palavras e usar os conhecimentos do livro em alguma situação prática durante a semana. Faça um relatório e me traga na próxima aula, daqui a sete dias, neste mesmo horário, combinado?

- Combinadíssimo. Na verdade me parece até fácil demais. Acho até que já li esse livro.

- Então, se você o achou fácil demais, é porque ainda não o entendeu. Leia-o novamente até entender. Leia e releia. Tente entender, em cada parágrafo, qual foi a verdadeira intenção do autor. Estude o livro como se disso dependesse sua própria vida.

- Eu estudarei. Depois desse, qual será o próximo?

- "O Príncipe" de Maquiavel. Mas recomendo fortemente que você se dedique inteiramente a ler e entender perfeitamente esse primeiro, pois ele é muito mais profundo do que parece ser, à primeira vista. Não se iluda com seu tamanho. Ele é pequeno, mas esconde um vasto conhecimento.

Eloaton atravessa a conversa:

- Muito bem, sou muito grato, Krzovv. Agora vamos voltar, Nestor? Lemann e Sofia nos aguardam.

- Mas acabamos de chegar, e eu nem fui para o alojamento ainda... e onde encontro o livro?

- Aquele enorme prédio redondo ali adiante é a Grande Biblioteca Universal. Nela você vai encontrar todos os livros escritos, em todos os idiomas, de todos os planetas que fazem uso da escrita. Precisamos alinhar os detalhes com o Lemann, pois ele ficará responsável por você e pela Sofia nos próximos dias. Além disso, não podemos tomar muito o tempo do Krzovv. Ele é um dos responsáveis por tentar evitar a guerra interestelar que se aproxima. Ele conseguiu evitar, com suas manobras nada convencionais, que os reptilianos destruíssem um dos planetas habitados do sistema estelar de Sirius.

- Sério? E quando foi isso?

- No mês passado. Os reptilianos e cinzas estão constantemente nos trazendo dores de cabeça, em quase todos os sistemas estelares habitados da galáxia. Vários mundos já foram destruídos, várias civilizações desapareceram, mas eles não desistem. Neste último caso, Krzovv infiltrou um informante entre os reptilianos e os convenceu a explorar um outro planeta, desabitado, que tinha muito mais recursos para retirar do que o planeta que ia ser atacado.

- Nossa, mas e quando eles perceberem que foram enganados?

O próprio Krzovv responde:

- Bem, na verdade eles não foram enganados. O planeta em questão realmente tem uma quantidade maior dos recursos buscados pelos reptilianos: ouro, carbono e energia. Isso os manterá ocupados por um bom tempo e, assim, evitamos a destruição de uma civilização inteira.

- Entendi. Então, caro amigo azulado, muito obrigado por sua atenção e semana que vem prometo lhe trazer bons resultados.

- Tenho certeza que sim, meu caro amigo rosado. Não esqueça: se precisar, basta me chamar pela teletela. Eloaton, depois preciso conversar com você.

Os três se despedem com o tradicional cumprimento de mãos postas. Eloaton e Nestor saem do prédio e atravessam a avenida das flores. Eloaton mostra como chegar à biblioteca. Em seguida, os dois entram no disco voador.

- Mas já está escurecendo e deixei minha mochila no alojamento...

- Não se preocupe, Nestor. Estaremos de volta em menos de uma hora.

A nave suméria, lentamente, ergue-se sobre a majestosa cidade dourada de Shamballah, com seus telhados refletindo as tonalidades vermelhas, laranjas e amarelas do pôr do sol. Parecia que a cidade inteira estava pegando fogo.

- Esse é o pôr do sol mais fantástico que já vi na vida!

- Há poucos dias você pensou o mesmo sobre o pôr do sol de Ethoria 27b.

- Foi a Sofia que falou, não eu...

- Mas você pensou. Ela apenas falou antes.

Nestor ainda tentava se acostumar com o fato do Eloaton conseguir ler pensamentos. Os dois seguem lentamente em direção ao túnel incrustado na parede rochosa ao lado da imensa cachoeira da Vida Eterna.

- Se eu jogar a água desta cachoeira em cima de um monte de dinheiro, vou ter dinheiro eterno?

- Não, Nestor.

- E se eu molhar uma videira com essa água, vou ter vinho eterno?

- Não, Nestor.

- E se eu casar com alguém dentro dessa cachoeira, será um casamento eterno?

- Não, Nestor.

- E se...

- Nestor, cale a boca e dirija.

- Sim, senhor! - Nestor bate continência e segue lentamente no mesmo percurso. Pouco depois, os dois caem na gargalhada.


O som do alarme com luzes vermelhas piscando ecoa por toda a Nave. Toda a tripulação ativa deve se dirigir a seus aposentos individuais e lá permanecer por cinco ciclos.

- Depois desta quarentena, vou querer todo o meu dinheiro de volta - reclama um dos tripulantes com outro, seu amigo.

- Eu também. Perdi o soldo de três meses, e isso não vai ficar assim. Os chefes fazem o que querem com a gente. Eles não se preocupam conosco, vivem em um mundo paralelo. Quem eles pensam que são para cancelar um campeonato de deathball, só porque um imbecil qualquer disse que era para fazer uma quarentena? Eu ouvi dizer que foi o Rekkar, o maldito, quem espalhou esse boato. Ele deveria ser desintegrado!

- Pois é. E você viu alguém com diloraminose?

- Não vi ninguém. Seria bem fácil de ver, afinal a pele fica azul. É claro que o maldito inventou essa tal doença aí, só para cancelar o campeonato e dar um jeito de ficar com todo o nosso dinheiro!

- Pois eu penso da mesma forma. Vamos manter contato pela teletela durante a quarentena. Vamos  descobrir como é que ele conseguiu armar isso pra gente, e quem mais está com ele.

- Boa ideia. Vamos fazer um grupo, com o máximo possível de tripulantes. Logo descobriremos tudo. Eu quero alijar pessoalmente esse miserável ao espaço.

- Então vamos apertar o botão juntos, pois eu também quero. Só não podemos deixar que um Chefe entre no grupo, pois o Rekkar é protegido dos Chefes. Não sei por que os Chefes protegem tanto esse cara. Ele deveria ter morrido junto com todos os Greys traidores de Arakenth.

- De jeito nenhum, não deixaremos nenhum Chefe entrar no grupo, senão nós seremos condenados por motim. O maldito se safa, fica com o nosso dinheiro, enquanto os Chefes nos alijarão ao espaço e, em seguida, acordarão alguns outros tripulantes em animação suspensa para nos substituir, simples assim.

- É, nós não valemos nada para os Chefes. Não temos importância alguma, somos facilmente substituíveis.

- Queria saber quem foi que inventou essa regra de que um Grey deve sempre obedecer a um Chefe.

- Nos ensinam isso desde que nascemos. Funciona assim em todo o Universo, mas também nunca concordei. Só porque está escrito em um Livro de um milhão de anos atrás. Pode me chamar de herege, mas eu não concordo, nunca concordei. E não fale para ninguém, senão eles me vaporizam na frente de todo mundo, como sempre fazem.

- Eu é que não falo nada, porque também concordo contigo. Chegará um dia em que os Greys estarão livres dos Chefes! E queimaremos esse maldito Livro para que nenhum Grey jamais seja escravo de um Chefe novamente!

- É isso mesmo! Liberdade para os Greys!

- Estamos chegando na minha cela. Esqueci da ração, você tem?

- Está com sorte, peguei duas. Fique com uma.

- Obrigado. Fique com essas batatas. Detesto batatas. Tem um pouco de psilocybe aí?

- Você é louco de perguntar isso aqui nos corredores? Alguém pode escutar. Tome, tenho três pacotes, fique com um, mas você me deve dois Quaarks.

- Pago assim que chegar na minha cela. Ninguém mais tem psilocybe e eu é que não vou ficar cinco ciclos contando as luzes do teto. Bem, essa aqui é minha cela. Até mais, logo entro em contato.

- Até mais, são só cinco ciclos, passa rápido. Vou aproveitar para assistir o campeonato de deathball de Epsilon Eridani, os caras são muito bons lá. Boa quarentena, e pega leve no psilocybe.

Comentários