#004 - Julio
- O que foi, Cão?
Júlio levanta seu chapéu e procura ver, ao longe, para quem ou o quê seu cão pastor está latindo. Como não vê nada de estranho, volta a se concentrar em seu trabalho.
- Em vez de ficar latindo pro vento, você poderia me ajudar aqui com essas pedras.
O rapaz volta a pedalar sua bicicleta, adaptada a uma broca. Cuidadosamente, abre um minúsculo furo em uma gema de amazonita.
- Pronto, esta é a última.
Após polir a pedra com cuidado, passa um fio encerado e a prende no colar que estava fazendo. Termina de fazer os nós, fixa as presilhas e ergue o colar, observando cada detalhe.
- Este aqui ficou bom por demais da conta. Quanto você acha que vale, Cão? Sessenta reais? Setenta?
Cão inclina a cabeça e olha para o humano, com aquela típica expressão canina de quem não está entendendo uma palavra sequer.
- Bem, vou guardar essa bugiganga aqui e vamos sair para catar lenha. Já está ficando escuro. Vem comigo, fedorento?
O peludo late, abanando o rabo. Os cães entendem certas palavras, como “vem”, “sai” e “pega”. E qual é o cão que não gosta de um passeio no mato?
Júlio fecha a porta da sua cabana, pega o facão e o machado e vai buscar alguns galhos para fazer fogo, acompanhado de perto pelo seu fiel companheiro de quatro patas. O caboclo resolve mudar seu trajeto costumeiro e seguir por um velho caminho, beirando um precipício. Uma estrada abandonada que ele quase nunca percorre.
- Faz maior tempão que não venho aqui. Deve estar apinhado de galho seco no chão.
De fato, poucos passos adiante, Júlio encontra uma certa abundância de lenha. Ele junta uma braçada de galhos, pega as suas ferramentas e começa a voltar para casa, pois já está escurecendo. Repentinamente, Cão fica parado, olhando para algum ponto e começa a latir sem parar.
- Que foi dessa vez, Cão? Tá vendo algum bicho? O que é que... Minha nossa!!! Que diacho que é isso???
A poucas centenas de metros à frente, junto ao desfiladeiro, umas luzes surgem no céu, se movendo lentamente. São como bolas de fogo, de cores diferentes, em formação triangular, piscando e subindo, juntas, devagar, até cerca de um quilômetro de altura. As luzes se juntam e aumentam de intensidade, com um zumbido forte. De repente, em uma velocidade estupenda, desaparecem no horizonte.
Júlio fica ali, parado, estupefato, sem saber o que fazer e sem acreditar no que tinha visto. Tenta ver mais alguma coisa, mas as luzes e o zumbido simplesmente sumiram. O pastor não para de latir. Então, Júlio recolhe os galhos que tinha deixado cair, segura seu chapéu, chama seu cachorro e volta correndo para casa.
Assim que entra na cabana, tranca todas as portas e janelas. Pega sua espingarda da parede, carrega dois cartuchos, apaga as luzes e fica ali, sentado à mesa, em vigília, enquanto Cão dorme a seus pés, como se nada estivesse acontecendo.
Mas, afinal, o que era aquilo que Júlio viu? Ele não sabia. Planeja voltar lá, no dia seguinte, porém, o caboclo sabe muito bem que aquele desfiladeiro é muito íngreme e descer ali pode ser muito perigoso. É melhor não ir sozinho. Então, lembra de uma pessoa que entende muito bem de escaladas e que, certamente, poderia se aventurar a descer com ele.
No dia seguinte, o sol desponta no horizonte, colorindo o céu do cerrado com tons alaranjados. Júlio carrega seu velho jipe com alguns sacos, cheios de colares e enfeites de pedra para vender. Dessa vez, resolve levar a espingarda junto. A cada minuto, torna a olhar na direção do desfiladeiro para ver se as luzes voltam.
- Que eu saiba, boitatá dá no chão. Sei lá que diabo foi isso - comenta com o Cão, que levanta uma orelha e responde com aquela mesma cara de quem não entende nada.
- Fica aí e cuida da casa! Eu volto na noite de sexta feira - ordena. O pastor alemão parece entender, senta e se mantém vigilante, até o jipe desaparecer na estrada esburacada.
Em poucos minutos, a tal estrada esburacada de terra dá lugar a uma estrada esburacada de asfalto, e logo chega em Alto Paraíso, onde encosta em um posto para abastecer.
- Ainda não guincharam teu jipe, Zé?
- Não dá pra guinchar o que eles não enxergam, meu amigo. Meu nome é Júlio. Tem telefone aí? Eu estou sem crédito.
- Tem não. Milagre já é ter gasolina.
Minutos depois, o jipe estava sobre a rodovia GO-118, rumo a Brasília, onde chega duas horas e meia depois. Júlio segue para o zoológico, local onde costuma montar sua pequena barraquinha para vender seus artesanatos. Ele deixa o jipe escondido no local de costume: uma pequena casinha de apoio escondida no meio do mato, numa estradinha de terra quase desconhecida entre Candangolândia e o Zoológico, junto à nascente do Lago Paranoá. Geralmente ele fica nesse barraco uns três dias por semana, pois Brasília é um pouco longe de sua cabana na Chapada dos Veadeiros e seria inviável ir e voltar todos os dias. Ele fecha a casa, caminha cerca de cem metros, entra pelos fundos do Zoológico e logo chega ao Museu de Ciências Naturais, perto do Serpentário, onde se instala e estende suas coisas. Ele não sabe por que, mas aquele é o local de Brasília onde mais vende seus artigos, e também onde pode cobrar o preço mais alto.
Assim que se instala, pega seu celular e conecta na rede wi-fi privada dos funcionários do zoológico. Procura pelo telefone da Amanda e liga para ela:
- Oi, querida, tais bem?
- Júlio! - Amanda parece conversar com outras pessoas - Oi, Júlio, que saudades!
- Ô querida, não vou tomar muito teu tempo, depois falo melhor contigo. É o seguinte, ontem à noite apareceram umas luzes esquisitas lá perto da minha casa, coisa estranha mesmo. Boitatá não é, porque boitatá dá no chão. Eu acho que era tipo um OVNI ou coisa assim, não sei explicar.
- Ahan…
- Essas luzes apareceram lá perto de um penhasco. Eu queria ir lá ver o que é, se tem ET na minha terra ou que diacho que era aquilo, mas acho perigoso ir sozinho.
- Ahan…
- Queria saber se tu não queres vir lá em casa pra gente dar uma olhada melhor? Precisa ter equipamento pra descer aquelas paredes lá, e eu sei que tu tem as manhas da coisa. O que acha? Topas?
- Mas é claro que eu topo! Posso levar alguns amigos junto?
- Desde que não comam toda minha comida, pode sim.
- Sério? Uau, que legal! Vamos sim, com certeza. Depois te ligo para combinarmos melhor, ok?
- Tá bom, querida. Beijo pra ti.
- Beijo!
Júlio desliga o telefone e começa seu “expediente”, atendendo uma moça gótica vestida de preto da cabeça aos pés, que parecia ter passado graxa de sapato nos cabelos, perguntando se tinha uma pedra preta, mas bem preta.
- Pois tenho sim, dona moça. Dá uma olhada nessa aqui: é uma turmalina, bem redondinha. Ela está nesse colar de contas brancas, mas se você preferir eu posso colocar nesse outro de fio preto aqui, rapidinho.
- Quero sim! Quanto fica?
- Pra você eu faço por cinquenta reais, moça.
Pondr estava inquieto. Desde que a Nave G-48 havia entrado em dobra espacial, todos os sensores estavam dando respostas estranhas. Ele sabe que, em ambiente de singularidade, as coisas não funcionam muito bem. Mas essa insegurança de não poder saber o que estava acontecendo na Nave o deixava desconfortável.
- Onde está o Ruutz? - pergunta ao seu oficial de navegação.
- Ele está se sentindo mal, senhor. Foi até a enfermaria. Tem sintomas de diloraminose.
- Chame o Gorka para substitui-lo. Não quero nem pensar se Ramazor descobrir que falta um oficial na ponte de comando. Providencie elixir extra para todos os oficiais da ponte.
- Imediatamente, senhor.
- E na volta me traga uma salada de algas, por favor. Sem vinagre.
- Perfeitamente, senhor.
Pondr volta a tentar medir a potência dos reatores da Nave. Ele sabe que isso é inútil, mas não consegue relaxar. Um reator nuclear de fusão de trítio, se estiver sobrecarregado, pode simplesmente vaporizar a nave inteira, mesmo ela tendo o tamanho descomunal que tem. E se estiver com pouca carga, não conseguirá manter a dobra espacial pelo tempo necessário até chegar a seu destino. O reator também não pode sofrer danos maiores pois, durante a invasão, será essencial para o monitoramento dos drones de ataque, para a neutralização de qualquer contra-ataque terrestre e para todo o suporte de vida dos quinhentos milhões de tripulantes.
- Cassiapimba! - Xinga os sensores com um palavrão Grey bastante adequado.
- Rell'ir, tem alguma informação sobre a leitura das armas de defesa?
- A última confiável foi de antes de entrarmos em dobra espacial, senhor: mil e duzentos canhões de laser prontos e carregados, todas as antenas de guerra eletrônica funcionando, cinco canhões de plasma carregados com hidrogênio suficiente para derreter um planeta inteiro.
- E depois de entrarmos em dobra?
- Nenhum dado coerente, senhor.
Pondr levanta as mãos. Bem, não há o que fazer. Acaba relaxando e tenta acessar, em sua teletela, os resultados das eliminatórias do campeonato de deathball. Porém, nem isso consegue pois, em dobra espacial, não é possível receber nenhuma informação de lugar algum do Universo. Vencido, senta-se em sua poltrona e pega um hexágono mágico para resolver.
Comentários
Postar um comentário