#007 - Espionagem Telepática

 Ainda é madrugada, em Ethoria 27b, quando um disco voador sumério ergue-se a um quilômetro de altura.

As luzes noturnas emolduram o desenho de uma bela cidade com milhares de anos. Ao longe, a luz prateada da lua minguante delineia os contornos das montanhas e florestas. O ar frio e úmido embaça os vidros do disco, coberto de orvalho.

Eloaton, um tanto quanto espremido dentro do pequeno aparelho, instrui Nestor sobre como configurar o trajeto para Shamballah, a capital de Agartha. Em seguida, o disco alcança uma velocidade impensável rumo ao leste. Na verdade, ao nordeste. As poucas luzes visíveis passam como traços de luz abaixo, enquanto o dia parece amanhecer com grande rapidez.

Sofia fica extasiada, observando a paisagem. Ela já viajou muito de avião por todos os lugares do mundo, mas nunca esteve em um veículo com tamanha velocidade. Admite estar apreensiva:

- Essa coisa tem mais de cinco mil anos… tem certeza que…

- Fica fria, galega. Tá tudo funcionando direitinho – Tranquiliza Nestor, sem querer admitir que também estava apavorado.

Eloaton estava certo quando disse que o nascer do sol em Ethoria era tão bonito quanto o poente: um majestoso espetáculo da natureza colorindo o horizonte com todos os tons de vermelho e laranja que os olhos possam ser capazes de apreciar.

A moça de longos cabelos loiros se emociona com os belíssimos quadros que se sucedem. Aponta para as imensas nuvens multicoloridas que passam rapidamente abaixo do disco, como uma criança empolgada com um brinquedo novo.

Os quinze mil e quinhentos quilômetros que separam Ethoria 27b de Shamballah são percorridos em uma hora. O disco entra em velocidade de cruzeiro e, em minutos, a belíssima cidade dourada aparece, encravada nas montanhas, deixando os dois humanos completamente perplexos e admirados.

O pleiadiano indica um local, próximo a uma cachoeira gigantesca. Nestor assume o controle manual do disco e o dirige para lá. Logo identifica um túnel gigante e, lentamente, conduz o aparelho para ele.

O túnel é muito maior do que aquele que conecta os quintais do Júlio com a cidade de Ethoria 27b. Logo passam por uma região com uma fraca iluminação verde, e sentem o mesmo enjôo já velho conhecido: estão voltando para a terceira dimensão.

Pouco adiante, o túnel termina em uma espécie de hangar gigantesco, ainda dentro da montanha, com vários discos de diversos tipos estacionados. Eloaton aponta para uma vaga e Nestor estaciona a nave nela. Os três descem.

Sofia fica abobalhada. Como uma estrutura daquele tamanho pode existir dentro de uma montanha? Como é que o teto não cai? E esses outros discos, de onde são? A que civilização ou espécie pertencem? E aquela porta imensa ali? E que frio é esse que vem daquela outra porta? E por que não me avisaram que aqui fazia tanto frio? Teria colocado uma calça mais grossa, e não esse velho e longo vestido hippie. E o que é aquela luz ali em cima?

Eloaton procura responder as perguntas de Sofia, mas ela é mais rápida em perguntar do que ele em responder. Os três acessam uma porta pequena, justamente a de onde vem aquele frio todo. Entram em um corredor e, logo, são recepcionados por um velho e simpático senhor, que se apresenta com um largo e encantador sorriso:

- Bom dia! Meu nome é Lemann. Sejam bem-vindos a Lhasa, capital do Tibete. Entrem, tem um café bem quente esperando por vocês na cozinha.



Nestor fica impressionado com a casa. Mais da metade dela está encravada dentro da rocha da montanha. É ampla, bem iluminada e arejada. Mistura estilos medievais com modernos: mobílias muito antigas e até armaduras de cavaleiros dividem espaço com aparelhos e eletrodomésticos da mais alta tecnologia. A cozinha é enorme, muito bem dividida, limpa e organizada. Sobre uma mesa de carvalho que parece ter mais de mil anos, louças de porcelana e talheres de prata que lembram a era Vitoriana: muitos desenhos, muitos detalhes, um capricho que ele nunca tinha visto antes.

Sofia se encanta com uma sopeira. Segura-a na mão e fica admirando cada desenho, cada pintura, cada curva. E os talheres? Parecem novos, ricamente talhados e adornados a mão, como se tivessem sido feitos ontem.

Enquanto isso, Eloaton e Lemann conversam amigavelmente sobre os mais diversos assuntos. Todos, com exceção de Eloaton¹, se servem e desfrutam de um desjejum digno das mais altas realezas e as conversas se estendem. Nestor e Sofia estão impressionados com seu anfitrião e custam a acreditar que ele realmente possua dois mil e trezentos anos de idade.

Logo após o generoso desjejum, todos se dirigem a um cômodo lateral, minimalista, muito agradável, com luz controlada, uma poltrona confortável, uns bancos e uma mesa com um computador. Sofia pergunta:

- Como uma casa como essa, esculpida na rocha da montanha, possui um clima tão leve, agradável e acolhedor?

- Pergunte para a montanha - responde Eloaton. Sofia não entende a resposta, achando que é algum tipo de metáfora. Eloaton então conduz os trabalhos do dia:

- Hoje vamos iniciar os treinamentos da Sofia. Nosso objetivo é aprofundar suas potencialidades telepáticas e de controle mental. Ela já tem um domínio formidável de suas capacidades, mas precisa desenvolver certos poderes parapsíquicos, como a telepatia.

Eloaton pede para que Sofia se sente comodamente na poltrona, enquanto Lemann diminui a iluminação da sala. Nestor assiste, fazendo anotações no computador.

- Agora, relaxe. Respire profundamente. Preste atenção em sua respiração. Aos poucos, diminua o barulho que existe em sua mente. Mantenha sua mente aqui, no momento presente. Respire, apenas respire.

Sofia, com sua longa experiência em meditação e Yoga, vai seguindo as instruções de Eloaton. Em dado momento, ela entra no estado meditativo, no qual sua consciência está separada da atividade de sua mente. Ela fica assim, observando a sua atividade mental e prestando atenção em sua respiração, aqui e agora. Eloaton percebe a estabilidade da meditação e prossegue:

- Agora, imagine estar diante do presidente do Uruguai, o senhor Hugo Rivero Diaz. Veja, essa é uma foto dele.

Sofia observa a foto, fecha os olhos e imagina estar diante do senhor Hugo.

- Tente ver o que ele está fazendo. Consegues descrever?

Ela começa a prestar a atenção ao cenário onde Hugo parece estar, pelo menos em sua imaginação:

- Ele está em seu escritório, lendo alguns papéis. O escritório é bem amplo e iluminado, com mobília nobre, poltronas antigas, uma estante com livros. A mesa dele é de madeira, muito grande. Agora ele está atendendo o telefone. A secretária diz que tem alguém que quer vê-lo. Ele manda entrar.

- Consegues descobrir quem é que está entrando na sala?

- Um senhor, de baixa estatura e com sobrepeso, vestindo terno e gravata. Faz um cumprimento estranho com a mão e Hugo corresponde com o mesmo cumprimento. É um ministro do governo. Hugo aponta uma cadeira à sua mesa. Apertam as mãos. Eles se sentam.

- Qual o nome do ministro?

- Wolf… Wolfang… Wolfram, é Wolfram.

- Olhe bem para os olhos do ministro. Qual a cor deles?

- São verdes… mas um verde estranho… quando olho no fundo dos olhos dele, parece que ele inteiro fica verde.

- É um reptiliano, como o Hugo. Sobre o que conversam?

- Futebol. Estão falando sobre o último jogo.

- Continue atenta. O que mais lhe chama a atenção?

- Ele tem um bottom na lapela do terno, mas não consigo entender o que é. Parece um símbolo. Um triângulo com um olho dentro, ou coisa parecida.

- Ainda estão falando de futebol?

- Não. Agora falam sobre alguém… acho que o nome dele é Mendez. Hugo está olhando um papel, tem a foto do Mendez e o nome dele escrito… Juan… Fernão, Fernando, Ferdinando… Mendez. Juan Ferdinando Mendez!

Nestor, em seu canto, assombra-se com a precisão dos dados captados telepaticamente pela Sofia. Juan Ferdinando Mendez aparecia nos primeiros lugares da pesquisa: um revolucionário uruguaio, perseguido incansavelmente pelo presidente ditador Hugo Rivero Diaz. Também confirma que o sr. Wolfram Castillo é o ministro da defesa do Uruguai, e a foto dele condiz exatamente com a visualização descrita.

- Eles estão falando sobre água… controle… propriedade… poder, domínio.

- Continue, está indo muito bem.

- Alteração da água… flúor... fluoreto… Eles vão aumentar a fluoração da água do Uruguai como forma de conter as rebeliões que estão acontecendo lá!

- Faz todo o sentido. Continue.

- Temos que eliminar Mendez! Temos que eliminar Mendez! Eles estão gritando. Agora estão começando a planejar algo… uma emboscada… eles querem matar o Mendez! Daqui a dois meses, perto de… não consigo entender o nome da cidade.

- Concentre-se, você consegue.

- Surís Mata Nojo… Sorís… não consigo entender.

- Solís de Mataojo – Sugere Nestor, olhando o mapa do Uruguai.

- Isso, Solís de Mataojo. É isso. Daqui a dois meses, vão fazer uma emboscada para matá-lo, na entrada da cidade de Solís de Mataojo.

- Impressionante – Comenta Eloaton – Prossiga.

- Televisão… Notícias… Mentiras… Vão criar notícias falsas... Para que pensem que Mendez é um bandido…

- Muito bom.

- Uma mulher… Vera… Não, Verônica… Vai dizer que foi atacada pelo Mendez… Roubada e estuprada… Vão contratar outras mulheres para forjar denúncias parecidas…

- Excelente. Mais alguma coisa?

- Bomba… Feira de Montevidéu… Vão detonar uma bomba na feira de Montevidéu e colocar a culpa no Mendez! Que horror! Agora estão falando de pagamentos… Estão apertando as mãos… O ministro está saindo do gabinete. É isso.

- Fantástico, Sofia. Estou impressionado. Parabéns. - Elogia Lemann.

- Quem é esse tal de Mendez? - Pergunta Sofia.

- O líder da rebelião revolucionária do Uruguai - Responde Nestor.

- Nossa, e o que fazemos agora?

- Agora é com o Júlio e a Amanda. Eles vão checar essas informações e agir. Ótimo momento para treinarmos a sua capacidade de liderança, Nestor.

- Eu? Liderar? E o que devo fazer, Eloaton?

- O que você acha que deve ser feito?

- Bom… sei lá, impedir a morte do Mendez, impedir que botem flúor na água, denunciar as notícias falsas, sabotar os pagamentos e evitar o atentado a bomba.

- Perfeito. E como fazer isso?

- Bom, vamos por partes. Para salvar o Mendez, acho que o ideal é tirá-lo do Uruguai. Tem como entrar em contato com ele?

- Isso é com o Júlio. - Responde Eloaton – Mas considero que os revolucionários não veriam com bons olhos o fato dele sair do país. Talvez seja melhor ele ficar por lá, em um local mais seguro.

- Temos que interceptar as ordens de aumentar a fluoração da água e gerar notícias sobre essa intenção, para que...

- Cuidado com a exposição. Não podemos ser percebidos. Divulgar notícias vai acabar nos denunciando.

- Verdade. Então, apenas interceptar as ordens.

- Perfeito. E o que mais?

- Gerar alerta de bomba no dia da feira. O próprio Mendez pode fazer isso, dessa forma, mesmo que a bomba exploda, as pessoas saberão que ele avisou. Talvez o próprio Mendez possa, também, vir a público avisar que será alvo de difamações por parte do governo uruguaio. Isso pode diminuir o efeito das fake news.

- Pode ser. E sobre os pagamentos?

- Filmar os pagamentos, divulgar os vídeos para a polícia e na internet, como anônimos. Ou impedir os pagamentos de alguma forma. Seria perfeito conseguir fazer com que o dinheiro acabe sendo direcionado para os revolucionários.

- Muito bem. Nestor, sua missão agora é detalhar esses planos de ação e repassá-los para Júlio e Amanda. Sofia, parabéns pelo seu incrível desempenho. Descanse um pouco. Depois faremos um outro treinamento de telepatia, você vai gostar. Agora precisamos começar o treinamento do nosso talentoso Nestor. Lemann, meu velho amigo, nos acompanha até Shamballah?

- Adoraria, Eloaton, mas minha função é permanecer aqui. Sou o Guardião da entrada e não posso abandonar meu posto, ainda mais pelo fato de termos caravanas de visitantes aqui no Tibete hoje. Preciso estar atento.

- Perfeito. Muito obrigado pelo café e por sua gentileza. Nestor, o disco voador está pronto?

- Só subir, capitão! Posso levar uma fatia dessa torta aqui?

- Claro – Responde Lemann, oferecendo-lhe a torta.

- Então vamos, Nestor. Temos muito a fazer e não temos tempo a perder! Sofia, descanse. Lemann, muito agradecido por sua acolhida, logo estaremos de volta.


A vinte e dois bilhões de quilômetros dali, uma nave espacial em formato de charuto, com três mil quilômetros de comprimento e duzentos quilômetros de diâmetro, segue sua trajetória em direção à Terra. Ela tem um movimento artificial de rotação, responsável por produzir o efeito de gravidade. Em seu interior oco, milhares de pequenas naves trafegam normalmente, cumprindo seus afazeres, levando materiais e suprimentos de um lado para o outro. A nave é tão grande que dispõe de estufas imensas para produção de alimentos, vários geradores do tamanho de cidades para produção e purificação da água e cerca de quinhentos milhões de tripulantes, a maioria em hibernação criogênica. A iluminação artificial mantém sempre metade da nave iluminada e metade na escuridão, produzindo o efeito de “dia” e “noite”. Uma obra genial de engenharia. A cada vinte quilômetros, existe um hangar cheio de astronaves de combate dos mais variados tipos e tamanhos. No ponto mais central e proeminente da nave, bem na frente, está a ponte de comando, onde centenas de Greys Chefes operam os controles que mantêm o perfeito funcionamento da descomunal estrutura. Os Chefes são maiores, bem mais altos do que os Greys comuns. A sala é uma grande central de comando, com três níveis bem distintos: bem à frente e no nível mais baixo, os operadores de navegação. No nível do meio, os chefes de departamentos e operações. No nível mais alto, os comandantes gerais. Bem no meio do nível mais alto, em uma plataforma mais alta ainda, o Altíssimo: um Chefe enorme, robusto, com vestes negras paramentadas, sentado em uma cadeira cheia de controles e telas, amparado por assessores e conselheiros. Seu semblante autoritário e severo denota uma personalidade atroz e cruel, perceptível em seus gestos e na sua fala. Impiedoso, não admite falhas. Comanda com mãos de ferro a gigantesca nave e levará até suas últimas consequências, a qualquer custo, o cumprimento de sua missão: destruir a humanidade e colonizar a Terra.


1 - Eloaton é um ser da quinta dimensão e seu corpo dispensa alimentos físicos.


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