#003 - Amanda
- Amanda, você está bem? - pergunta Artur, preocupado com sua colega de alpinismo.
- Estou bem, sim, Artur. Essa foi por pouco.
A pedra que Amanda usou como base de apoio havia se soltado. Ela perdeu o equilíbrio e caiu, sendo salva pela sua corda guia, firmemente ancorada à chapeleta na rocha e presa em seu talabarte.
Mesmo assim, com o impacto, o cinto de sua bolsa de magnésio se rompeu e a bolsa despencou paredão abaixo, estatelando-se no chão e criando um círculo branco com alguns metros de diâmetro.
- Fiquei sem talco.
- Tudo bem, falta pouco, você consegue. Prenda o mosquetão naquele grampo à sua esquerda. É um trecho em negativo, mas é mais perto.
Amanda muda o trajeto da escalada. Poucos minutos depois, os dois alcançam o alto do Morro do Couto, de onde apreciam a belíssima vista do Parque Nacional do Itatiaia. Uma pausa de meia hora para recuperar o fôlego, fazer um lanche e tirar algumas fotos do Pico das Agulhas Negras e da Serra Fina. Por alguns minutos, ficam em silêncio, contemplando a paisagem.
Retornam pela trilha: duas horas de caminhada fácil até a portaria do parque, onde está estacionada a Land Rover do Artur, desde o raiar do dia.
- Foi uma aventura e tanto, Amanda. Adoro escalar com você.
- Também gosto de escalar contigo, Artur. Você me transmite segurança. Sabe manter a calma em momentos difíceis. Bem diferente do meu ex marido. Bom, tanto é que deu no que deu, né?
- Sinto muito por ele. Você nunca me contou essa história direito. Como foi que ele morreu?
- Acredite, é melhor você não saber. Quando é que vamos escalar de novo?
- Bem, estou pensando em subir o Kilimanjaro, mas isso vai exigir pelo menos um ano de preparo e alguns meses de economia. Daqui a três meses pretendo voltar a subir o Neblina. Quer vir junto?
- Talvez, não sei. Três meses, para mim, é muito tempo. Acho que vou aproveitar para fazer uns cursos enquanto isso. Andei vendo sobre um curso de economia solidária que me chamou a atenção. Sei lá, não tem muito a ver com a minha área, mas gostei dos temas que serão abordados. E é de graça. Ainda tenho uma grana guardada, dá pra aguentar mais alguns meses. Depois, precisarei voltar a trabalhar.
- Pretende voltar quando para casa?
- Nem sei mais onde é a minha casa - Amanda sorri.
- Quis dizer para seu apartamento...
- Amanhã. Hoje já está tarde. Não quero pegar estrada à noite e estou cansada.
- Janta lá em casa?
- Pode ser. Quero aproveitar e conversar contigo sobre uns sonhos estranhos que eu tive. Você entende melhor do que eu sobre interpretação de sonhos.
- Como era esse sonho?
- Umas luzes estranhas com uma voz me chamando. Mas depois eu te conto. Vamos passar no mercado antes?
- Bora lá!
Os dois aventureiros retornam à cidade, passam em um mercado e seguem para a casa do Artur. À noite, Amanda conta maiores detalhes sobre seus sonhos, mas o rapaz não soube dar uma explicação razoável sobre os mesmos.
- Eu sei o que significa sonhar com cobras, com aranhas, chuva, sensação de estar caindo, essas coisas. Mas nunca vi nada parecido com o que você sonhou. Talvez seja uma mensagem telepática de algum guia espiritual que…
- Artur, você sabe que não acredito nessas coisas.
- Sim, eu sei. Mas não vejo nenhuma outra explicação. A não ser que você tenha visto algum filme com cenas parecidas.
- Pois é, não foi o caso. Faz anos que não assisto a um filme.
- Vamos ver um, então? O que você gostaria de assistir?
- Sinceramente, nada. Quero descansar. Amanhã eu volto para a minha casa, seja lá o que isso quer dizer.
No dia seguinte, próximo ao meio dia, Amanda estaciona na garagem de seu prédio. Leva as suas coisas para seu apartamento e fecha a porta. O apartamento estava com cheiro de mofo. Ela confere todos os cômodos, guarda algumas coisas e resolve tomar um banho. Troca as roupas de cama e decide fazer a limpeza no dia seguinte. Apenas busca na geladeira qualquer coisa que pudesse ser devorada sem dificuldades, joga-se na cama e pega seu celular.
Em seu e-mail, a confirmação da inscrição para o curso de economia solidária. O início do curso seria no dia seguinte, sábado de manhã.
- Santa procrastinação, Amanda! Declaro solenemente, neste momento, que a faxina fica oficialmente postergada para amanhã à tarde. Talvez para a noite. Ou para domingo.
No sábado de manhã, Amanda dirige até a universidade. Estaciona próximo ao bloco E e segue direto para o auditório. No caminho, uma senhora bem idosa lhe pede informações sobre o mesmo curso. Amanda informa o trajeto:
- É só seguir por este caminho. Quando chegar à lanchonete, dobra à direita, primeira porta, não tem como errar.
A senhora agradece. Amanda até pensa em seguir conversando com ela até a sala, mas precisaria acompanhar o seu ritmo e, definitivamente, hoje ela não estava com ânimo para esperar ninguém. Ela inventa qualquer desculpa e segue na frente.
Na lanchonete, Amanda resolve comprar uma água e um salgado. Não havia tomado café e estava com fome. Já estava no caixa, pagando a conta, quando aquela senhorinha passa na frente, procurando a porta do auditório.
- Moça, seu caderno! - avisa o rapaz da lanchonete.
- Obrigada - Amanda pega o caderno com sua caneta e se dirige ao auditório.
Um rapaz sai correndo de dentro da sala e esbarra com ela, jogando o caderno no chão.
- Ei, tenha mais cuidado! - exclama a ruiva.
- Desculpe, moça - o jovem ajuda a recolher o caderno e segue correndo, sabe-se lá atrás do quê.
O auditório estava com apenas uma luz ligada. Pensou em sentar nas fileiras do fundo, mas tinha uma turma fazendo algazarra lá, e hoje não estava sendo um bom dia para Amanda. Ela havia recém chegado de uma viagem longa, estava toda esfolada por causa do acidente na escalada, seu apartamento estava imundo e ela estava se perguntando a cada momento: - “o que é que eu estou fazendo aqui?”
Havia algumas cadeiras vazias logo na primeira fila. A senhorinha estava sentada ali, bem na frente do palco. Amanda chegou a imaginar que, se tivesse como a senhora sentar em cima do púlpito, ela sentaria. Ao lado dela, uma loira hippie esquisita, com olhos enormes e brilhantes. Antes mesmo de chegar perto, Amanda já imaginou que a loira teria cheiro de gerânio. De fato, o perfume era parecido. A moça tinha um laço na cabeça, uma bolsa de couro horrorosa, um vestido colorido que parecia ter nascido com ela e um par de chinelos de corda. Mesmo assim, Amanda gostou daquele semblante calmo, feliz e com um aparente luminoso na testa dizendo: “Tô nem aí”.
Ela senta próximo à loira hippie e se apresenta:
- Oi, meu nome é Amanda.
- Oi, o meu é Sofia.
- Eles estão vindo? - Pergunta Lanna.
- Sim, partiram ontem. Em alguns meses estarão aqui - Responde Torkk, enquanto desliga sua teletela.
- Estou ansiosa. Vamos realmente sair para a superfície?
- Assim que eles chegarem aqui na Terra. Será necessário cultivar as algas que produzem amônia em quantidade suficiente para que o ar esteja estável para que os Greys possam respirar sem ajuda de máscaras. Eles estão trazendo duas mil toneladas de algas, mas elas precisam ser reproduzidas aqui. Precisaremos de milhões de toneladas para alcançar o nível mínimo de amônia na atmosfera, e isso pode demorar de dois a três anos.
- O que realmente sinto muita pena é que grande parte da biodiversidade da Terra vai desaparecer com essa mudança brusca da atmosfera. A vida na Terra é tão variada e rica... e eu gosto do verde das plantas, gosto dos animais...
- Sim, mas infelizmente não temos muita escolha. Somos biólogos e nossa função é ajudar a transformar a Terra em um ambiente propício para a vida da nossa espécie. Mesmo sendo híbridos, somos predominantemente Greys. Precisamos das plantas e dos animais que metabolizam amônia para nos alimentarmos. Ademais, existem apenas sete bilhões de humanos na Terra, enquanto há centenas de trilhões de Greys pelo Universo afora. É uma questão de prioridade...
- Mas me desagrada termos que destruir milhares de espécies de animais e plantas que estão adaptadas a um planeta há mais de quatro bilhões de anos, só para preservar a nossa própria espécie. Não seria mais fácil encontrar um planeta com condições de vida, mas totalmente desabitado, e criar a vida do zero, sem destruir nada e sem matar ninguém?
- Na verdade, isso também me desagrada. Porém, também não gosto de viver no subsolo sem poder nunca ver a luz do dia. Quero poder sair para a superfície. Passei a vida toda sonhando com isso. Estudei muito para isso. Trabalhei muito para isso.
- Eu sei, eu também quero sair daqui. Mas sou bióloga. Eu estudo a vida. Eu estudo a continuidade da vida, a preservação da vida, e estou trabalhando em um projeto para exterminar a vida de um planeta...
- ... para criar as condições de vida e proliferar as espécies que constituem a biodiversidade do nosso planeta de origem, B-Groot.
- Mas eu nasci aqui na Terra! Mesmo sendo 75% Grey, eu sou uma terráquea, não nasci em B-Groot. Eu não concordo com essa invasão. Gostaria de poder fugir daqui. Prefiro até morrer antes de ver toda a vida na Terra sendo dizimada.
- Minha querida Lanna, somos pagos para pesquisar e desenvolver as formas de vida que vão substituir as atuais. Então, em última análise, algumas espécies vão desaparecer, enquanto novas vão surgir. Não vai acabar a vida na Terra, ela apenas vai... mudar. Nada se cria, nada se perde, tudo se transforma. Só isso.
- Discordo, Torkk. Estamos criando novas espécies sim. Espécies híbridas, tolerantes à amônia. E muita coisa vai se perder, sim. Milhares de espécies deixarão de existir. Inclusive toda a raça humana.
- Do jeito como as coisas vão, se nós não fizermos isso, eles mesmos farão. Estão por um fio de se exterminarem em guerras. Estão destruindo a natureza, a camada de ozônio, provocando aquecimento do planeta, estão causando a sexta extinção em massa. Eles mesmos estão destruindo a vida na Terra. Nós, por outro lado, queremos criar uma vida nova. Em última análise, estamos é salvando a humanidade, criando uma raça híbrida superior e livre das mesquinharias da raça atual.
- Superior? Ser submisso aos Chefes é ser superior? Os humanos são livres...
- Negativo. Eles possuem culturas que perpetuam a exploração dos mais fracos, a eliminação do diferente, o extermínio daqueles que não concordam com as mesmas ideias, a opressão pelo poder e pela força, pela fé ou qualquer outra forma de controle das massas, além de abusar de um extrativismo predatório que não termina enquanto a última árvore ainda estiver de pé. Eles estão destruindo o planeta de todas as formas possíveis e estão se destruindo por ganância. São primitivos demais. Não vai ser uma perda tão grande assim eliminarmos a humanidade.
- Só trocaremos uma raça opressora por outra.
- E o que você acha que seria o correto? Vivermos todos felizes, se abraçando, cantando e dançando? Isso não existe, é utopia. Todos morreriam de fome, não haveria o progresso, continuaríamos na idade das cavernas. Os humanos não teriam sequer descoberto a eletricidade.
- Discordo. Acho que existe uma forma de vivermos em harmonia sim, com ética, trabalhando em prol do coletivo...
- Lanna, nossa conversa não vai chegar a lugar nenhum. Por favor, volte ao trabalho, precisamos terminar de clonar essas algas. E você sabe muito bem que somos terminantemente proibidos de tocar nesse tipo de assunto.
Lanna silencia, baixa a cabeça e retorna a seu trabalho. Mas nada mudaria sua mente. Ela precisa encontrar uma forma de sair dali e parar de contribuir para um projeto tão nefasto. Ela não quer, de forma alguma, ajudar a destruir a vida na Terra. E ela tem um plano.
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